Vil©m flusser -_filosofia_da_caixa_preta

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  • 1. VILM FLUSSERFilosofia da Caixa PretaEnsaios para uma futura filosofia da fotografiaEDITORA HUCITEC So Paulo, 19851

2. Direitos autorais 1983 de Vilm Flusser. Ttulo do original alemo: Fr eine Philosophie der Fotografie. Traduo do autor. Direitos de publicao em lngua portuguesa reservados pela Editora de Humanismo, Cincia e Tecnologia Hucitec Ltda., Rua Comendador Eduardo Saccab, 344 04602 So Paulo, Brasil. Tel.: (011) 61-6319.Projeto grfico: Estdio Hucitec.Capa: Fred Jordan. Foto da contracapa: Sakae Tajima.Flusser, Vilm, 1920 -Filosofia da caixa preta So Paulo : Hucitec, 1985. 92 p.2 3. SUMRIOPrefcio edio brasileiraGlossrio para uma futura filosofia da fotografia1 2 3 4 5 6 7 8 9A imagem A imagem tcnica O aparelho O gesto de fotografar A fotografia A distribuio da fotografia A recepo da fotografia O universo fotogrfico A necessidade de uma filosofia da fotografiaFlusser e a liberdade de pensar, ou Flusser e uma certa gerao 60 Maria Lilia Leo3 4. PREFCIO A EDIO BRASILEIRAO presente ensaio resumo de algumas conferncias e aulas que pronunciei sobretudo na Frana e na Alemanha. A pedido da European Photography, Gttingen, foram reunidas neste pequeno livro publicado em alemo em 1983. A reao do pblico (no apenas dos fotografos, mas sobretudo do interessado em filosofia) foi dividida, porm intensa. Em consequncia polmica criada, escrevi outro ensaio Ins Universum der technischen Bilder ( Adentrando o universo das imagens tecnicas), publicado em 85, onde procuro ampliar e aprofundar as reflexes aqui apresentadas. Estas partem da hiptese segundo a qual seria possvel observar duas revolues fundamentais na estrutura cultural, tal como se apresenta, de sua origem at hoje. A primeira, que ocorreu aproximadamente em meados do segundo milnio a C., pode ser captada sob o rtulo inveno da escrita linear e inaugura a Histria propriamente dita; a segunda, que ocorre atualmente, pode ser captada sob o rtulo inveno das imagens tcnicas e inaugura um modo de ser ainda dificilmente definvel. A hiptese admite que outras revolues podem ter ocorrido em passado mais remoto, mas sugere que elas nos escapam. Para que se preserve seu carter hipottico, o ensaio no citar trabalhos precedentes sobre temas vizinhos, nem conter bibliografia. Espera assim criar atmosfera de abertura para campo virgem. No obstante, incorporar um breve glossrio de termos explcitos e implcitos no argumento, no intuito de clarear o pensamento e provocar contra-argumentos. As definies no glossrio no se querem teses para defesas, mas hipteses para debates. A inteno que move este ensaio contribuir para um dilogo filosfico sobre o aparelho em funo do qual vive a atualidade, tomando por pretexto o tema fotografia. Submeto-o, pois, apreciao do pblico brasileiro. Faa-o com esperana e com receio. Esperana, porque, ao contrrio dos demais pblicos que me lem, sinto saber para quem estou falando; receio, por desconfiar da possibilidade de no encontrar reao crtica. Este prefcio se quer, pois, aceno aos amigos do outro lado do Atlntico e aos crticos da imprensa. Que me leiam e no me poupem. Percebo que editar este ensaio no contexto brasileiro empresa aventurosa. Quero agradecer aos que nela mergulharam, sobretudo Maria Llia Leo, por sua coragem e amizade. Que sua iniciativa contribua para o dilogo brasileiro. V. F. So Paulo, outubro 854 5. GLOSSRIO PARA UMA FUTURA FILOSOFIA DA FOTOGRAFIAAparelho: brinquedo que simula um tipo de pensamento. Aparelho fotogrfico: brinquedo que traduz pensamento conceitual em fotografias. Autmato: aparelho que obedece a programa que se desenvolve ao acaso. Brinquedo: objeto para jogar. Cdigo: sistema de signos ordenado por regras. Conceito: elemento constitutivo de texto. Conceituao: capacidade para compor e decifrar textos. Conscincia histrica: conscincia da linearidade ( por exemplo, a causalidade). Decifrar: revelar o significado convencionado de smbolos. Entropia: tendncia a situaes cada vez mais provveis. Fotografia: imagem tipo-folheto produzida e distribuda por aparelho. Fotgrafo: pessoa que procura inserir na imagem informaes imprevistas pelo aparelho fotogrfico.Funcionrio: pessoa que brinca com aparelho e age em funo dele. Histria: traduo linearmente progressiva de idias em conceitos, ou de imagens em textos. Idia: elemento constitutivo da imagem. Idolatria: incapacidade de decifrar os significados da idia, no obstante a capacidade de l-la, portanto, adorao da imagem. Imagem: superfcie significativa na qual as idias se inter-relacionam magicamente. Imagem tcnica: imagem produzida por aparelho. Imaginao: capacidade para compor e decifrar imagens. Informao: situao pouco-provvel. Informar: produzir situaes pouco-provveis e imprimi-las em objetos. Instrumento: simulao de um rgo do corpo humano que serve ao trabalho. Jogo: atividade que tem fim em si mesma. Magia: existncia no espao-tempo do eterno retorno. Mquina: instrumento no qual a simulao passou pelo