Maalouf, Identidades

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  • 5/12/2018 Maalouf, Identidades

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    AMIN MAALOUF

    AS IDENTIDADESASSASSINASTraducao

    d eSUSANA SERRAS PEREIRA

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    Uma vida de escrita ensinou-me a desconfiar das pala-vras. As que parecem mais limpidas sao muitas vezes as maistraidoras. Urn destes falsos amigos e precisamente a palavraidentidade. Acreditamos saber tudo 0 que ela quer dizer,e continuamos a confiar nela mesmo quando, insidiosamente,ela se poe a dizer 0 contrario.

    Longe de mim a ideia de redefinir mais uma vez a nocaode identidade. Esta e a questao primordial da filosofia desde 0Conhece-te a ti mesmo de Socrates ate Freud, passando portantos outros mestres; aborda-Ia de novo nos nossos dias,exigiria muito maior competencia e coragem do que as quepossuo. A tarefa a que me proponho e infinitamente maismodesta: tentar compreender a razao que leva hoje tantas pes-soas a cometerem crimes em nome da sua identidade religiosa,etnica, nacional ou outra. Tera sido sempre assim desde 0dealbar dos tempos, ou existem realidades especfficas ao nossotempo? Os meus raciocfnios parecerao por vezes demasiadoelementares. Isto acontece porque desejaria conduzir a minhareflexao 0mais serena, 0mais paciente, 0mais lealmente pos-

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    sfvel, sem recorrer a nenhuma especie de jargao nem anenhum atalho enganador.

    Naquilo a que se convencionou chamar urn documentode identidade encontramos 0 nome proprio, 0 apelido, a datae lugar de nascimento, a fotografia, a enumeracao de certostraces ffsicos, a assinatura, por vezes tambern a impressaodigital - toda uma panoplia de indices para demonstrar, semconfusao possfvel, que 0 portador deste documento e Fulano,e que nao existe, entre os milh6es de seres humanos, uma sopessoa com quem ele possa ser confundido, seja ela 0 seusosia ou 0 seu irmao gerneo.

    A minha identidade e aquilo que faz com que eu nao sejaidentico a qualquer outra pessoa.

    Definida deste modo, a palavra identidade e uma nocaorelativamente precisa e que nao deveria prestar-se a confusao.Serao verdadeiramente necessarias longas dernonstracoes paraestabelecer que nao existem, nem poderao existir dois seresidenticos? Mesmo se, amanha, se chegasse, como se teme,a clonar seres humanos, os proprios clones nao seriam iden-tieos, rigorosamente, senao no instante do seu nascimento: ,desde os seus primeiros passos na vida, tornar-se-iam dife-rentes.

    A identidade de cada pessoa e constituida por uma multi-tude de elementos, que nao se limitam evidentemente aos quefiguram nos registos oficiais. Existe, claro, para a maior partedas pessoas, a pertenca a uma tradicao religiosa; a uma nacio-nalidade, por vezes a duas; a urn grupo etnico ou lingufstico;a uma familia mais ou menos alargada; a uma profissao; a umainstituicao; a urn determinado meio social... Mas a lista e bern18

    AS IDENTIDADES ASSASSINAS

    mais extensa, virtualmente ilimitada; pode sentir-se uma pertencmais ou menos forte a uma provincia, a uma aldeia, a urn bairra urn cla, a uma equipa desportiva ou profissional, a urn grupde amigos, a uma empresa, a urn partido, a uma associacaoa uma comunidade de pessoas que partilham as mesmas pax6es, as mesmas preferencias sexuais, as mesmas diminuicoeffsicas, ou que se acham confrontadas com os mesmos problemas.

    Estas pertencas nao tern, evidentemente, todas a mesmimportancia, pelo menos, nao ao mesmo tempo. Mas nenhumdelas e totalmente desprovida de importancia. Elas sao os elmentos constitutivos da personalidade, poder-se-ia quase dizos genes da alma, na condicao de precisarmos que na sumaior parte nao sao inatos.

    Se cada urn desses elementos se pode encontrar numgrande numero de individuos, jamais encontraremos a mesmcombinacao em duas pessoas diferentes, e e justamente issque produz a riqueza de cada urn, 0 seu valor proprio, aquilque faz de cada pessoa urn ser singular e potencial mentinsu bsti tuivel.

    Acontece por vezes que urn acidente, feliz ou infeliz, omesmo urn encontro fortuito, tenham urn maior peso no nosssentimento de identidade do que a pertenca a uma herancmilenar. Imaginemos 0caso de urn servio e de uma muculmana que se tivessem conhecido, ha vinte anos arras, num cafe dSarajevo, que se tivessem apaixonado e casado. Nunca poderiamter tido da sua identidade a mesma percepcao que urn casainteiramente servio ou inteiramente muculmano; a sua visada fe, tal como da patria, nao seria a mesma. Cada urn dele

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    AMIN MAALOUF AS IDENTIDADES ASSASSINAS

    teria em si as pertencas que os pais lhes legaram a nascenca,mas ja nao as entenderia do mesmo modo, nao Ihes daria 0mesmo Iugar.

    Nao abandonemos ainda Sarajevo. Deixemo-nos ficar, empensamento, numa investigacao imaginaria, Observemos, narua, urn homem de 50 anos.

