Verdes Mares

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Coletânea de contos da autora Sylvia R. Pellegrino

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  • Todos os direitos autorais pertencem a autoraTexto no pode ser reproduzido, nem no todo

    nem em parte.

  • Verdes Mares

    autora

    Sylvia R. Pellegrino

    edio

  • 03

  • ndiceNoites de vero............................... 05

    As areias mornas de Caiob...... 08

    O entardecer na praia................... 19

    Fugaz lembrana.......................... 26

    Vento de agosto.............................. 37

    04

  • Noites de vero

    Voltavaparaasfriasdevero,naquelapo-ca.AminhapequenacidadedePortoMurtinhomeaguardava,namodorradesempre.Meuspaisame

    05

  • esperar naminscula rodoviria.Tinha enfrentadoalgunsquilmetrosdeterraeburaconaestradapo-eirenta.Meucorpoaindaestavadoloridodossola-vancos.Desci do nibus e abraceimeus pais comcarinho.Erabomestaremcasa,afinal. Tomei um banho tpido.A gua quase geladaparatirarocaloreosuorquegrudavamapele. Avoltapelacidadeerasagrada.Abraceivelhosamigos.Fuiverparentes. Entrava porta adentro. Ningum trancava suascasas.Umlugarejocomoaquelenemmesmoaan-siedadedeum furtopoderiaquebrar amonotonia,porqueainexistnciadissoerareal. Andeipelanicaavenidadacidadee fuiatasorveteria,pontodeencontrodosmaisjovens.En-contreiamigosquetambmvoltavamparaasfrias.Ficamosdurantealongatardequenteepacata,sen-tadosmesadalanchonete,jogandoconversafora.Nodiaseguintepasseipeloporto.Gostavadeolharaquelasmulheres,amaioriaparaguaia,lavandorou-panasmargensdorio,enquantoalgunshomensde-dilhavamharpas,nospequenosbaresbeiradoPa-raguai.Eraumaimagemquaseinslita,aquela. OlhandoacidadefiqueifelizdelembrarquemeupaitinhadeixadoamagistraturaparaseradicaremPortoMurtinho. Houveaqueleanode1955emqueoconvidaram

    06

  • paraseguiraCampoGrande.Apromootoespe-radaporminhame,hmuitosanos.Era o tempo, ainda, emqueos dois estados eramums.HaviaapenasumMatoGrosso.Apromoodemeupaiseriaparaasegundainstncia,seacei-tasse a transferncia,mas ele declinoudo convitedoTribunaldeJustia.LargavaamagistraturaparacontinuaremPortoMurtinho.Haviacriadorazes,adquiridopropriedades.Comprarafazenda,gadoeumaimensaeagradvelcasa.Ocasarobrancodaesquinaatraatodosaocairdatarde.Eraahoradoterer.Aquelerefrescodematecomaguaespecialmentegeladaerasorvidopelabombilhaquepassavademoemmo.Enquantoconversavam,osamigosiamseachegandoeasca-deiras aumentavampaulatinamente. Perto das dezhorasdanoitechegavamasharpaseoscantadores.Aguarniasaasentida.Todosparticipavameaplau-diamfelizesataltashorasdamadrugada. Ocalornaquelasparagens,quelapocadoano,eraintenso.Ficaratdemadrugadaouvindoguar-nia,parasentiroarmaisfrescodanoite,faziacomqueopovosrecomeasseavida,nodiaseguinte,pertodasdezdamanh. Aqueleprogramarotineironemsemprealegra-vaaosmaisjovens.Preferamospassarnossasnoi-tesnasorveteriaesvoltvamosparacasanofinal07

  • As areias mornas de Caiob

    NatliaolhavaomardeCaiob.Sentadanasacadapareciaverafiguradeleandandopelaareia.Chegava a sorrir ao imagin-lo acenando alegre-mente. LigouparaCarlosEduardo.Precisavaouvirsuavoz.Elecostumavaescutarmsicaclssicanofinal

