TUPAN: DESENHOS DE IDENTIDADES INDÍ .Pré-História do Nordeste do Brasil. Recife: Editora da UFPE,

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Trabalho apresentado no III ENECULT Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, realizado entre os dias 23 a 25 de maio de 2007, na Faculdade de Comunicao/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil.

TUPAN: DESENHOS DE IDENTIDADES INDGENAS

Juracy Marques1

RESUMO: Atualmente os discursos sobre afirmao identitria das populaes indgenas so atravessados pela intrigante indagao: o que ser ndio hoje? No raro as crticas calcificam uma imagem de que essas populaes devam viver escravizadas ao passado. Essa complexidade ganha ainda mais provocaes quando pessoas de diferentes etnias juntam-se para formar novos grupos, sobretudo em reas urbanas. assim que o estudo de caso do Povo Tupan da cidade de Paulo Afonso serve-nos para pensarmos as complexas formas de afirmao dos povos indgenas na agoridade2. PALAVRAS-CHAVE: Identidade, Tupan, Grupos Remanescentes, Paulo Afonso.

1. NDIGENAS DE PAULO AFONSO

Se espremssemos a histria dos indgenas da

Bacia do So Francisco teramos, ao invs do

verde azulado das guas do Velho Chico, um rio

vermelho. Os grupos remanescentes so

testemunhos da resistncia de diversas etnias

franciscanas contra a opresso da colonizao

que se estabeleceu na Bacia desde o incio do

sculo XVI. As misses foram, para estes

grupos, um lugar de refgio, um local onde se buscava proteo ao tempo em que, tambm,

foi espao de negao da tradio indgena. Entretanto, com o fim das misses no sculo

XVIII, os grupos restantes dispersaram-se, criaram estratgias de resistncia e luta. Em

virtude desses fatos, hoje podemos falar do processo conhecido como etnognese, referente

a reivindicao pelo reconhecimento oficial de identidades indgenas.

1 Professor da UNEB/Campus VIII, Coordenador do NECTAS (Ncleo de Estudos em Comunidades e Povos Tradicionais e Aes Socioambientais. Doutorando em Cultura e Sociedade/UFBA/FACOM. e-mail:juracymarques@yahoo.com.br 2 Palavra usada por alguns pesquisadores em substituio ao termo contemporaneidade.

Toda esta regio de Paulo Afonso, antes Glria e, bem antes, Misso do Curral dos Bois,

era habitada por diferentes grupos indgenas ribeirinhos. Ainda hoje, no territrio de Glria,

habitam indgenas como os Pankarar, os Kantarur e os Xucuru-Kariri. Em Tacaratu,

prximo a Petrolndia, temos os Pankararu. Em Rodelas, os Tuxa. Poderamos relacionar

muitas outras etnias, mas e Paulo Afonso, como fica no cenrio das ocupaes humanas da

Bacia? Surgiu apenas na metade do sculo XX, com a instalao da CHESF?

Sabemos muito pouco dos grupos humanos que historicamente estiveram aqui, nas

margens da calada Cachoeira de Paulo Afonso. Temos hoje, sendo destrudos, vrios

vestgios que provam esta ocupao como as pinturas rupestres da regio prxima

Cachoeira estendendo-se pela rea do Complexo Malhada Grande (Rio do Sal, Lagoa da

Pedra e Mo Direita). importante ressaltar que a Cachoeira de Paulo Afonso sempre foi/

um local sagrado para os indgenas da regio, morada dos encantados.

Mas, quando nos referimos identidade tnico-cultural no nos interessa apenas os grupos

que permaneceram aldeados, puros, mas os contatos, as misturas, os encontros tnicos

que se estabeleceram na Bacia entre brancos, negros e ndios e, sobretudo, a forma como

esses grupos se identificam hoje.

2. A ALDEIA TUPAN DO BAIRRO TANCREDO NEVES

Para muitos pode parecer surpresa que numa rea de

aproximadamente 3.000 m2 no Bairro Tancredo Neves, em

Paulo Afonso, desde 2004, vive uma aldeia indgena que se

identifica como Tupan, com cerca de 15 famlias oriundas

dos Truk, Pankararu, Aitikum, Fulni- e Xucuru-Kariri.

Segundo tradio oral, esse nome foi dado em homengem ao Deus Sol dos indgenas e

porque parte das etnias que fazem parte do novo agrupamento so os truk e os Pankararu.

Maria Erineide Rodrigues da Silva a

cacique da tribo, tem 44 anos e a

quase dois vem lutando para que os

Tupan tenham, definitivamente, posse da terra. rea onde eles esto localizados foi doado

pelo antigo adminsitrador do BTN, Joo Batista da Silva. Consta no documento de doao

da Prefeitura Municipal que a rea poder ser permutada para outro local em virtude da

mesma no ser cadastrada. Para onde iriam, ento, os Tupan, que antes eram conhecidos

como Caru Verde? Hoje a comunidade vive inquieta, sem saber do seu destino. Na rea

indgena do BTN, h um grande terreiro onde eles realizam a dana do Tor, vrias casas

de taipa, hortas coletivas, uma pequena olaria onde eles fazem telhas e tijolos de barro,

entre outras benfeitorias.

A cacique dos Tupan, D. Maria, diz que eles esto se sentindo abandonados e que, por

diversas vezes, tem esmurecido, mas nunca desistiu nem vai desistir. Conta-nos que um dia

pediu a Deus orientao sobre o futuro do grupo: ento na Aldeia encontrei uma plantinha

com 3 folhas. Era o Pituka e as irms Suzana e Jaqueline do CIMI (Conselho Indigenista

Missionrio) que sempre nos acompanharam e tem nos dado muita fora.

Para a equipe do NECTAS/UNEB (Ncleo de Estudos

em Comunidades e Povos Tradicionais e Aes

Socioambientais), em reunio do dia 06 de agosto de

2006, os membros da tribo disseram que sua principal

preocupao sobre a relocao deles: a gente t

pensando onde vai ser. Ns queremos na margem do

Rio, caso contrrio, preferimos ficar aqui, afirmou a Cacique. Hoje, a tribo TUPAN est

em processo de negociao junto FUNAI e Prefeitura Municipal de Paulo Afonso.

Todas estas dinmicas tnicas, polticas, culturais, ambientais, que do cara a esta forma

de organizao identitria que est dentro de um contexto etnohistrico muito mais

complexo que geralmente passa desapercebido, tanto no imaginrio da populao quanto de

pesquisadores/as. Os Tupan, so testemunhas de afirmaes identitrias que espantam

nosso senso comum: a imagem/representao que fazemos/temos do que ser ndio!

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