Deleuze; guattari. mil plat´s capitalismo e esquizofrenia, vol. 5

download Deleuze; guattari. mil plat´s   capitalismo e esquizofrenia, vol. 5

of 207

  • date post

    23-Jun-2015
  • Category

    Documents

  • view

    3.297
  • download

    0

Embed Size (px)

description

Mil Platôs é o prolongamento de uma aposta iniciada em O anti-Édipo. Mais do que um acerto de contas com a conturbada década dos anos 60 e o freudo- marxismo que parecia animá-la, este era, segundo a bela definição de Michel Foucault, uma "introdução à vida não-facista". Ou seja, um livro de ética. Foucault resumia as linhas de força daquele "guia da vida cotidiana": liberar a ação política de toda forma de paranóia unitária e totalizante: alastrar a ação, o pensamento e o desejo por proliferação e disjunção ( e não por hierarquização piramidal): liberar-se das velhas categorias do Negativo, investindo o positivo, o múltiplo, o nômade: desvincular a militância da tristeza: liberar a prática política da noção de Verdade: recusar o indivíduo como fundamento para reivindicações políticas ( o próprio indivíduo é um produto de poder) etc.

Transcript of Deleuze; guattari. mil plat´s capitalismo e esquizofrenia, vol. 5

  • 1. Das abas do livro: Mil plats o mais profundo trabalho poltico de Deleuze e Guattari. A primeiravista, ele parece, na verdade, um guia claro, pronto a responder a questes deavaliao e ao polticas. Deleuze e Guattari apresentam incessantementedicotomias no campo social e poltico: o Estado e a mquina de guerra, o sedentrioe o nmade, territorializao e desterritorializao, o estriado e o liso, e assim pordiante. As distines parecem proliferar infinitamente, mas todas elas giram emtorno de um nico eixo. O mundo dividido em compartimentos e o texto nosconvida a censurar um plo e afirmar o outro Abaixo o Estado! Viva a mquinade guerra nmade! Se ao menos a poltica fosse to simples. No entanto, ao prosseguirmos na leitura, percebemos que Deleuze e Guattaricomplicam continuamente essa clara srie de distines. K importante reconhecer,em primeiro lugar, que os termos contrastantes no esto em oposio absoluta umcom o outro (como se pudessem ser subsumidos dialeticamente em uma unidadesuperior). Os termos de cada distino no so postos em contradio, mas sim emuma relao oblqua ou diagonal, irreconciliavelmente diferente e desconjunta. Emsegundo lugar, ao analisarmos cada par mais de perto, descobrimos que nenhumtermo realmente puro, ou exclusivo de seu outro. C) Estado sempre contminternalizada uma mquina de guerra institucionalizada; todo movimento dedesterritorializao carrega consigo elementos de reterritorializao. As prpriasfronteiras que separam os termos emparelhados so, em outras palavras, vagas,continuamente em fluxo. Finalmente, o que parecia ser o caminho assinalado daliberao revela, por vezes, conter paradoxalmente a dominao mais brutal: oalisamento do espao social traz, s vezes, uma rigorosa hipersegmentao; linhas defuga revertem-se freqentemente em linhas de destruio, tendendo assim aofascismo e ao suicdio. Ao final, Deleuze e Guattari iro frustrar qualquer aplicao direta de simplesfrmulas polticas. Eles dificultaro qualquer slogan ou mol dordre. K essacomplexidade parte da riqueza de Mil pleitos enquanto anlise propriamentepoltica. A complexidade e as distines flutuantes, oblquas no necessariamenteparalisam a ao poltica por medo de que possamos ser impuros, cmplices denossos inimigos. Isto significa apenas que o pensamento poltico e a ao polticano podem prosseguir ao longo de uma linha reta. A poltica de Deleuze e Guattari melhor concebida como um ziguezague que se move em diferentes ngulos deacordo com as contingncias locais e em mudana.Michael Hardt

