WEBER, Florence. A entrevista, a pesquisa e o íntimo, ou, por que censurar seu diário de campo

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Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 157-170, jul./dez. 2009 A ENTREVISTA, A PESQUISA E O ÍNTIMO, OU: POR QUE CENSURAR SEU DIÁRIO DE CAMPO? Florence Weber Institut National de Recherches Agronomiques – França Resumo: O diário é constitutivo do ofício do etnógrafo, mas não é nada mais do que um conjunto disseminado de notas heterogêneas. Sua publicação, respeitando uma classificação cronológica, cria a ficção romanesca de um narrador-etnógrafo. Censurar a publicação permite não censurar a escrita. Os materiais censurados não são da ordem do íntimo, mas da ordem do não (ainda) inteligível. Palavras-chave: etnografia, diário de campo, ficção, objetificação. Abstract: The field diary is part of the ethnographer’s job. It is merely a set of sparse heterogeneous notes. Its publication, respecting a chronological classification, crea- tes the Romanesque fiction of an ethnographer-narrator. Censuring the publication of the diary implies that the original writing will not be censured. The censured mate- rials do not relate to issues of privacy, but to the not (yet) intelligible. Keywords: ethnography, fiction, field diaries, objectification. Introdução Uma parte expressiva do ofício do etnógrafo reside na construção do di- ário de campo. Esse é um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia após dia ao longo de toda a experiência etnográca. É uma técnica que tem por base o exercício da observação direta dos comportamentos culturais 1 de um grupo social, método que se caracteriza por uma investigação singular 1 Eu retomo aqui o título do manual de campo de Marcel Maget (1953): Guide d’étude directe des comportements culturels.

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    A ENTREVISTA, A PESQUISA E O NTIMO, OU:POR QUE CENSURAR SEU DIRIO DE CAMPO?

    Florence WeberInstitut National de Recherches Agronomiques Frana

    Resumo: O dirio constitutivo do ofcio do etngrafo, mas no nada mais do que um conjunto disseminado de notas heterogneas. Sua publicao, respeitando uma classifi cao cronolgica, cria a fi co romanesca de um narrador-etngrafo. Censurar a publicao permite no censurar a escrita. Os materiais censurados no so da ordem do ntimo, mas da ordem do no (ainda) inteligvel.Palavras-chave: etnografi a, dirio de campo, fi co, objetifi cao.

    Abstract: The fi eld diary is part of the ethnographers job. It is merely a set of sparse heterogeneous notes. Its publication, respecting a chronological classifi cation, crea-tes the Romanesque fi ction of an ethnographer-narrator. Censuring the publication of the diary implies that the original writing will not be censured. The censured mate-rials do not relate to issues of privacy, but to the not (yet) intelligible.Keywords: ethnography, fi ction, fi eld diaries, objectifi cation.

    Introduo

    Uma parte expressiva do ofcio do etngrafo reside na construo do di-rio de campo. Esse um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia aps dia ao longo de toda a experincia etnogrfi ca. uma tcnica que tem por base o exerccio da observao direta dos comportamentos culturais1 de um grupo social, mtodo que se caracteriza por uma investigao singular

    1 Eu retomo aqui o ttulo do manual de campo de Marcel Maget (1953): Guide dtude directe des comportements culturels.

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    que teve Bronislaw Malinowski como pioneiro e que perdura na obra de um Marcel Maget, caracterizada pela presena de longa durao de um pesquisa-dor-observador convivendo com a sociedade que ele estuda.

    Em torno desse mtodo, tambm chamado de observao participan-te, houve inmeros debates. Neste artigo vou me deter unicamente na ques-to da escrita e da publicao do dirio de campo do etngrafo, recusando, alis, considerar o mtodo etnogrfi co como apangio de uma disciplina, a etnologia. De fato, os socilogos, mais que os gegrafos ou os historiadores, seguidamente fi zeram uso da observao direta sem a fetichizar. Os pesquisa-dores que se posicionam como etnlogos stricto sensu no raro elitizaram a pesquisa etnogrfi ca dignidade do campo, termo afetado por um genitivo de propriedade (o campo de tal ou tal etnlogo, meu campo). Essa palavra mgica designa ao mesmo tempo a sociedade ela mesma, o estgio que ali empreendeu o etnlogo e o desenvolvimento de sua investigao.

