Cancioneiro - Fernando Pessoa

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  • CancioneiroFernando PessoaFonte: http://www.cfh.ufsc.br/~magno/cancioneiro.htm

    Nota Preliminar

    1.

    Em todo o momento de atividade mental acontece em ns um duplo fenmeno depercepo: ao mesmo tempo que tempos conscincia dum estado de alma, temos diante de ns, impressionando-nos os sentidos que esto virados para o exterior, uma paisagem qualquer, entendendo por paisagem, para convenincia de frases, tudo o que forma o mundoexterior num determinado momento da nossa percepo.

    2.

    Todo o estado de alma uma passagem. Isto , todo o estado de alma no srepresentvel por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. H em ns um espao interior onde a matria da nossa vida fsica se agita. Assim uma tristeza um lago morto dentro de ns, uma alegria um dia de sol no nosso esprito. E - mesmo que se no queira admitir que todo o estado de alma uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "H sol nos meus pensamentos", ningum compreender que os meus pensamentos so tristes.

    3.

    Assim, tendo ns, ao mesmo tempo, conscincia do exterior e do nosso esprito, e sendo o nosso esprito uma paisagem, tempos ao mesmo tempo conscincia de duas paisagens. Ora, essas paisagens fundem-se, interpenetram-se, de modo que o nosso estado de alma, seja ele qual for, sofre um pouco da paisagem que estamos vendo - num dia de sol uma alma triste no pode estar to triste como num dia de chuva - e, tambm, a paisagem exterior sofre do nosso estado de alma - de todos os tempos dizer-se, sobretudo em verso, coisas como que "na ausncia da amada o sol no brilha", e outras coisas assim. De maneira que a arte que queira representar bem a realidade ter de a dar atravs duma representao simultnea da paisagem interior e da paisagem exterior. Resulta que ter de tentar dar uma intersecode duas paisagens. Tem de ser duas paisagens, mas pode ser - no se querendo admitir que um estado de alma uma paisagem - que se queira simplesmente interseccionar um estado de alma (puro e simples sentimento) com a paisagem exterior. [...]

    Abat-Jour

    A lmpada acesa(Outrem a acendeu)Baixa uma beleza

    Sobre o cho que meu.No quarto deserto

  • Salvo o meu sonhar,Faz no cho incertoUm crculo a ondear.

    E entre a sombra e a luzQue oscila no choMeu sonho conduzMinha inateno.

    Bem sei ... Era diaE longe de aqui...Quanto me sorriaO que nunca vi!

    E no quarto silenteCom a luz a ondearDeixei vagamenteAt de sonhar...

    Abdicao

    Toma-me, noite eterna, nos teus braosE chama-me teu filho.Eu sou um reique voluntariamente abandoneiO meu trono de sonhos e cansaos.

    Minha espada, pesada a braos lassos,Em mo viris e calmas entreguei;E meu cetro e coroa eu os deixeiNa antecmara, feitos em pedaos

    Minha cota de malha, to intil,Minhas esporas de um tinir to ftil,Deixei-as pela fria escadaria.

    Despi a realeza, corpo e alma,E regressei noite antiga e calmaComo a paisagem ao morrer do dia.

    Abismo

    Olho o Tejo, e de tal arteQue me esquece olhar olhando,E sbito isto me bateDe encontro ao devaneando O que srio, e correr?O que est-lo eu a ver?

    Sinto de repente pouco,

  • Vcuo, o momento, o lugar.Tudo de repente oco Mesmo o meu estar a pensar.Tudo eu e o mundo em redor Fica mais que exterior.

    Perde tudo o ser, ficar,E do pensar se me some.Fico sem poder ligarSer, idia, alma de nomeA mim, terra e aos cus...

    E sbito encontro Deus.

    A Grande Esfinge do Egito

    A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...Escrevo e ela aparece-me atravs da minha mo transparenteE ao canto do papel erguem-se as pirmides...

    Escrevo perturbo-me de ver o bico da minha penaSer o perfil do rei Quops ...De repente paro...Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...

    Estou soterrado sob as pirmides a escrever versos luz clara destecandeeiroE todo o Egito me esmaga de alto atravs dos traos que fao coma pena...

    Ouo a Esfinge rir por dentroO som da minha pena a correr no papel...Atravessa o eu no poder v-la uma mo enorme,Varre tudo para o canto do teto que fica por detrs de mim,E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreveJaz o cadver do rei Quops, olhando-me com olhos muito abertos,E entre os nossos olhares que se cruzam corre o NiloE uma alegria de barcos embandeirados erraNuma diagonal difusaEntre mim e o que eu penso...

    Funerais do rei Quops em ouro velho e Mim! ...

    A minha vida um barco abandonado

    A minha vida um barco abandonadoInfiel, no ermo porto, ao seu destino.Por que no ergue ferro e segue o atinoDe navegar, casado com o seu fado ?

  • Ah! falta quem o lance ao mar, e aladoTorne seu vulto em velas; peregrinoFrescor de afastamento, no divinoAmplexo da manh, puro e salgado.

    Morto corpo da ao sem vontadeQue o viva, vulto estril de viver,Boiando tona intil da saudade.

    Os limos esverdeiam tua quilha,O vento embala-te sem te mover,E para alm do mar a ansiada Ilha.

    A morte chega cedo

    A morte chega cedo,Pois breve toda vidaO instante o arremedoDe uma coisa perdida.