2. Da capa do livro:O nmade no tem pontos, trajetos, nem terra, embora evidentemente eleos tenha. Se o nmade pode ser chamado de o Desterritorializado porexcelncia, justamente porque a reterritorializao no se faz depois, comono migrante, nem em outra coisa, como no sedentrio (com efeito, a relaodo sedentrio com a terra est mediatizada por outra coisa, regime depropriedade, aparelho de Estado...). Para o nmade, ao contrrio, adesterritorializao que constitui sua relao com a terra, por isso ele sereterritorializa na prpria desterritorializao. a terra que sedesterritorializa ela mesma, de modo que o nmade a encontra um territrio.A terra deixa de ser terra, e tende a tornar-se simples solo ou suporte. A terrano se desterritorializa em seu movimento global e relativo, mas em lugaresprecisos, ali mesmo onde a floresta recua, e onde a estepe e o deserto sepropagam. 3. coleo TRANSGilles Deleuze Flix Guattari MIL PLATSCapitalismo e Esquizofrenia Vol. 5 Coordenao da traduo Ana Lcia de OliveiraEDITORA 34Distribuio pela Cdice Comrcio Distribuio e Casa Editorial Ltda.R. Simes Pinto, 120 CEP 04356-100 Tel. (011) 240-8033 So Paulo - SPCopyright Editora 34 Ltda. (edio brasileira), 1997Mille plateaux Les ditions de Minuit, Paris, 1980Ttulo original:Mille plateaux - Capitalisme et scbizophrnieCapa, projeto grfico e editorao eletrnica: Bracher & Malta Produo GrficaReviso tcnica: Luiz OrlandiReviso: Adma Fadul MuhanaIa Edio - 1997Editora 34 Ltda. - R. Hungria, 592 CEP 01455-000 - So Paulo - SP Brasil Tel/FaxCIP - Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Deleuze, Gilles, 1925 -1995DM9mMil plats - capitalismo c esquizofrenia, vol. 5 / Gilles Deleuze, Flix Guattari; traduo de Peter Pl Pelbart e Janice Caiafa. So Paulo: Ed. 34, 1997Traduo de : Mille plateaux - capitalisme et schizoptiruieISBN 85-7326-057-2 1. Filosofia. 1. Guattari, Flix, 1910-1992. II. Ttulo. III. Srie.CDD - 19496-0138 CDU - 1(44) 4. NOTA DOS AUTORES:Este livro a continuao e o fim de Capitalismo e Esquizofrenia,cujo primeiro tomo O anti-dipo.No composto de captulos, mas de "plats". Tentamos explicarmais adiante o porqu (e tambm por que os textos so datados). Emuma certa medida, esses plats podem ser lidos independentementeuns dos outros, exceto a concluso, que s deveria ser lida no final.J foram publicados: "Rizoma" (Ed. de Minuit, 1976); "Um s ouvrios lobos?" (revista Minuit, n" 5); "Como criar para si corpo umsem rgos" (Minuit, n" 10). Eles so aqui republicados commodificaes.NOTA DO EDITOR:Esta edio brasileira de Mil plats, dividindo a obra original emcinco volumes, foi organizada com o acordo dos autores e da editorafrancesa (Ed. de Minuit). 5. MIL PLATS Capitalismo e EsquizofreniaVol. 5712. 1227 TRATADO DE NOMADOLOGIA: A MQUINA DE GUERRA(Traduo de Peter Pl Pelbart)97 13. 7000 A. C. APARELHO DE CAPTURA(Traduo de Janice Caiafa) 15714. 1440 O Liso E O ESTRIADO(Traduo de Peter Pl Pelbart)190 15. CONCLUSO REGRAS CONCRETAS E MQUINAS ABSTRATAS (Traduo de Peter Pl Pelbart) 203 ndice das Ilustraes 235 ndice Geral dos Volumes 6. 12.1227 TRATADO DE NOMADOLOGIA: A MQUINA DE GUERRA Carruagem nmade inteiramente em madeira, Altai, sc. V-/V a. C. Axioma I: A mquina de guerra exterior ao aparelho de Estado.Proposio I: Essa exterioridade confirmada, inicialmente, pelamitologia, a epopia, o drama e os jogos.Georges Dumzil, em anlises decisivas da mitologia indo-europia,mostrou que a soberania poltica, ou dominao, possua duas cabeas: a dorei-mago, a do sacerdote-jurista. Rex e flamen, raj e Brahma, Rmulo eNuma, Varuna e Mitra, o dspota e o legislador, o ceifeiro e o organizador.E, sem dvida, esses dois plos opem-se termo a termo, como o escuro e oclaro, o violento e o calmo, o rpido e o grave, o