A modelagem e esquizofrenia

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Trabalho realizado sobre o tratameto da esquizofrenia através do barro

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  • Casa das Palmeiras

    A Utilizao do Barro no Tratamento

    do Esquizofrnico

    Pedro Baumgarten Botafogo

    Rio de Janeiro, dezembro de 2008

  • 2

    Agradeo

    minha me por ensinar-me constantemente a alquimia da cermica

    ao meu pai que me possibilitou o estudo

    Casa das Palmeiras que me permitiu relacionar duas reas de interesse

    Vera Macedo, grande mestra, que me disse: seja voc mesmo

    aos amigos que ganhei na casa das Palmeiras e me acompanharam nesta jornada

    aos clientes da Casa das Palmeiras que me ensinaram muito durante o ano

    aos meus amigos que me apoiaram reciprocamente nesta jornada

  • 3

    SUMRIO

    I. Introduo II. O Barro e a Civilizao Humana: Uma Relao Histrica e

    Simblica

    III. A Psicose - esquizofrenia IV. O Impacto do Barro como um dos Dispositivos Inovadores no

    mbito das Polticas de Sade Mental.

    V. Um estudo de caso: um elo com a prtica clnica

    VI. Consideraes Finais VII. Anexos VIII. Bibliografias

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    Despojei-me

    Cobri meu corpo de barro e fui.

    Entrei no bojo do escuro, ventre da terra.

    O tempo perdeu o sentido de tempo.

    Cheguei ao amorfo.

    Posso ter sido mineral, animal, vegetal.

    No sei o que fui.

    No sei onde estava. Espao.

    A histria no existia mais.

    Sons ressoavam. Saam de mim.

    Dor.

    No sei por onde andei.

    O escuro, os sons, a dor, se confundiam.

    Transmutao.

    O espao encolheu.

    Sa. Voltei.

    Celeida Tostes1

    1 In: arteonline.arq.br/museu/interviews/celeida.htm acessado em: quinta feira 20 de outubro

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    I. Introduo

    O objetivo deste trabalho expor uma alternativa vivel elaborao psquica em

    um nvel de realidade. Abordaremos a modelagem como alternativa de promover

    ao esquizofrnico uma 'vlvula de escape' de suas questes, uma vez que o barro

    ir carregar a energia do sujeito que a modela. Assim, quando se produz algo

    material, seja atravs do barro, pintura, ou qualquer expresso simblica, desloca-

    se energia psquica para o objeto, produzindo um esvaziamento das questes que,

    a princpio, produzem angstia.

    necessrio verificar como manuseado o material. A emoo que se expressa

    nesse momento a forma com que o sujeito lida com questes inconscientes. Se

    expressa agressividade, repulsa, ou delicadeza, por exemplo, ser o modo exato

    como ele lida com o seu mundo interior mergulhado na escurido. Jung fez uma

    metfora de que o inconsciente um quarto escuro e a conscincia o foco de

    uma lanterna iluminando e produzindo 'Sombras'. O trabalho com o barro neste

    momento evocar imagens j existentes no mundo interior. Seria como uma

    associao livre mediante um trabalho espontneo de produo. A funo

    teraputica refere-se ao fato de deslocar-se energia psquica e produzir uma nova

    forma de ver aquele material, uma nova forma de lidar com ele proporcionando

    novas diretrizes em direo a um tratamento eficaz da esquizofrenia.

    preciso ressaltar que Jung salienta em sua extensa obra, que no devemos

    patologizar o esquizofrnico j que este apresenta todas as caractersticas de um

    sujeito dito normal. Este modo de ver, estigmatizando o doente mental refere-se

    marginalizao imposta pela sociedade, muito prximo s torturas realizadas na

    ditadura. As prticas do eletro-choque e do coma insulnico se mostraram

    ineficazes para o tratamento do doente mental, a no ser para torn-los ainda mais

    tutorados e dependentes. Eles perdem amigos, famlia, vida, gostos e passam a

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    viver uma realidade institucional no qual so aprisionados. Assim, acabam,

    tambm, aprisionando-se no seu mundo interno, se as portas e janelas foram

    quebradas por eles prprios (como ocorreu na revoluo anti-manicomial, por

    assim dizer), eles continuam imaginando-a naquele lugar por que a realidade

    social deles ali dentro, dentro da instituio e dentro de si prprio. Esta

    revoluo anti-manicomial no basta, necessrio haver mecanismos, como vem

    sendo elaborados ultimamente, de mostrar ao doente mental: "voc livre!". a

    partir da que a modelagem do barro se instaura.

    O barro ir proporcionar uma liberdade para as imagens inconscientes surgirem.

