Psicologia das multidµes - Gustave Le Bon

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O livro Psicologia das multidões, de Gustave Le bom, médico e sociólogo, Francês, apresenta estudos e consonância sobre três livros, publicados em 1895, e traduzido em diversas línguas.

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  • 1. PENSADORES COLEO DIRIGIDA POR GRARD LEROUX GUSTAVE LE BON Psicologia das multides TRADUO DE IVONE MOURA DELRAUX Ttulo original PSYCHOLOGIE DES FOULES Presses Universitaires de France, 1895 Edies Roger Delraux, 198O, para a lngua portuguesa http://ggrroouuppss..ggooooggllee..ccoomm//ggrroouupp//ddiiggiittaallssoouurrccee A TH. RIBOT, Diretor da Revue philosophique, Professor de Psicologia no Collge de France, Membro do Institu. Afetuosa homenagem, GUSTAVE LE BON.
  • 2. CONTRACAPA GUSTAVE LE BON PSICOLOGIA DAS MULTIDES Em que ideias fundamentais se vo basear as sociedades que sucedero nossa?. Por enquanto, no o podemos saber. Mas podemos prever que tero de contar com um novo poder, ltimo poder soberano da idade moderna: o poder das multides. Sobre as runas de tantas ideias, outrora consideradas verdadeiras e j mortas hoje, sobre os destroos de tantos poderes sucessivamente derrubados, este poder das multides o nico que se ergue e parece destinado a absorver rapidamente os outros. No momento em que as nossas antigas crenas vacilam e desaparecem, em que os velhos pilares das sociedades desabam, a ao das multides a nica fora que no est ameaada e cujo prestgio vai sempre aumentando. A poca em que estamos a entrar ser, na verdade, a era das multides.' Gustave Le Bon (1841-1931), mdico, socilogo e psiclogo, considerado como um genial precursor de Freud (pelas suas teses sobre o inconsciente) e de Einstein (ao considerar a matria como uma forma condensada da energia). A Psicologia das Multides. (1895) est, hoje, traduzida numa dezena de lnguas. PREFCIO O conjunto de caracteres comuns que o meio e a hereditariedade imprimem a todos os indivduos de um povo constitui a alma desse povo. Estes caracteres so de origem ancestral e, por isso, muito estveis. Mas quando, por influncias diversas, um certo nmero de homens se agrupa momentaneamente, a observao mostra-nos que aos seus caracteres ancestrais se vem juntar uma srie de novos caracteres por vezes bem diferentes dos que a raa lhes deu. No seu conjunto constituem uma alma coletiva poderosa mas momentnea. As multides sempre desempenharam um papel importante na histria, mas nunca to considervel como nos nossos dias. A ao inconsciente das multides, substituindo-se atividade consciente dos indivduos, uma caracterstica da poca em que vivemos.
  • 3. INTRODUO A ERA DAS MULTIDES Evoluo da poca atual. As grandes transformaes de civilizao so consequncia de transformaes na mentalidade dos povos. A crena moderna no poder das multides. Essa crena modifica a poltica tradicional dos Estados. Como se verifica a ascenso das classes populares e como exercem o seu poder. Consequncias necessrias do poder das multides.As multides s podem exercer um papel destrutivo. por intermdio delas que se completa a dissoluo das civilizaes demasiado velhas. Ignorncia generalizada da psicologia das multides. Importncia do estudo das multides para os legisladores e homens de Estado. As grandes alteraes que precedem a transformao das civilizaes parecem, primeira vista, determinadas por agitaes polticas de importncia considervel: invases de povos ou quedas de dinastias. Mas um estudo atento destes acontecimentos revela que, por detrs das causas aparentes, a causa real , na maior parte das vezes, uma transformao profunda nas ideias dos povos. As verdadeiras alteraes histricas no so as que nos espantam pela grandeza e violncia. As nicas transformaes decisivas, as que conduzem renovao das civilizaes, efetuam-se nas opinies, nas concepes e nas crenas. Os acontecimentos memorveis so os efeitos visveis de transformaes invisveis nos sentimentos dos homens. E se s raramente se manifestam porque o fundo hereditrio dos sentimentos o elemento mais estvel de uma raa. A poca atual constitui um daqueles momentos crticos em que o pensamento humano se encontra em vias de transformao. Dois fatores essenciais esto na base dessa transformao. O primeiro a destruio das crenas religiosas, polticas e sociais de onde derivam todos os elementos da nossa civilizao. O segundo a criao de condies de existncia e de pensamento inteiramente novas, originadas pelas modernas descobertas da cincia e da indstria. Como as ideias do passado, embora abaladas, so ainda muito poderosas, e as ideias que as devem substituir se encontram ainda em formao, a poca moderna representa um perodo de transio e anarquia. No fcil dizer-se hoje o que poder um dia sair deste perodo necessariamente um tanto catico. Em que ideias fundamentais se vo basear as sociedades que sucedero nossa? Por enquanto, no o podemos saber. Mas podemos prever que tero
