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Rafael Miguel Alonso Jnior

DI (VULGAR) A CINCIA: JOS REIS E ALGUNS

APONTAMENTOS SOBRE O MTODO

Dissertao apresentada ao

Programa de Ps-Graduao em

Literatura da Universidade Federal

de Santa Catarina para a obteno

do Grau de Mestre em Literatura

Orientador: Prof. Dr. Carlos

Eduardo Schmidt Capela

Florianpolis

2014

Rafael Miguel Alonso Jnior

DI (VULGAR) A CINCIA: JOS REIS E ALGUNS

APONTAMENTOS SOBRE O MTODO

Esta Dissertao foi julgada adequada para obteno do Ttulo de

Mestre em Literatura e aprovada em sua forma final pelo Curso de Ps-

Graduao em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina.

Florianpolis, 22 de abril de 2014.

________________________

Profa. Dra. Maria Lucia de Barros Camargo

Coordenadora do Curso

Banca Examinadora:

________________________

Prof. Dr. Carlos Eduardo Schmidt Capela

Orientador

UFSC

________________________

Prof. Dr. Gustavo Bernardo Galvo Krause

UERJ

________________________

Prof. Dr. Luiz Felipe Soares

UFSC

________________________

Prof. Dr. Ral Hctor Antelo

UFSC

Agradecimentos

Ao CNPq, pelo financiamento dado nos ltimos doze meses.

Aos meus pais, pelo apoio incondicional e pelo respeito

irrestrito s minhas decises de vida.

Aos meus amigos, universitrios ou no, pelas conversas,

debates, cervejas e discordncias.

A meu orientador, Capela, pelos inmeros bate-papos

informais, aulas, conselhos, orientaes, leituras e, acima de tudo, pela

amizade construda nesses anos de parceria.

A Jaqueline, a companheira de todas as horas, pelo combustvel

nos momentos de esmorecimento, pelo colo doce nos momentos de

desespero e pelo abrao quente nos momentos de prazer.

O ideal seria que o tempo pudesse parar, e eu continuasse em

movimento.

Capela, durante um dos cursos ministrados no PPGL, em data que foge

memria.

Resumo

A proposta da pesquisa elaborar criticamente o conceito de divulgao

cientfica tendo por objeto de estudo os textos publicados pelo mdico,

jornalista e divulgador Jos Reis (1907-2002) na revista Anhembi entre

1955 e 1962. A escolha por Reis leva em conta o seu pioneirismo na

divulgao no mbito brasileiro e por ter transformado a cincia de

forma geral em bandeira nacional. Pelo fato de a divulgao trazer

implicitamente a separao entre o alto e o baixo, mestre e ignorante,

alm de empunhar em seu discurso uma ideia de cincia racional e

objetiva, este trabalho acredita que o problema da divulgao envolve

aspectos epistemolgicos e metodolgicos relevantes, inclusive para

serem pensados no espao das chamadas cincias humanas. A partir

desta linha, a pesquisa pe em questo as relaes entre cincia e

filosofia, cincia e literatura, a fim de pensar, no limite, a prpria cincia

como fico.

Palavras-chave: Cincia, Divulgao, Mtodo, Fico, Literatura.

ABSTRACT

The objective of this paper is critically elaborate the concept of

scientific divulgation having as object of study texts published by the

physician and journalist Jos Reis (1907-2002) in Anhembi journal between 1955 and 1962. The choice of Reis takes into account its

pioneering in the brazilian context and the fact that he has transformed

science in general in a national flag. The divulgation brings implicitly

the separation between high and low, master and ignorant, and carries in

his speech an idea of rational and objective science. Because of that, this

paper believes that the problem of scientific divulgation involves

relevant epistemological and methodological aspects, even to be thought

in the space of human sciences. In this way, the research calls into

question the relationship between science and philosophy, science and

literature, in order to think, ultimately, science itself as fiction.

Keywords: Science, Divulgation, Method, Fiction, Literature.

