AfroChilenos - Cultura e Pol­tica no Ritmo Tumbero

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ANTROPOLOGIA

Nestor Mora

Afro-chilenos Cultura e Poltica no ritmo tumbero

Niteri 2011

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM ANTROPOLOGIA

Nestor Mora

Afro-chilenos Cultura e Poltica no ritmo tumbero

Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Antropologia da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obteno do Grau de Mestre.

Niteri 2011

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Banca Examinadora

____________________________________ Prof. Orientador Dr. Julio Cesar de Tavares Universidade Federal Fluminense ____________________________________ Profa. Dra. Angela Maria de Randolpho Paiva Pontifcia Universidade Catlica - RJ ____________________________________ Prof. Dr. Nilton Silva dos Santos Universidade Federal Fluminense ____________________________________ Prof. Dr. Ricardo Oliveira de Freitas Universidade Estadual de Santa Cruz ____________________________________ Prof. Dr. Luiz Fernando Rojo Mattos Universidade Federal Fluminense

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Resumo O presente trabalho busca analisar o processo de resgate identidade tnica da comunidade afro-chilena. O reconhecimento pela sua etnicidade se d primeiramente pelo resgate da cultura, tradio e costumes uma vez ocultadas pelo fenmeno reconhecido como chilenizacin, perodo marcante na histria do pas ocorrido nas primeiras dcadas do sculo passado, e que determinou novas fronteiras tnicas e geogrficas na regio de Arica, norte do Chile. Tal processo tratou de reinventar a cultura nacional sedimentando seus elementos culturais legitimados pela colonialidade e contrariando os elementos interditos, nos quais se enquadrava a cultura afro-chilena. Com efeito, essa reinveno da nacionalidade terminou por ocultar os antigos costumes da populao afrochilena. Hoje a Ong Oro Negro e a Associao de Afrodescendentes Lumbanga so as principais referncias que atuam em duas frentes pelo reconhecimento da sua etnicidade: A primeira movida por uma frente poltica atravs da qual ocorre a negociao perante o estado-nao. Requisita-se, em primeira instncia, a insero da varivel afrodescendente no prximo censo demogrfico a ser realizado em 2012, a fim de quantificar a populao negra no pas at agora indeterminada. J a segunda frente a cultural na qual desenvolve-se novos projetos pelo resgate dos antigos costumes afro-chilenos como a comida, os modos de saber, os antigos vocbulos e, principalmente, o baile tumba. Este ltimo tem sido o principal instrumento cultural de re-afirmao da identidade tnica chilena j que seu cenrio principal a rua, considerado o melhor espao pblico para a superao das desigualdades. Palavras-chave: dispora africana, etnicidade, afro-chileno, tumba

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Abstract The present paper seeks to analyze the process of rescuing the ethnic identity of the africanChilean community. The recognition of their ethnicity begins by rescuing their culture, traditions and customs obfscuated by the phenomenon known as chilenizacin, a remarkable period in Chilean history which occurred in the early decades of last century and established new ethnic and geographical borders in the region of Arica, located in the northern section of the country. This process sought to reinvent the national culture by solidifying cultural elements legitimized by coloniality and opposing them to prohibited elements, in which the african-Chilean culture is framed. Indeed, this reinvention of Chilean nationality eventually concealed the old folkways of the african-Chilean population. Nowadays, the Oro Negro NGO and the Association of African Descent Lumbanga, are the main references acting on two fronts for the recognition of their ethnicity: the first is driven by a political front which negotiates with the nation-state. It requires, in the first instance, the insertion of the afrodescendant variable in the next census, to be held in 2012, in order to quantify the black population of the country, so far undetermined. The second front is cultural in nature, seeking to develop new projects to rescue former african-Chilean customs such as food, ways of knowledge, primitive words, and especially, the traditional dance called tumba. The latter has been the chief instrument of cultural reaffirmation of ethnic identity in Chile, since its main scenario are the streets, considered the best public space for overcoming inequalities. Keywords: African Diaspora, ethnicity, african-Chilean, tumba

