CANDIDO, Antonio.Vários Escritos. 3a edição, São Paulo, Duas Cidades,...

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  • 5/9/2018 CANDIDO, Antonio.V rios Escritos. 3a edi o, S o Paulo, Duas Cidades, 1995, pp. 235-263

    e o c t - C o~

    VARIOS ESCRITOS4 " e d ii ao , r eo tg a ni za da p ef o a u to r

    I)U;IS CiducJ c ll l Ou r e snbrc A zul I S,;{l 1';1I11!) I R io de landm 201)1

  • 5/9/2018 CANDIDO, Antonio.V rios Escritos. 3a edi o, S o Paulo, Duas Cidades, 1995, pp. 235-263

    O assunto que me foi con fiado nesta se rie e aparentementemeio desligado dos problemas rea is: "Di reitos humanos el ite rature" As manei ras de aborda-lo sao muitas, mas naoposse comecar a falar sobre 0 terna especif ico sem fazer algumas re-f lexoes previas a respeito dos pr6pr ios direi tos humanos.

    E impressionante como em nosso tempo ~omos contradit6riosneste capitulo. Corneco observando que em ~p-arac;: ao a eras pas-sadas chegamos a urn maximo de racionalidade tecnica e de domi-nio sobre a natureza. Isso permite imaginar a possibi lidade de resol-ver grande numero de problemas materiais do homem, quem sabeinclusive 0 da alimentacao. No entanto, a . irracio1.1_W..dade !2 _ com-portamento e tambern maxima,_se~vida freqtientemente tt:.1os ~es-mns meios que deveriam realizar os q~~igu.ills_d_a_J:acionalidade.As-sim, com a energia atomics podemos ao mesmo tempo gerar forcacriadora e destruir a vida pela guerra, com 0 incrivel progresso in-dustrial aumentamos 0 (onforto ate alcancar niveis Bunca sonha-

    ~ d~, ma'x~1 uilil!i;oklele_as.grandes l l 1 a s ~ ~ ' g ~ ~ n a e n l l m O $ ~!}is~~_. . , ,; fr ff~ en.l certos palses., como 0 Brasi l, quanta mais crcsce a r iquez~,~ ff finis aumenta a p.b:iima distnibnicao.dos hens. Portanto, podemos* 0 / 1 : . . . dizcr que os mesmos mcios que pcrmitcm ()p rngresso podcm pro-~)f"~;st vocar a degradacao da maior ia.~ . . J " J t ' Ora, na Grec ia antiga , por exemplo, teri a sido imposslvel pensar(Y !~_.Y ' numa dist ribuicao equitativa dos bens materi ais, porque a tecnicad ,J' i J l ainda nao perrnitia superar as formas brutais de exploracao do r 'V ~ , y , .~ " ' ..!' hom em. nem criar abundancia para todos. Mas em nosso tempo e?~ iY possivcl pCllsar nisso, e no entunto pensamos relat ivarnente pouco.r y ? Essa insensibilidade nega um a das linhas mais promissoras da his-

    tori a do homem ocidental , aque la que se nutriu das ideia amadure-cidns no corrcr dos seculos XVIII c XIX, gerando o liberal ismo e tendo

    169

    o DIREITO A . LlTERATURA1

    ".'

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    VARIOS 1.SCRI"fIlS 170

    no social ismo a sua manifestacao mais coerente, Elas abr iram pers-pectivas que pareciarn levar a solucao dos problemas dramaticos davida em sociedade. E de fa to, durante mui to tempo acreditou-seque , removidos uns tantos obstaculos, como a ignorancia e os sis-temas despoticos de governo, as conquistas do progresso seriam ca-nalizadas no rumo imaginado pelos utopistas , porque a ins trucao, 0saber e a t e cn ica levar iam necessariamente a felicidade coletiva. Noentanto, mesmo onde estes obs taculos foram rcmovidos a barbiir iecont inuou entre os homens,~sabcmos qu~~~sa epoca e profund:'!lente ba~bara~em-bora se t rate de uma barbarie l igada ao maximo de civilizacao. Pensoque ~ m~vimento p~los ~jrei tos human~s se entronca iii:pois sp~sA- ;a pnmeira _erada his toria em que teonc~mente e posslve~ev:~uma sol5ao pa~~_grandes desarmo~~l1a~.9ue geramaInjttsficacontra a qual lutam os homens de boa vontade--~ b~c-a :~ao ~ai s doe~~on~i~~-p~l~;-~t~pi;t~;racion~_is q~~E;s a~tecederam,m~'!_?__!_~_~i~

