Esquizofrenia e religi£o

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Patrcia Laubino Borba

A inscrio do discurso do esquizofrnico no discurso religiosoPatrcia Laubino Borba Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo: O estudo investiga o estabelecimento de referncia no discurso do esquizofrnico na perspectiva da Anlise do Discurso de Michel Pcheux. Para tanto, nos apoiamos em uma entrevista em que o paciente se inscreve no discurso da igreja pentecostal e estabelece referncias a referentes pr-construdos nesse discurso. Para analisarmos o funcionamento da referncia realizada pelo paciente, estudamos primeiramente como os fiis noesquizofrnicos dessa igreja referenciam esse discurso, para podermos comparar os dois funcionamentos. Nossas concluses a respeito dessa anlise so que, apesar de haver estabelecimento de referncia no discurso do esquizofrnico e essa ser submetida ao interdiscurso, h nesse discurso um efeito de imposio, ao invs de adeso, como ocorre nos discursos dos no-esquizofrnicos. Palavras-chave: referncia; Anlise do Discurso; discurso esquizofrnico.

Neste estudo, trabalharemos com o discurso do psictico,1 mais especificamente com um tipo de psicose, a esquizofrenia. Nosso objetivo examinar como ocorre a inscrio desse discurso patolgico no discurso religioso.2 Dentre os discursos religiosos, escolhemos o das igrejas evanglicas, porque, conforme veremos, os doentes mentais so mais facilmente acolhidos por essas instituies religiosas do que por outras. Abordaremos a questo da inscrio do discurso do esquizofrnico no discurso pentecostal a partir do estabelecimento de referncia, no discurso patolgico, a pr-construdos do discurso religioso. Essa reflexo estar embasada no arcabouo terico da Anlise do Discurso de Michel Pcheux. Antes de refletirmos a respeito do discurso do esquizofrnico, analisaremos, brevemente, a referncia ao discurso religioso por fiis no-psicticos da religio pentecostal,3 a fim de podermos compar1

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Na psicanlise, h trs constituies subjetivas: a neurose (que podemos pensar como a normalidade), a psicose (que comumente denominada como doena mental) e a perverso. Para estudo mais aprofundado a respeito das questes de referncia e funcionamento do discurso patolgico, ver Borba (2006). Designaremos como fiis no-psicticos da religio pentecostal todos os demais seguidores das igrejas evanglicas. Ou seja, queremos trazer o funcionamento discursivo religioso normal, o corpus que seria classicamente

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la referncia estabelecida a esse mesmo discurso por um fiel esquizofrnico da mesma religio. Posteriormente, estudaremos como ocorre a apreenso dos referentes pr-construdos dos discursos bblico e pentecostal pelo paciente estudado. As seqncias discursivas de referncia (SDR) que sero estudadas so de um paciente esquizofrnico (J.V., 43, sexo masculino)4 que se identifica, de alguma forma, com o discurso religioso: eu j fui crente 10 anos. Ao estudarmos as referncias a este discurso, estaremos tambm estudando, de forma geral, como acontece a apropriao de um discurso, no caso o discurso religioso, por parte de um paciente esquizofrnico. Acreditamos que nosso trabalho colabora para o estudo a respeito do funcionamento do discurso do psictico e, mais especificamente, do discurso do esquizofrnico. Ao se dizer crente, o paciente se inscreve no discurso das religies pentecostais. Apesar de existirem vrias igrejas autnomas, sendo as mais representativas a Assemblia de Deus e a Universal do Reino de Deus, as diferenas relacionam-se mais ao culto e s estruturas internas que propriamente aos dogmas religiosos. Alm disso, essas igrejas suprem uma carncia social imposta pelo sistema econmico vigente, colocando-se como detentoras da soluo de problemas familiares e econmicos de seus adeptos. Desse modo, encontram uma demanda no suprida por nenhuma outra religio. Em relao ao doente mental, essas igrejas proporcionam a sua reintegrao social, por meio da reintrepretao de sua doena. Como nos mostra Figueiredo (2000), as religies pentecostais interpretam a doena mental como possesso demonaca, exigindo, assim, a atuao da igreja para exorcizar o demnio. Essa perspectiva desloca a posio do paciente de um incapacitado mental e excludo do mercado de trabalho para uma vtima de espritos obsessores. A igreja torna-se, assim, a nica forma de salvao. Os doentes mentais so sempre bem recebidos pelas igrejas, havendo tambm visitas dos integrantes dessas igrejas aos hospitais psiquitricos para a converso dos pacientes.

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estudado na Anlise do Discurso para pensar o discurso religioso, para ser cotejado com o discurso patolgico. O corpus em que ser analisado o discurso do esquizofrnico constitudo de entrevista de um paciente realizada pelo grupo de pesquisa Lingstica e Psicanlise sob a coordenao de Margareth Schffer e cedido para o nosso estudo.

