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  • coleo TRANS

    Jacques Rancire

    O DESENTENDIMENTO Poltica e Filosofia

    Traduo Angela Leite Lopes

    Jg j MDiaTHque J 4 * MaisondeFrnce

    5 0 - 0 >

    P - A a J

    editoral34

  • EDITORA 34

    Distribuio pela Cdice Comrcio Distribuio e Casa Editorial Ltda. R. Simes Pinto, 120 CEP 04356-100 Tel. (011) 240-8033 So Paulo - SP

    Copyright 34 Literatura S/C Ltda. (edio brasileira), 1996 La msentente ditions Galile, Paris, 1995

    A FOTOCPIA DE QUALQUER FOLHA DESTE LIVRO ILEGAL, E CONFIGURA UMA

    APROPRIAO INDEVIDA DOS DIREITOS INTELECTUAIS E PATRIMONIAIS DO AUTOR.

    Ttulo original: La msentente

    Capa, projeto grfico e editorao eletrnica: Bracher & Malta Produo Grfica

    Reviso tcnica: Renato ]anine Ribeiro

    Reviso: Geraldo Gerson de Souza

    I a Edio - 1996

    34 Literatura S/C Ltda. R. Hungria, 592 CEP 01455-000 So Paulo - SP Tel./Fax (011) 210-9478 Tel. (011) 832-1041

    Dados Internacionais de Catalogao na Fonte (CIP) (Cmara Brasileira do Livro, SP^ Brasil)

    Rancire, Jacques O desentendimento - poltica e filosofia / Jacques

    Rancire ; traduo de ngela Leite Lopes. So Paulo : Ed. 34, 1996 144 p. (Coleo TRANS)

    Traduo de : La msentente - politique et philosophie

    ISBN 85-7326-026-2

    1. Filosofia francesa. 2. Poltica. I. Ttulo. II. Srie.

    96-0595 CDD - 1(44)

  • O DESENTENDIMENTO Poltica e Filosofia

  • O DESENTENDIMENTO Poltica e Filosofia

    Prefcio 9

    O comeo da poltica 17

    O dano: poltica e polcia 35

    A razo do desentendimento 55

    Da arqui-poltica meta-poltica 71

    Democracia ou consenso 99

    A poltica em sua era niilista 123

  • PREFCIO

    "lloicov ' LAOTTI eaxi mi TCOIOV aviaorri, ei |LLT\ avBaveiv e%si yap TODT arcopiav K A I (|)iXooo

  • desses lugares. Dir-se- que justamente a poltica purificada reen-controu os lugares adequados deliberao e deciso sobre o bem comum, as assemblias onde se discute e se legisla, as esferas do Es-tado onde se tomam decises, as jurisdies supremas que averiguam a conformidade das deliberaes e das decises s leis fundadoras da comunidade. A desgraa que, nesses prprios lugares, se propaga a opinio desencantada de que h pouco a deliberar e de que as deci-ses se impem por si mesmas, sendo o trabalho prprio da poltica apenas o de adaptao pontual s exigncias do mercado mundial e de uma distribuio eqitativa dos lucros e dos custos dessa adapta-o. A restaurao da filosofia poltica manifesta-se, assim, ao mes-mo tempo que o ausentar-se da poltica por parte de seus represen-tantes autorizados.

    Essa singular concordncia exige uma volta questo da evidncia primeira da filosofia poltica. O fato de (quase) sempre ter havido po-ltica na filosofia no prova, de modo algum, que a filosofia poltica um ramo natural da rvore-filosofia. Em Descartes, com certeza, a poltica no citada entre os ramos da rvore; a medicina e a moral cobrem aparentemente todo o campo em que outras filosofias a en-contravam. E o primeiro da nossa tradio a encontr-la, Plato, f-lo apenas sob a forma da excepcionalidade radical. Scrates no um filsofo que pensa sobre a poltica de Atenas. o nico ateniense que "faz as coisas da poltica"1, que faz a poltica de verdade que se ope a tudo o que se faz em Atenas sob o nome de poltica. O encontro primeiro da poltica e da filosofia o de uma alternativa: ou a polti-ca dos polticos ou a dos filsofos.

    A brutalidade da disjuno platnica esclarece, ento, aquilo que a ambgua relao entre a segurana de nossa filosofia poltica e a discrio de nossa poltica deixa entrever. No h prova alguma de que a filosofia poltica seja uma diviso natural da filosofia, que acom-panha a poltica de sua reflexo, mesmo que crtica. No h prova, antes de mais nada, da figurao de uma filosofia que vem duplicar com sua reflexo, ou fundar com sua legislao, toda grande forma do agir humano, cientfica, artstica, poltica ou outra. A filosofia no tem divises que proviriam do seu prprio conceito ou dos campos so-bre os quais ela aplica sua reflexo ou sua legislao. Ela tem objetos