crivo da teoria. Memria: celeiro de informaes. Objeto: algo contra o qual esbarramos. Objeto cultural: objeto portador de informao impressa pelo homem. Ps-histria: processo circular que retraduz textos em imagens. Pr-histria: domnio de idias, ausncia de conceitos; ou domnio de imagens, ausncia de textos. Produo: atividade que transporta objeto da natureza para a cultura. Programa: jogo de combinao com elementos claros e distintos. Realidade: tudo contra o que esbarramos no caminho morte, portanto, aquilo que nos interessa. Redundncia: informao repetida, portanto, situao provvel. Rito: comportamento prprio da forma existencial mgica. Scanning: movimento de varredura que decifra uma situao. Setores primrio e secundrio: campos de atividades onde objetos so produzidos e informados. Setor tercirio: campo de atividade onde informaes so produzidas.5 6. Significado: meta do signo. Signo: fenmeno cuja meta outro fenmeno. Smbolo: signo convencionado consciente ou inconscientemente. Sintoma: signo causado pelo seu significado. Situao: cena onde so significativas as relaes-entre-as-coisas e no as coisasmesmas.Sociedade industrial: sociedade onde a maioria trabalha com mquinas. Sociedade ps-industrial: sociedade onde a maioria trabalha no setor tercirio. Texto: signos da escrita em linhas. Textolatria: incapacidade de decifrar conceitos nos signos de um texto, no obstante a capacidade de l-los, portanto, adorao ao texto.Trabalho: atividade que produz e informa objetos. Traduzir: mudar de um cdigo para outro, portanto, saltar de um universo a outro. Universo: conjunto das combinaes de um cdigo, ou dos significados de um cdigo. Valor: dever-se. Vlido: algo que como deve ser.6 7. 1. A IMAGEMImagens so superfcies que pretendem representar algo. Na maioria dos casos, algo que se encontra l fora no espao e no tempo. As imagens so, portanto, resultado do esforo de se abstrair duas das quatro dimenses espcio-temporais , para que se conservem apenas as dimenses do plano. Devem sua origem capacidade de abstrao especfica que podemos chamar de imaginao. No entanto, a imaginao tem dois aspectos: se de um lado, permite abstrair duas dimenses dos fenmenos, de outro permite reconstituir as duas dimenses abstradas na imagem. Em outros termos: imaginao a capacidade de codificar fenmenos de quatro dimenses em smbolos planos e decodificar as mensagens assim codificadas. Imaginao a capacidade de fazer e decifrar imagens. O fator decisivo no deciframento de imagens tratar-se de planos. O significado da imagem encontra-se na superfcie e pode ser captado por um golpe de vista. No entanto, tal mtodo de deciframento produzir apenas o significado superficial da imagem. Quem quiser aprofundar o significado e restituir as dimenses abstradas, deve permitir sua vista vaguear pela superfcie da imagem. Tal vaguear pela superfcie chamado scanning. O traado do scanning segue a estrutura da imagem, mas tambm impulsos no ntimo do observador. O significado decifrado por este mtodo ser, pois, resultado de sntese entre duas intencionalidades: a do emissor e a do receptor. Imagens no so conjuntos de smbolos com significados inequvocos, como o so as cifras: no so denotativas. Imagens oferecem aos seus receptores um espao interpretativo: smbolos conotativos. Ao vaguear pela superfcie, o olhar vai estabelecendo relaes temporais entre os elementos da imagem: um elemento visto aps o outro. O vaguear do olhar circular: tende a voltar para contemplar elementos j vistos. Assim, o antes se torna depois, e o depois se torna o antes. O tempo projetado pelo olhar sobre a imagem o eterno retorno. O olhar diacroniza a sincronicidade imaginstica por ciclos. Ao circular pela superfcie, o olhar tende a voltar sempre para elementos preferenciais. Tais elementos passam a ser centrais, portadores preferenciais do significado. Deste modo, o olhar vai estabelecendo relaes significativas. O tempo que circula e estabelece relaes significativas muito especfico: tempo de magia. Tempo diferente do linear, o qual estabelece relaes causais entre eventos. No tempo linear, o nascer do sol a causa do canto do galo; no circular, o canto do galo d significado ao nascer do sol, e este d significado ao canto do galo. Em outros termos: no tempo da magia, um elemento explica o outro, e este explica o primeiro. O significado das imagens o contexto mgico das relaes reversveis. O carter mgico das imagens essencial para a compreenso das suas mensagens. Imagens so cdigos que traduzem eventos em situaes, processos em cenas. No que as imagens eternalizem eventos; elas substituem eventos por cenas. E tal poder mgico, inerente estruturao plana da imagem, domina a dialtica interna da imagem, prpria a toda mediao, e nela se manifesta de forma incomparvel. Imagens so mediaes entre homem e mundo. O homem existe, isto , o mundo no lhe acessvel imediatamente. Imagens tm o propsito de representar o mundo. Mas, ao faz-lo, entrepem-se entre mundo e homem. Seu propsito serem mapas do mundo, mas passam a ser biombos. O homem, ao invs