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1 O espaço e o tempo no Largo da Sé em Lisboa 1 • Mestre Arq. João Menezes de Sequeira Professor na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Resumo O presente artigo procura dar uma pequena contribuição para o estudo do espaço urbano português e, de uma forma genérica, para o estudo da percepção do espaço, como instrumento original do arquitecto e do urbanista. O Largo da Sé foi, na origem, parte central da cidade de Lisboa. Hoje encontra-se relegado para uma posição ambígua na cidade, um espaço onde se margeia. Ao darmos uma panorâmica mais aprofundada sobre a evolução deste Largo até à Idade Média, com as alterações morfológicas de que foi objecto, procurámos entender os diversos modos como um mesmo espaço pode ser vivido e sentido. Essas alterações morfológicas, não tendo uma simetria directa com o modo como se realiza a percepção do lugar, não deixam de marcar inflexões importantes no modo de estar e sentir o mundo. Desde a Antiguidade, passando pela cidade árabe, até à cidade medieval constatamos uma simpatia entre a morfologia urbana e modos de ver o mundo. Existem fortes indícios de que a própria ideia de espaço, tal como a conhecemos na actualidade, é completamente estranha àquelas épocas. Palavras-chave: morfologia; vestígios arqueológicos; espaço urbano; percepção. 1 Parte deste texto foi inicialmente publicado pela Revista Malha Urbana nº2 e era para ser o primeiro de um conjunto de três partes. A descontinuidade da sua publicação material, inviabilizou o projecto, pelo que considerámos pertinente a sua revisão e publicação agora em modelo on-line.

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    O espao e o tempo no Largo da S em Lisboa 1

    Mestre Arq. Joo Menezes de Sequeira

    Professor na Universidade Lusfona de Humanidades e Tecnologias

    Resumo

    O presente artigo procura dar uma pequena contribuio para o estudo do espao

    urbano portugus e, de uma forma genrica, para o estudo da percepo do espao, como

    instrumento original do arquitecto e do urbanista.

    O Largo da S foi, na origem, parte central da cidade de Lisboa. Hoje encontra-se

    relegado para uma posio ambgua na cidade, um espao onde se margeia.

    Ao darmos uma panormica mais aprofundada sobre a evoluo deste Largo at Idade

    Mdia, com as alteraes morfolgicas de que foi objecto, procurmos entender os diversos

    modos como um mesmo espao pode ser vivido e sentido.

    Essas alteraes morfolgicas, no tendo uma simetria directa com o modo como se realiza a

    percepo do lugar, no deixam de marcar inflexes importantes no modo de estar e sentir o

    mundo. Desde a Antiguidade, passando pela cidade rabe, at cidade medieval constatamos

    uma simpatia entre a morfologia urbana e modos de ver o mundo. Existem fortes indcios de

    que a prpria ideia de espao, tal como a conhecemos na actualidade, completamente

    estranha quelas pocas.

    Palavras-chave: morfologia; vestgios arqueolgicos; espao urbano; percepo.

    1 Parte deste texto foi inicialmente publicado pela Revista Malha Urbana n2 e era para ser o primeiro de um conjunto de

    trs partes. A descontinuidade da sua publicao material, inviabilizou o projecto, pelo que considermos pertinente a sua

    reviso e publicao agora em modelo on-line.

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    Abstract

    This article intends to contribute for the study of Portuguese urban space and in a generic

    way, for the study of space perception, as an original instrument of architects and town

    planners.

    The Largo da S Catedral was once, a central space in the city of Lisbon, today its

    relegated for an ambiguous position. With a survey about the evolution of this space we

    intend to understand the different ways of living it, despite morphologic alterations that

    occurred along history.

    Those morphologic alterations dont have a direct symmetry with the perception of place,

    never the less they still generate important influences in the way people be and feel the

    world.

    From the Antiquity, passing trout the Arab city, and ending in the medieval city, we see

    sympathy between the urban morphology and ways of seeing the world. Strong

    circumstantial evidences show that our idea of space is completely strange to those times.

    Keywords: morphology; archeological vestiges; urban space; perception.