    1 Plato, Grgias, 521 d.

    10 Jacques Rancire

  • singulares, ns de pensamento nascidos de certo encontro com a pol-tica, a arte, a cincia ou alguma outra atividade do pensamento, sob o signo de um paradoxo, de um conflito, de uma aporia especficos. Aristteles nos indica isso numa frase que um dos primeiros encon-tros entre o substantivo "filosofia" e o adjetivo "poltica": "Do que h igualdade e do que h desigualdade, a coisa leva aporia e filo-sofia poltica"2. A filosofia torna-se "poltica" quando acolhe a aporia ou o embarao prprio da poltica. A poltica voltaremos a isso a atividade que tem por princpio a igualdade, e o princpio da igual-dade transforma-se em repartio das parcelas51* de comunidade ao modo do embarao: de quais coisas h e no h igualdade entre quais e quais? O que so essas "quais", quem so esses "quais"? De que modo a igualdade consiste em igualdade e desigualdade? Tal o em-barao prprio da poltica, pelo qual a poltica se torna um embarao para a filosofia, um objeto da filosofia. No se deve entender com isso a viso piedosa, segundo a qual a filosofia vem socorrer o praticante da poltica, da cincia ou da arte, explicando-lhe a razo de seu em-barao ao lhe divulgar o princpio de sua prtica. A filosofia no so-corre ningum e ningum lhe pede socorro, mesmo que as regras de convenincia da demanda social tenham institudo o hbito de polti-cos, juristas, mdicos ou qualquer outra corporao, quando esta se rene para pensar, convidarem o filsofo como especialista da refle-xo em geral. Para que o convite produza algum efeito de pensamen-to, preciso que o encontro ache seu ponto de desentendimento.

    Por desentendimento entenderemos um tipo determinado de si-tuao de palavra: aquela em que um dos interlocutores ao mesmo tempo entende e no entende o que diz o outro. O desentendimento no o conflito entre aquele que diz branco e aquele que diz preto. E o conflito entre aquele que diz branco e aquele que diz branco mas no entende a mesma coisa, ou no entende de modo nenhum que o outro diz a mesma coisa com o nome de brancura. O carter genri-co da frmula exige evidentemente algumas precises e obriga a fa-

    2 Aristteles, Poltica, IV, 1282 b 21.

    * Parcela. No original, part (o termo francs partie foi traduzido como par-te). Designa a parte qe cabe a algum numa diviso ou distribuio, o quinho que dado a uma pessoa ou que legitimamente deveria ser seu. Jogam com esta palavra, igualmente, partido (francs partie), parceiro (francs partenaire), divi-so (francs partage). (N. do revisor tcnico)

    C) Desentendimento 11

  • zer algumas distines. O desentendimento no de modo nenhum o desconhecimento. O conceito de desconhecimento pressupe que um ou outro dos interlocutores ou os dois pelo efeito de uma sim-ples ignorncia, de uma dissimulao concertada ou de uma iluso constitutiva no sabem o que um diz ou o que diz o outro. No tampouco o mal-entendido produzido pela impreciso das palavras. Uma velha sabedoria que hoje particularmente apreciada deplora que as pessoas se entendam mal porque as palavras trocadas so equ-vocas. E exige que, pelo menos quando esto em jogo a verdade, o bem e a justia, todos tentem atribuir a cada palavra um sentido bem definido que a separe das outras, desistindo-se das palavras que no designam nenhuma propriedade definida ou daquelas que no con-seguem fugir de uma confuso homonmica. Ocorre que essa sabedo-ria assuma o nome de filosofia e dite essa regra de economia lings-tica para o exerccio privilegiado da filosofia. Acontece-lhe ao con-trrio que denuncie a filosofia como a prpria fornecedora das pala-vras vazias e dos homnimos irredutveis e proponha que cada ativi-dade humana enfim se entenda, depurando seu lxico e seus concei-tos de todas as usurpaes da filosofia.

    Tanto o argumento do desconhecimento quanto o do mal-en-tendido requerem assim duas medicinas da linguagem, que consistem em ensinar o que quer dizer falar. Vem-se facilmente seus limites. A primeira deve pressupor constantemente esse desconhecimento do qual ela o avesso, o saber reservado. A segunda aplica em demasia-dos campos seu interdito de racionalidade. Inmeras situaes de pa-lavra em que atua a razo podem ser pensadas dentro de uma estru-tura especfica de desentendimento que no nem de desconhecimen-to a pedir um saber suplementar, nem de mal-entendido a solicitar uma rarefao das palavras. Os casos de desentendimento so aque-les em que a disputa sobre o que quer dizer falar constitui a prpria racionalidade da situao de palavra. Os interlocutores ento enten-dem e no entendem a a mesma coisa nas mesmas palavras. H to-das as espcies de razo para que um X entenda e no entenda ao mesmo tempo um Y: porque, embora entenda claramente o que o outro diz, ele no v o objeto do qual o outro lhe fala; ou ento por-que ele entende e deve entender, v e quer fazer ver um objeto dife-rente sob a mesma palavra, uma razo diferente no mesmo argumen-to. Assim, na Repblica, a "filosofia poltica" comea sua existncia pelo longo protocolo do desentendimento acerca de um argumento

    12 Jacques Rancire

  • sobre o qual todos concordam: que a justia consiste em dar a cada um o que lhe devido. Seria cmodo sem dvida que, para dizer o que entende por justia, o filsofo dispusesse de palavras totalmente diferentes das do poeta, do negociante, do orador e do poltico. Coi-sa que a divindade aparentemente no providenciou e que o aprecia-dor das linguagens prprias s conseguiria suprir a preo de no ser entendido de modo algum. Ali onde a filosofia encontra a poesia, a poltica e a sabedoria dos negociantes honestos, precisa tomar as pa-lavras dos outros para dizer que diz uma coisa totalmente diferente. nisso que h desentendimento e no apenas mal-entendido, deco