O Mundo Codificado - Vil©m Flusser

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  • Vilm Flusser

    O MUNDO CODIFICADO P O R U M A F I L O S O F I A D O D E S I G N E D A C O M U N I C A O

    o r g a n i z a o R a f a e l C a r d o s o t r a d u o R a q u e l A b i - S m a r a

    L I V R A R I A I N T E R N A C I O N A L

    www.sbs.com.br l i v r a r i a i n t e r n a c i o n a l @ s b s . c o m . b r

  • I N T R O D U O R a f a e l C a r d o s o 7

    rosAs F O R M A E M A T E R I A L 2 2 A F B R I C A 3 3 A A L A V A N C A C O N T R A - A T A C A 4 5 A N A O C O I S A [ 1 ] 51 A N A O C O I S A [ 2 ] 5 9 R O D A S 6 6 S O B R E F O R M A S E F O R M U L A S 7 5 P O R Q U E A S M A Q U I N A S D E E S C R E V E R E S T A L A M ? 8 0

    C D I G O S O Q U E C O M U N I C A O ? 8 8 L I N H A E S U P E R F C I E 101 O M U N D O C O D I F I C A D O 1 2 6

    O F U T U R O D A E S C R I T A 138

    I M A G E N S N O S N O V O S M E I O S 151

    U M A N O V A I M A G I N A O 1 6 0

    C O N S T R U E S S O B R E A P A L A V R A D E S I G N 1 8 0

    O M O D O D E V E R D O D E S I G N E R 187

    D E S I G N O B S T C U L O P A R A A R E M O C A O D E O B S T C U L O S ? 193 U M A T I C A D O D E S I G N I N D U S T R I A L ? 1 9 9 D E S I G N C O M O T E O L O G I A 2 0 5

    F o n t e s d o s t e x t o s 2 1 6

    B i b l i o g r a f i a 218 S o b r e o a u t o r 221

  • C O I S A S

  • F O R M A E M A T E R I A L

    L

  • A palavra "imaterial" {immaterielV) t e m s ido alvo de disparates 23 h bas tante t e m p o . Mas, desde que se c o m e o u a falar de

    "cultura imaterial", e s s e s disparates n o p o d e m mais ser to -lerados. Este ensa io t e m a in teno de recuperar o conce i to , a tua lmente m u i t o distorcido, de "imaterialidade**.

    A palavra materia resulta da tentativa dos romanos de traduzir para o lat im o t e r m o grego hyl. Originalmente , hyl significa "madeira", e a palavra materia deve ter designa-do algo similar, o que n o s sugere a palavra espanhola madera. No entanto , quando os gregos passaram a empregar a pala-vra hyl, no pensavam e m madeira n o sent ido genrico do termo, mas referiam-se madeira estocada nas oficinas dos carpinteiros. Tratava-se, para eles, de encontrar uma pala-vra que pudesse expressar oposio e m relao ao conceito de "forma" (a morph grega). Hyl, portanto , significa algo amorfo. A idia fundamental aqui a seguinte: o m u n d o dos f enmenos , tal c o m o o percebemos com os n o s s o s sent idos , uma geleia amorfa, e atrs desses f e n m e n o s encontram-se ocultas as formas eternas , imutveis , que p o d e m o s per-ceber graas perspectiva suprassensvel da teoria. A geleia amorfa dos f e n m e n o s (o "mundo material") uma iluso

  • 2-4

    e as formas que se encontram encobertas a lm dessa iluso (o "mundo formal") so a realidade, que pode ser descoberta com o auxlio da teoria. E ass im que a descobrimos, co-nhecendo c o m o os f e n m e n o s amorfos afiuem s formas e as preenchem para depois aflurem novamente ao informe.