    ( / ~ ; .,?"~mais esperancosa, apesar de tudo 0 que 0 nosso tempo apresenta de;;r @A' negati~(~.?uem acr~dita nos d,ireitos humanos procura transforrnar~ '

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    I/VARIOS I.SCl lI lnS, .:. 172

    . .. !:_:.:.~~._:;-;'~_:. ~ < =- :: . ~. ~ ~ ~ ; :" . " poderiam dizer outra coisa, num tempo em que a televisao mostra a;.:cad tarnbemJ~~!.i>p~!!~~y~l_ruu:a..Qp-(Qximo.Esta me parece a essencia dol}roblcn~a, inclusive no plano cstritamente individual, pois e necessario f ~um grande esforco de educacao e auto-educacao a fim de reconhecer-11}1ll0S sinceramente este postulado. Na verdadc, 3.telldencia..mais..funda (g _

    Cr i0 ~. ~ "~ -if c achar que os 110SS0~ direitos _:;_~~!1]ais__!:!!gDJ.

    U 1>1RI\ITC~_ A . I.ITHIIATURA~'V\

    A estc respeito c fundamental 0 ponto de vista de um grande so- )1 - ,., d , - ! ' ciologo frances, 0padre dominicano Louis-Joseph Lebret, fundador . ; i ' f . _ . f !J Y 0 rr do movimento Economia e Humanismo, com qucm tive a sorte de .J ; .f~~#~:tilonvive.r e que atuou mUitOto . .Brasilcntre-os-anus...de _ _ l 2 4 0 . _ : _ . .~~O. C). ifo k; {.'u\\ Penso na sua distincao ent r~~l?ens compresslveis" ~bens incom-l r-t,t' ~ que esta ligada a meuverrotri-oproolem~do5aireitos-' 8

    humanos, pois a maneira de conceber a estes depende daquilo queclassificarnos como bens incornpresslvcis, isto e , os que nno podemser negados a ninguem.Certos bens sao obviarnente incornpresslveis, como 0 alimento, a

    GISa,a roupa. Outros sao compressivcis, como 05 cosmeticos, os en-feites, as roupas superfluas, Mas a fronteira entre ambos e muitasvezes dificil de fixar, mesmo quando pensamos nos que sao conside-rados indispensaveis, 0 primeiro li tro de arroz de uma saca e menosimportante do que 0ultimo, e sabemos que com base em coisas comoesta se e la bo ro u em E co no rn ia P ol iti ca a teo r ia d a "u ti li d ad e ma rg in a l"segundo a qual 0valor de uma coisa depende em grande parte da ne-cessidade rela tiva que temos dela . 0 fato e que cada epoca e cada cul -tura fixam os criterios de incompressibilidade, que estao ligados a di-visao da sociedade em classes, pois inclusive a educacao pode serinstrumento para convencer as pessoas de que 0que e indispensavelp ara u ma cam ad a social nao 0e para o u tr a, N a c la ss e media brasileira,os t in minha idade a in d a l cmb ra rn 0tempo em que se dizia que osempr eg ad o s n ii o tin ham necessidade.de.sobremesa n~mJi.e.fQlga aosdo III ingo5,porque ~ estando acostu mad.Qs_a.iss_o.lla.

