DEFINIÇÕES - UFPA

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DEFINIÇÕES

O que é(neste curso)

a partir de Terry Eagleton

1. Literatura como escrita "imaginativa", ficcional

“A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados,de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, semnenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrarsuas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como emmostrar o rosto. [...]Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca,nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outraalimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nemcomem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessasemente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam. Ecom isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o nãosomos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.”

(Carta de Caminha)

Profundamente (Manuel Bandeira)

Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas.

No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam, errantes

Profundamente (Manuel Bandeira)

SilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindoEstavam todos deitadosDormindoProfundamente.

Quando eu tinha seis anosNão pude ver o fim da festa de São JoãoPorque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempoMinha avóMeu avôTotônio RodriguesTomásiaRosaOnde estão todos eles?

— Estão todos dormindoEstão todos deitadosDormindoProfundamente.

O poeta é um

FINGIDORque finge tão completamenteque chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente

2. Emprego de uma "linguagem peculiar" (formalistas)

Formalistas: pretensão de compreender a literatura de umponto de vista científico, mais especificamente estruturalista. ALiteratura seria uma "organização particular da linguagem" -não a expressão de pensamentos ou sentimentos; não haveria"o que o autor quer dizer“.

Linguagem diferente da "comum" que a violenta e coloca,novamente, a linguagem em "evidência", chama atençãosobre si mesma.

Acreditavam que os "artifícios", recursos literários (som,imagens, ritmo, etc.), produziam ESTRANHAMENTO edefiniam o Literário pelos desvios da NORMA.

Grande sertão: veredas (G. Rosa)

– NONADA. TIROS QUE O SENHOR ouviu foram de briga dehomem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, nobaixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desdemal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dumbezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –;e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar.Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, essefigurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão:determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram.

Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas,cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quandoé tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir,instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. Osenhor tolere, isto é o sertão. [...]

Olhe: o que devia de haver, era de se reunirem-seos sábios, políticos, constituições sagradas,fecharem o definitivo a noção – proclamar poruma vez, artes assembleias, que não tem diabonenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Sóassim, davam tranquilidade boa à gente. Por que oGoverno não cuida?!Ah, eu sei que não é possível. Não me assente osenhor por beócio. Uma coisa é pôr ideiasarranjadas, outra é lidar com país de pessoas, decarne e sangue, de mil-e-tantas misérias...

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo o mundoé louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que secarece principalmente de religião: para se desendoidecer,desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é asalvação da alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não percoocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todorio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezocristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces decompadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas,quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente,metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora,cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende.Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório.Eu queria rezar – o tempo todo.

Pneumotórax (Manuel Bandeira)

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos. A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico: - Diga trinta e três. - Trinta e três... trinta e três... trinta e três... - Respire.

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

3. Literatura sob o ponto de vista da recepção

Depende de como o leitor a encara, de como decideler, independente da intenção do autor.

Literatura é menos UMA qualidade inerente ou umCONJUNTO de qualidades que uma maneiracomo as pessoas se relacionam com o texto.

Aspecto vital, principalmente nas fronteiras do"literário", onde se confundem expressão estética edocumento.

Literatura, como “mato” e “sertão”, é termomais funcional que categórico.

Literatura é um texto altamente valorizado,o que no leva a abandonar a idéia de umacategoria estável, objetiva, imutável - porqueos juízos de valor são históricos.