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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA CENTRO DE CINCIAS HUMANAS E DA EDUCAO

CURSO DE BACHARELADO E LICENCIATURA EM HISTRIA

Aqui jaz um cemitrio: a transferncia do cemitrio publico de Florianpolis (1923-26)

Elisiana Trilha Castro Orientador: Reinaldo Lohn

Trabalho apresentado como pr-requisito para obteno do ttulo de bacharel em Histria

Julho de 2004

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Aqui jaz um cemitrio: a transferncia do cemitrio publico de Florianpolis (1923-26).

Elisiana Trilha Castro

INTRODUO

O cemitrio o terreno que se destina sepultura dos cadveres humanos, assim

define o dicionrio1. Lugar de descanso para muitos, lugar de passeio para outros, lugar de

tristeza. Estudar um cemitrio, no importando qual a abordagem o envolva, sempre falar de

sentimentos, de memria, de ancestralidade. O cemitrio lugar de histria: uma histria

enterrada junto daqueles ali sepultados que viveram e deixaram seu nome na vida de outros.

Falar de um cemitrio tocar a morte em suas diversas dimenses. se aproximar da

dor de quem se despede daquele que ama, da saudade que fica na ausncia dos que ali esto

sepultados, tocar na memria enterrada no cemitrio, mas, muitas vezes, viva naqueles que

ali deixaram os seus entes. se deparar com a nossa fragilidade, independente das crenas

que possamos ter quanto morte e prpria vida.

Estudar um cemitrio se acercar da presena fsica da morte, apesar da

decomposio imposta aos corpos que ali esto. E a dor diante da morte que faz do

cemitrio, da sepultura, do doente, do luto e de tudo mais que a permeia, um grande tabu, que

mesmo tratado como inexistente, continua a nos fazer pensar nos diversos sentidos da mesma,

quando nos deparamos com ela.

Um dia sonhei com minha prpria morte e me aproximei dos que se foram. Ao longo

de minha vida, sempre sonhei com os mortos. H anos eles surgem, mortos que muitas vezes

no conheo e que me fazem pedidos e companhia nos sonhos. Sempre tive muito medo

destes que se foram, at que me acostumei com eles e procurei entender o porqu de tantos

sonhos com os mesmos.

Sempre sonhando com os mortos, lembro-me que fiquei surpresa ao ler que na

cabeceira insular da ponte Herclio Luz, em Florianpolis, havia um cemitrio. E as minhas

surpresas no terminaram nesta descoberta. Surpreendi-me, tambm, ao saber que ali

estiveram sepultados por mais de 80 anos, aproximadamente 30 mil pessoas e que seus restos,

juntamente com seus tmulos, foram retirados para a construo da referida ponte. Inquietei-

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me com a idia da transferncia de um cemitrio. Imaginava a cena da retirada de tmulos, de

cruzes e de restos mortais e, buscava compreender como havia sido realizada.

Temas relacionados morte despertam a curiosidade, o interesse, bem como causam

estranhamento, diante de um mundo efmero e individualista. Um mundo capitalista ocidental

que diante das prticas atuais de distanciar-se da morte, tenta encerr-la, escond-la,

amortalh-la, como se essas aes fossem capazes de control-la ou at mesmo, retardar sua

chegada.

Diante do aumento da expectativa de vida para segmentos das classes mdias, somos

muitas vezes capazes de manter a idia da morte distncia. Num tempo em que milionrios

congelam corpos em busca da cura para males fatais e que se discute clonagem humana, falar

de morte e de assuntos ligados mesma parece despropositado, o que explica o desinteresse

pelo tema, tornando-o assim, um assunto pouco estudado. Sobre isso Norbert Elias observou

que ... a pesquisa sobre a morte por razes que no so independentes da represso social

ainda est num estado incipiente. 2

Execrada da vida cotidiana, s loucos, darks, e poucos pesquisadores, aproximam-se

do tema da morte e do desafio de encar-la para, quem sabe, compreender suas relaes

diretas com a vida e com o modo como nos relacionamos. Se a vida encontra seu fim na

morte, porque no discuti-la, pens-la, como uma oportunidade de melhor compreender as

relaes que homens e mulheres travaram e travam durante suas vidas, seu fazer histrico

cotidiano, diante do conhecimento da morte e, conseqentemente, da sua inevitvel chegada

um dia.