    Trs dirios em um

    A evidncia de um dirio de campo, que seja erigido em dogma ou trans-formado em rotina, recobre, na realidade, um conjunto complexo de prticas de escrita, cujas funes e status so mltiplos, podendo as folhas de escrita que se sobrepem ter destinos diversos. Eu distinguirei trs tipos de dirios: um dirio de campo especfi co da etnografi a; um dirio de pesquisa, tal como poderia desenvolver um historiador ou um fi lsofo; e um dirio ntimo. Nesse ltimo caso, conforme o modelo dos dirios autobiogrfi cos em que so depositados os humores e as emoes de seu autor.2

    no dirio de campo que se exerce plenamente a disciplina etnogrfi -ca: deve-se a relacionar os eventos observados ou compartilhados e acumular assim os materiais para analisar as prticas, os discursos e as posies dos entrevistados, e tambm para colocar em dia as relaes que foram nutridas entre o etngrafo e os pesquisados e para objetivar a posio de observador. , pois, o dirio de pesquisa de campo que permitir no somente descrever e analisar os fenmenos estudados, mas tambm compreender os lugares que

    2 No pude analisar a heterogeneidade do dirio de campo sem as questes de Grard Noiriel (1990).

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    sero relacionados pelos observados ao observador e esclarecer a atitude deste nas interaes com auqeles.3 As duas outras facetas do dirio de investigao (dirio de pesquisa4 e dirio ntimo) que, alis, no so especfi cas etnogra-fi a, so frequentemente confundidas com essa forma cannica e seu uso no codifi cado. Eu gostaria de me deter aqui nessa ambiguidade, responsvel por certa nebulosidade nas discusses em torno de um dirio etnogrfi co e de sua publicao.

    Claro, muito comum que um etngrafo detenha diversos cadernos: um para anotaes sobre as entrevistas e observaes no desenrolar do cotidia-no, outro para as refl exes que a experincia suscitou (esse ser o dirio de pesquisa) e, enfi m, o dirio ntimo. Ocorre tambm que ele delegue seu di-rio ntimo a uma correspondncia privada trocada com amigos distantes do universo de pesquisa. Entretanto, muito raro que esses textos de diferentes naturezas no apaream misturados em certos momentos, engendrando assim uma confuso prtica. A diferena de status e de funes entre os fragmentos do dirio, desordenados e s vezes inseparveis, explica as modalidades da censura qual sero submetidas mais tarde as notas escritas no processo de pesquisa de campo.

    Se eu me reportar minha prpria experincia, o dirio do etngrafo, na sua escrita primeira, no ainda um texto: um conjunto sem coern-cia prevista em cadernos ou em folhas, mais ou menos estruturadas, mais ou menos ordenadas, segundo os momentos da pesquisa e as fases da investiga-o. Mesmo que o etngrafo tivesse inteno de maior objetividade, no seria possvel public-lo tal e qual: ele necessita de um considervel trabalho editorial. As notas podem, entretanto, ser publicadas em partes, sofrendo o texto original cortes e edio. Dessa forma, eu utilizei certos fragmentos do dirio de investigao como documentos do mesmo ttulo e com as mesmas precaues crticas dispensadas s entrevistas transcritas ou aos arquivos. Outras passagens, mais refl exivas, que fazem parte do dirio de pesquisa (ou do relato de pesquisa), so publicadas no texto fi nal, quase que sem retoques, como os fragmentos fi nais da anlise. Mas o dirio de pesquisa est destinado

    3 Para uma crtica do objetivismo que cr poder utilizar as notas de observao como a transcrio fi el, realista de fatos independentes das condies sociais da observao, ver Weber (1989).

