Esquizofrenia 02

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    08-Jan-2017
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  • CONVERSANDO SOBRE a esquizofrenia

    Caminho at o diagnstico 2

    Jorge Cndido de AssisCeclia Cruz VillaresRodrigo Affonseca Bressan

  • Av. Vereador Jos Diniz, 3.300, 15o andar, Campo Belo 04604-006 So Paulo, SP. Fone: 11 3093-3300 www.segmentofarma.com.br segmentofarma@segmentofarma.com.br

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  • Sumrio

    Prefcio ................................................................. 5

    Introduo ........................................................... 6

    Como entender o desconhecido? .................... 8

    Doena ou mal espiritual? ..............................10

    Chegando at a ajuda .....................................12

    Mas... qual a doena? ...................................14

    Uma convivncia nem sempre fcil .............16

    Incio da melhora .............................................18

    Isto loucura? ...................................................20

    Caminho at o diagnstico ............................22

    Tem cura? ...........................................................24

    Esperana realista ............................................26

  • Jorge Cndido de Assis portador de esquizofrenia h 22 anos, atualmente aluno do curso de Filosofia da Universidade de So Paulo (USP) e diretor adjunto da Associao Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE). Tem participado e ministrado aulas para o curso de medicina da Universidade Fe-deral de So Paulo (UNIFESP), palestrante nos dois ltimos Congressos Brasileiros de Psiquiatria.

    Ceclia Cruz Villares vice-presidente da ABRE; terapeuta ocupacional e tera-peuta de famlia; mestre em sade mental e doutoranda pela UNIFESP, onde tra-balha no Programa de Esquizofrenia (PROESQ) e supervisiona alunas do curso de Especializao em Terapia Ocupacional em Sade Mental. Participa ativamente em mbitos nacional e internacional do estudo e combate ao estigma relacionado aos transtornos mentais.

    Rodrigo Affonseca Bressan familiar de uma pessoa que teve esquizofrenia e membro da ABRE; professor adjunto do Departamento de Psiquiatra da UNIFESP; Ph.D. pelo Institute of Psychiatry, University of London, onde professor honorrio; coordenador do PROESQ e coordenador do Laboratrio de Neurocincias Clnicas (LiNC), ambos da UNIFESP.

    Sobre os autores

  • PrefcioAs doenas psiquitricas, particularmente a esquizofrenia, ainda so pouco conhecidas em nosso meio.

    A esquizofrenia uma doena que se inicia no final da adolescn-cia ou no adulto jovem. O indivduo que teve uma infncia normal, vinha estudando regularmente, comea a se retrair, isolar-se, aban-dona o estudo e passa a ter alteraes de comportamento. Mais para frente surta, fica agitado e pode referir que est ouvindo vozes ou est sendo perseguido. Ante tal situao e sem informaes, a famlia fica perdida e vai procurar ajudas alternativas ou espirituais que cos-tumam atrasar em um ou dois anos o incio do tratamento.

    Jorge C. de Assis, Ceclia C. Villares e Rodrigo A. Bressan, em uma parceria entre o Programa de Esquizofrenia (PROESQ) da Escola Paulis-ta de Medicina da Universidade Federal de So Paulo (UNIFESP-EPM), a Associao Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofre-nia (ABRE) e o laboratrio AstraZeneca, tiveram a feliz idia de elaborar uma srie de seis livretos psicoeducacionais sobre a esquizofrenia.

    A originalidade dos livretos consiste no fato de terem sido escritos levando-se em conta a vivncia do portador da doena e de seus fa-miliares diante desse algo novo que ocorreu em suas vidas.

    A leitura deste livreto fez-me, como mdico, lembrar-me do acompa-nhamento de portadores de esquizofrenia que tiveram uma boa evolu-o, mas tambm de portadores que tiveram uma evoluo mais difcil.

    O meu desejo que com esta srie de livretos, familiares e por-tadores no sejam pegos de surpresa e possam aprender mais sobre a doena, tratar-se, conviver com o estigma dela e diminu-lo, o que ajudar a melhorar a sua evoluo.

    Itiro ShirakawaProfessor titular de Psiquiatria da UNIFESP-EPM

  • Introduo

    Este o segundo dos seis livretos da srie Conversando sobre a esqui-zofrenia. Nele apresentaremos o caminho percorrido at se estabele-cer o diagnstico da esquizofrenia. Consideramos que apresentar esse processo que permeado de vrias difi culdades deva se dar atravs de um exemplo em que o diagnstico ocorreu com um pouco de atraso. Co-nhecemos vrios casos parecidos com o que relataremos a seguir, assim como conhecemos outros tantos casos onde as pessoas enfrentam v-rias situaes adversas e o diagnstico levou muito tempo para ser feito. O objetivo desse livreto pontuar atitudes e caminhos que podem aju-dar no processo, bem como as atitudes que levam a um retardo do diagnstico e conseqentemente do tratamento adequado. Esse cami-nho muito importante, pois sabemos que quanto mais rpido o diag-nstico e o tratamento, melhor a evoluo da doena.