    08

  • datarde.Osomentroupelotelefone.EraDebussy.CarlosEduardoapreciavaDebussy. OmaridodiziaqueningumsonharaqueAchilleClaudeDebussychegariaalgumdiaaserumgrandeartista.Aqueleeraumluxoimpossvelparaamodes-tapobrezadosDebussy.Voltouaprestaratenoaosomdamsica.TinhacertezaqueeraNuvensdeosTrsNoturnos.ConformeCarlosEduardo,osNotur-noshaviamrepresentadoumdegraunaproduode-bussyniana.Aorquestraomaisatrevidadoqueemsuaspeasanterioreseosistemaharmnicoal-canainovaesinsuspeitasdiantedoplenoaprovei-tamentodasescalasorientaisegregas,queomestreconseguiutirar.Eleconseguiujuntarummundodesonhospormeiodesensaesnovas.CarlosEdu-ardosimplesmentedeliravaaoouvirDebussyeemespecialosTrsNoturnos. Prestouatenoaoqueelefalava.Quandovocpretendevoltar?Elefalavadacasadepraianocon-domnioAtami,ondepassavamasfriasdevero.Continuouaconversa,falandosobrearotina,otrivial.Odesejodeouvi-lopassou.Oencantoda-quelesmomentosdiantedomardeCaiobquase

    evaporou.Respondeucomsecura,quesofarianodiaseguinte.Depoissearrependeudotom,maspa-

    receu-lhequeomaridosequernotara. Voltouaouvirosomdomar,naqueleseumur-09

  • mriocontnuo.Osolsepunhanohorizonte.Aindacomasnotasmusicaisnoouvidoapreciouabeleza

    presentenaNatureza. FoinumfimdetardeassimqueelaseentregaraaMuriloeaoseuamor.Asareiasmornas,pelosoldo

    diainteiro,receberamoscorposdosdois. Olhouemderredor.Asalaondetantasvezeses-tiveramjuntospareciaintacta.Osofondesaciaramasededapaixoqueosenvolviapareciaomesmo.Aindaestaval,comoparatestemunharaqueleamor.Masoamor...oamorjnoexistia.Ouexistiadentrodela? SeuamorporMuriloforafeitodetantosencon-tros e desencontros, tantas alegrias e umaprofundatristeza. Oseutrabalhonoescritrioafaziadedicar-sein-teiramenteaadvocacia.Seutempopessoaleraescas-so.Vieradeumainfnciapobre,rfdemeeaban-donodepai.Foraoarrimofamiliar,desdetenrostrezeanos,juntamentecomosdoisirmosmaisvelhos,dosquatromaisnovos.Depoisdeformadaseguiraseuca-minho.Saraquasecomoumafugitivadesuapeque-nacidadenointeriordoestadodeSoPaulo.Segui-raparaCuritiba,aconvitedealgunsadvogados,parafazerpartedoescritrio.Aquiloaentusiasmara.Erasuaoportunidade.Saltoficaraparatrsesuafamliatambm.Os irmos a condenaram.No aprovavam

    10

  • seuafastamentodafamlia. Jfaziamuitotempoquetrabalhavanoescrit-rioquandoconheceuCarlosEduardo.Foraelaaad-vogadaaacompanh-lonaaudinciadeseparao.Depoiselenomaisaprocurara,apesardehav-laencantadocomdocespalavras. Murilo,tambmadvogadodoescritrio,desco-brira,deummomentoparaoutro,seuinteresseporela. Naquele tempo, alm de suas pinturas, tinhaMurilo.Suasolidopareciadesvanecer-sediantedaalegriaquaseinfantildele. F-laconhecerpaiJoaquim,comoochamava.AprendeuaamaraquelevelhonegrocomomesmoamorqueMurilolhededicava.Visitavamconstan-tementepaiJoaquim,napequeninacasacaiadadebranconosopdaSerradaGraciosa.Ouvia,feliz,lendas sobre osOrixs.Outras vezes se deliciavacomseuhobbyepintavaovelhonegroenrodilhan-doafumaadeseucachimbo,sentadofrentedapequenacasinhola.PaiJoaquimlhefalavadeOxum,seuorixprotetor.EpediaqueelaseguisseoriodeOxumporquelestavaseudestino. Certodia,ficouencantadacomoramalhetedeflores que encontrou sobre amesa de sua sala noescritrioeumcartocompalavrasqueaemocio-11