    4 No Brasil comum nesse caso dizermos relato de pesquisa. (N. de T.).

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    a permanecer em parte secreto: no nos livramos facilmente das especulaes tericas e conceituais, das hipteses inteis ou abandonadas, onde a ingenui-dade ou os enganos registrados, se tornados pblicos, teriam impacto na ima-gem do pesquisador, uma imagem que construda pacientemente, ao longo dos textos publicados pelo etngrafo-intelectual.

    Publicar seu dirio ntimo?

    As passagens mais ntimas do dirio de campo conhecero as sortes opostas segundo a posio social que seu autor galgou na academia e na co-munidade intelectual como a literria. Os dirios foram elevados, em certos casos, ao nvel de dirios literrios, em que se leria sem farsas a verdade humana da obra, e logo que publicada, podendo conhecer mltiplas variaes, como bem descreve Ren Lourau.5

    Mas se no se trata de um autor que atingiu a celebridade e, portanto, as possibilidades de operaes editoriais, essas anotaes so relegadas a res-tos de escrita indesejveis de aventuras ultrapassadas e agora preciosamente encerradas em um escaninho envelhecido, em papis guardados em arquivos nostlgicos de um passado agora com funo de ornamentao. Em todo o caso e ainda que difi cilmente a publicao fosse objetivada inicialmente pelo pesquisador, se essa viesse a ocorrer, seria totalmente deslocada, isto , con-siderada como uma incongruncia de mau gosto ou simplesmente como um absurdo sem interesse.

    De fato, no se pode no ver, nos destinos diferenciados dos dirios dos etngrafos, a marca dos destinos sociais de seus autores: a diferena entre o dirio ntimo de Malinowski, que esclarece mal, ou ao menos indiretamente, o processo de trabalho do fundador da etnografi a de campo (ainda assim, sua publicao recente se tornou um evento), e as notas de observao de uma in-vestigadora hors statut, muito preciosas em sua densidade para fazer conhecer a realidade social contempornea, mas totalmente sepultadas (para sempre?)

    5 Ren Lourau (1988) distingue o fora do texto segundo sua relao ao texto: publicao aps o tex-to (Favret-Saada, 1981), publicao anterior (como para Georges Condominas) e publicao pstuma (Malinowski, 1963, 1985).

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    nos cadernos de uma pesquisa mal aproveitada,6 no reside nos ganhos de co-nhecimento que oportuniza sua leitura, mas no status de seu autor. Aps tudo, no raro as pessoas e no somente um etngrafo obscuro escrevem para si mesmas, sem que suas produes escritas tenham alguma possibilidade de alcanar o estatuto de obra.7

    Se os mecanismos da publicao dos dirios ntimos, etnogrfi cos ou no, atribuem ao seu paroxismo as condies sociais de valorizao das obras, porque somente sua publicao, e no sua escrita, os transforma de estudos privados em obras.8 Seria necessrio fazer a histria social da publicao dos dirios autobiogrfi cos, da qual o dirio do etngrafo no ento mais que uma modalidade, para compreender que h interesse em public-los e o por-qu, e recolocar nesse contexto o continuum dos dirios que interessam s cincias sociais e cuja publicao socialmente possvel, desde um dirio de um sbio como Malinowski autobiografi a de um serralheiro como Gaston Lucas. Explorar-se-ia ento a fronteira incerta entre etnologia e literatura, so-bre a qual repousa com sucesso uma coleo como Terra Humana.

    Para um etngrafo profi ssional, publicar seu dirio de campo nessas trs dimenses (dirio de entrevista, dirio de pesquisa, dirio ntimo) revela, pois, uma aposta raramente tentada. No , com efeito, um ato neutro sua produo como autor, etngrafo, sbio. Contrariamente ao texto cientfi co ou literrio, que valoriza seu autor graas s qualidades prprias do texto, um tal dirio, que serve habitualmente de fora do texto a uma obra cientfi ca j constitu-da, no pode tirar seu valor de texto das qualidades sociais de seu autor.

