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“RUÍNAS VERDES”: tradição e decadência nos imaginários sociaisWagner Cabral da Costa

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  • RUNAS VERDES: tradio e decadncia nos imaginrios sociais

    Wagner Cabral da Costa*

    RESUMO

    Anlise dos processos de construo da identidade cultural e de instituio dos imaginrios sociais sobre o Maranho. Discute-se a relevncia das noes de decadncia e de tradio na produo dos intelectuais timbiras, em sua abordagem de temas variados, tais como, a fundao da Academia Maranhense de Letras (com a institucionalizao do mito da Atenas Brasileira); a constituio de uma histria e de uma geografia regionais; as diversas leituras do texto urbano de So Luiz e Alcntara (a cidade morta). PALAVRAS-CHAVE: Decadncia; tradio; imaginrios sociais; identidade regional; Maranho.

    SUMMARY

    Analysis of the processes of cultural identity construction and of social imaginaries institution about the state of Maranho. It discusses the relevancy of the notions of decadence and tradition in the intelectual production of the timbiras, when they write about several themes, as the foundation of the Letters Academy of Maranho (with the institutionalization of the Atenas Brasileiras myth); or the history and the geography of the state; or about the readings of the urban text of So Luiz and Alcntara (the dead city). KEY-WORDS: Decadence; tradition; social imaginaries; regional identity; Maranho (Brazil).

    * Professor do Departamento de Histria da UFMA. Mestrando em Histria Social pela UNICAMP, com a dissertao Sob o signo da morte: decadncia, violncia e tradio em terras do Maranho (a ser defendida no 2o sem/2001).

  • INTRODUO

    Uma fantasmagoria preside as discusses sobre o Maranho, ocupando uma posio estratgica quando se pretende pensar o complexo e multifacetado processo de instituio dos imaginrios sociais acerca da identidade regional. H quase dois sculos, a decadncia local tem sido tematizada pelos discursos poltico, econmico e cientfico, bem como transfigurada esteticamente em verso e prosa, em sons e imagens plsticas.

    De longe, revemo-la com amor, num crepsculo de emoes que suaviza os contornos da realidade dolorosa; e atravs da meditao, que o caminho da sabedoria, e atravs da saudade, que a me da emoo mais duradoura e espiritualizada, transportamo-nos s ruas e s runas verdes de Alcntara (Raimundo Lopes).

    Casares, becos, telhados e mirantes. Runas verdes, s vezes lricas, s vezes mordazes, s vezes cruis, escondendo e preservando medos e saudades, lendas e frustraes, mortes, desejos e mistrios. Os significados da decadncia, embora remetam a um ncleo mais ou menos definido, esto sempre em disputa, em aberto, indeterminados, sendo constantemente (re)apropriados e (re)inventados segundo os mais diversos fins e interesses desde o sculo XIX. Um historiador dalm-mar j assinalou que a noo infinitamente manipulvel para fins ideolgicos... A filologia d-se conta desta ligao essencial do conceito de decadncia com um juzo de valor negativo (LE GOFF, 1996, p.413). A decadncia e sua contraparte necessria (o mito da Atenas Brasileira) se conjugam para fornecer o referencial imagtico e discursivo a partir do qual se fala e se escreve sobre o Maranho; constituindo e sedimentando vrias camadas de idias-imagens e representaes, presentes no trabalho de historiadores, gegrafos, literatos, produtores culturais, cientistas sociais, polticos (de esquerda e de direita), dentre outros. O debate sobre a identidade regional, com variaes mltiplas e contribuies

    diversas, tem preponderantemente se organizado em torno destes temas, conformando uma teia discursiva ampla que sustentou (e ainda sustenta) prticas polticas, econmicas e culturais dos mais diversos atores sociais. Tradio e decadncia como elementos instituintes e institudos dos imaginrios sociais (BACZKO, 1984; CASTORIADIS, 1986) um magma de significaes, sempre a revolver-se pela modificao dos ngulos de anlise, pela construo de novos sentidos, pela introduo de novas temticas relacionadas de forma complexa com as anteriores, pela apropriao e reinveno de antigas significaes. Processo catico, que somente a posteriori pode ser interpretado como um processo ordenado e linear. Assim, ao problematizar a noo de decadncia, procuramos perceb-la a partir de um duplo enfoque: em sua historicidade e em sua presena recorrente nos imaginrios sociais. Nosso esforo, nas pginas que seguem, consistir, portanto, numa explorao desse conjunto de questes, uma explorao fragmentria e lacunar, na medida em que recolher indcios dispersos no tempo, tendo como referente comum uma categoria supostamente espacial, o Maranho. A nvel acadmico, dois trabalhos iniciam a tarefa de questionamento da noo de decadncia, embora sob ticas diferenciadas: A ideologia da decadncia do antroplogo Alfredo Wagner Berno de Almeida e Formao social do Maranho, do socilogo Rossini Corra. Enquanto a nfase do primeiro recai na discusso prpria noo, o segundo se atm mitologia timbira da Atenas Brasileira (o mito da prodigalidade terra-gente ou teologia maranhense, segundo frmulas do autor). ALMEIDA (1982) centra o seu estudo na anlise da historiografia econmica do Maranho, desde os cronistas do incio do sculo XIX (Gayoso, Pereira do Lago e outros), passando pela documentao oficial (relatrios, falas e mensagens de Presidentes de provncia), at os historiadores do final do sculo XIX e do sculo XX. Constituindo-se num lugar estratgico s anlises, a categoria da decadncia da lavoura, utilizada nessas

