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Civitas Porto Alegre v. 5 n. 2 jul.-dez. 2005 p. 275-295

Comunicao internacional e intercultural

A luta pelo imaginrio social, o temor segregao e o caso do terrorismo

Jacques A. Wainberg*

Introduo

A revoluo nas tecnologias de transporte e comunicao ocorrida no mundo, em especial aps a Segunda Guerra Mundial, permitiu que pessoas de distintas etnias, nacionalidades, raas e religies passassem a conviver em grau crescente de intimidade, no que se convencionou chamar de ambientes multiculturais. Esta proximidade fsica entre estranhos tornou-se ainda mais dinmica medida que as relaes internacionais tornaram-se menos tensas, em especial no perodo aps a queda do Muro de Berlim, em 1989, at o ataque terrorista s torres gmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001. Nestes 12 anos, parecia aos olhos de todos que comevamos a viver uma era de paz e entendimento. Na verdade, o primeiro sinal desta mudana comeara em 1988 quando as estatsticas revelavam queda no nmero de incidentes terroristas no mundo. O auge tinha ocorrido no perodo de 1971 a 1987, com um crescimento de 238 incidentes no primeiro ano e a mais de 700 ataques

* Doutor em Jornalismo pela ECA/USP, professor de Jornalismo e Comunicao da Faculdade

de Comunicao Social da Pucrs. E-mail: jacqalwa@pucrs.br

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no ltimo. Em 1996, tais ocorrncias tinham cado a um nvel inferior ao verificado em 1971. O nmero de vtimas tambm diminura: 4.833 na dca-da de 1980 e 2.527 nos anos 90. Tais dados, levantados por Johnson, leva- riam este autor a afirmar, pouco antes do ataque a Nova York, que: a amea-a do terrorismo parece ser muito menos grave (do que o imaginado) (John-son, 2001, p. 894).

Na era fundamentalista do sculo XXI, tal assertiva soa estranha e nos parece um equvoco proftico de grande proporo. Mas era o que se sentia poca. Outros sinais de relaxamento ajudavam tal miragem. Entre eles, o fato de que o conflito entre as potncias e seus aliados desaparecia a passos lar-gos. A Comunidade Europia dispunha-se a acolher pases do antigo bloco comunista e a Organizao do Tratado do Atlntico Norte, em crise de iden-tidade, reavaliava sua funo na era ps-guerra fria. Acrescente-se ainda o fato da Organizao das Naes Unidas ter declarado 1986 o Ano da Paz, apesar de estarem em andamento naquele exato momento 15 guerras que produziam cerca de 1.000 mortes a cada ano.

A verdade que a ansiedade por Paz jamais cedera. Guerra e Paz tm si-do os dilemas centrais das relaes internacionais desde o alvorecer da hist-ria. Cabe lembrar que desde a Segunda Guerra Mundial at 1992 ocorreram 150 guerras e que nelas morreram aproximadamente 20 milhes de pessoas. Incluindo vrios tipos de outros conflitos, pereceram, desde 1945, entre 100 e 150 milhes de pessoas. Neste perodo, tivemos somente 26 dias de paz se considerarmos somente guerras entre naes. Se incluirmos outras categorias de conflito, chegaremos concluso de que no houve na verdade um nico dia de paz no mundo. A estatstica histrica fala em cerca de 3.500 grandes guerras e cerca de 10.500 conflitos menores desde 3600 a.C. totalizando cerca de um bilho de mortes diretas. Isso nos leva a concluir que a guerra um estado natural de relaes humanas e tem sido assim desde o alvorecer da histria.

Mas, a miragem de uma era de tolerncia crescente e pacificao do uni-verso tambm era robusta a partir de 1987, porque, em grande medida, preva-leciam no interior das sociedades democrticas vises contrrias ao precon-ceito religioso e racial. Falava-se com orgulho do respeito diferena. Tal cenrio de aparente calmaria acabaria reforado ainda com mudanas graves e favorveis aos direitos humanos em vrios cantos do mundo. Regimes auto-

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ritrios sucumbiram em vrios quadrantes do globo. Foi o caso das revolu-es civilistas na Romnia, Albnia e nos Balcs. Singularidades culturais e nacionais encontraram espao no redesenho poltico implementado na antiga arquitetura poltica da Unio Sovitica. O regime do apartheid da frica do Sul igualmente chegara ao fim. Acrescente-se a isso, o mundo celebrava uma iluso: a pacificao do conflito palestino-israelense, graas ao Acordo de Oslo. No extremo-oriente, negociaes com a Coria do Norte pareciam ter sido capazes de conter seu ameaador programa nuclear. Na China, a abertura econmica estimulava os negcios e a descolonizao de Hong Kong e outros enclaves ocidentais na regio aliviava focos de tenso entre Pequim e o Oci-dente. O mundo respirava aliviado. Falava-se com alegria do fim da histria.