A morte um tema que tem ocupado os socilogos, os antroplogos, os pintores, os poetas e os agentes funerrios mas no os historiadores. Embora tenha sempre se seguido inexoravelmente vida, os historiadores julgam que ela no tem histria. Em geral, preferem os acontecimentos dramticos, em vez das grandes constantes da condio humana o nascimento, a infncia, o casamento, a velhice e a morte.3

A concepo do que significa a morte, do que significa ser sepultado e a forma como

isso deve ocorrer, mudou e muda com o passar do tempo. Ela historicamente e

culturalmente construda. Neste trabalho falo do cemitrio transferido do chamado morro do

1Recinto onde se enterram e guardam os mortos. FERREIRA, A. B. de H. Novo dicionrio da lngua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 2 ELIAS, Nobert. A solido dos moribundos, seguido de Envelhecer e morrer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 62 3DARTON, Robert. O beijo de Lamourette: mdia, cultura e revoluo. So Paulo Companhia das Letras, 1990. p.237.

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Vieira e que fora inaugurado em 1841. Despejado do alto do morro na entrada da cidade, com

a construo da ponte Herclio Luz, seus despojos e seus tmulos foram, em sua grande

maioria, levados para o novo cemitrio pblico, no local conhecido como Trs Pontes, hoje

bairro do Itacorubi.4

De companheiros dos sonhos noturnos, os mortos viraram tema quando decidi

pesquisar sobre esse cemitrio e a sua transferncia iniciada em 1923. O objetivo era

responder algumas perguntas: qu cemitrio era este? Por que foi retirado do alto do morro?

Como foi feita a transferncia e para onde foi transferido?

Diante do cemitrio que no mais est em seu lugar original, encontra-se a historiadora

que tem, muitas vezes, como seu objeto de trabalho, as aes de quem j no vive mais e que,

diante desta transferncia e de seus registros, levada a pensar a morte e as relaes travadas

com a mesma, na mudana do cemitrio pblico de Florianpolis. com o objetivo de

perceber esse processo que me propus a estudar, atravs da transferncia do cemitrio da

cabeceira da ponte, a morte, os enterramentos e ritos funerrios. O contato atravs deste

trabalho com os nomes, as exumaes, os desejos e os cuidados com os mortos, inclusive com

os registros relacionados minha famlia, pacificou minha relao com os mortos.

O processo de transferncia do cemitrio pblico de Florianpolis um tema que se

constri, atravs dos restos mortais daqueles que tiveram e construram uma histria. Procuro

diante deste tema, pensar uma histria vivida, a partir dos ossos e dos restos que foram

retirados e transferidos depois das obras de construo da ponte Herclio Luz, possibilitando

compreender algumas dimenses culturais, de uma forma de pensar a morte no incio do

sculo XX.

Florianpolis, na dcada de 1920, passava por transformaes como outras cidades

brasileiras. Era o contexto da modernizao. Surgiam novas ruas, novas casas, novos espaos

organizados para criar uma cidade civilizada e que pudesse afirmar-se, definitivamente, como

Capital catarinense. Dentre essas mudanas necessrias para delinear a cidade, estava a

mudana do cemitrio pblico, que muitos consideravam mal localizado na entrada da cidade

e no alto de um morro5, como tambm lotado, desordenado, sendo alvo de reclamaes e

pedidos de transferncia. A necrpole da Capital catarinense , finalmente, retirada pela

construo da Ponte Herclio Luz, que exigia o espao ocupado pela morada dos mortos para

as suas ruas de acesso.

4 Apesar do cemitrio pblico chamar-se So Francisco de Assis, atualmente mais conhecido como cemitrio do Itacorubi.

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H vrias formas de lidar com a morte. Aqui trato, diante da transferncia, de um

modo especfico de pensar e de relacionar-se com a morte, um modo que correspondeu s

formas predominantes encontradas na sociedade capitalista contempornea. Mas independente

de crena, convices, penso que a morte e seus ritos precisam ser discutidos, pensados,

tirando-os do exlio e tomando-os como objetos de importantes reflexes sobre a histria dos

homens diante de seu fim.

As fontes utilizadas para pesquisar o processo de transferncia do Cemitrio Pblico

Municipal foram os termos e registros de exumaes, mensagens dirigidas a Cmara

Municipal, relatrios da Superintendncia Municipal, cartas pessoais, artigos de jornais, bem

como bibliografias especficas de historiadores, de arquitetos e de profissionais da rea da

sade.

No primeiro captulo deste trabalho, trato das modificaes ocorridas em

Florianpolis, no contexto do final do sculo XIX e incio do XX. Esse contexto marcado

por mudanas e pela construo de uma nova cidade para os vivos, como tambm pela busca

da afirmao de Florianpolis como Capital. Assim, so pensados novos lugares para essa

cidade, bem como a retirada daquilo que no est