    Em 1980, esse homem teria proclamado: Sou jugoslavo,com orguIho e sem ernocao: instado a urn maior detaIhe, teriadito que habitava a Republica Federada da Bosnia Herzegovina,e que vinha, incidentalmente, de uma familia de tradicaomuculrnana.

    o mesmo homem, reencontrado doze anos mais tarde,quando a guerra se encontrava no auge, teria respondidoespontaneamente e com vigor: Sou muculmano! Talveztivesse tambern deixado crescer a barba regulamentar. Teriaigualmente acrescentado que era bosnio e nao teria apreciadonada que the lembrassem que outrora se havia orgulhosamenteafirmado jugoslavo.

    Hoje, 0 nosso homem, interrogado na rua, afirmaria pri-meiro que era bosnio, e depois que era muculmano; ia de factoa caminho da mesquita, acrescentaria; mas faria tambern ques-tao de afirmar que 0 seu pals fazia parte da Europa e que espe-rava ve-lo urn dia aderir a Uniao Europeia.

    Este mesmo personagem, se 0 reencontrarmos no mesmositio daqui a vinte anos, como querera ele definir-se? Qual dassuas pertencas pora em primeiro lugar? Europeu? Muculma-no? Bosnio? Outra coisa qualquer? Balcanico, talvez?

    Nao me arrisco a fazer urn prognostico. Todos estes ele-mentos fazem efectivamente parte da sua identidade. Estehomem nasceu numa familia de tradicao muculmana; pertence,pela lingua, ao eslavos do SuI que estiveram outrora reunidos

    no contexto de urn mesmo Estado e que hoje ja nao 0 estvive numa terra que ora foi otomana, ora austriaca, e que to seu papel nos grandes dramas da historia europeia. Em cepoca, uma das suas pertencas inchou, se assim posso dizerponto de ocultar todas as outras e de se confundir com aidentidade total. Ao longo da sua vida, ter-Ihe-ao contado ta especie de fabulas. Que era proletario e nada mais doisso. Que era jugoslavo e nada mais. E, mais recentemenque era muculmano e so isso; ter-lhe-ao mesmo feito cdurante alguns meses dificeis, que tinha mais em comum cos homens de Cabul do que com os de Trieste!

    Em todas as epocas, encontrou pessoas que 0 levara considerar que possuia uma so pertenca maior, tao supeas outras em todas as circunstancias que se poderia legitimmente chamar identidade. Para uns, a nacao, para outroreligiao ou a classe social. Mas bastaria passear 0 seu osobre os diferentes conflitos que se desenrolam no mundo pse dar conta de que nenhuma pertenca prevalece de mabsoluto. Onde as pessoas se sentem ameacadas na sua fepertenca religiosa que parece resumir toda a sua identidaMas se e a sua lfngua materna e 0 seu grupo etnico quencontram ameacados, as pessoas bater-se-ao ferozmente ctra os seus proprios correligionarios, Os turcos e os curdosambos muculmanos, mas tern uma lfngua diferente; sera 0conflito menos sangrento? Os hutus, tal como os tutsis,catolicos e falam a mesma lingua, te-los-a isso impedido dmassacrarem? Os checos e os eslovacos sao ambos catolitera isso favorecido a vida em comum?

    Todos estes exemplos para insistir no facto de que se e20

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    tir, em qualquer momento, entre os elementos que constituema identidade de alguern, uma certa hierarquia, esta nao e imu-tavel, muda com 0 tempo e modifica profundamente os com-portamentos.

    As pertencas que contam na vida de cada um nem sempresao aquelas, consideradas primarias, que advern da lfngua, dapele, da nacionalidade, da cIasse social ou da religiao. Tome-mos 0caso de um homos sexual italiano na altura do fascismo.Para eJe, este aspecto especffico da sua personalidade tinha asua importancia, imagino, mas nao mais do que a sua activida-de profissional, as suas escolhas polfticas ou as suas crencasreligiosas. De subito, a repressao estatal abate-se sobre ele,sente-se ameacado pela humilhacao, pela deportacao, peJamorte - ao escolher este exemplo, apelo evidentemente a cer-tas reminiscencias literarias e cinernatograficas. Este homem,pois, que tinha sido, alguns anos antes, um patriota e talvez umnacionalista, ja nao conseguiria regozijar-se ao ver desfilar astropas italianas, sem diivida tera mesmo chegado a desejar asua derrota. Por causa da perseguicao, as suas preferenciassexuais iriam dominar as outras pertencas, eclipsando ate apertenca nacional que atingia, a epoca, 0 seu paroxismo. Ape-nas depois da guerra, numa Italia mais tolerante, 0 nossohomem se sentiria de novo plenamente italiano.

    Muitas vezes, a identidade que proclamamos, decalca-se- pela negativa - da do adversario. Um irlandes cat61icodiferencia-se dos ingleses primeiro pela religiao, mas afirrnar--se-a, face a monarquia, republicano, e se nao conhece suficien-temente 0gaelico, falara pelo menos 0 ingles ao seu modo; umdirigente cat6Iico que se exprimisse com 0 sotaque de Oxfordapareceria quase como um renega