    Nossa inteno mostrar como se d o diagnstico a partir da vi-vncia da pessoa que tem esquizofrenia, dos familiares, dos profissio-nais de sade e da sociedade. Ao relatar esse caminho, discutiremos os aspectos tcnicos de como se faz o diagnstico da esquizofrenia do ponto de vista prtico. Para tanto, relataremos a histria de Gabriel e de sua famlia, como personagens fictcios criados a partir do conv-vio que temos ao longo dos anos com pessoas que tm esquizofrenia e seus familiares.

    Relembrando o primeiro livreto, Gabriel, ao terminar os estudos e comear a trabalhar, encontra difi culdades tanto nos relacionamentos como nas novas responsabilidades. Decide sair do emprego para estu-dar para o vestibular, e esta uma escolha que o leva a um isolamento progressivo. Gabriel passa a maior parte do tempo no quarto, tenta es-tudar, mas sente difi culdade em se concentrar. Os pais percebem as mudanas de comportamento do fi lho, mas acreditam que uma fase e que, aps o vestibular, Gabriel voltar a ser o rapaz alegre de sempre.

  • Acontece que Gabriel no passa no vestibular. Isso vivido por ele como uma grande derrota e, ele que j vinha isolando-se, passa a viver sem conseguir dividir seus sentimentos com os familiares. Sente-se sozinho e marcado por essa perda, comea a desenvolver percepes e pensamentos incomuns. Comea a achar que as pessoas falam mal dele, que as coisas que acontecem a seu redor sempre tm uma rela-o com ele. Junto a essas impresses, ele passa a perceber as coisas de forma diferente, com mais intensidade, de forma que suas vivncias o colocam em um estado de constante desorientao e perplexidade.

    No conseguindo lidar com essa nova situao, Gabriel se isola ainda mais e comea a apresentar dificuldades ainda maiores. Passa a ouvir vozes que conversam entre si, sendo que na realidade no tem ningum falando. Esse um sintoma chamado alucinao auditiva. Comea a ter pensamentos de perseguio, de culpa e a achar que existe um compl mundial contra ele, que so os delrios. Tambm tem dificuldade para se comunicar, as pessoas no entendem o que ele diz, pois seus pensamentos ficam muito desorganizados. A essa situao, juntam-se a falta de vontade de fazer qualquer coisa e o isolamento em relao aos amigos e famlia.

    Seus pais chegam a lev-lo a um psiquiatra, entretanto a famlia fica com muitas dvidas.

    a partir desse ponto que comeamos este livreto.

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    Como entender o desconhecido?

    O nosso entendimento do mundo e das coisas da vida se d atravs do que j experimentamos e aprendemos. A doena de Gabriel em menos de seis meses mudou sua histria e de sua famlia, entrando em suas vidas como algo novo e permeado de dificuldades. O desco-nhecido, no caso um transtorno mental, traz consigo muita angstia, muita desorientao e muito medo.

    A primeira consulta com o psiquiatra trouxe uma srie de dvidas. Gabriel no acha que est doente e sente que o mdico no entende o que ele est vivendo. Seus pais tm dificuldade em aceitar que um de seus filhos precise de tratamento psiquitrico; por mais difcil que esteja o convvio com Gabriel, no fundo eles mantm a esperana de que o filho supere essa fase ruim.

    A dificuldade em aceitar as explicaes do mdico e a busca de alternativas para lidar com a situao caracterizam este perodo de indeciso que em muitos casos se arrasta por anos, prejudicando a recuperao das pessoas que tm esquizofrenia. No nosso caso, o incio efetivo do tratamento do Gabriel atrasar em alguns meses em virtude das dvidas e da confuso em que a famlia se encontra. Esse tipo de situao muito comum, mas prejudica a evoluo da doena e deve ser minimizado ao mximo.

    Gabriel se nega a tomar os medicamentos receitados pelo psiquia-tra. Ele acredita nas idias que criou para explicar as percepes e os pensamentos diferentes que est vivenciando. Ele acredita estar sendo filmado o tempo todo e que h uma conspirao contra ele. As vozes que s ele escuta s vezes o elogiam e s vezes o criticam e do ordens. Ele interpreta tudo o que acontece a seu redor como tendo alguma relao com sua vida. A percepo mais intensa dos sentidos d um significado novo para fatos que so corriqueiros para seus familiares. Dentro desse contexto, Gabriel no consegue enten-

  • 9

    der que o que est vivenciando so sintomas de uma doena. Os m-dicos chamam essa dificuldade de entendimento da doena de falta de insight ou de crtica sobre a doena