  • naram. Apartirdaquelediaelepassouapresente-lacomumramodefloressilvestrestodososdiaseench-lademimos. Numanoite,apsiremaoTeatroGuaraeseenle-varemcomaOrquestraSinfnicainterpretandoBra-ms,RachmaninoveRavel,convidou-aparaveremaluanaSerradoMar.Apesardosustoinicial,seguiuMurilonabuscadoromantismodoluar. Aluacheiaeredondailuminavaoasfalto.Eleaconvidou para apreciarem o espetculo. Saram docarroeforamplenamenteiluminados.Eleatocoudeleveinicialmente,depoiselasentiusuaurgncia.En-traramnocarroeseamaramatamadrugada.Depoisdormiramnosbraosumdooutro,extenuadospeloamor. Otelefonetocounovamenteetirou-adeseuspen-samentos.Pensouemnoatender,massabiaqueeraele.Omaridodeviaestarsentindoasuafalta.Aten-deuamuada,pormnodeixoutransparecernavoz. Elequeriasaberseestavatudobem,sehaviapa-gadoocondomnioeseaporteiravinhamantendooapartamentolimpo? Respondeuatodasasperguntasprticasdomari-doedespediu-sedele.Nodiaseguinteestariamjun-tos,eramelhordormirem. Voltoussuaslembranasedetantasvezesquese

    12

  • deitaram,Muriloeela,nasmornasareiasdeCaiob.Jagoraaluacheiaestavaempinadanocu.Prefe-riutentardormir,masamenteestavarevoltaecheiadefatosjpassados. Forapraticamenteumanodeamoratque,tam-bmemCaiob,receberaanotciaquemudariasuavida.Eles se separaramnofinal do ano.Ela acostuma-daaumavidamaispacatapreferiuficaremCaiobeesper-lo.Seriamalgunsdiasdeseparao,paraquepudesseserefazerdavidasocialagitada.Suasolidodesaparecera,massuavidaseagitara.Mu-riloforaaNovaYorkpassaroNataleAnoNovo,enquantoaproveitavaparasolucionarumcasodif-cildoescritrio.UmacidentedeavionavoltadeNovaYork.Muriloestavamorto.Anotcialhecaracomoumabomba.AsubidadaSerradoMar,ocaixofechado,ospaisdelequeelanoconhecia,osamigosdoescritrio,tudopareciaodesenrolardeumfilmedeterror.Asolidovoltouasersuacompanheira.Ningumaprocurava.Tirarafriasparabebersuadoratoltimogole.SeunicolenitivofoiprocurarpaiJoaquim.EleeraonicoeloverdadeiroentreelaeMurilo.Assema-nasforampassandoequandovoltoudefriasseucoraojestavamaislevedador.13

  • NessapocaCarlosEduardovoltouaprocur-la.In-sistiucomsuacompanhia.Mostrou-lheummundodealtasrodassociais.Veio-lhememriaumadasprimeirasnoitesemquesaracomCarlosEduardo.A noite estava clara, apesar da lua crescente. EraagradvelrespiraroarnoturnodeCuritiba.Naquelejunhojsecomeavaasentiracadadatemperatura,masanoitemostravaocunegrosalpicadodeestre-las. CarlosEduardoaobservavadocarro.Colocaraumvestidopreto curto comumapequenapelerineemveludo, sobre os ombros, que lhe caammuitobem.TrocaraoParispeloBulgari,daCristianDior.Noqueriaqueoodordoperfume lhe trouxesselembranaafiguradeMurilo. ElealevouatoChalletSuisse,emSantaFelici-dade. O restaurante era numa casa em estilo suo,construdabemnoaltodoterreno,todarodeadaporjardins,extremamentebemcuidados.Ailuminaoindiretaeamareladasobreasplantasconferia-lheumarbuclico. Suaalmadeartistaencantou-secomacena. CarlosEduardo,percebendooencantamentodeNatlia.Brincou: Penavoc teresquecidoa telaeospincis,no?

    14

  • Nosepreocupe,eu tenhotimamemria.CompletouNatlia,jimaginandocomoficariabelaaquelacenaimpressanumatela.Jnointerior,elespenetraramnoamploeagradvelambiente,comoarimpregnadodecheiroseodoresdepratosdeliciosos,floreseperfumes.Gruposdepessoaselegantementetrajadassentavam-seaquieacol.AconversadiscretadaquelagentedespertaraemNatliaasensaodeummundodistantedaque-levividocomMurilo.OlhouoambienteesesentiufelizemcompanhiadeCarlosEduardo,pormaquilonoaentusiasmariaacasar-secomele,noentantoaperspectivamaioremaisprofundaaoseusereravoltadaparaofatodeconstituirumafamlia.Teriaduasfilhasadotivasdoprimeirocasamentodeleeapossibilidadedeterfilhosseus.Encantou-secomaidia. ConheceuArmand,omordomoeamigopessoaldeCarlos Eduardo. Ocorreu a empatia. PercebianasmaneirassutisefleumticasdeArmandocari-nhoporelaeumaaprovaotcitadeseucasamen-tocomCa