Bioma Pampas.2015

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  • BIOMA PAMPAS

    A importncia de produzir preservando o Bioma Pampa

    18/07/2014

    Os biomas terrestres representam uma infraestrutura sobre a qual a humanidade constri sua sobrevivncia e bem-estar. Entretanto, conforme estas estruturas so aproveitadas para fundamentar atividades como a agricultura e pecuria, suas paisagens so alteradas, prejudicando a preservao de seus habitats naturais e sua biodiversidade. Por outro lado, o alimento um dos aspectos mais importantes relacionados ao bem-estar do homem e ao desenvolvimento de suas sociedades e depende da estrutura dos biomas para sua produo. Seus sistemas produtivos enfrentam, portanto, o desafio de alimentar uma populao emergente sem comprometer sua capacidade de sobreviver a este processo. Esse conflito mais evidente em ecossistemas que apenas recentemente passaram a ser valorizados.

    Ncleo de Estudos em Sistemas de Produo de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPRO)

    A preocupao em relao extino das espcies passa a ser mais abrangente, destacando a crise dos biomas, que seria muito mais grave, pois sua extino resulta da extino dos ambientes naturais e das espcies que abrigam, ou seu deslocamento para outros ambientes. O conhecimento dos diferentes usos da terra estrutura as polticas pblicas dos pases e suas informaes possibilitam o desenvolvimento de planos de segurana alimentar, perspectivas de produo agropecuria, a validao de estimativas de terras agriculturveis, o embasamento para possveis expanses da produo, assim como o auxlio na preveno e combate de desastres ambientais. Alm disso, contribui para a relevncia e confiabilidade dos estudos sobre sistemas agrcolas. Dessa forma, as pesquisas dedicadas compreenso das mudanas no uso da terra focadas nos biomas recebem relevncia nacional e internacional e buscam sua preservao em consonncia com a produo de alimentos. "Entretanto, o Bioma Pampa, e sua conformao de campos sulinos, no foram considerados prioritrios pelo governo brasileiro", salienta a mdica veterinria Tamara Esteves, do Ncleo de Estudos em Sistema de Produo de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPRO), que, em 1 de julho, defendeu o projeto de sua tese de doutoramento. O reconhecimento tardio do Pampa como bioma (IBGE, 2004) tambm atrasou as pesquisas dedicadas ao seu entendimento. Esses pesquisadores focaram seus estudos em servios ambientais e em regies pontuais, demandando novos estudos que contribuam para a construo do conhecimento quanto ao Bioma Pampa e, assim, fundamentar aes de conservao e manuteno dos campos sulinos. O pastejo em pastagens naturais uma das principais atividades agropecurias nos campos sulinos, sendo considerado o principal fator mantenedor de suas propriedades ecolgicas e fisionmicas, conforme Tamara. "A retirada da bovinocultura e do fogo produziria um acmulo de biomassa inflamvel, aumentando o risco de queimadas incontroladas, com grande impacto sobre a biodiversidade", alerta. A pesquisadora do NESPRO ressalta ainda que as paisagens de campos, como o caso dos campos sulinos do Bioma Pampa, so mantidas pela ao de animais herbvoros por sua capacidade de eliminar as mudas de plantas lenhosas. "Dessa forma, a produo de bovinos sobre pastagens naturais indicada para estas regies, devendo ser estudada e incentivada", conclui.

    http://www.ufrgs.br/nespro/noticia124.php

  • BIODIVERSIDADE DESCONHECIDA

    Pouco valorizado, Pampa perde 54% de sua rea original

    Por ser o mais recente bioma do Brasil, o Pampa ainda pouco valorizado e j perdeu mais da metade de sua rea original e diversas espcies tpicas da fauna e flora gacha, por conta de atividades agropecurias insustentveis