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    O espao e o tempo no Largo da S em Lisboa.

    A topografia, da rea em estudo, sobretudo as suas condies de orientao e a sua

    proximidade ao rio, levam a considerar como provvel, o estabelecimento humano desde

    pocas remotas. Aquele ponto da encosta ter sido usado como lugar de aglomerao

    humana, mas at data, s com os romanos se pode falar de vestgios urbanos, embora

    escassos2.

    A situao geogrfica, econmica, estratgica, de circulao e de comrcio eram pontos

    nevrlgicos rapidamente aproveitados pelo imprio romano. Assim, surgem cidades

    que ao se adaptarem ao terreno, topografia existente (muitas em anfiteatro, como o caso

    de Olisipo) se distinguem dos modelos tericos planos, sem como julgo ser o caso

    perderem certas ordinationes3.

    2 No significa isto que tomamos o partido de Vasco G. Mantas, "As formas primitivas de povoamento em Portugal", in

    Povos e Culturas, n-2, onde se afirma a no urbanidade dos castros, ou que contrariamente com Jorge Alarco, Portugal

    Romano, se considere a urbanidade desses castros. Antes nos parece que independentemente da definio de cidade

    adoptada, a existncia de oppidae ou castros foi determinante no aproveitamento que deles fizeram os povos romanos,

    como o provam quase todas as antigas cidades de Portugal. 3 A ortogonalidade planimtrica diversa daquela que se aplica a uma topografia mais irregular, sem no entanto deixar de o ser. O que se v na realidade experimentada da cidade no igual ao que vemos na planta (veja-se a ortogonal lanada

    desde a zona ribeirinha, cruzando-se com o decumanos no claustro da S e seguindo para o Teatro). Esta caracterstica de

    adaptao ao terreno, prpria das cidades mediterrneas foi, como sabido, herdada das cidades gregas continentais,

    geralmente colocadas na encosta, em locais privilegiados para o comrcio, e em locais acidentados. Mais forte a

    semelhana quando olhamos para a diviso da cidade em cidade alta e cidade baixa, (tambm a propsito da influncia

    grega na cidade veja-se a enorme quantidade de nomes gregos existentes na poca romana e constantes da Epigrafia de A.

    Vieira da Silva), que para alm de ser uma caracterstica de Lisboa e de outras cidades de Portugal continental, foi

    tambm uma caracterstica exportada para os locais onde fundmos cidades, principalmente no Brasil.

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    Se atendermos localizao dos

    achados romanos mais

    significativos, (encontrados at

    data), topografia do terreno e s

    investigaes de Vieira da Silva

    (1899), seremos forados a

    considerar como provvel, a

    existncia de uma via que

    atravessava a cidade, o decumanus,

    (estando o cardus por situar). A

    hiptese do arruamento E/O ser o

    decumanus parece-nos bastante

    provvel j que, no seu hipottico

    trajecto temos a maioria dos achados

    arqueolgicos encontrados e porque, a largura da mesma4 aponta para uma via de certa

    importncia.

    Muitos atribuem genericamente a localizao do frum romano de Olisipo, rea em

    estudo, ou perto da Igreja de St. Cruz do Castelo, acreditamos pelo contrrio que tais

    localizaes so improvveis, porquanto se baseia em dois factores, o topogrfico, que

    considera as actuais plataformas do terreno e a teoria de sacralizao dos lugares, que

    aponta para a permanncia de certos espaos "sagrados". Esquecem-se contudo

    alguns factores que nos parecem pertinentes, nomeadamente, a alterao brutal do limite 4 Segundo as actuais escavaes realizadas no Claustro da S tem cerca de 2.5m.

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    da cidade depois das invases brbaras, a inexistncia da plataforma topogrfica na

    Idade Mdia que possibilitaria o actual Largo da S e os achados arqueolgicos nas

    imediaes do Largo da Madalena5.

