HISTÓRIA E FILOSOFIA DAS RELAÇÕES ENTRE CIÊNCIA E e... · perspectiva da filosofia da ciência

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  • PAULO EDUARDO DE OLIVEIRA

    HISTRIA E FILOSOFIA DAS RELAES

    ENTRE CINCIA E RELIGIO

    Faculdade Cenecista de Campo Largo

  • 2

    Copyright 2013 FACECLA Faculdade Cenecista de Campo Largo Rua Rui Barbosa, 541 Campo Largo PR CEP: 83601-140 www.facecla.com.br Este livro, na totalidade ou em parte, no pode ser reproduzido por qualquer meio sem autorizao expressa por escrito do Editor. OLIVEIRA, Paulo Eduardo de.

    Histria e Filosofia das relaes entre Cincia e Religio. Campo Largo: FACECLA, 2013.

    Inclui bibliografias ISBN 978-85-62227-03-5

    1. Filosofia. 2. Histria da Cincia. 3. Filosofia da

    Religio. 4. Filosofia da Cincia.

    CDD 100

  • 3

    Este estudo nasceu de um estgio de ps-doutorado que fiz na Universidade Federal do Paran, entre os anos de 2011 e 2012, no Programa de Ps-Graduao em Histria, sob a orientao do Prof. Dr. Euclides Marchi, a quem quero expressar minha profunda gratido e meu reconhecimento.

  • 4

    SUMRIO

    Introduo

    4

    1. Das relaes entre Cincia e Religio: o caso da fsica e da biologia modernas

    11

    2. Aspectos histrico-filosficos da teoria copernicana

    15

    3. O caso de Galileu Galilei

    23

    4. A teoria evolucionista de Charles Darwin

    50

    5. A situao histrico-filosfica do pensamento de Teilhard de Chardin

    68

    6. Acenos para uma nova posio da Igreja Catlica diante de Galileu e Teilhard de Chardin

    82

    7. Para concluir

    110

    Referncias

    112

  • 5

    INTRODUO

    A anlise histrica e filosfica das relaes entre cincia e f de inquestionvel atualidade, alm do que ela inclui questes fundamentais a serem discutidas sob a perspectiva da filosofia da cincia ou da epistemologia, de um lado, e da prpria historiografia, de outro. Questes fundamentais da cultura moderna e contempornea se desenvolveram na esteira do entrelaamento ou dos conflitos entre as crenas religiosas e o conhecimento cientfico. De Galileu a Darwin, da teoria da relatividade descoberta do genoma, dos processos da Inquisio ao Conclio Ecumnico Vaticano II percebe-se um movimento profundo de renovao das discusses sobre o tema. Os recentes desafios tericos da biotica (no que diz respeito ao uso de clulas tronco, para citar apenas um exemplo) fizeram confluir, numa mesma arena, discursos cientficos e religiosos cujos desdobramentos implicam em consequncias decisivas para a sociedade.

    A questo no apenas histrica e poltica, nem to somente teolgica, mas tambm epistemolgica. De fato, a partir do surgimento da filosofia da cincia, no incio do sculo XX, as novas posies tericas face ao alcance e aos limites do saber cientfico tambm imprimem novas maneiras de se compreender em que medida a cincia e a religio podem dialogar e conviver. Neste sentido, ganham destaque as contribuies de Karl Popper1 e de Thomas 1 Considerar, sobretudo, as seguintes obras: POPPER, Karl. Conhecimento objetivo: uma abordagem evolucionria. Belo Horizonte: Itatiaia, 1975; Conjecturas e refutaes: pensamento cientfico. 2 ed. Braslia:

  • 6 Kuhn2 para a compreenso da cincia no cenrio das mais recentes revolues cientficas (a teoria da relatividade e a fsica quntica, para citar os domnios em que estes filsofos se ativeram).

    Neste contexto, no se pode negar que a marca notria do pensamento moderno a secularizao: o saber cientfico e as principais expresses da cultura vo se distanciando, paulatinamente, da tutela religiosa da Igreja. Com o positivismo de Augusto Comte, o processo de secularizao moderno da cincia alcanou expresso mxima, sendo que ele desempenhou papel fundamental no processo de separao entre cincia e f3. Depois de Comte, no causa estranheza o desdobramento do atesmo, sobretudo nas suas manifestaes filosficas expressas em Feuerbach, Marx, Nietzsche e Freud, figuras que, em seus campos, deram os contornos do pensamento contemporneo. Para Feuerbach, no Deus quem criou o homem, mas o homem quem criou Deus 4 . E mais: no pensamento de Feuerbach fica clara a seguinte tese: Se Deus tudo, o homem no nada; para que o homem seja, preciso que Deus seja negado5. Deus nada alm de uma ideia forjada pelo homem, que no encontra correspondncia numa Universidade de Braslia, 1982; O mito do contexto: em defesa da cincia e da racionalidade. Lisboa: Edies 70, 1999. 2 Ver, sobretudo, os seguintes trabalhos: KUHN, Thomas S. A tenso essencial. Lisboa: Edies 70, 1989; e, ainda, A estrutura das revolues cientficas. So Paulo: Perspectiva, 2003. 3 COMTE, Augusto. Catchisme positiviste. Paris: Garnier-Flammarion, 1966 e, tambm, Cours de philosophie positive. Paris: Librairie A. Hatier, 1941. 4 FEUERBACH, Ludwig. Prelees sobre a essncia da religio. Campinas: Papirus, 1989 e, tambm, A essncia do cristianismo. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian, 2002. Sobre o atesmo de Feuerbach, ver ROVIGHI, Sofia Vanni. La filosofia e il problema di Dio. Milano: Vita e Pensiero, 1986, p. 160-166. 5 ROVIGHI, Sofia Vanni. La filosofia e il problema di Dio. Milano: Vita e Pensiero, 1986, p. 167.