    Mnica Nunes/Dbora Spitzcovsky - Planeta Sustentvel - 19/10/2010

    Apenas no ano de 2004, o Pampa que, no Brasil, restrito ao Estado do Rio Grande do Sul foi reconhecido oficialmente como bioma pelo IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica e, tambm, pelo MMA Ministrio do Meio Ambiente. No entanto, apesar de ser um bioma recente, o Pampa j sofre com o problema da devastao ambiental e perdeu 54% de sua rea original. A destruio intensa da biodiversidade da regio tem, apenas, um culpado: o desmatamento, que praticado no bioma para possibilitar a realizao de atividades agropecurias insustentveis. Entre as mais comuns esto a produo de papel e arroz e a pecuria intensiva, que acontecem, principalmente, na cidade de Alegrete, segundo levantamento feio pelo Ibama. O alto ndice de devastao estaria relacionado ao recente reconhecimento do Pampa como bioma. De acordo com o MMA, isso faz com que as pessoas no o valorizem como deveriam e, ainda, pensem que, por ser um bioma novo, ainda h muito para devastar sem grandes consequncias. PERDA DE BIODIVERSIDADE PREOCUPANTE O ritmo de devastao do Pampa ainda o menor entre os biomas brasileiros. A regio perde, em mdia, 364 km anualmente, enquanto a Amaznia, por exemplo, perde 18 mil km no mesmo perodo. Ainda assim, o MMA considera a perda da biodiversidade na regio preocupante e digna de ateno, j que o Pampa possui uma grande quantidade de espcies da fauna e flora que so exclusivas do bioma. No total, so quase 4 mil espcies tpicas da regio gacha, sobretudo vegetais sem contar a biodiversidade que ainda desconhecida pelos pesquisadores. Recentemente, por exemplo, foram descobertos novos tipos de peixes e crustceos nos corpos dgua da regio dos campos do Rio Grande do Sul. A conservao de toda essa biodiversidade do Pampa traria, alm dos j conhecidos benefcios da conservao da fauna e flora, uma outra vantagem: a garantia da manuteno das reas de recarga do aqufero Guarani, que um reservatrio de gua importantssimo para os pases do Mercosul (para saber mais, leia a reportagem Aqufero Guarani e a gua do Mercosul). Apesar disso, a proteo da biodiversidade do bioma ainda no prioridade no Pampa. Segundo dados do governo do Rio Grande do Sul, apenas 3,6% das reas do bioma consideradas prioritrias esto sob algum tipo de proteo. Para amenizar a situao, o MMA e o ICMBio Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiversidade realizaram alguns estudos tcnicos e se comprometeram a criar trs novas unidades de conservao na regio. Alm disso, o governo ainda quer incentivar outras iniciativas que considera importantes para a preservao do bioma, como o turismo ecolgico e a pecuria extensiva, que tpica da cultura gacha e contribui para a manuteno e conservao da vegetao local.

    http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/pampa-perda-biodiversidade-desmatamento-604968.shtml

  • AGRICULTURA / EUCALIPTO - 26/03/2013

    Florestas artificiais ameaam biodiversidade do Pampa Estudo mostra que indstria de papel e celulose j ocupou 25% do bioma no RS

    por Globo Rural On-line Um levantamento feito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mostrou que a vegetao campestre dos pampas - que h sculos vive em harmonia com a pecuria na regio - est sendo dizimada par dar ligar a florestas plantadas de eucalipto e pinus. Segundo o estudo, a indstria de papel e celulose j ocupou 25% do bioma (aproximadamente um milho de hectares). Com 176 mil km, o bioma era considerado parte da Mata Atlntica at 2004. Originalmente, ocupava 63% do territrio gacho, mas hoje apenas 36% dessa rea ainda est coberta pela vegetao original. De acordo com a coordenadora do estudo, Ilsi Boldrini, da UFRGS, no "pequeno" remanescente do bioma foram mapeados 2.169 txons (