terrvel e o regrado, o"liame" e o "pacto", etc. Mas sua oposio apenas relativa; funcionam emdupla, em alternncia, como se exprimissem uma diviso do Uno oucompusessem, eles mesmos, uma unidade soberana. "Ao mesmo tempo 7. antitticos e complementares, necessrios um ao outro e, por conseguinte,sem hostilidade, sem mitologia de conflito: cada especificao num dosplanos convoca automaticamente uma especificao homloga no outro, eambos, por si ss, esgotam o campo da funo." So os elementos principaisde um aparelho de Estado que procede por Um-Dois, distribui as distinesbinrias e forma um meio de interioridade. uma dupla articulao que fazdo aparelho de Estado um estrato.Note-se que a guerra no est includa nesse aparelho. Ou bem o Estadodispe de uma violncia que no passa pela guerra: ele emprega policiais ecarcereiros de preferncia a guerreiros, no tem armas e delas no necessita,age por captura mgica imediata, "agarra" e "liga", impedindo qualquercombate. Ou ento o Estado adquire um exrcito, mas que pressupe umaintegrao jurdica da guerra e a organizao de uma funo militar2. Quanto mquina de guerra em si mesma, parece efetivamente irredutvel aoaparelho de Estado, exterior a sua soberania, anterior a seu direito: ela vemde outra parte. Indra, o deus guerreiro, ope-se tanto a Varuna como aMitra. No se reduz a um dos dois, tampouco forma um terceiro. Seria antescomo a multiplicidade pura e sem medida, a malta, irrupo do efmero epotncia da metamorfose. Desata o liame assim como trai o pacto. Faz valerum furor contra a medida, uma celeridade contra a gravidade, um segredocontra o pblico, uma potncia contra a soberania, uma mquina contra oaparelho. Testemunha de uma outra justia, s vezes de uma crueldadeincompreensvel, mas por vezes tambm de uma piedade desconhecida(visto que desata os liames... 4). D provas, sobretudo, de outras relaescom as mulheres, com os animais, pois vive cada coisa em relaes de devir,em vez de operar reparties binrias entre "estados": todo um devir-animaldo guerreiro, todo um devir-mulher, que ultrapassa tanto as dualidades determos como as correspondncias de relaes. Sob todos os aspectos, amquina de guerra de uma outra espcie, de uma outra natureza, de umaoutra origem que o aparelho de Estado. 1 Georges Dumzil, Mitra-Varuna, Gallimard (sobre o nexum e o mutuum, o liame e ocontrato, cf. pp. 118-124). 2 O Estado, conforme seu primeiro plo (Varuna, Urano, Rmulo), opera por liamemgico, tomada ou captura imediata: no combate, e no tem mquina de guerra, "ele liga, eisso tudo". Conforme seu outro plo (Mitra, Zeus, Numa), apropria-se de um exrcito, massubmetendo-o a regras institucionais e jurdicas que o convertem to-somente numa pea doaparelho de Estado; por exemplo, Marte-Tiwaz no um deus guerreiro, mas um deus "juristada guerra". Cf. Dumzil, Mitra-Varuna, pp. 113 ss., 148 ss., 202 ss. 3 Dumzil, Heur et malhem du guerrier, PUF. 4 Sobre o papel do guerreiro como aquele que "desliga" e se ope tanto ao liame mgicocomo ao contrato jurdico, cf. Mitra-Varuna, pp. 124-132. E passim em Dumzil, a anlise dofuror. 8. Seria preciso tomar um exemplo limitado, comparar a mquina de guerraao aparelho de Estado segundo a teoria dos jogos. Sejam o Xadrez e o Go,do ponto de vista das peas, das relaes entre as peas e do espaoconcernido. O xadrez um jogo de Estado, ou de corte; o imperador daChina o praticava. As peas do xadrez so codificadas, tm uma naturezainterior ou propriedades intrnsecas, de onde decorrem seus movimentos,suas posies, seus afrontamentos. Elas so qualificadas, o cavaleiro sempre um cavaleiro, o infante um infante, o fuzileiro um fuzileiro. Cadauma como um sujeito de enunciado, dotado de um poder relativo; e essespoderes relativos combinam-se