  • 7 realidade prvia, concomitante ou consequente6. Marx, por sua vez, profundamente influenciado pelo pensamento de Feuerbach, chegando a afirmar que a religio pio do povo7. Ela se constitui como um dos aparelhos ideolgicos que serve para manter a estrutura social de opresso. Para Nietzsche, o maior acontecimento recente o fato de que Deus est morto, de que a crena no Deus cristo perdeu o crdito 8 . Nietzsche afirma que a religio desumaniza, porque torna o homem submisso e escravo, preso moral do servo. Freud exerceu grande influncia sobre o pensamento e a cultura contemporneos, no deixando de alimentar as suas tendncias atestas, na medida em que considera a religio um efeito patolgico dos processos inconscientes9.

    Contudo, apesar da forte tendncia secularizante e atesta, a contemporaneidade tem verificado um movimento intelectual de tentativa de reconstruo das relaes entre a cincia e a f. neste contexto que se pode tentar compreender a razo de Albert Einstein, um dos mais conhecidos e importantes cientistas do sculo XX, exibir sua sensibilidade para com as crenas religiosas10. Por sua vez, Bertrand Russell, destacado filsofo que se considerava ateu, afirmava que as figuras mais expressivas da 6 ALONSO, Adolfo Muoz. Dios, atesmo y fe. Salamanca: Sgueme, 1972, p. 133. 7 MARX, Karl. Crtica da filosofia de Hegel. Lisboa: Presena, s/d. Para uma anlise do atesmo marxista, ver: BAGOLINI, L. e outros. Il problema deelateismo. Brescia: Morcelliana, 1966, p.188-195. 8 NIETZSCHE, Friedrich. A gaia cincia. So Paulo: Companhia das Letras, 2001, 343. 9 FREUD, Sigmund. O futuro de uma iluso. Rio de Janeiro: Imago, 2001. Ver tambm a anlise crtica do tema em WONDRACEK, Karin Hellen Kepler. O futuro e a iluso: um embate com Freud sobre psicanlise e religio: Oskar Pfister e autores contemporneos. Petrpolis: Vozes, 2003. 10 Cf. GARBEDIAN, H. Gordon; TAHAN, Malba. Einstein: o criador de universos. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1942; ROBINSON, Andrew. Einstein: os 100 anos da teoria da relatividade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005; LIEBER, Lilian R. The Einstein theory of relativity. New York: Rinehart, 1945.

  • 8 humanidade sentiram a necessidade tanto da cincia quanto do misticismo: a tentativa de harmonizar os dois foi o que fez a sua vida 11 . Alm disso, ele se sentiu na necessidade de explicitar as razes de sua no crena12.

    Por parte da Igreja Catlica, o empenho para reatar os vnculos entre cincia e f tambm se faz sentir. A reabilitao de Galileu e a conscincia dos erros da Igreja naquele processo so um indicativo importante. Da mesma forma, a reconsiderao da situao cannica de Pierre Teilhard de Chardin, assim como uma viso mais positiva da Igreja em relao teoria da evoluo de Darwin. No pontificado de Joo Paulo II, a publicao da Encclica Fides et Ratio (Sobre as relaes entre F e Razo), em 1998, parece ser um marco considervel 13 . Estes so alguns sinalizadores de que a Igreja Catlica conserva a convico de que cincia e f podem (e devem) dialogar. Nas palavras de Teilhard de Chardin, aps quase dois sculos de lutas apaixonadas, nem a Cincia nem a F conseguiram diminuir-se uma outra; mas, muito pelo contrrio, torna-se patente que no se poderiam desenvolver normalmente uma sem a outra: e isto pela simples razo de que uma mesma vida as anima a ambas14.

    Ajudar a compreender estes movimentos, suas razes histricas e seus pressupostos filosficos , pois, a razo deste livro. Assim, o presente estudo objetiva analisar as relaes entre a Igreja Catlica e as instituies cientficas, a partir da Modernidade, sublinhando-se dois 11 RUSSELL, Bertrand. Misticismo e lgica. So Paulo: Companhia das Letras, 1957, p. 9. O autor cita Herclito e Plato como os dois maiores exemplos de pensadores que conseguiram a combinao ntima entre a razo e a crena, p. 10 e 11. 12 RUSSELL, Bertrand. Why I am not a Christian (traduo italiana: Perch non sono Cristiano. Milano: Longanesi e C, 1973). 13 JOO PAULO II. Encclica Fides et Ratio. Roma, 1998. 14 CHARDIN, Teilhard de. O Fenmeno Humano. So Paulo: Cultrix, 1994, p. 324.

  • 9 casos em particular: de um lado, o de Galileu (1564-1642), no que tange s discusses acerca da fsica copernicana em contraposio ao modelo do geocentrismo ptolomaico; de outro lado, o caso de Teilhard de Chardin (1881-1955), no que respeita sua posio em relao teoria da evoluo de Darwin.

    O trabalho pretende mostrar o movimento de rejeio-aceitao por parte da Igreja das posies terico-cientficas em questo, lanando luz