    Cerca de um milho de hectares do bioma dos

    Pampas foram ocupados pelas florestas

    plantadas de eucalipto (foto) e pinus

    uma unidade taxonmica, essencialmente ligada um sistema de classificao dos seres vivos) a maioria espcies diferentes, pertencentes a 502 gneros e 89 famlias. Desses, 990 txons so exclusivos do Pampa. No Cerrado, por exemplo, so 7 mil espcies em 3 milhes de km2. Poucas plantas nativas sobrevivem debaixo das rvores, tendo em vista que h pouca luz disponvel e as espcies de campo aberto precisam de muito sol. Depois de cortadas as rvores, o solo descoberto torna-se um ambiente propcio para espcies invasoras como o capim-annoni ou a grama-paulista, que so muito fibrosas e no servem para pasto. Mas, segundo Boldrini, o mais antigo e ainda hoje o principal fator de destruio do Pampa a agricultura, como as plantaes de soja e trigo nas terras mais secas e as plantaes de arroz nas reas midas, prximas a rios. Mesmo a criao de gado para corte, introduzida no Rio Grande do Sul pelos jesutas ainda no sculo XVI, tem se tornado uma ameaa por falta de manejo adequado. Os produtores usam uma carga animal muito alta. Como consequncia, o campo fica baixo e falta pasto no inverno. Eles ento aplicam herbicidas para eliminar a vegetao nativa e abrir espao para plantar espcies hibernais exticas, como azevm, trevo branco e cornicho, alertou Boldrini. Alm de ameaar a biodiversidade local, a prtica contamina o solo e a gua e ainda diminui a produtividade dos pecuaristas. O ideal, segundo Boldrini, seria ter uma oferta de forragem de trs a quatro vezes maior do que o gado capaz de consumir. "A produtividade mdia do estado hoje de 70 kg de carne por hectare ao ano. Com o manejo correto, pode passar para 200 kg a 230 kg por hectare ao ano. Alm disso, a qualidade da carne tambm melhora. Basta cuidar para o animal no liquidar com a vegetao, disse. Com informaes da Fapesp. http://revistagloborural.globo.com/Revista/Common/0,,EMI334317-18078,00-FLORESTAS+ARTIFICIAIS+AMEACAM+BIODIVERSIDADE+DO+PAMPA.html

    18.12.2012

    O Pampa desconhecido e o contrassenso do estmulo agricultura Falta de estratgias de conservao desse bioma problemtica, alerta Eduardo Vlez. Coberturas dos campos cederam espao para as culturas de soja e arroz, alm do eucalipto, em vez da criao de gado, vocao natural da regio

    Por: Mrcia Junges

  • Um bioma em larga medida desconhecido dos gachos, carente de uma rede consistente de unidades de conservao e de projetos de valo-rizao de prticas econmicas sustentveis. Assim o bioma Pampa, analisa o bilogo Eduardo Vlez, na entrevista concedida por e-mail IHU On-Line. A seu ver, ainda h muito por fazer, sobretudo em funo do incentivo que vem sendo dado ao cultivo de soja, arroz e eucalipto. E acrescenta sobre o plantio de ma-tas reflorestveis: Do ponto de vista da biodi-versidade, o problema surge quando estes plantios so realizados em grande escala, ocu-pando reas contnuas que se estendem por centenas a milhares de hectares. Alm de re-sultar na remoo da vegetao natural, este tipo de plantio geralmente interrompe a conec-tividade entre as reas naturais remanescentes, impedindo o fluxo gnico entre as espcies na-tivas. Vlez afirma que o maior inimigo do Pampa o no reconhecimento da sua voca-o para as atividades pastoris sobre os cam-

    foto cedida por Eduardo Vlez

    Formao savanide em Alto Camaqu

    pos nativos.Infelizmente a pecuria como atividade econmica vista como smbolo de atraso e de estagnao econmica na regio. justamente o contrrio: j est provado que a pecuria pode ser sustentvel, gerando retornos econmicos competitivos e promovendo a conservao da biodiversidade.

    Eduardo Vlez Martin graduado em Cincias Biolgicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, mestre e doutor em Ecologia pela mesma instituio com a tese Influncia de gradientes ambientais nos padres de diversidade das comunidades campestres nos Campos de Cima da Serra, RS. Est cursando ps-doutorado na UFRGS, onde leciona. um dos autores de Cincias biolgicas (So Paulo: FTD, 1999).

    Confira a entrevista.

    IHU On-Line Em que aspectos o Pampa um bioma desconhecido pela populao gacha? Eduardo Vlez Em muitos aspectos. Antes a regio era conhecida apenas como metade Sul. Convenhamos que a nome bioma Pampa valorizou muito mais este importante espao geogrfico. O desconhecimento do Pampa ainda existe, mas j foi bem pior. Hoje j h estudos cientficos voltados para este bioma, iniciativas de conservao e de produo sustentvel. Muito conhecimento novo tem surgido, o bioma j foi mapeado, sabemos que h diferentes tipos de campos nativos, quanto h de remanescentes de reas naturais, quais so as reas prioritrias para conservao e onde esto localizadas as principais reas de beleza cnica. O problema que ainda h pouca informao disponvel, numa linguagem acessvel, sobre a fauna, a flora e as belas paisagens dessa regio.

