Schiz-X: Conversando Sobre A Esquizofrenia - Vol. 3 - A import¢ncia do tratamento

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Schiz-X: Diário de um Esquizofrênico - http://schiz-x.com

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  • 1. Jorge Cndido de AssisCeclia Cruz VillaresRodrigo Affonseca BressanCONVERSANDO SOBRE a esquizofrenia A importncia do tratamento3OS5649 Esquizofrenia3.indd 1 15/1/2008 12:16:30

2. Sobre os autores Jorge Cndido de Assis portador de esquizofrenia h 22 anos, atualmente aluno do curso de Filosofia da Universidade de So Paulo (USP) e diretor adjunto daAssociao Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Esquizofrenia (ABRE).Tem participado e ministrado aulas para o curso de medicina da Universidade Fe-deral de So Paulo (UNIFESP), palestrante nos trs ltimos Congressos Brasileirosde Psiquiatria. Ceclia Cruz Villares vice-presidente da ABRE; terapeuta ocupacional e tera-peuta de famlia; mestre em sade mental e doutoranda pela UNIFESP, onde tra-balha no Programa de Esquizofrenia (PROESQ) e supervisiona alunas do curso deEspecializao em Terapia Ocupacional em Sade Mental. Participa ativamente emmbitos nacional e internacional do estudo e combate ao estigma relacionado aostranstornos mentais.Rodrigo Affonseca Bressan familiar de uma pessoa que teve esquizofreniae membro da ABRE; professor adjunto do Departamento de Psiquiatra da UNIFESP;Ph.D. pelo Institute of Psychiatry, University of London, onde professor honorrio;coordenador do PROESQ e coordenador do Laboratrio de Neurocincias Clnicas(LiNC), ambos da UNIFESP.OS5649 Esquizofrenia3.indd 215/1/2008 12:16:31 3. Sumrio Introduo ........................................................... 4 O outro caminho, a volta .................................. 6 Um erro muito comum ...................................... 8 O Outra forma de cuidado .................................10 Desmisticando a internao .......................12 E quando a pessoa no acha que est doente? ............................14 E quando os remdios no funcionam? ......16 Depois da crise aguda... ..................................18 Reabilitao ......................................................20 Esperana realista ............................................22 O que dizem os especialistas .........................24OS5649 Esquizofrenia3.indd 315/1/2008 12:16:46 4. IntroduoNeste terceiro livreto da srie Conversando sobre a esquizofreniaapresentaremos alguns aspectos de seu tratamento. A esquizofrenia uma doena que envolve fatores biolgicos, psicolgicos e sociais eseu tratamento requer o cuidado oferecido por profissionais de sade,familiares e pela participao da prpria pessoa que tem a doena.Invariavelmente a esquizofrenia acompanhada de muitos sofrimen-tos, pois afeta as relaes da pessoa com a realidade e com os outros.Diante dessa situao, os tratamentos tm como objetivo a constru-o das possibilidades de lidar com esses sofrimentos e reconstruiro caminho de vida a partir das capacidades da pessoa e dos recursosde sua comunidade. O primeiro volume desta srie abordou o incio da esquizofrenia eseus principais sintomas atravs da trajetria de Gabriel, um persona-gem cuja histria se aproxima das vivncias de muitas pessoas comesquizofrenia com quem conversamos nos ltimos anos. O segundovolume da srie apresentou o processo vivido por esse personagem eseus familiares at a definio do diagnstico de esquizofrenia. Assim como nos dois primeiros volumes, apresentamos aqui osprincipais aspectos do tratamento da esquizofrenia. Nosso objetivo fornecer alguns elementos que possibilitem o entendimento da natu-reza da esquizofrenia e servir de instrumento para promover o dilogoentre as pessoas com esquizofrenia, seus familiares e os profissionaisde sade.O tratamento da esquizofrenia atinge melhores resultados quandorealizado por uma equipe multidisciplinar, isto , uma equipe com-posta por profissionais de sade das vrias especialidades psiquia-tra, psiclogo, terapeuta ocupacional, enfermeiro e assistente social que atuam juntos no plano teraputico da pessoa com esquizofrenia.Quando essa abordagem em equipe no possvel, importante oOS5649 Esquizofrenia3.indd 4 15/1/2008 12:16:46 5. entendimento entre os profissionais que tratam a pessoa, mesmo que sejam em locais de atendimento diferentes. Sabemos que as diculdades relativas ao tratamento da esquizofrenia em nosso pas manifestam-se tanto na dimenso das vivncias da pes- soa e sua famlia como no funcionamento dos servios de sade mental. Nesse sentido, procuramos apresentar situaes vividas que possam ser- vir para avaliarem-se as questes que cada um encontra e para pensar caminhos de superao diante das diculdades experimentadas.Neste terceiro volume, o enfoque central o tratamento psiquitrico. Entendemos que todos as abordagens teraputicas so importantes, entretanto o tratamento psiquitrico bem conduzido condio fun- damental para a estabilizao e a recuperao da pessoa. Assim, es- peramos que este volume seja esclarecedor para voc, nosso leitor.OS5649 Esquizofrenia3.indd 515/1/2008 12:16:49 6. O outro caminho, a