    Essa opos io hyl-morph, o u "matria-forma", fica ain-da mais ev idente se traduzirmos a palavra "matria" (Mate-riel por "estofo" (Stoff). A palavra "estofo" o substant ivo do verbo "estofar" (jstopferi). O m u n d o material (jnaterielle VJelt) aqui lo q u e g u a r n e c e as formas c o m e s t o f o , o re-cheio (Fllsel) das formas. Essa i m a g e m m u i t o mais escla-recedora d o que a da madeira enta lhada que gera formas, porque m o s t r a que o m u n d o "do es to fo" (stoffliche Welt) s se realiza ao se tornar o p r e e n c h i m e n t o de algo. A pala-vra francesa que c o r r e s p o n d e a "recheio" (Fllsel) farce, o que torna poss ve l a afirmao de que, t eor icamente , t o d o material (Materielle) e todo es tofo (Stoffliche) do m u n d o no de ixam de ser u m a farsa. Com o d e s e n v o l v i m e n t o das c in-cias, a perspectiva terica entrou numa relao dialtica com a perspect iva sensr ia ("observao teoria experi-mento") , que p o d e ser in terpretada c o m o opac idade da teoria . E a s s i m se c h e g o u a u m m a t e r i a l i s m o para o qual a matr ia a real idade. Mas hoje e m dia, s o b o i m p a c t o da informt ica , c o m e a m o s a retornar ao c o n c e i t o original de "matria" c o m o u m p r e e n c h i m e n t o trans i tr io de for-m a s a tempora i s .

    Por razes cuja explicao ultrapassaria o objet ivo des te ensa io , desenvo lveu- se a opos io "matria-esprito", inde-p e n d e n t e m e n t e d o conce i to filosfico de matria . O concei-to original nessa opos io que corpos s l idos p o d e m ser

  • transformados e m l quidos , e o s l quidos , e m gases , p o d e n -do e n t o escapar do n o s s o c a m p o de v iso. A s s i m se pode entender , por exemplo , o hl i to ( em grego, pneuma; e m la-t im, spiritus) c o m o a gas incao d o s l ido corpo h u m a n o . A transio d o sl ido para o g a s o s o (do corpo ao esprito) pode ser observada n o efe i to d o sopro e m dias frios.

    Na cincia moderna , a idia da mudana de e s tados da matria (do s l ido ao l quido, do l quido ao g a s o s o e vice-versa) d e u or igem a u m a nova i m a g e m d o m u n d o . Trata-se, grosso modo, de u m a mudana entre dois hor i zontes . Em u m deles (o do zero absoluto) , t u d o o que se mostra sli-do (material); j n o outro h o r i z o n t e (na ve loc idade da luz), tudo se apresenta n u m e s t a d o mais do que g a s o s o (energ-tico). (Vale lembrar aqui que "gs" e "caos" so a m e s m a pala-vra.) A opos io "matria-energia" que aparece aqui n o s re-m e t e ao espir i t i smo: p o d e - s e converter matria e m energia (fisso) e energia e m matria (fuso) a frmula de Eins-te in faz e s sa articulao. C o n f o r m e a v i so de m u n d o da cincia moderna , tudo energia, ou seja, a possibi l idade de aglomeraes casuais, improvveis , a capacidade de for-mao da matria . A "matria", nes sa v i so de m u n d o , equi-para-se a ilhas temporrias de ag lomeraes (curvaturas) e m c a m p o s energt icos de poss ibi l idades , que se entrecru-zam. E da provm o desprops i to , e m m o d a hoje e m dia, de se falar de "cultura imaterial". O que se e n t e n d e aqui uma cultura e m que as in formaes so introduzidas e m um campo e l e tromagnt i co e transmit idas a partir des se campo. O desprops i to cons i s t e no apenas n o abuso do conce i to "imaterial" ( e m lugar de "energtico") c o m o t a m -bm na c o m p r e e n s o inadequada do t e r m o "informar".