    Parece-me, entretanto, que a interrogao (epistemolgica) sobre a na-tureza do trabalho etnogrfi co estagnado dessa situao e que, desse fato, a

    6 Eu me refi ro, dentre sem dvida muitos outros que eu no conheo, aos dirios de campo de Manuela Vicente, entrevistadora profi ssional no CNRS: ela remetia seus materiais (entrevistas transcritas, arquivos comentados, etc.) aos socilogos para quem ela trabalhava. Esses jamais utilizaram esse ma-terial; portanto, esses dirios de campo acabaram cadastrados com condescendncia no anedtico. Seria necessrio um dia fazer uma espcie de sondagem das tcnicas de entrevista acadmicas na sociologia americano-francesa que tiveram seu momento de glria nos anos 1960; apesar de sua rigidez, elas no impediam os investigadores de campo de serem confrontados, sem armas, com as difi culdades clssicas da etnografi a.

    7 Para uma primeira anlise dos cadernos ntimos nas classes populares, ver Weber (1993).8 Certo, os dirios ntimos publicados no so sempre destinados originalmente a si ou aos ntimos: eu

    remeto novamente a Ren Lourau (1988) para a discusso sobre o estatuto da obra (ou do texto) dos dirios literrios, como os de Anas Nin ou de Anne Frank. Ren mostra bem que a ambiguidade sobre o destinatrio faz parte do jogo romanesco.

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    transmisso (pedaggica) do saber-fazer prtico do etngrafo, que tambm um saber-escrever, fi ca mais difcil. Por que de fato o dirio de campo no contm, ele, a nobreza propriamente cientfi ca? No ele uma etapa reco-nhecida como indispensvel no ofcio do etngrafo? Como essa ferramenta cientfi ca pode se manter secreta?

    Para refl etir sobre essas questes, eu tomaria o exemplo de meu pr-prio dirio de campo,9 na medida em que , evidentemente, aquele do qual eu disponho inteiramente, aquele tambm do qual eu domino as condies de autocensura. Seria aqui o caso de publicar um extrato censurado em outras situaes? Mas como o selecionar? Livrar o mais ntimo? Mas como faria ele sentido se no se restitui ao mesmo tempo todo seu contexto de investiga-o, de pesquisa e de autoanlise? Em suma, um extrato no pode dar conta da complexidade e da ambiguidade desse conjunto confuso que nomeado, falsamente, de dirio de campo. Mais vale analisar as modalidades prticas do uso do dirio e as razes de autocensura seletiva que pesa sobre seus dife-rentes fragmentos.

    A ordem do dirio, a ordem do texto e o tempo

    Dois anos de entrevistas em Dambront (de 1983 a 1985) produziram uma massa desordenada de traos escritos:10 as notas esparsas e uma quinzena de cadernos cujo conjunto constitui meu dirio de campo, ainda que ele no se apresente absolutamente como um dirio. De fato, ele o resultado de muitas tentativas abortadas de classifi cao: classifi cao temtica, por fi chas, cader-no especializado nas notas bibliogrfi cas, caderno de estatstica, esquemas de genealogias, caderno de entrevistas selecionadas e comentadas, cadernos de observao. E ainda tudo reclassifi cado por comunidade, ou por famlia, ou por indivduo. E quase sempre o princpio de classifi cao se dissolve rapida-mente no ar.

    Porque tudo datado, a classifi cao cronolgica acabar por se impor sobre as outras razoveis, mas fracassadas tentativas de classifi cao. A or-dem cronolgica totalmente justifi cada pelo dirio de pesquisa, que tira sua

    9 Eu utilizo sobretudo o dirio mantido de forma bastante irregular, eu confesso, por ocasio de minhas entrevistas em Dambront em 1978 e depois em 1983-84 (cf. Weber, 1989).