Sumrio

1. Da dvida sobre a ubiquidade ........................................................ 17

2. De quem e de onde se fala ............................................................... 28

2.1 De Anhembi ................................................................................. 34

2.2 Da cincia em Anhembi ............................................................... 44

3. Da divulgao cientfica .................................................................. 52

4. Da cincia e da literatura ................................................................ 78

4.1 Da cincia e da literatura, em Jos Reis ...................................... 84

4.2 Da literatura e da cincia, em Jos Reis ...................................... 98

5. Do amadorismo e da atitude cientfica: um projeto para o Brasil

............................................................................................................. 108

6. Da cincia como fico .................................................................. 126

7. Das consideraes finais ................................................................ 144

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS: ........................................... 146

ANEXO: Outros textos de Jos Reis em Anhembi ......................... 158

17

1. Da dvida sobre a ubiquidade

Em 1928, Paul Valry escreve La conqute de lubiquit1 (A

conquista da ubiqidade), texto no qual admite que as ento recentes

inovaes da tcnica no deixariam intacta a arte. Na medida em que as

novas possibilidades tcnicas mexeriam com as formas sensveis de

percepo, a produo das obras de arte tambm seria afetada. Formas

diferentes de percepo exigiriam dos artistas que passassem a produzir

obras a partir de novas bases, compatveis com as mudanas em curso e

com as transformaes geradas no olhar dos espectadores. Il faut

sattendre que de si grandes nouveauts transforment toute la technique

des arts, agissent par l sur linvention elle-mme, aillent peut-tre

jusqu modifier merveilleusement la notion mme de lart2. Valry

conta que, em tempos antigos, o desfrute de uma obra de arte

demandava ocasio especial e local apropriado, sem contar que o acesso

s obras estava vedado a uma grande parcela da sociedade. No era

qualquer um, muito menos em qualquer lugar, que se poderia assistir a

uma pea de teatro, observar um quadro ou acompanhar a uma pera.

Neste sentido, a principal mudana trazida pelos novos meios tcnicos,

num primeiro momento, foi permitir que toda obra fosse exibida e vista

em qualquer lugar e a qualquer momento, conforme o humor e a

vontade do espectador. Tal processo culminava em perda de autoridade

da obra e do artista. Les oeuvres acquerront une sorte dubiquit. Leur

prsence immdiate ou leur restitution toute poque obiront notre

appel. Elles ne seront plus seulement dans elles-mmes, mais toute ou

quelquun sera, et quelque appareil3. A discusso de Walter Benjamin a

respeito da passagem do valor de culto ao valor de exposio das obras

de arte no est distante das assertivas de Valry.

Diante da oportunidade ubqua de admirar uma obra de arte, era

natural que essa mudana afetasse, inicialmente, a msica. Afinal, das

formas de arte mais conhecidas, a msica a que demanda o menor

esforo tcnico para ser transportada atravs dos aparelhos

eletrnicos. Somada a essa facilidade tcnica est o fato de a msica ser

aparentada, em seu modo de produo e transmisso, fsica, disciplina

1VALRY, Paul. La conqute de lubiquit. In: ____ Ouevres. Tome II. Paris: Gallimard,

1960. Disponvel em: classiques.uqac.ca/classiques/Valery_paul/conquete_ubiguite/valery_conquete_ubiquite

_conquete_ubiquite.pdf. 2 Ibidem. 3 Ibidem.

18

cientfica que no parava de ganhar terreno e repercusso na virada do

sculo XIX para o sculo XX. Um terceiro elemento em favor da msica

deve ser acrescentado aos dois argumentos anteriores: a msica , por

assim dizer, uma arte universal, pois a sua contemplao no exige um

aparato conceitual por parte do ouvinte/espectador. Qualquer um pode

ouvir msica; e em qualquer lugar. A msica, arte atravessada pela

fsica, significava o exemplo supremo e imediato da ubiquidade que

estava por ser conquistada. Elle (a msica) nous tisse un temps de

fausse vie en effleurant les touches de la Vraie... Telle que la science,

elle devient besoin et denre internationaux4. Mas se a transformao

nas formas artsticas impulsionada pelos novos meios tcnicos

comearia com a msica, em funo das caractersticas da prpria

linguagem musical mencionadas acima, a mudana a ela (msica) no se

limitaria. Valry admite que era improvvel imaginar a reproduo de

um belo pr do sol, retratado num quadro, no muro da casa do

espectador, mas que no se estava distante do momento em que todas as

formas de arte poderiam desfrutar do mesmo potencial de ubiquidade da

msica. O texto de Valry prenuncia a iminente inundao de imagens

visuais e auditivas que