Intercom Sociedade Brasileira de Estudos ...· 1 Trabalho apresentado no GP Comunicação e Culturas

download Intercom Sociedade Brasileira de Estudos ...· 1 Trabalho apresentado no GP Comunicação e Culturas

of 15

  • date post

    11-Nov-2018
  • Category

    Documents

  • view

    213
  • download

    0

Embed Size (px)

Transcript of Intercom Sociedade Brasileira de Estudos ...· 1 Trabalho apresentado no GP Comunicação e Culturas

  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXIX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao So Paulo - SP 05 a 09/09/2016

    1

    Corpos jovens e magros: imposies miditicas, presses sociais, angstias pessoais1

    Mnica Cristine FORT2

    Ivania SKURA3

    Cristina Brahm Cassel BRISOLARA4

    Universidade Tuiuti do Paran, Curitiba, PR

    Resumo

    O corpo jovem e magro exaltado nas representaes femininas na imprensa de maneira

    constante, gerando um padro reiterador que no s refora modos de ser e de viver, mas

    tambm institui o medo do no pertencimento ao universo cujas reportagens contemplam. A

    silhueta magra e a pele firme e lisa deixam de ser caractersticas corporais para se

    transformar em valores sociais, em indicativos de beleza e de sucesso. Por meio de

    apontamentos tericos que retomam os cenrios dessas concepes, utilizamos como

    exemplos as publicaes de dois grandes sites noticiosos: HuffPost Brasil, com especial

    ateno s matrias publicadas na editoria Mulheres; e Globo.com, com destaque para a

    seo do portal que contm reportagens da revista Glamour. A pesquisa tem como recorte

    temtico, justamente, matrias cujos contedos fortalecem o medo de engordar e de

    envelhecer, relacionados a uma imagem corporal feminina limitadora e quase compulsria,

    (re)produzida na e pela mdia.

    Palavras-chave: Idade; Medo; Imagem Corporal; Imprensa.

    Introduo

    A cultura contempornea concentra na aparncia uma diversidade de significados

    que adquire grande densidade no que diz respeito s relaes humanas e ao mundo social.

    no corpo que se d a acomodao das sensaes que posteriormente dar lugar como

    representao de si mesmo, as referncias identitrias so enraizadas nas expectativas com

    respeito ao corpo. Considerando que a imagem corporal possui uma profunda ligao com a

    1 Trabalho apresentado no GP Comunicao e Culturas Urbanas, XVI Encontro dos Grupos de Pesquisas em

    Comunicao, evento componente do XXXIX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao. 2 Professora e Pesquisadora do Programa de Ps-Graduao em Comunicao e Linguagens da Universidade Tuiuti do

    Paran (PPGCom/UTP). Ps-doutora em Comunicao (UERJ). Vice-lder do Grupo de Pesquisa (GP) Interaes

    Comunicacionais, Imagens e Culturas Digitais Incom. E-mail: monica.fort@yahoo.com.br 3 Graduada em Publicidade e Propaganda (UniCesumar). Mestre em Sociedade e Desenvolvimento (Unespar). Doutoranda

    em Comunicao e Linguagens (UTP). Integrante do GP Interaes Comunicacionais, Imagens e Culturas Digitais

    Incom (UTP). E-mail: ivaniaskura@hotmail.com 4 Psicloga. Mestranda em Comunicao e Linguagens no PPGCom/UTP. Membro do GP Interaes Comunicacionais,

    Imagens e Culturas Digitais Incom (UTP). E-mail: krisbcb@hotmail.com

  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXIX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao So Paulo - SP 05 a 09/09/2016

    2

    identidade do sujeito, o padro esttico amplamente divulgado pela mdia, capas de revistas

    e redes sociais influenciam, de forma direta e indireta, a necessidade da busca incessante de

    corpo e aparncia perfeitos a fim de maior aceitao pessoal e social. A busca pela

    identidade pessoal a encarnao de todo um complexo sistema de relaes sociais

    presentes antes mesmo da existncia do sujeito no mundo, portanto, possvel compreender

    que o corpo um vetor importante para a construo da identidade do indivduo, bem

    como, possui real importncia para interao nos grupos sociais.

    O panorama sociocultural ocidental de valorizao da magreza e da juventude, com

    presso para o emagrecimento e o rejuvenescimento, interage com fatores biolgicos,

    psicolgicos e familiares, provocando exagerada preocupao com o corpo, podendo at

    mesmo levar ao pavor patolgico de engordar e envelhecer, um medo de parecer

    inapropriado no peso ou na aparncia e que est diretamente relacionado ao papel social de

    sucesso pessoal e profissional. A nfase da sociedade contempornea para o ideal de beleza

    centrado em um corpo magro de aparncia jovem fornece o ambiente sociocultural que

    justifica a perda de peso e rejuvenescimento a qualquer custo, gerando uma ansiedade

    generalizada que alimenta um mercado em franco crescimento de cosmticos, produtos

    dietticos e procedimentos cirrgicos.