    10 Para mim, que no jogo nada fora, elas esto guardadas em cartes de arquivos.

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    lgica prpria da sucesso dos eventos: as datas so capitais para a inteligibi-lidade do desenrolar da investigao e das entrevistas. As notas de observao so descritivas, mas elas se apresentam tambm como uma narrao, pela fora das interaes que se desenrolam no tempo e se encadeiam objetiva-mente segundo um processo cronolgico linear. Se as interaes no podem ser compreendidas fora de seu desenrolar temporal, porque elas tm lugar no mbito de um interconhecimento. Os relatos de re-encontros independentes (por exemplo, as entrevistas desenvolvidas com informantes selecionados no pelo interconhecimento, mas a partir de critrios abstratos11) no ganhariam ou perderiam inteligibilidade em funo de sua datao precisa.

    O dirio de pesquisa, mesmo se a datao restitui bem um encaminha-mento refl exivo, se apoia pouco sobre uma classifi cao temtica. Pouco me importa saber se eu li tal livro em tal data a no ser quando essa leitura in-terfere explicitamente na investigao. Existem certamente os materiais pas-sveis de classifi cao sem ter em conta a data em que eles so descobertos: dossis estatsticos, entrevistas isoladas, recortes de jornais, mesmo datas, no ganham sentido seno em relao a outros fatos logicamente (e no cronolo-gicamente) ligados. no dirio de pesquisa que so testadas as classifi caes temticas que fi ndaro em uma ordem lgica da exposio fi nal. Eu no deti-nha verdadeiramente o dirio ntimo em separado. No decorrer do relato da pesquisa, ou s vezes no dirio de pesquisa, meus escritos relatavam aspectos distintos segundo os momentos. Nesses relatos eu inseria algumas anotaes ntimas. Em geral meus relatos eram datados, mas havia perodos de anota-es sem datao, havia tambm folhas escritas sobre minha intimidade sem data ou ainda as cartas enviadas com datas e jamais relidas Em resumo, a maior desordem.

    A redao do texto fi nal se faz no desmembramento dessas pginas di-versas, em contradio com o estabelecimento de um verdadeiro dirio, que seria do incio ao fi m classifi cado cronologicamente. justamente na cons-truo de uma nova ordem, lgica e retrica ao mesmo tempo, imposta ao

    11 Eu exemplifi co com uma experincia realizada por ocasio de uma entrevista sobre a dvida (levada a termo no Laboratrio de Cincias Sociais no ENS com Christian Baudelor, Stphane Beaud e outros alu-nos): os endereos dos entrevistados nos eram fornecidos por um instituto de sondagem sobre os critrios estatsticos (taxas de dvidas superiores a determinado nvel). Nesse caso, a data no serve mais do que ponto de referncia para uma classifi cao do tipo burocrtica.

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    material coletado sem ordem, ou ainda segundo as ordens mltiplas, que se produz um texto publicvel. O texto tanto mais publicvel quanto seu prin-cpio de ordem seja mais efi caz, mais exaustivo. Idealmente, nada deveria ser subtrado. Assim a redao fi nal da minha pesquisa conheceu, como ocorre frequentemente, duas etapas: uma tese e uma obra publicada. Na tese, para mostrar o ateli da pesquisa, um posfcio reagrupava as passagens que no se inseriam na ordem do texto.

    Esse posfcio fourre-tout no seguia a ordem lgica. Ele era, pois, classi-fi cado cronologicamente: eu isolava os momentos-chave da investigao ou da refl exo, colocada do incio ao fi m: era um pouco uma sucesso de anexos, como a dos materiais com os quais no se sabe muito o que fazer. Mas no livro, cuja ordem da exposio cientfi ca, em grande parte retrica, se tinha imposto sem falhas, no foi mais necessrio um posfcio. Suas pginas foram distribudas, desmembradas e vrias encontraram seu lugar no interior do tex-to. Assim, algumas observaes, abstradas de seu contexto de investigao, publicadas em itlico ou em pequenos caracteres, vm ao apoio de minhas afi rmaes, as ilustram de alguma maneira. Ou ainda, os fragmentos da re-fl exo se inserem naturalmente na discusso terica que eles alimentam. Ou, como a primeira parte consiste especifi camente sobre a investigao, ela confere uma dignidade ao dirio do qual certos extratos podem desde logo ser publicados como pontos de fi xao.

