As Feridas do Haiti

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Cobertura jornalistica sobre o Haiti realizada pela dupla Raul Marques (texto) e Rubens Cardia (fotos) sobre o cotidiano dos haitianos e o trabalho da tropa brasileira no contingente de força de paz da ONU.

Transcript of As Feridas do Haiti

  • Reprteres do Dirio viajam ao Haiti a convite do Ministrio da Defesa e trazem a

    histria de um pas assolado pela misria, desemprego e corrupo. Em 2004, em razo de

    conflitos e extrema violncia, houve interveno da ONU com tropas armadas para

    garantir a segurana do povo. Caderno mostra que 10% da populao est contaminada

    com o vrus da Aids e que 300 mil crianas so escravas domsticas ou sexuais

  • PAS EM TRANSE

    Assolado pela misria e corrupo, pas conta com o Brasil para achar o caminho da redeno

    Amisria no Haiti

    no exceo, mas

    regra. Encontra-se

    disseminada por

    toda a parte e no

    poupa a maioria da populao:

    80% dos haitianos vivem

    abaixo da linha da pobreza, ou

    seja, com menos de 2 dlares

    por dia.

    O Haiti est localizado no

    mar do Caribe e se orgulha de

    ser a primeira nao

    governada por negros no

    planeta. A sua histria de pas

    livre, no entanto, marcada

    por disputas internas, golpes

    de Estado, tragdias naturais,

    violncia e guerra civil.

    Essa mistura explosiva

    resultou no atual quadro de

    pobreza extrema,

    desorganizao e abandono. A

    situao do Haiti s

    comparada do Timor-Leste e

    do Afeganisto.

    No total, 80% da

    populao, formada por 8,5

    milhes de pessoas, vive sem

    gua encanada, energia

    eltrica e banheiro em casa.

    A falta de infraestrutura

    bsica e aes efetivas do

    governo haitiano nos campos

    da sade, educao e trabalho

    tm exterminado

    prematuramente a populao e

    criado uma gerao de jovens

    sem futuro, sem perspectivas

    de melhora e com sonhos

    diminutos de ter uma

    existncia plena.

    No abismo de pobreza que

    o Haiti caiu, 23% das crianas

    sofrem de desnutrio e 10%

    dos moradores esto

    infectados pelo vrus da Aids.

    Ainda no mbito da sade,

    h problemas causados pela

    falta de saneamento bsico e a

    contaminao de fontes

    naturais.

    O resultado no poderia

    ser outro: a populao no tem

    gua potvel para beber.

    As pessoas compram, o que

    no muito comum, ou

    coletam gua em canais de

    esgoto para cozinhar, beber e

    tomar banho. Pelas ruas da

    capital, Porto Prncipe,

    sobram pedidos desesperados

    para matar a sede.

    A coleta de lixo

    insuficiente para atender a

    demanda. O resultado? Pilhas

    de lixo orgnico espalhadas

    pela cidade, juntamente com

    esgoto e fezes. O cheiro da

    mistura forte e chega a

    causar nuseas.

    Para o haitiano, cuja noo

    de higiene pessoal restrita,

    esse cenrio parte natural da

    paisagem.

    A expectativa de vida no

    Haiti de 53 anos quase

    duas dcadas a menos que a do

    brasileiro. O ndice de

    analfabetismo chega a 47% e o

    desemprego atinge 70% dos

    moradores. Por isso, recorre-se

    ao escambo para sobreviver.

    Na frente dos casebres,

    troca-se de tudo.

    Alm de falta de

    infraestrutura e dos sucessivos

    saques ao errio, a poltica

    sempre foi efervescente e

    resolvida, no raro, na base da

    violncia, truculncia e da

    comunicao repleta de

    rudos. A histria a maior

    prova.

    Em 2004, conflitos

    armados se espalharam por

    todo o pas. A Polcia

    Nacional do Haiti (PNH)

    contava apenas com 1,4 mil

    homens e no conseguiu evitar

    a violncia nas ruas e a ao de

    gangues armadas.

    A situao ficou

    insustentvel e ocorreu a

    queda do ento presidente

    Jean-Bretrand Aristide.

    O presidente da Suprema

    Corte, Bonifcio Alexandre,

    assumiu o poder e requisitou a

    assistncia da Organizao das

    Naes Unidas (ONU).

    As tropas ingressaram no

    pas com objetivo de

    restabelecer a segurana. Entre

    2004 e 2007, ocorreram vrios

    combates entre as gangues e os

    militares.

    O Haiti o quarto pas

    mais corrupto do mundo no

    ranking elaborado pela

    Transparncia Internacional.

    Na frente apenas de Myanmar,

    Somlia e Iraque. O relatrio

    avaliou 180 pases.

    Misso

    No dia 1 de junho, foi

    iniciada a misso das Naes

    Unidas para a Estabilizao no

    Haiti (Minustah).

    A misso composta por

    7.112 militares de 17 pases e

    1.858 policiais. O Brasil tem o

    maior efetivo com 1.298

    militares e o lder natural da

    ao.

    Os cinco anos de

    interveno no pas j custaram

    R$ 700 milhes aos cofres

    brasileiros. O mandato

    renovado a cada 12 meses.