    Conjecturalmente podemos supor que o frum se localizava mais para baixo, perto do

    Largo da Madalena, estendendo-se obliquamente na direco do Rossio, Praa da

    Figueira (este ltimo local seria o de uma Necrpole), o que alis, faz algum sentido j que

    a, se encontraram muitos restos e inscries. A ser assim, ento o local onde se situa o

    Claustro da S poder revelar, na melhor das hipteses, a existncia anterior de algum

    edifcio importante, que segundo a hiptese da sacralizao dos lugares poderia ser um

    Templo. que, mesmo a fortificao da cidade, importante na medida em que relaciona este

    espao com o resto da cidade, no passa de uma conjectura formal. Embora se deva aceitar a

    descrio de Estrebo que refere que Jnio Bruto6 estabeleceu as suas bases militares na

    margem direita do Tejo aps o que fortifica Olispo, nunca esta fortificao descrita em

    qualquer fonte, ficando-nos assim apenas a conjectura de Vieira da Silva (1899), tambm

    aceite por Jorge Alarco (1988).

    Importa no entanto assumir a importncia deste local na Era Romana como espao

    eminentemente comercial e localizado na estrutura principal da cidade antiga, a

    5 Segundo o apanhado realizado por Alarco (1988, p. 124), em 1773 e em 1943, em escavaes neste local, foram

    encontradas nesse local, colunas, bases e capitis jnicos; na Rua da Madalena recolheu-se um pedestal de esttua erigida

    a Cmodo datada de 178-180 d.C., na Igreja da Madalena estava uma inscrio deusa Concrdia; ao construir-se um

    prdio que faz esquina entre o Largo da Madalena e Travessa do Almada, descobriu-se uma inscrio de homenagem a

    Lucius Caecilius Celeris Recto, questor da provncia da Beatica e pretor. Na mesma rea da cidade foram recolhidas

    inscries a Mercrio e Cible, 6 Jnio Bruto mais conhecido pelo seu cognome, Calaico, devido derrota imposta ao povo Calaico no Norte, sucede em 138 a.C. a Quinto Cepio como procnsul da Hispnia Ulterior.

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    descoberta recente de estabelecimentos comerciais, as Tabernea e de um arruamento na

    direco do Teatro de Nero, no Claustro da S, confirmam esta tese (Figura abaixo).

    Resumindo, o legado romano na cidade pontual e pouco transparente, restam-nos apenas

    algumas hipteses, nomeadamente a passagem do decumanos coincidente com a futura rua

    direita, mas que ainda no inflecte na zona da catedral e a existncia de Tabernea, nada no

    entanto nos ficou que possa definir com alguma preciso o espao, talvez, com novas

    investigaes arqueolgicas se consiga chegar alguma concluso.

    Antes de entrarmos no estudo das contribuies rabes para o nosso espao, convm tecer

    algumas palavras sobre os seus ocupantes anteriores. Embora da ocupao destes povos

    poucos restos materiais tenham ficado, e segundo Oliveira Marques (1972) no tenham

    havido grandes alteraes, foi determinante, desde o sc. IV, a passagem do mundo pago

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    ao cristo, pois a cidade passa de foco de religio pag - o centro da cidade era um espao

    sagrado, dedicado aos deuses da cidade - para foco de religio crist. A estrutura urbana

    que se molda pelas crenas e pelas prticas religiosas pags vai sofrer necessariamente uma

    mudana, o espao exige configuraes diferentes daquelas que eram habituais na

    cidade clssica. Os lugares pagos passam a ser os lugares cristos, mas o novo culto vai

    progressivamente alterar a prpria estrutura espacial.

    Data desta poca, a converso da hipottica construo romana no lugar da S em templo

    cristo, mas como j vem sendo usual nada existe que o comprove, mesmo as pedras

    com inscries dos povos visigodos encontradas, no se podem atribuir a uma provenincia

    especfica.

    Um ponto que nos parece fundamental para o estudo que temos vindo a efectuar a

    reduo dos limites da cidade. A cidade s sobrevive com defesas, com muralhas, uma

    sociedade defesa e principalmente nesse aspecto, tm grande responsabilidade as

    constantes invases7. Ora a reduo do permetro urbano vem a nosso ver deslocar o

    centro "cvico" da cidade mais para cima, anulando e deixando ao abandono o antigo

    frum, mas por bvias razes topogrficas fixa-se nas proximidades da muralha, onde

    doravante passa a existir uma porta8.