    Um exemplo de censura

    O que restava nos meus dossis aps esse desmembramento? Os tex-tos censurados? No. Os pequenos pedaos de papel espalhados que no tinham nenhum valor aos meus olhos e que eu havia classifi cado em teis e inteis. Tal trabalho me parecia extremamente natural, de tal forma que eu at me esquecia de ter escrito todas essas pginas e eu me persuadi a no ter deixado nada de lado alm do ntimo, ou seja, do intil, ou ao menos do no utilizvel. Uma nica pilha de papis me parecia estar na gangorra. E, alis, graas ao arrependimento de no ter utilizado esse material que se originaram essas refl exes sobre o dirio de campo.

    Esse material me permitiu tomar conscincia da ordem lgica da produo de um texto publicvel, ordem antinmica de uma restituio cronolgica

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    que teria terminado na produo de um dirio, eventualmente publicvel, sob as condies sobre as quais eu falei acima. Essa pilha, que tomava lugar no posfcio da tese, desapareceu totalmente no livro. Ela rene ao mesmo tempo aspectos do dirio de entrevista ( a narrativa de um fi nal de tarde observado), do jornal ntimo (eu estava fortemente implicada nessas atividades vesperti-nas, e do dirio de pesquisa (o relato entrecortado de refl exes tericas). Mas como essas refl exes no tiveram continuidade, a observao ela mesma foi colocada em um impasse (logo, no intil). Quanto ao carter ntimo de minhas notas, essas simplesmente reforaram minha deciso de censura defi nitiva. Eu no podia, portanto, exilar essa pilha insignifi cncia constatada ou decretada dos fragmentos unicamente ntimos.

    De fato, minhas anotaes traziam o emprego de anlise de um fenme-no nobre, habitualmente consagrado como portador de sentido, ao mesmo tempo existencial, social e sociologicamente: uma morte brutal, e as reaes a essa morte observadas na famlia. Em crculos concntricos, em uma mesma noite, eu observava tambm um conjunto de palavras e de prticas ligadas morte: antes do anncio desta, uma vizinha contava um outro enterro: o fi scal do seguro tendo vindo negociar suas cotizaes e todas as pessoas presentes falaram de seguro de vida e dos custos das exquias. Aps o anncio os vizi-nhos no aparentados se retiram, tendo proposto seus servios; foi necessrio anunciar a novidade aos outros membros da famlia e, mais tarde, foi necess-rio resguardar as crianas durante o enterro.

    Em resumo, assunto nobre, ocasio rara de uma observao do interior (pois que eu estava em vias de integrao na famlia), meio social operrio, pouco evidente, no qual o tratamento da morte pouco visvel. Uma maravi-lhosa ocasio de anlise sociolgica, em suma, todas as razes explicam que essas notas inutilizadas no me pareciam mais como inteis.

    Por que ento eram elas inutilizveis? Primeiramente, tais observaes no so facilmente reprodutveis. Eu estava ento condenada monografi a mal armada de um caso singular. E eu no tinha a leveza de esprito do etn-logo que classifi ca seus materiais do bero ao tmulo12 em um ciclo de vida da qual a coerncia estrutura alis, eu no disponho de nenhum material

    12 Segundo o plano de Arnold Van Gennep (1943-1946) em seu Manuel de folklore franais contemporain.

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    construdo sobre as outras etapas, nascimento, batismo, casamento, aposen-tadoria Esse momento singular no se inseria absolutamente nas minhas anlises centradas sobre a relao com a usina, a ocupao do tempo livre ou a constituio de grupos concretos. Sem dvida eu teria podido ali ler uma manifestao entre outras de uma cultura popular, com suas especifi cidades: uma linguagem, uma ironia, uma ludicidade, um conformismo, uma constru-o de pertencimento, etc.