    2 5

  • R e t o m e m o s a opos io original "matria-forma", i s to , "contedo-continente". A idia bsica esta: se vejo a lguma coisa, u m a mesa , por exemplo , o que vejo a madeira e m forma de mesa . verdade que essa madeira dura (eu trope-o nela) , m a s sei que perecer (ser que imada e d e c o m p o s -ta e m cinzas amorfas) . Apesar d isso , a forma "mesa" eter-na, pois p o s s o imagin-la q u a n d o e o n d e eu est iver (posso coloc-la ante m i n h a visada terica) . Por i sso a forma "mesa" real e o c o n t e d o "mesa" (a madeira) apenas aparente.

    26 Isso mostra , na verdade, o que os carpinteiros fazem: pe-gam u m a forma de m e s a (a "idia" de u m a mesa) e a im-p e m e m u m a pea amorfa de madeira. H u m a fatalidade n e s s e ato: os carpinteiros no apenas in formam a madeira (quando i m p e m a forma de mesa) , mas t a m b m deformam a idia de m e s a (quando a d is torcem na madeira) . A fata-l idade cons i s te t a m b m na imposs ibi l idade de se fazer u m a m e s a ideal.

    Isso tudo p o d e soar arcaico, n o e n t a n t o de u m a atua-lidade, d igamos , abrasadora. Vejamos u m e x e m p l o s imples e p o s s i v e l m e n t e esclarecedor: o s corpos d e n s o s que n o s ro-de iam parecem rolar i n d e p e n d e n t e m e n t e de regras, m a s na realidade o b e d e c e m frmula da queda livre. O m o v i m e n t o percebido pe los s e n t i d o s (aquilo que material n o s corpos) aparente , e a frmula d e d u z i d a t e o r i c a m e n t e (aquilo que formal n o s corpos) real. E es sa frmula (ou essa forma) es t fora d o t e m p o e do espao , inal teravelmente eterna. A frmula da queda livre u m a equao matemt ica , e as equaes so desprovidas de t e m p o e de espao: no faz sent ido perguntar se a equao "1 + 1 = 2" igualmente ver-dadeira s quatro horas da tarde e m Semipalat insk. Mas

  • t a m b m faz p o u c o s e n t i d o d i z e r q u e a f r m u l a " i m a t e -rial". Ela o como d a m a t r i a , e a m a t r i a o o qu d a for -m a . E m o u t r a s pa lavras : a i n f o r m a o "queda l ivre" t e m u m c o n t e d o ( c o r p o ) e u m a f o r m a ( u m a f r m u l a m a t e m t i c a ) . U m a e x p l i c a o c o m o e s s a p o d e r i a t e r s i d o d a d a n o p e r o -d o b a r r o c o .

    M a s a p e r g u n t a i n s i s t e : c o m o Gal i leu c b e g o u a e s s a idia? S e r q u e a d e s c o b r i u t e o r i c a m e n t e , a l m d o s f e n -m e n o s ( i n t e r p r e t a o p l a t n i c a ) , o u a t e r i a i n v e n t a d o c o m a f i n a l i d a d e d e orientar-se e n t r e o s c o r p o s ? O u p o r a c a s o 27 ter ia p a s s a d o l o n g o t e m p o b r i n c a n d o c o m c o r p o s e i d i a s a t q u e s u r g i s s e a i d i a d a q u e d a l ivre? A r e s p o s t a a e s s a p e r g u n t a d e c i d i r s e o e d i f c i o d a c i n c i a e d a a r t e p e r m a -n e c e o u cai, e s s e p a l c i o d e cr i s ta l d e a l g o r i t m o s e t e o r e m a s a q u e c h a m a m o s d e c u l t u r a o c i d e n t a l . Para aclarar e s s e p r o -b l e m a e i lus trar a q u e s t o d o p e n s a m e n t o f o r m a l , c i t e m o s o u t r o e x e m p l o d o t e m p o d e Gal i l eu .

    T r a t a - s e d a p e r g u n t a s o b r