    IHU On-Line Quais so as reas prioritrias para preservao no Pampa? Eduardo Vlez O Pampa uma regio com grande heterogeneidade ambiental. Em todas as regies fisiogrficas que o compem (Litoral, Serra do Sudeste, Campanha, Depresso Central, Fronteira Oeste, Misses e Planalto Mdio), h alguma rea prioritria j identificada. Entretanto, se levarmos em conta as reas que foram menos alteradas, onde a natureza ainda guarda semelhana com as condies do passado, as reas que mais se destacam so parte da regio da Campanha, onde a agricultura no avanou muito, e na Serra do Sudeste.

    IHU On-Line Quais so as principais estratgias de conservao que esto sendo pensadas? Eduardo Vlez Creio que h ainda um problema de ausncia de estratgias consistentes de conservao para este bioma. H que se reconhecer que existem algumas iniciativas importantes, tais como o projeto RS Biodiversidade da SEMA-RS, os estudos feitos na regio pelo Ministrio do Meio Ambiente, o Zoneamento Ambiental da Silvicultura. Mas ainda pouco. O bioma carece de uma rede consistente de unidades de conservao e de projetos de valorizao de prticas econmicas sustentveis. Ainda h muito por fazer.

    IHU On-Line Nesse sentido, o que j est implementado? Eduardo Vlez Ainda no chegamos na zona de conforto de nenhuma das pautas que precisam ser implementadas. Ainda h muitas lacunas de pesquisa cientfica, de proteo da biodiversidade (in situ e ex situ), de produo sustentvel, de recuperao de reas de degradadas. IHU On-Line Nos ltimos anos, quais so as mudanas mais significativas nesse bioma em termos de biodiversidade? Eduardo Vlez Nas ltimas dcadas houve uma perda dramtica da cobertura de campos nativos em todo o Pampa. Os principais vetores de transformao foram a cultura do arroz, principalmente nas vrzeas e reas midas, e da soja. Entretanto, embora o monitoramento da cobertura vegetal seja algo recente (h dados para os anos de 2002, 2008 e 2009), esta tendncia parece ter desacelerado bastante, embora ainda preocupe. A vegetao nativa