    Certo, eu estava longe dos meus polos de interesse positivos gosto da atividade, gosto do acaso, da importncia da alimentao, da fi delidade e da inveja mas eu teria podido inserir na minha anlise, ao preo de classi-fi caes contorcidas de retricas, esse momento de recolhimento em si autoexcluso de vizinhos; excluso forada de parentes por aliana; valori-zao exclusiva dos consanguneos; desesperana fria ( dura a vida); acu-saes recprocas (tu no pensas na morte; tu no pensas no teu irmo); previdncia para a me; ruptura do cotidiano (interrompe-se a janta, no se fala para as crianas, no se trocam beijos); a restaurao do grupo de con-sanguneos apesar da distncia (passa-se a noite toda ao telefone, entre Paris, Auxerre, Dambront). O momento tambm em que se afi rma (antes do anncio do acidente) um acontecimento vespertino de dignidade desabusada e autoir-nica (o seguro de vida agora que a gente precisa, no quando a gente estiver mortinho, a aposentadoria a gente no vai nem poder usufruir, estaremos mortos antes disso, os mortos no cemitrio inundado incessantemente eles nadam isso os conserva) substituda, aps o anncio dessa morte, por uma violncia que procura seu alvo (no foi um acidente na estrada, mas um suicdio, ela a morta no fazia nada para sair dessa). Em resumo, um momento excepcional, em que se delibera talvez a seu paradoxo, um ethos de classe.

    Eu no fi z nada com esse material. Eu arranjava a pilha com meus sen-timentos de arrependimento e ainda por cima perdi meu caderno de notas manuscrito de onde tinha extrado essa narrativa colocada em posfcio e de-pois suprimida. Angstia? Bem, a se colocava ou se juntava a nica reao negativa de Jolle13 que, ausente na noite do acidente por estar na residncia de suas irms, se revoltava no contra o que eu escrevia, mas contra o que eu

    13 Eu guardei os laos amicais com Jolle, que fez uma parte das entrevistas comigo.

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    descrevia, e mostrava-se surpresa, subsidiariamente, que eu tivesse tomado a sua famlia (que foi tambm, por um tempo, minha famlia) como objeto de estudo. Pronto. No necessrio procurar mais longe: ao meu remorso privado (de representar a espectadora) contrabalanava meu arrependimento acadmico (por faltar uma boa anlise). A pesquisa ultrapassara a orientao inicial, ela tinha sido desviada da observao singular pelas difi culdades pr-prias ao objeto (impossibilidade de completar esse material por outros) e por uma reteno pessoal (eu tinha repulsa a perseverar em uma atitude falsa da qual eu compartilhava para melhor dissecar14). Mesmo oito anos mais tarde, eu no posso retomar esse momento de pesquisa sem constrangimento, e te-nho difi culdade de utilizar esse material.

    Trabalho de pesquisa e trabalho de escrita em cincias sociais

    Esse exemplo esclarece, tenho a impresso, as diversas modalidades de autocensura que presidem ao estabelecimento de um texto em cincias sociais. Apesar das aparncias, reforadas por uma publicao como aquela do dirio de Malinowski, a questo da intimidade no central, mas bem antes a ava-liao pessoal e coletiva de ganhos de conhecimento ou de inteligibilidade que oferece a publicao dos materiais da pesquisa. Da mesma forma que a publicao de escritas ntimas pode se limitar a um fraco ganho de conheci-mento, pode-se analisar o ntimo sem publicar as escritas ntimas. Assim, o artigo de Yvette Delsaut (1988) sobre uma classe de alunos de terceiro ano oferece, sob uma aparncia ligeira de anonimato e sem se colocar em cena, uma notvel anlise de fenmenos muito ntimos (relao ao corpo, primei-ras relaes amorosas, confl itos entre a aprendizagem escolar e os sentimentos fi liais, etc.), que tambm uma discreta, mas slida autoanlise.

