Conversando sobre esquizofrenia 5

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Conversando Sobre Esquizofrenia 5 - O convívio familiar (2008) v.PtBr

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  • 1. Jorge Cndido de Assis Ceclia Cruz Villares Rodrigo Affonseca Bressan CONVERSANDO SOBRE a esquizofrenia O convvio familiar 5
  • 2. Sobre os autores Jorge Cndido de Assis portador de esquizofrenia h 22 anos, atualmente aluno do curso de Filosofia da Universidade de So Paulo (USP) e diretor adjunto da Associao Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE). Tem participado e ministrado aulas para o curso de medicina da Universidade Federal de So Paulo (UNIFESP), palestrante nos trs ltimos Congressos Brasileiros de Psiquiatria. Ceclia Cruz Villares vice-presidente da ABRE; terapeuta ocupacional e terapeuta de famlia; mestre em sade mental e doutoranda pela UNIFESP, onde trabalha no Programa de Esquizofrenia (PROESQ) e supervisiona alunas do curso de Especializao em Terapia Ocupacional em Sade Mental. Participa ativamente em mbitos nacional e internacional do estudo e combate ao estigma relacionado aos transtornos mentais. Rodrigo Affonseca Bressan familiar de uma pessoa que teve esquizofrenia e membro da ABRE; professor adjunto do Departamento de Psiquiatra da UNIFESP; Ph.D. pelo Institute of Psychiatry, University of London, onde professor honorrio; coordenador do PROESQ e coordenador do Laboratrio de Neurocincias Clnicas (LiNC), ambos da UNIFESP. Av. Vereador Jos Diniz, 3.300, 15o andar, Campo Belo 04604-006 So Paulo, SP Fone: 11 3093-3300 . www.segmentofarma.com.br segmentofarma@segmentofarma.com.br Diretor geral: Idelcio D. Patricio Diretor executivo: Jorge Rangel Diretor administrativo-financeiro: Antonio Carlos Alves Dias Editor de arte: Maurcio Domingues Gerente de negcios: Marcela Crespi Assistente comercial: Karina Cardoso Coordenador geral: Alexandre Costa Coordenadora editorial: Fabiana Souza Projeto grfico: Renata Variso Diagramadora: Andrea T. H. Furushima Ilustraes: Claudio Murena Revisora: Renata Del Nero Produtores grficos: Fabio Rangel e Tiago Manga Cd. da publicao: 6838.03.08
  • 3. Sumrio Introduo ........................................................... 4 As questes de cada um.................................... 6 Qual a frmula mgica? ................................ 8 A crise aguda de esquizofrenia desorienta todos ..............................................10 Lidando com um momento de crise .............12 Quando a pessoa nega-se a se tratar ..........14 Prevenindo recadas ........................................16 Criando um ambiente acolhedor..................18 Encontrando recursos na comunidade .......20 Incentivando a autonomia ............................22 Caminhos de superao .................................24 4 Esperana realista ............................................26 6
  • 4. Introduo Neste quinto livreto da srie Conversando sobre a esquizofrenia, abordaremos o tema do convvio familiar. Sem a inteno de esgotar esse assunto, procuramos tratar de temas que contribuam para que a pessoa com esquizofrenia e seus familiares possam pensar sobre como construir formas boas de convivncia. Nosso propsito que a leitura deste texto contribua para a reexo e o dilogo entre os membros da famlia, com a inteno de promover mudanas onde forem necessrias, melhorar os relacionamentos e desfazer mal-entendidos. O caminho que escolhemos para atingir esse propsito tem base no dilogo estabelecido ao longo dos ltimos anos com muitas pessoas com esquizofrenia e seus familiares, ouvindo e conversando sobre suas dvidas e diculdades cotidianas. A maioria das abordagens familiares na esquizofrenia enfoca a orientao de seus membros sobre como lidar com a pessoa com esquizofrenia. Algumas dessas abordagens partem do pressuposto que a pessoa com esquizofrenia precisa ser tutelada ou cuidada, e que vai sempre ocupar um lugar de doente dentro da prpria casa. Entendemos que essas abordagens ajudam em alguns aspectos, mas tambm podem tornar mais difcil a aceitao da pessoa com esquizofrenia, justamente por parte daqueles que a amam verdadeiramente. Nossa forma de ver a esquizofrenia e a famlia parte da compreenso que a doena no caracteriza a pessoa, e que ela, como qualquer outra pessoa, tem seu jeito de ser, seus desejos, suas qualidades e seus defeitos. H situaes em que a pessoa com esquizofrenia necessita tanto receber cuidados quanto compartilhar a vida com a famlia. Muitas pessoas com esquizofrenia so exiladas dentro de sua prpria casa. Essa uma situao que pode ser mudada. Trabalharemos ao longo deste livreto com o conceito de superao. A esquizofrenia uma doena que afeta vrias reas de funciona4