  • (campos, florestas, reas midas, etc.) ocupava 37,3% do Pampa em 2002. Sete anos depois esta cifra baixou para 35,9%. IHU On-Line Em que aspectos a plantao de madeiras reflorestveis altera o equilbrio do bioma Pampa? Eduardo Vlez Do ponto de vista da biodiversidade, o problema surge quando estes plantios so realizados em grande escala, ocupando reas contnuas que se estendem por centenas a milhares de hectares. Alm de resultar na remoo da vegetao natural, este tipo de plantio geralmente interrompe a conectividade entre as reas naturais remanescentes, impedindo o fluxo gnico entre as espcies nativas. Isso particularmente crtico para aquelas espcies que tm populaes com tamanhos reduzidos, o que pode acarretar no aumento das extines locais. Podem tambm ocorrer outros problemas associados a estes megaplantios como o rebaixamento do lenol fretico, quando os plantios excedem a disponbilidade hdrica de uma determinada regio, problemas sociais decorrentes da modificao da estrutura agrria e de perda de identidade cultural. Portanto, esta atividade precisa ser disciplinada para que as zonas mais frgeis e os limites locais sejam respeitados. H formas de harmonizar esta atividade, desde que se levem em conta estes tipos de problema, que so efetivamente reais. IHU On-Line Quais so as principais espcies ameaadas de extino em nosso Estado e, sobretudo, nesse bioma? Eduardo Vlez A lista oficial da fauna ameaada no RS contm 261 espcies, das quais nove j esto provvel-mente extintas, como o gavio-real, e 43 encontram-se criticamente em perigo. Esto na lista muitas espcies de aves como o arapau-platino (Drymornis bridgesii), o rabudinho (Leptastenura platensis), o coperete (Pseudoseisura lophotes) e o corredor-crestudo (Coyphistera alaudina) e de mamferos como o cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), o veado-campeiro (Ozotocerus bezoarticus), o lobo-guar (Chrysocyon brachyurus) e o gato-palheiro (Leopardus colocolo). Com relao flora a lista oficial de espcies ameaadas no RS inclui 611 espcies. Na lista nacional, publicada em 2008, foram includas 16 espcies ameaadas no bioma Pampa incluindo uma espcies de buti (Butia eriosphata), quatro compostas (Chaptalia arechavaletae, Hysterionica pinntisecta, Senecio promatensis e S. ramboanus), duas leguminosas (Mimosa bracteolaris e Trifolium argentinense), duas solanceas (Nierembergia pinifolia e Solanum arenarium), uma gramnea (Thrasyopsis jurgenssi), trs bromeliceas (Dyckia alba, Dyckia elisabethae e Tillansia afonsoana), alm de Blechnum mochaenum, Cienfuegosia hasslerana e Euplassa nebularis. Cabe destacar que h muitos endemismos de plantas no RS, com destaque para as cactceas (Parodia herteri, Frailea castanea e Gymnocalysium uruguayense, dentre outras). IHU On-Line Em termos gerais, qual o grande inimigo do Pampa, que coloca em risco sua preservao e biodiversidade? Eduardo Vlez Entendo que o maior inimigo do Pampa o no reconhecimento da sua vocao para as atividades pastoris sobre os campos nativos. Infelizmente a pecuria como atividade econmica vista como smbolo de atraso e de estagnao econmica na regio. justamente o contrrio, j est provado que a pecuria pode ser sustentvel, gerando retornos econmicos competitivos e promovendo a conservao da biodiversidade. Sim, h problemas de gesto na cadeia produtiva e de prticas inadequadas de produo animal que precisam ser corrigidas urgentemente. Mas isso se resolve com polticas pblicas especficas. H diferentes tipos de campos no Pampa, incluindo centenas de espcies de alto potencial forrageiro e farmacolgico, isso tem um imenso valor. Tudo isso costuma ser negligen-ciado e os campos so sumariamente eliminados para implantao de lavouras, na onda dos preos elevados e mo-mentneos das commodities, muitas vezes em reas pouco produtivas que acabam sendo abandonadas. No se trata de demonizar as atividades agrcolas e de silvicultura. H espao para elas no Pampa. O que deve ser feito estimu-lar que a maior parte das paisagens seja ocupada pela pecuria nos campos naturais, cabendo um papel acessrio para estas outras atividades econmicas. um contrassenso que no Brasil se desmate na Amaznia, um bioma florestal, para criar gado sobre pastagens exticas africanas, e que se eliminem os campos do Pampa, um bioma campestre, para plantar rvores... Isso vai contra a vocao natural das regies e no desenvolvimento sustentvel.

    Ba da IHU On-Line http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4841&secao=412

    Edio 160 - Maro 2010

    Biodiversidade e conservao dos Pampas Mrcio Borges Martins Professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

    Grande parte da superfcie territorial do Sul do Brasil era originalmente coberta por extensas formaes vegetais abertas, os chamados campos sulinos. Essas formaes possuem uma identidade biolgica interessante, caracteri-zada por uma srie de espcies endmicas, alm da forte identidade cultural, associada no presente ao gacho e as suas tradies de criao extensiva de gado.