    O embaixador brasileiro no

    Haiti, Igor Kipman, afirma

    que a comunidade

    internacional trabalha com

    objetivo de reduzir de forma

    gradual a presena militar em

    2011, quando ser realizada a

    eleio presidencial.

    a comprovao de que o

    pas est democraticamente

    equilibrado e as instituies

    estveis. A meta, em 2011,

    que a PNH esteja preparada e

    equipada para assumir a

    segurana do pas. A partir

    da, ser possvel reduzir a

    presena militar, no s do

    Brasil.

    O biscoito de barro choca

    O reprter Raul Marques relatasua experincia de cinco dias noHaiti: choque ao ver parcela dapopulao disputar com porcosalimentos num lixo; malria edesnutrio so as principaiscausas de morte no pas

    Aprimeira vez que

    eu ouvi falar de

    tropas da ONU foi

    quando criana: um

    amigo ganhou um

    punhado de soldadinhos de

    plstico azul. Brincvamos de

    guerra e ele sempre falava que

    aquela tropa no guerreava, mas

    evitava a guerra. A partir de ento

    passei a buscar informaes e a

    admirar cada vez mais os soldados

    de capacete azul que davam suas

    vidas para preservar a paz.

    Quando soube que o Brasil

    iria coordenar os trabalhos de

    paz no Haiti fiquei bastante

    curioso em conhecer o

    trabalho. Em 2005, cheguei a

    fazer a solicitao de permisso

    de trabalho junto tropa, mas,

    na poca, foi negada. Mas

    quando recebi a notcia de que

    teria a oportunidade de viajar

    pelo Dirio para cobrir matriano Haiti fiquei eufrico;

    poderia enfim conhecer de

    perto o trabalho de nossos

    soldados da paz.

    Foi muito gratificante ver a

    receptividade da populao

    tropa brasileira, um

    reconhecimento queles que se

    sacrificam a ficar seis meses longe

    da famlia, com poucos

    momentos de lazer e muito

    trabalho rduo, a patrulhar por

    horas, com mais de vinte quilos

    de equipamento por vielas

    estreitas sob o escaldante sol

    caribenho. Nesta viagem, o que

    mais me impressionou foi uma

    garotinha de pouco mais de um

    ano. Ela atravessou a rua e

    segurou firmemente os dedos de

    um fuzileiro naval. Abaixei-me

    para fotograf-los, e a menina se

    assustou e chorou

    desesperadamente... agarrou a

    perna do militar sabendo que ali

    ela estava plenamente segura,

    mesmo a poucos metros de sua

    famlia. Para mim, esta foi a mais

    sincera demonstrao do

    reconhecimento e confiana

    demonstrada aos nossos

    capacetes-azuis.

    Rubens CardiaRaul Marques

    Os capacetes-azuisbrasileiros emexcurso pelas ruasde Porto Prncipe

    Garota segurabeb em PortoPrncipe, capitaldo Haiti: 80% dapopulaosobrevive commenos de US$ 2por dia

    Desde a infncia, o fotgrafoRubens Cardia sonhava um diaacompanhar os capacetes-azuisem misso de paz: certeza dobom trabalho do Brasil veio aover criana, assustada, seagarrar perna de soldado

    Eu imaginava que

    conhecia o real

    significado do termo

    misria. Nos

    primeiros minutos

    em solo haitiano, no entanto,

    descobri que estava

    profundamente enganado.

    certo que ainda faltam

    muitas coisas para termos um

    Brasil digno, seguro, sem

    desemprego, com oportunidades

    a todos e servios de excelncia

    nos campos da educao, sade,

    trnsito e cultura.

    Mas estamos sculos frente

    do Haiti. Nem precisa ser

    especialista para chegar a essa

    concluso. No pas colado ao mar

    do Caribe possvel presenciar

    situaes absurdas,

    constrangedoras e degradantes

    com facilidade.

    Durante os cincos dias em

    que permaneci no pas, vi pessoas

    lavando o corpo em guas ftidas,

    ingerindo gua proveniente do

    esgoto e comendo lixo ou ento

    alimentos imundos.

    Foi chocante presenciar um

    menino, de 10 anos, engolindo a

    iguaria que representa a pobreza

    no pas: o biscoito de barro. Ele

    nem fez careta ou protestou.

    A maioria das casas no conta

    com energia eltrica, gua

    encanada ou banheiro. As

    pessoas fazem as suas

    necessidades fisiolgicas em

    qualquer lugar.

    O conceito de privacidade

    no chegou ao Haiti ainda.

    Tudo isso no passou imune

    por mim. Choque um termo

    que pode mensurar, mas no

    definir o meu estado de esprito

    em alguns momentos. Mas

    confesso que fiquei emocionado

    ao presenciar uma ao

    humanitria.

    Alm de uma cesta bsica

    com mantimentos de primeira

    necessidade, os Fuzileiros Navais

    do Brasil distriburam a cada

    pessoa um copo descartvel cheio

    de gua e duas pedras de gelo.

    Era recebido como trofu.

    Foi muito gratificante

  • Odesemprego um problema crnico e

    afeta diretamente a espinha dorsal do

    pas. Sem trabalho, as pessoas no

    conseguem ganhar dinheiro nem

    mesmo para adquirir o bsico:

    comida e gua. Cerca de 70% da populao ativa -

    aproximadamente 3,6 milhes de pessoas - no

    tem o q