  • 5. mento da pessoa, dificulta os relacionamentos e desorienta os outros membros da famlia. A superao um processo de aprendizado com as situaes e o convvio, que permite aceitar as limitaes e maximizar as potencialidades de cada familiar, e ajuda a vencer os desafios prticos do cotidiano na construo de projetos para o futuro. Nessa perspectiva, a pessoa com esquizofrenia tem muito a ganhar e crescer no convvio familiar. Procuraremos apresentar o tema do convvio familiar por meio de situaes vividas pelos personagens descritos na srie. A histria desses personagens est descrita em outros livretos da srie e ajudam a ilustrar nossa proposta neste livreto. Muitas vezes pensamos que somos os nicos que passam por situaes difceis, mas nossa experincia mostra que, na maioria das vezes, temos muito a crescer compartilhando o que vivenciamos. Esperamos que a leitura deste livreto contribua para que voc, nosso leitor, tenha novas idias para melhorar ainda mais a qualidade do convvio em sua famlia. 5
  • 6. As questes de cada um Quando um familiar adoece com a esquizofrenia, os demais desorientam-se, pois tm de lidar com dificuldades e exigncias completamente novas, que so marcadas por muito estresse e confuso e por no saberem o que fazer para lidar com o problema. importante entender tanto o problema da pessoa com esquizofrenia quanto o de cada familiar, porque as dificuldades e o sofrimento enfrentados pelos familiares influem no bem-estar do familiar e afetam a vida do portador de esquizofrenia. Vejamos alguns exemplos dessas questes na famlia de Gabriel, que conseguiu um caminho de superao. O pai de Gabriel passou a trabalhar mais e a trazer trabalho para casa; estar ocupado o tempo todo foi a melhor forma que encontrou para lidar com sentimentos novos, confusos e contraditrios, tais como culpa, impresso de que o problema no existe (negao), desesperana e tristeza. Ele demorou um bom tempo para perceber que o melhor para o filho e sua famlia era sua companhia e passou a trabalhar menos e estar mais presente na rotina da famlia. A me de Gabriel apegou-se religio e ao cuidado do filho, tratando-o como se ele fosse ainda um menino. Nos grupos da igreja ela aprendeu que a f importante, desde que edificante, por intermdio das aes do dia-a-dia. A sensibilidade materna lhe permitiu perceber com o tempo que o filho tem uma doena, e seu papel como me incentiv-lo a seguir sua vida olhando tambm para suas qualidades. Os pais lidam com sentimentos difceis, como o de serem responsveis e, s vezes, culpados pela situao, procuram ver onde erraram na criao do lho. A esquizofrenia tem um fator biolgico muito forte; procurar erros no passado no ajuda e s aumenta a tenso nos relacionamentos. Renato, o irmo mais velho de Gabriel, achava que o irmo era problemtico e responsvel pelas freqentes discusses entre os dois. Ele precisou de um bom tempo para entender que Gabriel vivia com 6
  • 7. uma doena e perceber o sofrimento do irmo. Ele demorou um tempo, mas conseguiu colocar-se no lugar do irmo e perceber que ele mesmo poderia passar pelo mesmo. Essa percepo trouxe receios e dvidas a respeito da prpria sade mental, mas tambm ajudou a evitar discutir com Gabriel e facilitou a aproximao, que se deu, por exemplo, por meio de convites para fazer coisas agradveis juntos, como ir aos jogos de futebol no estdio e jogar bola nos ns de semana. Jlia, a irm mais nova de Gabriel, sempre aceitou o irmo, mesmo sabendo que suas idias no correspondiam realidade e seu comportamento era muito diferente. Ela procurou ter uma postura de ajudar o irmo, ainda que apenas conversando com ele. Essa postura lhe deu tranqilidade interior para estudar e ter amigos, para manter uma vida saudvel. Gabriel passou por situaes muito duras, que marcaram profundamente sua vida. Foram precisos tratamentos e cuidados constantes dos prossionais de sade para que, ao longo dos anos, ele conseguisse redesenhar um cotidiano no qual sua vida voltasse a fazer sentido. Nesse processo, foi muito importante o aprendizado de sua famlia, de que juntos poderiam fortalecer-se para superar as adversidades. Vejamos nos dois captulos seguintes algumas dificuldades presentes no caminho de superao da esquizofrenia. 7
  • 8. Qual a frmula mgica? Uma postura comum a todos ns, quando nos defrontamos com um problema srio, desejar que exista uma soluo que faa o problema desaparecer. Temos a tendncia de procurar uma frmula mgica. No caso da esquizofrenia, muitos familiares acreditam que daro conta da questo sozinhos; quando isso no acontece, passam a acreditar que o mdico resolver a questo, que existe um remdio que far os problemas de seu familiar doente desaparecer. H um entendimento importante que pode substituir essa postura de procurar a soluo pronta. Ele diz respeito ao fato de que a pessoa com esqu