  • Apesar da diversidade e importncia cultural, as formaes campestres do sul do Brasil no tm recebido ateno conservacionista adequada e o nvel de proteo a esses ecossistemas muito inferior ao recomendvel. Atualmente, menos de 0,5% do Bioma Pampa est inserido em unidades de conservao de proteo integral. Os campos sulinos esto distribudos ao longo de dois biomas distintos: o Pampa, que cobre a metade Sul do Rio Grande do Sul e se estende para o Uruguai e Argentina, e os campos ao Norte, que se caracterizam pela formao de mosaicos associados s Matas com Araucria. No Rio Grande do Sul, o bioma Pampa tem uma rea aproximada de 176.000 km2, ocupando 63% da rea do Estado (IBGE, 2004). Os campos do Sul do Brasil possuem uma alta diversidade biolgica vegetal, sendo que o Pampa uma das regies no mundo mais ricas em gramneas. Apenas no Pampa do Rio Grande do Sul estima-se que ocorram cerca de 3 mil espcies vegetais. Alm disso, mais de 300 espcies de animais vertebrados terrestres (anfbios, rpteis, aves e mamferos) so conhecidas. A descrio e estudo dessa diversidade so certamente mais lentos e difceis para que a opinio pblica em geral possa supor. Tambm esto muito aqum da finalizao. Registrar a composio biolgica e os padres de distribuio de qualquer grupo de organismos uma das atividades bsicas, porm essenciais, no estudo da biodiversidade de uma determinada regio. Contudo esses estudos requerem grande investimento de tempo e dinheiro. Um fator agravante nesse processo a severa alterao observada em nossos ecossistemas, o que dificulta a documentao da fauna, ao mesmo tempo em que tem levado vrias espcies ao status de ameaadas de extino somente no Pampa gacho so conhecidas 146 espcies vegetais nessa situao. Graas prtica da pecuria tpica da regio, cerca de 50% da cobertura original de campos ainda apresentam caractersticas naturais ou seminaturais (com uso para a pecuria), porm as reas sem uso antrpico representam apenas de 4% a 12% desta frao. Para exemplificar a carncia de informaes, podemos citar a descrio em 2007 de uma nova espcie de coral-verdadeira (Micrurus silviae) endmica das reas de campos do oeste do Rio Grande do Sul. O encontro de uma espcie de interesse mdico e de grande porte, que atinge at 1,5m de comprimento, um forte indicativo do pouco conhecimento existente sobre a fauna da regio. Da mesma forma, uma nova espcie de sapo endmica do Pampa do Rio Grande do Sul e Uruguai foi descrita apenas no ano de 2004. Alm desses exemplos, em pouco tempo de estudo, nossa equipe j encontrou outras espcies de sapos, serpentes e lagartos desconhecidos da cincia ou que no possuam registro cientfico para o Brasil. Buscando sanar parte destas lacunas de conhecimento, nosso grupo de pesquisa, formado por pesquisadores e estudantes do Brasil e Uruguai, tm direcionado esforos no sentido de catalogar a ocorrncia dos anfbios e rpteis do Pampa. Devido a uma srie de caractersticas em sua biologia e distribuio geogrfica, seu estudo pode fornecer importantes subsdios para a preservao do Pampa como um todo, especialmente no que se refere aos efeitos potenciais das mudanas climticas previstas para as prximas dcadas. Atualmente, com patrocnio da Fundao O Boticrio de Proteo Natureza, nossa equipe vem descrevendo os padres de ocorrncia e distribuio dos anfbios e rpteis e usando algumas ferramentas computacionais de Modelagem de Nicho Ecolgi-co, que permitem projetar modelos da distribuio potencial, atual e futura em diferentes cenrios climticos. Os modelos de distribuio mostraram-se uma ferramenta eficaz, com ampla utilizao em pesquisas ecolgicas, de evoluo e conservao. Estes modelos tm sido empregados em estudos diversos, visando entre outros objetivos a predio da distribuio geogrfica atual e potencial, estimativa de invaso de espcies exticas, o efeito de mudanas climticas e ambientais e o desenho de unidades de conservao e priorizao de conservao. O uso de abordagens como a Modelagem de Nicho Ecolgico, que tiram proveito do melhor conhecimento terico e computacional disponvel sobre o tema, associado a dados referenciados e validados por especialistas, permitiro gerar hipteses sobre os impactos das alteraes climticas e a distribuio das espcies, que podem servir de ferramenta de trabalho para inmeros estudos futuros. Atravs dessas previses poderemos identificar as espcies e regies mais sensveis s alteraes climticas e ambientais sugeridas para o futuro e com isso indicar reas prioritrias para conservao do Pampa. Certamente, o incremento contnuo no conhecimento sobre os diferentes componentes da biodiversidade em associao com o uso sustentvel dos recursos naturais ser o caminho para a conservao do Pampa. A valoriza-o da pecuria extensiva bem manejada parece fornecer um cenrio promissor, tanto para a preservao da biodiversidade quanto da cultura gacha. Mas, para isso, o avano do conhecimento cientfico neste quesito fundamental. Colaborou no texto: Caroline Zank, Doutoranda do Programa de Ps-graduao em Biologia Animal da UFRGS.

    http://www.eco21.com.br/textos/textos.asp?ID=2176