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    174,\ H 1 O S f. S ('1 ' Y ; ~ ' 5 , / {~~l fisicaCI~l nivcis dc~~n~~,nl~lS-()S-q~!~g~~~~!~tcl~la_~ntegrida~1c......,.. ' : "',, ::,.,;,..~ , .~S'.~~~al. :Sac,i ll lcompresslvels cer t~mente a ~hmenta~1io,a moradia,' . ' , ' y ' : \ 0 ves tuar io , a instrucao, a saude, a l iberdade individual, 0 amparo da

    "" :"c justice publica, a resistencia a opressao etc.; e tarnbem 2 . dircito acrenca, a 02ini50, ao lazer e, por que naoJ}.

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    VARIOS I ,SCRITIIS 176 177 o D IRUTO " L 1T f. RATU ILA

    ..s ~).: formador da.personalidade, mas nao segundo as convencoesi seria, , .antessegl .. lndo a forca indiscr iminada e poderosa da pr6pr ia reali-

    dade. Por i sso, nas maos do le itor 0 livro pode ser fa tor de pertur-bacao e ~nesmo de risco. Dai a arnbivalencia da sociedade em facedele, susci tando por vezes condenacoes violentas quando ele veicu-Ianocoes ou oferece suges toes que a visao convencional gos taria deproscrever, No ambito da instrucao escolar 0 l ivro chega a gerar con-Ilitos, porquc 0scu cfcito transcende as nor rnas cs tahc lec idas ,Numa pales tra fei ta ha mais de quinze anos em reuniao da Socie -

    dade Brasileira para 0 Progresso da Ciencia sabre 0 papel da li te-ratura na formacao do homem, charnei a atencao entre outras coisaspara os aspectos paradoxais desse pape l, na medida em que as edu-cadores ao mesmo tempo preconizam e temern 0 efeito dos textosl iterar ios, De fato (dizia eu) , ha "confli to entre a ideia convencionalde uma l ite ratura que eleva e edifica (segundo os padroes oficiais) ea sua poderosa forca indiscriminada de inic iacao na vida, com umavariada cornplexidade nem sernpre desejada pelos educadores. Elanao corrompe nem edifica, portanto; mas, trazendo livrernente em sia que chamamos 0bern e 0que chamamos 0mal, humaniza em sen-t ido profundo, porque faz viver".

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    simultanea dos tres aspectos, embora cos turnemos pensar menos noprimeiro, que corresponde a maneira pela qual a mensagem e cons-trufda; mas esta maneira e 0 aspecto, senao mais importante, comcerteza crucial, porque e 0que decide se uma comunicacao e literariaou nao. Comecemos por ele.' Ioda obra literaria e antes de mais nada umaespecie de objeto, de

    objeto construido: e e grande 0 poder humanizador des ta constru-J,'ao, ( ' /111/1111/ to cottstruiiio.De fato, quando elaboram uma estrutura, 0 poe ta ou 0 narrador

    nos propocm urn modele de coerencia, gerado pela forca da palavraorganizada, Se fosse possivel abstrair 0sentido e pensar nas palavrascomo tijolos de uma construcao, eu dir ia que esses t ijolos represen-tam urn modo de organizar a mater ia , e que enquanto organizacao elesexercem papel ordenador sobre a nossa mente . Quer percebamosc1aramente ou nao, 0 cara ter de coisa organizada da obra li tera riatorna-se urn fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossapropria mente e sent imentos; e, em consequenc ia, mais capazes deorganizar a visao que temos do mundo.Por isso, urn poema herrnetico, de entendimento diftcil, sem ne-

    nhuma alusao tanglvel a realidade do espirito ou do mundo, podefuncionar neste sentido, pelo fato de ser urn tipo de ordem, suge-rindo u rn mo de le de superacao do c ao s, A producao literar ia t ira aspalavras do nada e asd ispoe como todo art iculado. Este eo primeironlve l hurnanizador, ao cont rario do que gera lmente se pensa. A or-ganizacao da palavra comunica -se ao !lOSSO espi rito e 0 leva, pri-mc ir o, a s e o rg an iz ar : em s cg ui da , a organizar 0mundo , Isto ocorredcsde asform