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Agradecimentos Agradeo a toda famlia Oro Negro em especial Marta Salgado e Don Dino Toledo que me receberam com todo o carinho e ateno sempre dispostos a ensinar sobre o ser afro-chileno. Agradeo a Lumbanga principalmente a Cristian Bez, exemplo de lder inquieto, e que ajudou a esclarecer muitas dvidas a respeito da comunidade afro-chilena. Agradeo a cada resposta traduzida em significados, cada convite para um almoo ou um refrigerante. Nesses encontros sempre surgiram ideias, motivaes e, acima de tudo, vontade de continuar trabalhando para enfrentar os desafios que a vida nos oferece. Cada visita e cada entrevista no seria possvel sem a participao e o incentivo desses lderes Marta Salgado e Cristian Bez, os quais tero o meu eterno respeito e agradecimento. Aos companheiros Francisco Piores, Ricardo Vergara e Tomas Escobar que me apresentaram ao ritmo tumba, e tiveram a pacincia de me ensinar a tocar o tambor na tentativa de incorporar por mim mesmo a nossa afro-chilenidade. Obrigado. Agradeo ao Prof. Julio Cesar Tavares, por sua inquietude, comum de todo lder, provocando perguntas e dvidas sobre ns mesmos. Agradeo ao seu profissionalismo, exemplo de Professor, Cientista e Amigo. Aos Professores Ricardo Oliveira e Nilton Santos pela apreciao do projeto de qualificao e suas orientaes pertinentes. Muito obrigado. Agradeo aos meus tios Jovita e Don Victor Cortes Mora que me receberam em Arica com todo o carinho e puderam me ensinar em cada almoo o significado do ser chileno. Aos colegas do hotel, sempre dedicados e carinhosos. s minha avs Maria Luisa Cortes e Hilden Pinheiro Gomes (In Memoria). Obrigado pelo exemplo de Mulher, Me e Av. Aos meus pais Nestor e Virgnia. Meus alicerces daquilo que sou. Obrigado pelo afeto, pelas palavras de coragem e incentivo. Agradeo s minhas irms e namorada, companheiras e, por vezes, compreensivas nos meus reclames sobre esta odisseia pela Amrica Latina. Aos amigos da turma do mestrado, aos companheiros do LEECCC, e s amizades de longa data. Muito Obrigado. Dedico a todos vocs meus devaneios e reticncias para que continuem o trabalho de modo a tentar explicar sobre este bicho estranho chamado Ser Humano.

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O mundo s uma possibilidade quando voc mesmo quem faz a sua descoberta Ralph Ellison

Acredito na liberdade para todos; no apenas para os negros Bob Marley

O essencial no conhecer o mundo, mas transform-lo Frantz Fanon

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SUMRIO

Apresentao e procedimentos metodolgicos.........................................................................11 Captulo I Da Dispora Africana e as africanidades na Amrica Latina 1.1 - Da dispora: breve comentrio analtico..........................................................................16 1.2 - A travessia etno-histrica dos primeiros africanos no Chile.............................................21 1.3 - Durban: Da abolio ao discurso emancipatrio..............................................................26 1.4 - O pan-africanismo e o Atlntico Negro: a dupla-conscincia na travessia......................29

Captulo II Travessia: de moreno a afrodescendente 2.1 - El dieciocho: A chilenidade alm das suas fronteiras.......................................................36 2.2 - Chile: o absolutismo tnico e suas localidades culturais..................................................39 2.3 - Arica: cidade de mltiplos territrios................................................................................45 2.4 - Vale de Azapa: territorialidade afro-chilena......................................................................48 2.5 - Ruta del Esclavo: re-construindo a identidade tnica extraviada......................................50 2.6 - Chilenizacin: Construindo fronteiras tnicas e geo-polticas..........................................68 2.7 - Oro Negro e Lumbanga: des-construindo fronteiras etno-polticas...................................77 2.7.1 - Cultura e reconhecimento: A Pascua de los Negros e a mulher afro-chilena......81 2.7.2 - Poltica e reconhecimento: O Censo demogrfico de 2012.................................83 2.8 - Direitos Humanos: a afrodescendncia e suas implicaes................................................91

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Captulo III - Azapa sempre vive: tumba carnaval! 3.1 - Tumba! Passado e presente da afro-chilenidade...............................................................107 3.2 - O lugar estratgico da tumba na conquista do espao.....................................................115 3.3 - Tumba Carnaval Con la Fuerza del Sol........................................................................129 3.4 - O incio do Carnaval em Arica.........................................................................................138 3.5 - Bajada de Carnaval: de Lumbanga ao vale de Azapa.......................................................145 3.6 - Juan o Domingo Carnavaln: o ritual da terra no vale de Azapa..................................148 3.7 - Los tumberos: Identidade em re-construo.....................................................................151

Anexos..........................................................................................................................156

Bibliografia..................................................................................................................166

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Apresentao O