    Com a conquista da cidade plos muulmanos o mesmo que havia acontecido com a cidade

    romana, no que religio diz respeito, vai acontecer agora com a cidade visigtica.

    7 neste contexto que se pode afirmar que a construo da Cerca Velha seja de autoria original visigtica, provavelmente coincidente com a actual Cerca Moura, que tendo sido restaurada vrias vezes quer por uns quer por outros, acaba por

    assumir caractersticas muulmanas devido a terem sido estes os que mais alteraes lhe fizeram. 8 S assim conseguimos explicar a proximidade do espao em estudo, da porta da cidade.

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    Sabe-se que a cidade islmica peninsular apresenta a particularidade de ter uma

    fragmentao em trs partes ou ncleos, a saber: a Alcova com o Alccer (Palcio), a

    Medina, e o Rabad.

    Lisboa apresenta estas trs caractersticas: o actual Castelo era a Alcova onde estava a

    Mesquita menor, rodeada de muralhas; a Medina, cidade civil onde se encontrava a

    Mesquita maior, rodeada de muralhas e com algumas torres; e finalmente, os Rabad ou

    Arrabaldes, fora de portas.

    A descrio de Ahmede Arrazi no sc. X a primeira notcia que nos chega sobre as

    proximidades da S, referindo-se porta que se encontrava no local do actual Largo de

    Santo Antnio, descreve-a como sendo "a maior da cidade", "encimada por arcos

    sobrepostos que assentam em colunas de mrmore, por sua vez apoiadas em

    envasamentos de mrmore"9. Trata-se de uma referncia que nos d um elemento

    importante da cidade rabe: a porta. Outra referncia dada pelos cruzados Osberno e

    Arnulfo na altura da reconquista, j no sc. XII, mas que mais ou menos concludente no

    que se refere existncia de um templo no lugar da S. Tambm Alexandre Herculano

    relata a existncia de uma Mesquita no mesmo lugar, "vasto edifcio formado por sete

    renques de colunas com os seus coruchus,"10

    O espao muulmano difere completamente do espao romano ou mesmo romano-

    cristo. A cidade formada por um somatrio de espaos fechados, que se vo justapondo

    e tm algumas breves passagens, o percurso principal da cidade islmica uma espcie de

    9 Nabais et all. (1987, p. 18) 10 Herculano ( 1840, p.159.)

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    ramo, isto , um tronco que vem de uma porta, diversifica-se em dois ramos, um dos ramos

    vai para a outra porta, o outro conduz Mesquita maior.

    Como refere Fernando C. Goitia (1982, p.70), "Entre a cidade pblica, a polis grega, a

    civitas romanas e a cidade domstica do mundo germnico, temos outro tipo de cidade que

    no se pode confundir com os dois primeiros: a cidade islmica, a que chamaramos

    privada", ela tem um "carcter profundamente religioso que, a partir da prpria casa, (...)

    transcende tudo, impregna tudo", "a cidade islmica a soma de um determinado nmero

    de crentes" e mais adiante considera-a "uma cidade secreta que no tem ruas". O nosso

    espao aparece assim como integrante da estrutura comunicativa da cidade, talvez como

    suck que conduz mesquita maior, ligando-a porta principal da cidade.

    A cidade islmica tem nas categorias de interior e exterior, a sua "essncia". No h uma

    totalidade no exterior e outra no interior, o interior ganha sentido na luta contra o exterior,

    a porta como o prprio suck (fecham noite) funcionam aqui como reguladores dessa

    alternncia.

    A porta descrita por Alexandre Herculano (1848) "O vo da Porta do Ferro... constitua

    uma espcie de quadra, rota de dous lados, posto que no em toda a largura, por duas

    portadas ogivais, (...) e que (...) bem mostravam ser contemporneas da edificao da

    muralha (...) Numa das paredes, que corriam lateralmente em relao s portadas, via-se

    um pequeno arco tambm ogival, e cujo vivo no excederia a decima parte da rea dos

    dous arcos maiores. Era a comunicao para uma escada, que, dividindo-se em dous

    lanos, subia para o andaime do muro". na sua traa geral uma porta muulmana, dupla,

    embora de reduzidas dimenses, criando um pequeno ptio interior, o ptio de armas, cuja

    imponncia descrita por Ahmede Arrazi.