Entre as primeiras conseqncias deste novo clima psico-social otimista estava o surgimento de um intenso desejo humano de explorar territrios alm-fronteira, como se viu em Berlim, logo aps a queda do regime da Ale-manha comunista. Famlias inteiras do leste puseram-se a caminho rumo ao oeste em viagens de passeio. O turismo tornou-se rapidamente na maior in-dstria do mundo (superando a do petrleo e a do armamento) e o sentimento de liberdade que o livre andar proporcionou aps o fim s rgidas barreiras policiais fronteirias serve-nos como emblema de um mundo que parecia nascer: uma civilizao mais disposta ao contato, s trocas e aos afagos. H que se documentar esta tendncia com o fato de que em 1999, por exemplo, contabilizara-se 664 milhes de turistas internacionais. Este total tinha sido de somente 327 milhes em 1985 (Organizao Mundial do Turismo, agosto de 2000). As fronteiras para tal andar tinham sido ampliadas fazendo com que tal peregrinao inclusse territrios antes excludos ou vigiados, como o caso da Polnia que registrou a chegada de 18 milhes de visitantes em 1998. Fenmeno similar ocorrera com a Repblica Checa (16 milhes) e a Hungria (15 milhes) entre outros destinos antes inacessveis ou intensamen-te controlados.

Outros sinais emergentes ainda ajudaram na mudana deste estado de es-prito, entre eles o crescimento das trocas comerciais internacionais entre continentes, em especial entre o ocidente com o leste europeu e a Rssia; a ampla difuso sem censura e controles em todo o mundo de produtos simb-licos, como a msica, a moda, o cinema, livros e revistas, e de programas de TV e jornalismo; a expanso de ambientes cosmopolitas em cidades e univer-sidades; a acelerao dos negcios nos mercados globais de capitais, disse-

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minando os valores do capitalismo a regies antes hostis competio co-mercial; a democratizao da Amrica Latina, e o fim da tenso entre a Aliana Atlntica e o Bloco de Varsvia.

Conceitos como mundializao, globalizao, sociedade ps-industrial e ps-moderna, alm de metforas como as da cabana eletrnica e cibercultura sucederam consagrada profecia dos anos 60 de Marshall McLuhan de que na era da eletricidade viveramos todos numa aldeia global.

Na verdade, as fronteiras tinham se tornado neste curto interregno de pa-cificao, muito mais porosas do que em qualquer outro momento da histria humana. Na Europa, aos poucos, nasce um novo cidado: o da Comunidade Europia. Um ser continental. Do outro lado do Atlntico, os Estados Unidos continuariam assediados por uma massa de imigrantes, em especial hispni-cos, que se tornam, no alvorecer do sculo XXI, na maior das minorias da-quele pas, superando os afro-descendentes. Em decorrncia, seu destino histrico de ser uma nao multicultural acabaria reforado.

Este fenmeno de vizinhanas cada vez mais heterogneas ocorreu e permanece em desenvolvimento tambm na Austrlia, no Canad, na Ingla-terra, na Nova Zelndia, entre outros centros cujas capitais e cidades impor-tantes tornaram-se babis lingsticas.

Vista desde longe, a Terra parecia em relativa convulso amistosa. O iso-lamento tpico de pocas passadas, que assegurava s comunidades certa intimidade e sensao de segura identidade, comeava a desmoronar. Parado-xalmente, a rapidez deste processo de enredamento tornou os problemas humanos de relaes entre grupos mais expostos. Clamores que se queixavam contra a perda de soberania e/ou que abominavam a perda de uma imaginada essncia em decorrncia de uma superexposio influncia estrangeira logo se fizeram ouvir com vigor em naes to dspares como as Filipinas, Indo-nsia, Arbia Saudita, Paquisto, Afeganisto, Ir e Iraque, mas tambm no ocidente, em especial nos pases em desenvolvimento do sul que se queixa-vam agora de um novo tipo de imperialismo: o cultural. Discursos fundamen-talistas de inspirao islmica, nacionalista e xenfoba, como os da direita austraca e francesa, por exemplo, encontraram simptica recepo em mas-sas humanas que aspiravam ao expurgo de marcas culturais estranhas sua prpria identidade, considerada por estes nativos como a matriz cultural pre-ferencial.

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O ataque s torres em Nova York daria visibilidade hiptese de Hung-tington (1997): pareceu a todos que terminara naquele momento a lua de mel intercultural. No horizonte passa a predominar a partir de ento o temor por uma nova guerra civilizacional (fala-se agora, aos sussurros, de cruzadas, ora dos radicais de Osama Bin Laden contra o ocidente judaico-cristo, e s aves-sas, do ocidente sustentando sua sanha colonial em busca do domnio do tesouro petrolfero da pennsula arbica). Nestas vises fbicas, a identidade cultural dos povos torna-se uma espcie de chave-mestra que autoriza ou no a articulao de alianas estratgicas. Fatores tnicos afins, similitudes reli- giosas, semelhanas filosficas e estilos de vida comuns tornam-se nesta viso de guerra civilizacional fatores to decisivos nos clculos estratgicos como recursos naturais e capital.

Nesta concepo na qual a cultura dos povos um dos fatores centrais do pensamento dos policy-makers, o mund