    Estas imagens sero de tal ordem que podero expressar a histria pessoal e

    coletiva. Segundo Jung h dois tipos de imagens: as imagens arquetpicas so

    universais e o sujeito diz ser aquilo que ela mostra e somente, e as imagens

    pessoais no qual h uma elaborao a partir de uma histria pessoal. Por exemplo,

    o tit Cronos na mitologia grega uma imagem universal de um pai devorador por

    que engole seus prprios filhos sendo, portanto, uma imagem arquetpica. Cronos,

    na histria pessoal est ligado um Complexo Paterno Negativo que ir impedir o

    desenvolvimento dos filhos, estando, assim, ligado uma histria pessoal e por

    isto mesmo denominado complexo. Para Jung o inconsciente pessoal e

    coletivo. O Inconsciente Pessoal composto por complexos e o Inconsciente

    Coletivo constitudo por arqutipos. Os complexos esto ligados histria pessoal

    enquanto os arqutipos histria da humanidade, inata e coletiva. O complexos,

    num mbito mais profundo refere-se a um arqutipo. Isto nos faz tornar importante

    traar como o barro era utilizado e visto nas culturas mais arcaicas para entender

    as imagens de esquizofrnicos que, Jung denominou como 'imersos no

    inconsciente coletivo', ou seja, sua conscincia tomada por imagens ditas

    arquetpica que, se manifesta, por vozes e alucinaes. A partir do momento em

    que estas imagens tomam vida prpria, pela modelagem, o limiar de angustia

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    tende diminuir. Proporcionando uma ordenao mais eficaz das instancias

    psquicas.

    II. O Barro e a Civilizao Humana: Uma Relao Histrica e Simblica

    Segundo Cooper (1981) a utilizao do barro como meio de produo de objetos

    em cermica atravessou milnios na civilizao humana, no se sabe ao certo

    aonde foi que surgiu, mas, que de fato todas as civilizaes produziam cermicas a

    partir da matria prima barro, seja a terracota dos ndios brasileiros at a porcelana

    dos japoneses, devido a diversidade do solo de cada localidade, o que influenciou

    na tonalidade de cada argila. Acredita-se que a produo de cermica (barro

    levado ao forno) surgiu em meados de 6000 antes de cristo em regies prximas

    da mesopotmia, Sria e sia menor, no Oriente Mdio. De 4000 a 3000 AC, com

    a criao do torno as peas em cermica comearam a ficar mais simtricas. No

    perodo de 3000 a 2000 AC surgiram as primeiras cermicas no extremo oriente:

    China, ndia, Coria e Japo. Na Europa tambm era manifestado a produo de

    vasos, principalmente na Espanha, Holanda e Alemanha. Tambm, nesta poca,

    foram encontrados as primeiras cermica no Equador.

    Desde tempos mais remotos o mito e a magia fizeram um importante

    papel na vida das diferentes comunidades e sociedades, e mais provvel

    que nesta etapa modelava-se com argila figuras simblicas como parte

    dos rituais e cerimonias de fertilidade. Somente mais tarde, quando as

    cidades tornaram-se mais sedentrias, construram vasilhas para conter

    comida para alimentao, ou para fins religiosos.2

    2 Desde los tiempos ms remotos el mito y la magia han jugado un importante papel en la vida de las diferentes comunidades y sociedades, y es ms que probable que en esta etapa se modelasen con arcilla figuras simblicas como parte de los rituales y ceremonias de la fertilidad. Slo ms tarde, cuandolas ciudades se hicieron ms sedentrias, se construyeron vasijas para contener alimentos o semillas, o para fines religiosos Cooper, Emmanuel (1981) p. 12

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    Nos perodos denominados Halaf (aproximadamente 4500 4000 AC) e Ubaid

    (4000 3500 AC) foram muito importantes para o desenvolvimento da cermica

    pois o barro antes disso no era queimado, tornando-se muito frgil, o que no

    primeiro perodo, com a criao de fornos, a matria prima tornou-se mais firme,

    podendo ser pintada, sem que suas cores perdessem a fora, foi neste perodo que

    surgiram imagens de cabea de touro e figuras femininas. J no segundo perodo

    foi importante pela utilizao do torno, tornando as peas mais uniformes,

    estabelecendo o perfeccionismo da poca.3

    Chevalier e Gheerbrant (1982) associam a cermica ao tero ou matriz. Partindo

    desta concepo, os Dogons4 produziram uma imagem do Sol em barro e o cobre

    em aspiral. O barro simboliza a parte fmea e a espiral a parte macho fecundador.

    Os Bambaras5 utilizam a modelagem em barro como instrumento de

    conhecimento, tendo como objetivo principal da confeco de potes, alcanar o

    nvel dos mestres. O conhecimento, para esta etnia africana sinnimo de

    felicidade suprema. Esta concepo se aproxima, de certa maneira, do pensamento

    mstico dos Sufis6, no qual todo o conhecimento atribudo a Deus, assim, um

    estado de beatitude consiste na identificao por conhecimentos supremos.

    Os Fali do primeira esposa o nome da grande jarra em que se prepara

    a cerveja e milho; segunda, o do jarro aonde se conserva a gua;

    terceira, o nome do alguidar comum; e quarta, o do vaso de pescoo

    longo que serve para transportar gua7

    Gomes (2002) fez um estudos dos achados arqueolgicos da amaznia, traando a

    iconografia dos estilos empregados. Dentre eles o