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    Porque a privacidade determinante, a porta muulmana apresenta um valor simblico,

    preponderante e em si, j, uma forma de seleco, pois a entrada na Medina no se deve

    fazer directamente. Depois da porta, o decumanos romano ainda presente, acompanhado

    pelo comrcio do suck, logo aps a bifurcao para a Alcova e para a Mesquita.

    O local do nosso estudo o centro da Medina, onde se instala a Mesquita, em volta da qual

    h os suck e as instalaes para albergar os forasteiros e os mercadores, designados como

    funduck, espcie de estalagem, hospedaria, lugar de comrcio, armazm, ou stio de fabrico

    de objectos artesanais.

    A mesquita organiza-se em volta de um ptio central, funo civil e sagrada, onde est a

    fonte ou o poo11, em volta desse ptio, nas arcadas, estariam as escolas cornicas.

    Se a sala de orao a matriz orgnica da cidade islmica, a partir da sala de orao da

    mesquita que a cidade se organiza. A casa, por exemplo, desenvolve-se volta de um ptio

    (de modo idntico ao esquema da mesquita) materializando no espao a organizao

    social, familiar, e clientelista do mundo islmico.

    A nossa rua sendo das mais abertas seria hipoteticamente constituda por um

    alinhamento de casas. Esse alinhamento fragmentado, e justapem-se ao lado umas das

    outras as vivendas, dando acesso a espaos fechados, que podem ter acessos a pequenas

    mesquitas ou capelas, (era comum as pequenas capelas surgirem nas vielas ou em

    locais mais interiores).

    De qualquer modo e sabendo o quanto hipottico tentar reconstituir um espao em que

    poucas referncias ficaram, arriscamo-nos a tentar uma reconstituio que, embora j

    delineada nas linhas precedentes, aqui fica resumida. A nossa rea seria assim caracterizada 11 Poo que ainda existe no Claustro da S.

  • 11

    pela porta da cidade, que tinha na sua frente um espao ligeiramente alargado, seguir-se-

    ia um espao corredor, sensivelmente onde corre a Rua de Santo Antnio da S, talvez

    um pouco mais a norte, aproveitando a existncia romana, depois, mais ou menos entre o

    claustro e a abside, tnhamos a mesquita direita, em frente qual, aproximadamente onde

    est actualmente o cruzeiro e as naves da S, se abria um espao onde se desenrolava o

    mercado, a via que segue para a Alcova partiria j junto da Mesquita Maior.

    Desde a reconquista no sc. XII at ao sc. XIV a malha da cidade circundante da rea em

    estudo sofre algumas alteraes fruto do tipo de adaptao medieval da cidade

    muulmana. Esta adaptao prende-se com a mudana do tipo de uso. A casa muulmana

    como vimos uma casa introvertida, uma casa que no se assume como limite de uma via,

    enquanto a casa medieval crist aberta para a rua12, que o prolongamento natural da casa.

    As ruas passam a apresentar-se como local de passagem13, mas sobretudo como local de

    trabalho e de comrcio, apresentavam-se geralmente estreitas e sinuosas, sobretudo

    devido permanncia da traa muulmana e aos balces, tabuleiros, alpendres e passadios

    medievais, que se construam nelas e sobre elas, dificultando muitas vezes a passagem de

    carroas ou cavalos.

    Se por um lado o espao substancialmente alterado pela presena simblica da Igreja

    Matriz, a via que ali passava e que j na anterior ocupao havia assumido um papel

    12 A designao de rua aqui abusiva, pois na realidade ela no era ainda um elemento autnomo, como o vem a ser

    posteriormente, mas falta de melhor designao ser esta empregue. 13 A passagem no a nica funo da rua medieval isto a passagem faz-se por onde se pode e onde d mais jeito, no

    a rua que a determina, na medida em que ela ainda no fornece as "baias" do corredor. Para tal concorre o facto de que as

    ruas so usadas como passagem unicamente humana e animal, s mais tarde com a introduo progressiva dos veculos

    (de guerra e de transporte de materiais com traco animal) que as preocupaes de desimpedimento aparecem.