  • 4. de contar, ao organizarem-se, com um novo poder, ltimo poder soberano da idade moderna: o poder das multides. Sobre as runas de tantas ideias, outrora consideradas verdadeiras e j mortas hoje, sobre os destroos de tantos poderes sucessivamente derrubados, este poder das multides o nico que se ergue e parece destinado a absorver rapidamente os outros. No momento em que as nossas antigas crenas vacilam e desaparecem, em que os velhos pilares das sociedades desabam, a ao das multides a nica fora que no est ameaada e cujo prestgio vai sempre aumentando. A poca em que estamos a entrar ser, na verdade, a era das multides. H apenas um sculo, a poltica tradicional dos Estados e as rivalidades dos prncipes constituam os principais fatores dos acontecimentos. Na maioria dos casos, a opinio das multides nada contava. Hoje, so as tradies polticas, as tendncias pessoais dos soberanos e as suas rivalidades que pouca importncia tm. A voz das multides tornou-se preponderante. ela que dita aos reis a sua conduta. Os destinos das naes no se jogam j nos conselhos dos prncipes, mas sim na alma das multides. A ascenso das classes populares vida poltica, a sua transformao progressiva em classes dirigentes, uma das caractersticas mais salientes desta poca de transio. No foi o sufrgio universal, to pouco influente durante tanto tempo e to fcil de controlar no seu comeo, que determinou essa ascenso. O poder das multides desenvolveu-se a partir da propagao de certas ideias que, gradualmente, se apossaram dos espritos, e, depois, graas associao cada vez maior de indivduos com o fim de pr em prtica concepes que, at ento, apenas tinham sido formuladas teoricamente. Foi atravs dessa associao que as multides comearam a formar ideias sobre os seus interesses, que, embora no fossem muito justas, eram decerto bastante firmes; comearam ao mesmo tempo a ter conscincia da sua fora. Fundam sindicatos perante os quais todos os poderes capitulam; bolsas de trabalho que, apesar das leis econmicas, tendem a reger as condies de trabalho e de salrio. Enviam s assembleias governativas representantes destitudos de qualquer iniciativa e independncia, que se limitam quase sempre a serem os porta--vozes das comisses que os escolheram. Hoje, as reivindicaes das multides tomam-se cada vez mais definidas e procuram destruir de alto a baixo a sociedade atual, para a reconduzirem ao comunismo primitivo que foi o estado normal de todos os grupos humanos antes da aurora da civilizao. Tais reivindicaes so a reduo das horas de trabalho, a expropriao das minas, dos caminhos-de-ferro, das fbricas e do solo, a distribuio igualitria dos produtos, a eliminao das classes superiores em benefcio das classes populares, etc. Pouco dadas ao raciocnio, as multides mostram-se, em contrapartida, muito
  • 5. aptas para a ao. A organizao atual torna poderosa a sua fora. Os dogmas, que hoje vemos surgir, depressa ho de ter o poder dos velhos dogmas e ficaro investidos da fora tirnica e soberana que os colocar ao abrigo de qualquer discusso. Assim o direito divino das multides substitui o direito divino dos reis. Os escritores que gozam dos favores da nossa burguesia e que, por isso, melhor representam as suas ideias um tanto estreitas, as suas vistas um tanto curtas, o seu ceticismo um tanto sumrio e o seu egosmo por vezes excessivo, sentem-se perturbados com o novo poder que se ergue diante deles e, para combater a desordem dos espritos, dirigem apelos desesperados s foras morais da Igreja, que dantes tanto tinham desdenhado. Falam de bancarrota da cincia e lembram-nos os ensinamentos das verdades reveladas. Estes novos conversos esquecem, porm, que, se a graa, na verdade, os iluminou a eles, j no ter o mesmo poder sobre as almas fechadas aos apelos da transcendncia. As multides, hoje, no querem saber dos deuses que os seus senhores de ontem renegaram e ajudaram a derrubar. Os rios no correm para as nascentes. A cincia no sofreu qualquer bancarrota e nada tem a ver com a atual anarquia dos espritas nem com o novo poder que se ergue no meio desta anarquia. A cincia prometeu-nos a verdade ou, pelo menos, o conhecimento das relaes acessveis nossa inteligncia, nunca nos prometeu a paz nem a felicidade. Soberanamente indiferente aos nossos sentimentos, no ouve as nossas queixas e nada nos poder restituir as iluses que, por causa dela, fomos perdendo. Sintomas universais revelam-nos, em todas as naes, o rpido crescimento do poder das multides. Seja o que for que ele nos traga, seremos obrigados a suport-lo. As recriminaes no passam de palavras vs. A ascenso das multides marcar talvez uma das derr