    O que eu denominei at aqui de dirio ntimo nada mais , em realida-de, que um resduo no trabalhado, inutilizvel porque insufi cientemente ana-lisado. Os materiais ntimos subsistem como no publicveis na medida em que a autoanlise incompleta, isso porque no se pode ou no se quer lev-la

    14 Daniel Moreau se insurgia seguidamente contra uma investigao que fazia dele e de sua famlia os cobaias, acreditando que eu juntaria observao uma experimentao.

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    a termo. Esses so os fragmentos que no encontram seu lugar na construo do conjunto da obra, pois no se ligam a nada.

    Compreende-se melhor que a deciso de public-los, tomada por outros que no o etngrafo (como no caso de Malinowski), termina assim em resul-tados enganadores do ponto de vida do conhecimento. Considerar o dirio de campo como um texto e no como um conjunto de materiais acaba por abdicar a postura especfi ca das cincias sociais em proveito de uma postura literria. De fato, substituir as diferentes classifi caes de anlise dos materiais por uma classifi cao cronolgica exclusiva, justifi cada por alguns, mas no por todos, impede o desmembramento dos materiais que permitiriam a construo de uma ou de vrias lgicas de interpretao e construo de conhecimento trabalhado em um texto coerente. Publicar esses materiais na ordem cronol-gica de sua escrita no restituir em sua autenticidade a fi nalizao de uma pesquisa, mas construir a fi co de um sujeito romanesco, de um narrador, que ser sempre apreendido no mesmo grau daquilo que ele escreve.

    Ora, o etngrafo, como o mostra a heterogeneidade de seu dirio, no um sujeito unifi cado: um compilador, que recopia ou transcreve os dados anunciados por Outros (da estatstica entrevista oral, passando pela imprensa ou por documentos civis), um pesquisador que tateia em busca de princpios explicativos servindo-se largamente das diversas tradies letradas, fi losfi cas ou cientfi cas das quais ele , para o bem ou para o mal, o herdeiro; um per-sonagem social, tomado em diversos universos de referncia, dos colegas aos sujeitos entrevistados, passando pelos crculos privados de sociabilidade. enfi m um observador profi ssional que coloca em obra, sobre a base de mlti-plas identidades, uma tcnica particular de observao e de autoanlise.

    E essa tcnica supe a manuteno de um dirio, em todas as dimenses que eu distingui aqui. o dirio que permite o distanciamento indispensvel na pesquisa de campo, e que permitir mais tarde a anlise do desenvolvimen-to da pesquisa. tambm o dirio que mostra, a cada etapa da refl exo, os laos entre as diversas hipteses levantadas pelo pesquisador e o momento da pesquisa em que essas hipteses foram reformuladas.

    o dirio por fi m que permitir efetuar, na medida do possvel, uma autoanlise. Mas, se todo esse processo no possvel graas ao dirio de campo, necessrio que este no seja confundido com um texto trabalhado em que alguns fragmentos sero utilizados, analisados, mas outros certamente no serviro. Assim, o processo mesmo de autocensura, a condio em esta foi

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    A entrevista, a pesquisa e o ntimo...

    processada no momento da publicao e no no momento de escrita do dirio, faz parte do trabalho de pesquisa.

    Para ser efi caz, a manuteno do dirio deve ser a menos censurada pos-svel: o que pressupe que no se teria o projeto antecipado de public-lo. Confundir o fora do texto, o material de pesquisa, com um texto a ser pu-blicado na forma de dirio literrio constituiria para a pesquisa um obstculo inverso, mas to difcil quanto a incapacidade de se manter o dirio. O dirio de campo no um texto secreto, um estoque de materiais para utilizarmos sem preconceito, mas cientes dos seus propsitos. Claro, podemos deixar para uma outra pessoa o cuidado e a responsabilidade de decidir o que, no conjunto do foi escrito no dirio, til; mas nesse caso no somente a pesquisa de um outro, mas uma outra pesquisa no menos interessante, sem dvida que se d desde o processo de elaborao, no sentido editorial do propsito, do manuscrito de tal dirio.

    Traduzido do francs por Cornelia Eckert

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    Recebido em: 20/12/2008Aprovado em: 24/02/2009