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    preponderante de quase nico "espao pblico", altera-se na sua configurao fsica14, e

    comea a delinear-se e a assumir-se como rua direita, a Rua Direita da Porta Travessa da

    S, que sob vrias designaes atravessa a cidade de uma porta outra, e que no sc. XIII

    tem continuidade comercial para o arrabalde ocidental atravs da Rua do Arco de Nossa

    Senhora da Consolao. na freguesia de S. Madalena e na continuidade da rua citada, que

    encontramos instaladas as forjas (as ferrarias) e o mercado dos cereais (as fangas), e mais

    longe do centro em S. Nicolau vamos encontrar o bairro dos carniceiros e o mercado.

    Em redor da S no Largo agrupam-se tendas e toda a zona circundante se encontra

    densamente ocupada. A S continua, durante toda a Idade Mdia a ser importante cabea de

    diocese, o lugar de partida e chegada de todas as procisses15 e mesmo local obrigatrio

    de paragem para o Rei16. O espao que lhe adjacente assume durante este perodo as suas

    funes comerciais, bem como de local do poder municipal (presena dos Paos do

    Conselho na antiga casa de Santo Antnio) logo junto Porta do Ferro, enquanto todo o

    eixo da cidade, da Porta do Ferro Porta do Sol, o espao real e nobre, quando a corte

    itinerante se instalava temporariamente no actual Limoeiro, o Pao Apar de S. Martinho.

    A articulao entre estes poderes faz-se atravs de uma dissociao funcional entre os

    diferentes espaos. Trs largos articulados pela rua direita, trs funes especficas, a

    autoridade civil (o espao comercial), a autoridade eclesistica (a igreja), a autoridade

    rgia (o palcio).

    14 minha hiptese que a alterao desta via lhe advm da construo da Igreja de Santa Maria Maior, que ao erguer-se

    parcialmente sobre a rua existente, vai obrigar alterao do seu trajecto para o local da anterior Rua Direita da Porta

    Travessa da S, o que explicaria a sua abrupta inflexo. 15 Sobre as procisses e seus percursos na cidade, j no reinado de D. Manuel, ver o trabalho de Renata de Arajo (1990). 16 Ana Maria Alves (1986).

  • 13

    A porta continua a ter um papel

    simblico muito forte,

    especialmente porque marca o

    local onde se realiza o

    cerimonial da entrada do

    monarca, ou do bispo, das

    procisses S e mais tarde das

    peregrinaes a Santo Antnio.

    Tambm para o povo ela

    representava qualquer coisa

    como o "ponto de encontro de dois mundos, o mundo rural e o mundo urbano, o mundo

    interior e o mundo exterior"17 era onde as diferenas ganhavam formas jurdico-

    administrativas, mas era tambm o lugar da celebrao e do arco triunfal.

    A viso que o homem medieval tem da cidade uma viso parcelar. O espao em estudo

    tinha, segundo a nossa interpretao, aps a entrada triunfal18, um amontoado de casas e

    tendas com os tabuleiros para a rua, haveria provavelmente uma estalagem, ao levantar

    os olhos avistavam-se as torres da S, e andando mais uns metros encontrava-se um

    recinto irregular onde o som aumentava com a diversidade e animao dos tendeiros, era

    o centro, o ncleo de toda a cidade.

    Mas a cidade desta poca sobretudo uma cidade da religio, "a reza, a missa, o cortejo, a

    cerimnia de vida, o baptismo, o casamento, ou o funeral - a cidade mesma era o palco

    17 L. Mumford, 1961, p.331. 18 A porta tinha uma capela construda em cima, era uma construo que se evidenciava pelo material e pelas dimenses.