    Apesar do processo de envelhecimento ser um aspecto natural do desenvolvimento

    humano e, portanto, um dado de realidade, o valor social parece estar atrelado imagem

    jovem e magra, como menciona Joana Novaes (2005, p. 10):

    Nada mais cruel do que lutar com um inimigo implacvel e inexorvel.

    Contra a ao do tempo as mulheres lutam, tentando manter-se sempre

    jovens e belas. Frenticas e enlouquecidas, consumindo compulsivamente

    toda sorte de produtos que prometam retardar o seu envelhecimento e

    manter sua beleza, essas mulheres lutam contra si, perdendo-se no espelho

    procura de si mesmas. Se antes as roupas as aprisionava, agora se

    aprisionam no corpo na justeza das prprias medidas.

    O vis da expresso esttica que atualmente compe os corpos femininos coloca em

    risco o compasso natural do desenvolvimento humano, a expresso estereotipada da

    juventude e esttica produz estruturas sociais que alimentam a expectativa material e

    racional de uma imagem corprea aparentemente saudvel, mas que na verdade cobra um

    alto preo emocional ao contemplar uma expectativa social ao invs da aceitao de si. O

    presente texto tem a inteno de discutir esse panorama a partir de notcias publicadas em

    dois sites noticiosos: HuffPost Brasil, mais especificamente na editoria Mulheres do site, e

    no Globo.com, por meio da revista Glamour. O recorte para este artigo se deu durante dez

  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXIX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao So Paulo - SP 05 a 09/09/2016

    3

    dias seguidos de monitoramento no ms de junho de 2015. Observou-se, em todos os dias

    no perodo, notcias relacionadas a juventude e a magreza, o que demonstra que as pessoas

    que fogem aos padres impostos pela mdia podem sentir-se diminudas ou pressionadas a

    moldarem-se de acordo com o que ditado para elas. Mesmo quando as notcias so

    relacionadas a exemplos de quem foge aos padres e, portanto, defende sua posio social,

    houve destaque porque as mulheres reportadas foram vtimas de gordofobia, ou seja, foram

    vtimas de manifestaes sociais que demonstram no aceitar quem est fora das formas

    impostas.

    Presses miditicas e sociais pela manuteno da juventude e do corpo magro

    Em 03 de julho de 2015, o programa Domingo Espetacular, da Rede Record, exibiu

    reportagem especial, de cerca de 15 minutos de durao, a respeito de pessoas que passaram

    a consumir crack para emagrecer. O gancho jornalstico foi um estudo que a pesquisadora

    Patrcia Hochgraf, da Universidade de So Paulo, teria apresentado, ao observar que a

    busca por um corpo perfeito, a busca por um corpo melhor, faz com que as mulheres faam

    qualquer coisa, at comear a usar crack, disse a pesquisadora na reportagem (DOMINGO

    ESPETACULAR, 2016). Segundo ela, comearam a aparecer no consultrio mulheres,

    mais velhas (no especifica a faixa etria, mas a reportagem deixa claro que no so

    adolescentes), que nunca tinham usado nenhum outro tipo de drogas ilcitas, mas que de

    repente passaram a usar crack para emagrecer. O reprter Romeu Piccoli entrevistou

    pessoas que se tornaram viciadas por terem recorrido droga na tentativa de ter um corpo

    esguio. Mdicos e terapeutas, especialistas no assunto, tambm foram consultados. O teor

    da reportagem buscou associar que a mdia mostra corpos bonitos e em forma mesmo aps

    poucas semanas de mulheres famosas terem dado luz filhos. Atrizes, cantoras,

    celebridades que estampam capas de revistas emagrecem rapidamente e so valorizados por

    isso. Ento, por que para as pessoas consideradas normais aqui, nos referimos quelas

    no ligadas indstria da fama to difcil perder peso ou parecer mais jovem, por

    exemplo? E por que o corpo to valorizado?

    O corpo humano tem sido objeto de estudos e discusses ao longo da histria. As

    formas e propores do corpo servem de referncia principalmente nas artes, rea em que

    h diferentes representaes e pesquisas relacionadas. Em uma dimenso narcsica de

    representao, pesquisas relacionadas ao corpo investigam suas formas, funes, seus

  • Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XXXIX Congresso Brasileiro de Cincias da Comunicao So Paulo - SP 05 a 09/09/2016

    4

    gestos, movimentos, maneiras de vestir entre tantas outras caractersticas. Na questo

    esttica, por exemplo, h o corpo grotesco, o idealizado associado a uma ou outra

    concepo de beleza, o corpo cubista, o estilizado, o desestruturado (GOLIOT-LT et al,

    2006, p. 92-93). Umberto Eco, em sua obra Histria da beleza, afirma que a associao

    entre boa aparncia e boa ndole frequentemente feita, e nesse sentido, aquilo que belo

    igual a aquilo que bom e, de fato, em diversas pocas histricas criou-se um lao estreito

    entre o Belo e o Bom (ECO, 2004, p. 8). Mais contemporaneamente, David Le Breton

    (2011, p. 84) aborda que a retrica da alma foi substituda pela do corpo sob a gide da

    moral do consumo e um imperativo de prazer impe ao ator, revelia, prticas de consumo