  • fontes para descrever e explicar o quadro econmico conjuntural da provncia (especialmente do setor agro-exportador), sendo manuseada pelas diferentes faces polticas ao longo do tempo. Dessa forma, a categoria se cristalizou tanto no pensamento poltico oficial, quanto na produo erudita enquanto um padro explicativo aceito sem maiores contestaes, o que lhe conferiu um forte carter de consenso (o que, por sua vez, amplifica a eficcia do discurso). As origens da decadncia da lavoura residiriam em seu oposto, a prosperidade, forma de idealizao de uma suposta idade de ouro da lavoura da provncia (fins do sculo XVIII e primeiras dcadas do sculo XIX). Estabeleceu-se assim uma viso cclica da histria econmica do Maranho, que carrega consigo uma certa periodizao: a um perodo inicial de barbrie (princpios da colonizao portuguesa), seguiu-se a poca da prosperidade (com a implantao do sistema da grande lavoura escravista, como resultado das polticas de fomento pombalinas), e depois teve incio a decadncia (cujo marco terminal seria a abolio da escravatura, por provocar a runa dos grandes proprietrios). Nestes termos, a ao oficial obteria legitimidade na medida em que apontasse caminhos para o restabelecimento da prosperidade perdida. O autor conclui sua anlise afirmando ser a decadncia da lavoura a categoria central do discurso das elites regionais, esboando sua viso do conjunto dos problemas econmicos e sociais da provncia (ALMEIDA, 1982). A eficcia da ideologia da decadncia se traduz em sua reproduo acrtica pela historiografia regional, passando por VIVEIROS (1954/64), MEIRELES (1980) e TRIBUZI (1981), dentre outros. Somente com a safra de trabalhos acadmicos produzidos a partir dos anos 80, a noo de decadncia econmica comeou a ser questionada e relativizada em maior profundidade. J CORRA (1993) manifesta a preocupao de proceder crtica do mito da Atenas Brasileira em sua materializao mais recente, o projeto do Maranho Novo (organizado por Jos Sarney), bem como das relaes de fidelidade e compromisso desse

    grupo poltico com a ditadura militar. Propondo-se fazer uma anlise da categoria Maranho, com carter ensastico e panormico (sua investigao abrange do perodo colonial aos anos 1970), a partir do referencial terico do materialismo histrico e de um compromisso poltico com a redemocratizao do pas e com a cidadania, o socilogo apresenta como tese central a idia de que a permanente sobrevivncia do fantasma do passado na sociedade maranhense ... foi um espectro legitimador de interesses econmicos, culturais e polticos, complementando que a expectativa do retorno idade urea do paraso perdido, sem fundamento na realidade objetiva, protegeu-se na mtica e mgica apologia do renascimento (CORRA, 1993, p.310-1). Sua arqueologia rica em sugestes e imagens sobre as relaes entre intelectuais e poder poltico, e, especialmente, sobre a mitologia timbira, enquanto instituidora de uma identidade regional poca do Imprio, identidade permanentemente reconstruda e reinventada desde ento. Em suas palavras, as elites provinciais fabricaram uma excepcionalidade, consagrando o Maranho como partcipe da unidade nacional promovida pelo Estado imperial, mas, simultaneamente, distinguindo-se do conjunto em elaborao, pelo manuseio de uma superioridade espiritual, ao definir-se como Atenas. Numa frmula estilstica de impacto, assim resume sua tese: Atenas Brasileira provincianismo mais refinado do que o nacionalismo... Maranhenses, nascidos na Atenas Brasileira. Atenas Brasileira, nascida dos maranhenses (idem, p.102-4). Essa sugesto importante, porque fornece hipteses para pensar o processo de reao e compromisso deste provincianismo maranhense (e seus atores, intelectuais e polticos) com outros processos mais abrangentes de formao de identidades no Brasil, no somente a identidade nacional (nos diferentes termos em que esta questo foi colocada desde o sculo XIX), como tambm identidades regionais, no caso, os processos de inveno do Nordeste e da Amaznia. A situao intermdia do estado entre essas duas macro-regies brasileiras (conforme os critrios geogrficos do IBGE) foi objeto de

  • discusso por parte dos setores polticos e intelectuais locais. Mas no somente isto, pois a constituio do Maranho em Meio-Norte (ao lado do Piau), bem como sua incluso na Amaznia Legal (na condio de pr-Amaznia durante o regime militar), possibilitou, apenas a ttulo de exemplo, a captao de incentivos fiscais tanto da SUDENE quanto da SUDAM. Processos de c