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    dessas diferentes cenas do drama, o prprio cidado, mesmo quando representava seus

    vrios papeis, era ainda um homem integral, tornado um s pela viso csmica e mantido

    em tenso pelo drama humano da Igreja, imitando o drama divino do seu fundador"19.

    A percepo do espao em si e no existe, o espao no um entidade prpria, uma

    manifestao de Deus, o mundo est povoado de significados, reenvios, sobre sentidos,

    numa natureza que falava continuamente uma linguagem herldica, misturada de animismo.

    O Romnico, parece portanto ter sido a poca onde foi inventado (ou retomado) um limite,

    aquele que divide a terra do cu20, csmico porque de pertena inatingvel, divino porque de

    procedncia. A sua analogia com a muralha da cidade (paliada ou muro), mais do que

    19 L. Mumford, 1961, p.305 20 Refiro-me a inveno na medida em que o cristianismo caracteriza-se pela inveno do uno, facto impensvel na

    Antiguidade e refiro-me ao retomar na medida em que esse limite sempre l esteve como segundo crculo, csmico, de

    referncia: o dia e a noite; o cu e a terra; as estaes do ano; etc

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    isso, vai ser a imagem desse mesmo mundo dividido entre o paraso e o inferno, entre o cu

    e a terra.

    Mas essa imagem porque o , inicia um processo de contaminao entre estes dois nveis,

    o divino e o terrestre que se reflecte de modo multifacetado na cidade. Ao separar a

    cidade divina (Jerusalm celeste, cidade virgem) da cidade terrestre (Babilnia

    apocalptica, cidade prostituta) materializa o limite como diferena de valores absolutos.

    Este j atravessado pelo tempo, pela imagem harmnica da histria. A imagem espacial da

    cidade terrestre no a da cidade divina, no entanto a imagem temporal inicia aqui a sua

    mimesis (todo o homem filho de Deus Uno). Todo o Romnico atravessado na Europa,

    pela febre crist, que atravs do seu corpo doutrinal vai investir de nova simbologia os

    smbolos pagos e valorizar o ensino do povo. O investimento de novos significados

    implica o quebrar dos nexos sintcticos, por a que o tempo divino se vai unir ao terrestre,

    mas ao unir-se ao tempo une-se intrinsecamente ao espao do corpo.

    Segundo Zumthor (1993, p.41) a Idade Mdia uma civilizao do gesto sendo talvez este

    facto que melhor a define. Era atravs do corpo que se efectuava a identificao com o

    modelo comum, "De onde resulta la firmeza del corpo social, este nosotros que unifica

    menos um proyecto histrico que se v a realizar en el tiempo que unos ritos colectivos

    ligados a este, junto con lo que implicam: una simpatia, en el sentido literal de la palabra;

    un hbito de participacin emocional furte, libremente sometido a pasiones sbitas; una

    oscura conciencia de la extensibilidad dei yo" esse corpo que ir constituir os

    "smbolos" opositivos, de "levantado frente a acostado, erguido frente a encorvado,

    duro frente a blando, dilatado frente a contrado, caliente frente a frio, y otras, de intensidad

    variable y a menudo especificadas en un esquema tpico, con el corazn como centro dei

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    calor, Ia cabeza, dei frio: de este modo, Ia mano, el pie, los rganos de los sentidos y sus

    actividades, ver, or, tienen una situacin privilegiada".

    Ao recompor a sociedade e o homem na totalidade e unidade de um acontecimento, unifica

    materialmente todos os elementos, tornando o contorno pertena dos corpos. Atravs da

    ideia de partculas, todos os espaos vazios so passveis de ser preenchidos plos

    corpos adjacentes. Esta decomposio do universo, cria a ideia de absoluta continuidade,

    entre lugar e edifcio, entre existente e proposto, entre edifcio e escultura, etc. O

    cristianismo era avesso ideia de descontinuidade, a sua preocupao o uno, aquilo que