voltaA experincia de passar por um episdio psictico agudo da esqui-zofrenia deixa marcas profundas na pessoa, preciso muito esforopara se reintegrar socialmente passado o perodo de crise. Existe omedo de no ser aceito, a diculdade de voltar a compartilhar as coi-sas mais simples do dia-a-dia como sorrir, estar tranqilo, fazer coisasque do prazer, compartilhar o que se vive com os amigos. Quandose pensa em recuperao, normalmente olha-se para capacidade dereadquirir habilidades sofisticadas, que permitem pessoa participardo mundo competitivo em que vivemos. Isso pode acontecer ou no,entretanto pensando no que importante para a qualidade de vida, fundamental sentir-se bem e saber compartilhar a vida com as pes-soas. Vejamos como Gabriel vive esse processo. Depois de alguns meses de tratamento, Gabriel decide voltar aestudar para o vestibular. Agora aconselhado pelo Dr. Marcelo e pelaterapeuta ocupacional, Ftima, a no se isolar e a refazer um crculode amigos, ele se inscreve em um curso pr-vestibular. Esse umgrande passo vencer o medo e voltar a conviver com as pessoas. O curso pr-vestibular um lugar muito movimentado, com muitosalunos em grandes salas de aula. No comeo, Gabriel se sente inibido,como se fosse menos capaz que os outros alunos. Entretanto, logoconhece Luiz, um jovem extrovertido que conversa com todas as pes-soas, e a amizade se d naturalmente. Junto a Luiz, Gabriel encontravrios outros rapazes e garotas e descobre que no o nico tmidoda turma. Ele se sente feliz com a nova rotina e por ser aceito em seunovo crculo de amizades. Porm, com o decorrer das aulas, Gabriel percebe que no tem maisa mesma agilidade de raciocnio e a mesma memria que tinha antesde adoecer. Sempre ca depois da aula no planto de dvidas, pois noconsegue entender muitos dos contedos dados em classe. Quando che- 6OS5649 Esquizofrenia3.indd 6 15/1/2008 12:16:49 7. ga em casa, ca estudando mais algumas horas todos os dias. O curso realiza periodicamente provas que simulam o exame vestibular, e Gabriel, apesar do esforo, no consegue ir to bem quanto seus amigos. Isso o deixa frustrado, pois ele tem dedicado-se muito aos estudos. Em uma consulta com Dr. Marcelo, desabafa: parece que depois da esquizofrenia eu fiquei mais burro, eu me esforo, mas acho que nunca mais vou ser o mesmo. Dr. Marcelo percebe a angstia e a frustrao de Gabriel e procura ajud-lo nessa questo: Gabriel, voc est em um curso muito puxado e se compara com quem vai bem nas provas, mas deixa de olhar para o grande nmero de pessoas que foram pior do que voc. A esquizofrenia pode provocar algumas dificuldades de memria e raciocnio, mas tudo na vida se consegue com muito trabalho, voc est no caminho certo. Procure no se com- parar com seus amigos, cada um de um jeito. O importante voc continuar em sua jornada, Gabriel.7OS5649 Esquizofrenia3.indd 715/1/2008 12:16:59 8. Um erro muito comumA esquizofrenia uma doena crnica, isto , precisa de tratamen-to por tempo indeterminado. Um erro muito comum das pessoas quetm doenas com essas caractersticas acharem que esto curadasquando os sintomas desaparecem e em funo desse julgamento in-terrompem o tratamento, o que comumente leva ao reaparecimento dadoena. No caso da esquizofrenia, infelizmente a volta dos sintomas,tambm chamada recada, causa para a maioria das pessoas mais per-das em seu funcionamento em relao a vida. Gabriel comete esse erro,e importante saber quais so seus motivos para entendermos o quese passa e evitar que isso acontea mais vezes.Gabriel conseguiu uma boa recuperao, mas ainda no se conscien-tizou de que a esquizofrenia, como qualquer doena, causa limitaes.Ns vivemos em uma sociedade que valoriza e estimula a competioe a aquisio individual; essa postura pode se tornar uma armadilha edicultar muito nossa vida. Gabriel vive se comparando com seus ami-gos e acha que est curado, anal no se sente mais perseguido, noouve mais vozes, voltou a estudar, tem amigos. Ele acha que o que elepassou foi uma fase ruim, j superada. Associa suas diculdades comos estudos aos efeitos dos remdios que toma e acredita que se pararde usar os remdios sua inteligncia vai melhorar. Por isso, Gabriel prade tomar os remdios e no volta s consultas com Dr. Marcelo nem ssesses de terapia ocupacional com a Ftima.Passados dois meses dessa deciso, a vida de Gabriel comea a mu-dar novamente, vejamos como isso acontece: Gabriel sempre gostou deliteratura e vinha escrevendo h algum tempo poemas e pequenos textos.Escrever uma habilidade que o faz se sentir igual a seus amigos e atmelhor do que eles. Entretanto, com o passar do tempo, sem o tratamen-to, essa atividade comea a dominar a ateno de Gabriel, ele comea aachar que seus textos so muito importantes e que podem mudar a ma- 8OS5649 Esquizofrenia3.indd 815/1/2008 12:16:59 9. neira como as novas geraes vero o mundo. Esse j um sinal que de- nota a volta dos sintomas delirantes. As vozes voltam tambm e algumas dizem que ele um grande escritor, outras dizem que ele mesquinho por no publicar o que escreve. Dominado por essas vivncias delirantes e alucinatrias, Gabriel no mostra seus escrito