    O amor foi comeado,O ideal no acabou,E quem tenha alcanadoNo sabe o que alcanou.

    E tudo isto a morteRisca por no estar certoNo caderno da sorteQue Deus deixou aberto.

    Andei lguas de sombra

    Andei lguas de sombraDentro em meu pensamento.Floresceu s avessasMeu cio com sem-nexo,E apagaram-se as lmpadasNa alcova cambaleante.

    Tudo prestes se volveUm deserto macioVisto pelo meu tatoDos veludos da alcova,No pela minha vista.H um osis no IncertoE, como uma suspeitaDe luz por no-h-frinchas,Passa uma caravana.

    Esquece-me de sbito

  • Como o espao, e o tempoEm vez de horizontal vertical.

    A alcova

    Desce no se por ondeAt no me encontrar.Ascende um leve fumoDas minhas sensaes.Deixo de me incluirDentro de mim. No hC-dentro nem l-fora.

    E o deserto est agoraVirado para baixo.

    A noo de mover-meEsqueceu-se do meu nome.Na alma meu corpo pesa-me.Sinto-me um reposteiroPendurado na salaOnde jaz algum morto.

    Qualquer coisa caiuE tiniu no infinito.

    Ao longe, ao luar

    Ao longe, ao luar,No rio uma vela,Serena a passar,Que que me revela ?

    No sei, mas meu serTornou-se-me estranho,E eu sonho sem verOs sonhos que tenho.

    Que angstia me enlaa ?Que amor no se explica ? a vela que passaNa noite que fica.

    Aqui onde se espera

    Aqui onde se espera- Sossego, s sossego -

  • Isso que outrora era,

    Aqui onde, dormindo,-Sossego, s sossego-Se sente a noite vindo,

    E nada importaria-Sossego, s sossego-Que fosse antes o dia,

    Aqui, aqui estarei-Sossego, s sossego -Como no exlio um rei,

    Gozando da ventura- Sossego, s sossego -De no ter a amargura

    De reinar, mas guardando- Sossego, s sossego -O nome venerando...

    Que mais quer quem descansa- Sossego, s sossego -Da dor e da esperana,

    Que ter a negao- Sossego, s sossego -De todo o corao ?

    As horas pela alameda

    As horas pela alamedaArrastam vestes de seda,

    Vestes de seda sonhadaPela alameda alongada

    Sob o azular do luar...E ouve-se no ar a expirar -

    A expirar mas nunca expira -Uma flauta que delira,

    Que mais a idia de ouvi-laQue ouvi-la quase tranqila

    Pelo ar a ondear e a ir...Silncio a tremeluzir...

  • As minhas Ansiedades

    As minhas ansiedades caemPor uma escada abaixo.Os meus desejos balouam-seEm meio de um jardim vertical.

    Na Mmia a posio absolutamente exata.

    Msica longnqua,Msica excessivamente longnqua,Para que a Vida passeE colher esquea aos gestos.

    Assim, sem nada feito e o por fazer

    Assim, sem nada feito e o por fazerMal pensado, ou sonhado sem pensar,Vejo os meus dias nulos decorrer,E o cansao de nada me aumentar.

    Perdura, sim, como uma mocidadeQue a si mesma se sobrevive, a esperana,Mas a mesma esperana o tdio invade,E a mesma falsa mocidade cansa.

    Tnue passar das horas sem proveito,Leve correr dos dias sem ao,Como a quem com sade jaz no leitoOu quem sempre se atrasa sem razo.

    Vadio sem andar, meu ser inerteContempla-me, que esqueo de querer,E a tarde exterior seu tdio verteSobre quem nada fez e nada quere.

    Intil vida, posta a um canto e idaSem que algum nela fosse, nau sem mar,Obra solentemente por ser lida,Ah, deixem-se sonhar sem esperar!

    As tuas mos terminam em segredo

    As tuas mos terminam em segredo.Os teus olhos so negros e maciosCristo na cruz os teus seios (?) esguiosE o teu perfil princesas no degredo...

    Entre buxos e ao p de bancos friosNas entrevistas alamedas, quedo

  • O vendo pe o seu arrastado medoSaudoso o longes velas de navios.

    Mas quando o mar subir na praia e forArrasar os castelos que na areiaAs crianas deixaram, meu amor,

    Ser o haver cais num mar distante...Pobre do rei pai das princesas feiasNo seu castelo rosa do Levante !

    s vezes entre a tormenta

    s vezes entre a tormenta,quando j umedeceu,raia uma nesga no cu,com que a alma se alimenta.

    E s vezes entre o torporque no tormenta da alma,raia uma espcie de calmaque no conhece o langor.

    E, quer num quer noutro caso,como o mal feito est feito,restam os versos que deito,vinho no copo do acaso.

    Porque verdadeiramentesentir to complicadoque s andando enganado que se cr que se sente.

    Sofremos? Os versos pecam.Mentimos? Os versos falham.E tudo chuvas que orvalhamfolhas cadas que secam.

    Atravessa esta paisagem o meu sonho

    Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinitoE a cor das flores transparente de as velas de grandes naviosQue largam do cais arrastando nas guas por sombraOs vultos ao sol daquelas rvores antigas...

    O porto que sonho sombrio e plidoE esta paisagem cheia de sol deste lado...Mas no meu esprito o sol deste dia porto sombrioE os navios que saem do port