    une todos os elementos.21 Sendo a configurao mental e intelectual da Idade Mdia

    nmada (pelo menos at 1500), apresentando aspectos ligados ao esoterismo do

    conhecimento, a uma valorizao da viso csmica de procedncia e aceitao da

    natureza como prolongamento de si. Por isso, a interveno urbana no Romnico,

    sendo que "interveno" um termo inadequado, realizada por assimilao e

    simpatia de construes j existentes e posteriormente por preenchimento de vazios

    tornados disponveis. O desaparecimento de grande parte dos vestgios romanos como

    muulmanos na cidade, quer atravs da sua reutilizao e transformao funcional quer

    atravs do seu desmantelamento e uso como depsito de material disponvel , dessa

    assimilao, o melhor exemplo. Com a diminuio da importncia formal (de

    contorno) a desmaterializao da prpria cidade antiga (quando existia) era inevitvel.

    21 E. Panofsky (1981, p.39) considera que o homem medieval, artista (sobretudo aquele que no copia a natureza, o

    arquitecto), conforma a obra segundo uma representao interior, uma quase-ideia preexiste obra. S pela criao

    arquitectnica se verificava o paralelismo entre criao artstica e conhecimento divino.

  • 17

    O que construdo nunca o de raiz (do zero), existe sempre uma preexistncia, a sua

    provenincia sempre csmica, no h projectos22, h apenas acrescentos e adies, a

    relao estabelecida contnua em relao ao existente. Essa continuidade dada na

    cidade pela substncia material ou por essa rematerializao. A interveno urbana est

    encastrada na malha urbana, no se liberta como unidade autnoma e mesmo as Igrejas que

    j aqui se destacam na cidade, quer pela sua altura e estrutura construtiva vasta23, quer pelo

    seu movimento vertical, atestam a sua pertena pela massa construtiva e pela posio na

    malha medieval24. Estas ltimas, tal como as genealogias25 so a representao visual e

    mental do incio do movimento referido, entre o cu e a terra, ou preferirmos de um

    movimento de "aproximao"26 a um determinado limite.

    Bibliografia:

    Alarco, J. Roman Portugal (Archaelogists guides to the Roman world, vol. II, Fasc. 2

    Coimbra & Lisboa) Warminster: Aris & Phillips.

    Alves, A. M. (1986) As entradas rgias portuguesas uma viso de conjunto. Lisboa:

    Livros Horizonte. 22 No sentido de disciplina, que difere no tempo e no espao a concepo e a construo. 23 Prendendo-se esta ltima com os seus objectivos, albergar o maior nmero de crentes. 24 As Igrejas s mais tarde so separadas das construes vizinhas. 25 A partir do sc. X triunfa nas prticas sociais e na mente dos religiosos a ideia de genealogia, espcie de nomadismo

    vertical. 26 Aproximar aqui no sentido fsico em que se perde a noo de uma diferena, por se estar j dentro dela. Movimento

    tambm referido plos processos perceptivos como resultante num processo de induo.

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    Arajo, R. (1990) Lisboa - A Cidade e o Espectculo na poca dos Descobrimentos.

    Lisboa: Livros Horizonte.

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    1846)

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    (Neil R. Da Silva, Trad.). S. Paulo: Livraria Martins Fontes. (original de 1961) .

    Nabais, A. J. C. M. e Ramos, P. O. (1987) 100 anos do Porto de Lisboa. Lisboa: APL.

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    Pumarega, trad.). Madrid: Ediciones Ctedra.

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    (A. Martorell, trad.). Madrid: Ediciones Ctedra. (original de 1993).

    Mantas, Vasco G. C. S. (1987). As primitivas formas de povoamento urbano em

    Portugal. In Povos e Culturas II. Lisboa: Universidade Catlica, Centro de Estudos dos

    Povos e Culturas de Expresso Portuguesa, p. 13-55

    IDENTIFICAO:

    Joo Manuel Barbosa Menezes de Sequeira

    Av. Vasco da Gama, 52 3 Drt. 1700-128 Lisboa

    Professor Auxiliar Convidado da Universidade Lusfona de Humanidades e Tecnologias

    Mestre em Desenho Urbano pelo ISCTE

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    E-mail: [email protected]

    Telf. (351) 213021312 Tlm: (351) 919321164 Fax: n.d.