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A fim de estudarmos a apropriao dos referentes prconstrudos bblicos pelo paciente esquizofrnico e de fiis noesquizofrnicos, analisaremos, preliminarmente, as citaes de textos bblicos feitas por um pastor e por seguidores da religio pentecostal.5 O objetivo dessa anlise estabelecer comparaes entre as apropriaes dos referentes bblicos realizadas pelos integrantes no-psicticos da igreja o primeiro na posio de detentor da interpretao da igreja e o segundo na de aprendiz desses conhecimentos e aquela do paciente. Iremos nos deter na questo da utilizao dos referentes bblicos no discurso do pastor, do adepto e do paciente, todos fiis da igreja pentecostal. Utilizaremos um trecho da fala de um pastor da religio pentecostal para analisar como produzida a referncia a partir de um referente bblico, o Reino dos Cus:A Bblia fala o seguinte: chegado o Reino dos Cus. Esse Reino dos Cus tem que ser vivido aonde? Aqui na terra, porque l no cu ningum vai comer, ningum vai vestir; porque l ns somos espritos; no precisa ter fartura l; ningum vai ter fome. Essa abundncia que Deus promete aqui na terra, como ele prometeu a Abrao, Isaac, Jac e os demais. Se Ele falou em trazer s vida, e vida com abundncia, Ele no pode chegar e condenar a pessoa a ter uma vida fracassada, uma vida na misria, cheia de problemas financeiro, familiar, espiritual, sentimental, ou em qualquer sentido da vida dela (SDR I,6 seqncia discursiva de um pastor, apud Figueiredo, 2000, p.130).

Para compreender qual o estatuto do discurso do pastor, recorremos a Orlandi (1993), que afirma que o discurso religioso d significao quilo que silenciado no discurso de Deus, ou seja, no discurso religioso, em seu silncio, o homem faz falar a voz de Deus (idem, p.30). A partir disso, podemos entender como acontece a reinterpretao do discurso bblico do ponto de vista das igrejas pentecostais. O Reino dos Cus como referente do discurso bblico est relacionado, no Novo Testamento, a algo que vir: O Reino dos Cus5 6

Essas seqncias discursivas foram retiradas de Figueiredo (2000); as anlises so de nossa autoria. Numeraremos as seqncias discursivas de referncia de no-esquizofrnicos com nmeros romanos.

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se tem aproximado [Mateus 3:2; 10:7]. Compararemos o recorte do discurso do pastor a um trecho da Bblia em que est sendo construdo esse referente:5 A estes doze enviou Jesus dando-lhes as seguintes ordens: No vos desviei para estradas das naes, e no entreis em cidade samaritana; 6 mas, irdes, pregai, dizendo: O reino dos cus se tem aproximado. 8 Curai doentes, ressuscitais mortos, tornai limpos os leprosos, expulsai demnios. De graa recebestes, de graa dai. 9 No adquirais nem ouro, nem prata, nem cobre, para os bolsos dos vossos cintos. (Mateus 10:5).

Na Bblia, o referente Reino dos Cus est relacionado pregao, que, por sua vez, est relacionada ao desprendimento dos bens materiais. No discurso do pastor, porm, esse referente pr-construdo apreendido a partir do discurso econmico no cu ningum vai comer, ningum vai vestir; no precisa ter fartura l [no cu]; ningum vai ter fome; vida com abundncia; uma vida fracassada; vida na misria; cheia de problemas financeiro. A referncia ao discurso bblico produzida no discurso das pentecostais heterognea, por comportar um discurso econmico, alm do discurso religioso. Ou seja, os sentidos deslizam, tornam-se diferentes. Desse modo, houve, por parte do discurso pentecostal, uma apropriao e uma ressignificao do referente pr-construdo bblico. A apropriao deve-se ao fato de o pastor utilizar as palavras da Bblia para sustentar a formao discursiva pentecostal. A ressignificao acontece a partir da utilizao de outros saberes para a elaborao de novos sentidos que esto sendo vinculados ao discurso pentecostal, ou seja, a construo do referente um trabalho discursivo. Vemos que, alm do silncio intrnseco ao discurso religioso, estudado por Orlandi (1993), h tambm momentos de silenciamento, ou, mais explicitamente, de censura dos trechos bblicos que se contrapem ao discurso econmico, como, por exemplo, a seguinte passagem: De graa recebestes, de graa dai. No adquirais nem ouro, nem prata, nem cobre, para os bolsos dos vossos cintos. No Quadro 1, comparamos o referente bblico com o pentecostal:

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Patrcia Laubino Borba Referente (bblico): Reino dos Cus Matheus 3:2; 10:7 e 23:13 outro plano: O reino dos cus se tem aproximando. ilusoriamente homogneo. Referente (pentecostal): Reino dos Cus Religio pentecostal a terra: Essa abundncia que Deus promete aqui na terra Heterogneo: Discurso econmico. -

Desprendimento dos bens materiais. -

Solues para os