WC "ad nauseam"

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1 WC “ad nauseam” Então e os cegos?… Esqueceram-se dos cegos?!… Há alguns anos atrás, a caminho de Madrid com um colega e amigo, acabei a ultrapassar um qualquer limite de velocidade, tendo, logo adiante, sido confrontado pela polícia com a respectiva prevaricação. A primeira coisa de que fomos avisados, era que tínhamos que pagar uma multa muy grande”! - Assim dito, “muy grande”, podia significar muita coisa, inclusive que, às tantas, teríamos que dar meia volta e ser recambiados para a origem, por motivo de degradação financeira instantânea. Foi então que nos foi esclarecido o significado de “muy grande”: a multa era, na altura, de 30 000 pesestas. - C’os diabos, afinal a multa, não sendo pequena, que não era, também não era assim tão “muy grande”!… E ficámos mais animados, quase contentes!… E o polícia lá acrescentou de seguida: - “se pagares agora, ainda tens 20% de desconto; ou seja, só pagas 24 000 pesetas” !… E aí, com as multas em saldo, só nos faltou pular e dançar logo ali o malhão, de tão contentes…apesar de multados!… Deixo ao leitor a possibilidade de substituir no texto a palavra multados, pela que primeiro lhe vier à cabeça, conste ou não do dicionário. Portanto, multados, mal pagos (no acto) e, apesar de tudo, felizes e contentes!… Moral da história: - “ todo o burro come palha, desde que lha saibam dar”. Ora, não sei se já perceberam onde quero chegar com esta história do polícia, do burro e da palha? - Se calhar, já!… Está-se mesmo a ver que é sobre o licenciamento das clínicas de medicina dentária e da legislação que as regula!… - Aposto que já tinham adivinhado!… E tenho também a expectativa que acabem por perceber quem é quem, nesta história dos licenciamentos das clínicas dentárias. Em 2001, foi promulgada uma regulamentação tão draconiana sobre como as clínicas de medicina dentária deveriam funcionar, que nem sequer me surpreendeu que a minha própria clínica, que há poucos anos atrás tinha desenhado e equipado com

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WC “ad nauseam”

Então e os cegos?… Esqueceram-se dos cegos?!…

Há alguns anos atrás, a caminho de Madrid com um colega

e amigo, acabei a ultrapassar um qualquer limite de velocidade, tendo, logo adiante,

sido confrontado pela polícia com a respectiva prevaricação.

A primeira coisa de que fomos avisados, era que tínhamos que pagar uma multa

“muy grande”! - Assim dito, “muy grande”, podia significar muita coisa, inclusive que,

às tantas, teríamos que dar meia volta e ser recambiados para a origem, por motivo de

degradação financeira instantânea.

Foi então que nos foi esclarecido o significado de “muy grande”: a multa era, na

altura, de 30 000 pesestas. - C’os diabos, afinal a multa, não sendo pequena, que não

era, também não era assim tão “muy grande”!… E ficámos mais animados, quase

contentes!… E o polícia lá acrescentou de seguida: - “se pagares agora, ainda tens

20% de desconto; ou seja, só pagas 24 000 pesetas” !…

E aí, com as multas em saldo, só nos faltou pular e dançar logo ali o malhão, de

tão contentes…apesar de multados!… Deixo ao leitor a possibilidade de substituir no

texto a palavra multados, pela que primeiro lhe vier à cabeça, conste ou não do

dicionário.

Portanto, multados, mal pagos (no acto) e, apesar de tudo, felizes e contentes!…

Moral da história: - “ todo o burro come palha, desde que lha saibam dar”.

Ora, não sei se já perceberam onde quero chegar com esta história do polícia, do

burro e da palha? - Se calhar, já!… Está-se mesmo a ver que é sobre o licenciamento

das clínicas de medicina dentária e da legislação que as regula!… - Aposto que já

tinham adivinhado!… E tenho também a expectativa que acabem por perceber quem é

quem, nesta história dos licenciamentos das clínicas dentárias.

Em 2001, foi promulgada uma regulamentação tão draconiana sobre como as

clínicas de medicina dentária deveriam funcionar, que nem sequer me surpreendeu que

a minha própria clínica, que há poucos anos atrás tinha desenhado e equipado com

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requisitos muito para lá do que a estética, funcionalidade, condições higio-sanitárias e

ética exigiam (já que legislação não havia), estivesse, ainda assim, completamente

desenquadrada dessa mesma legislação. - Era, comparando com a minha aventura

espanhola, a “multa muy grande” que me deixou a mim e a muitos colegas, não “muy”

menos preocupados!…

E eis que vem agora esta legislação, que afinal sempre é a que vai ser aplicada e

que, só porque já percebemos que não temos todos que fazer clínicas novas, já nos deixa

aliviados, quase eufóricos e prontinhos para “comer esta palha”, ou “qualquer outra

palha” que seja uma redução da primeira!…

- Finórios estes “legisladores”, com métodos de polícia espanhol!… Ameaçam

com uma dose “muy grande” e depois vão abatendo, sendo que qualquer redução nos

deixa prontos para dançar o malhão!… - Já nem nos passa pela cabeça sequer pedir a

absolvição, muito menos questionar a razoabilidade da “multa”; só já nos interessa que

nos façam um qualquer descontozito!…

Ora, esta palha, digo, legislação, já corrigida e descontados para aí 20% de falta

de senso (que é pouco) do legislador de 2001; assim, também fica demasiado simplória,

(viram bem, simplória) pelo que quero registar já aqui o meu protesto!…

- É que eu, cá não sou “burro” para comer pouca palha!… Pelo menos, sem

refilar!…

- Ora, perguntem-me lá porquê?…

- Então e porquê?… Perguntam vocês.

- Pois então, ainda bem que perguntam!…Eu explico: - é que assim, só tenho

que escavacar as duas casas de banho já existentes, que sempre serviram e mereceram a

aprovação de toda a gente (mas isso é uma minudência); voltar a refazê-las, agora com

um “design” de mau gosto; e fazer ainda uma outra para os funcionários!... - Está

mal!…

Uma regulamentação sobre clínicas dentárias, não pode ser assim tão pouco

exigente…acerca das casas de banho!… E, neste capítulo, esta lei é muito

insuficientezinha e discriminatória!… - Ora vamos lá ver então!…

Comecemos pela casa de banho para os deficientes motores, por exemplo. - Os

meus colaboradores dizem-me, depois de sondada a memória (bem lá no fundo), que ao

fim de tantos anos, só um deficiente motor entrou alguma vez na clínica, embora

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ninguém se consiga lembrar se durante a estadia, teve ou não algum chamamento da

natureza. - Mas isso não interessa para rigorosamente nada!… O que interessa, é que a

gente tem é que ter instalações preparadas, como se nos entrassem a cada passo porta

dentro muitos deficientes motores, certo?!…

Ora, se bem me recordo, os deficientes motores podem ser paraplégicos ou

tetraplégicos. Mas a presente legislação, que parece só considerar os paraplégicos nas

adaptações que impõe, discrimina os tetraplégicos!… - Não está certo!…

Ninguém está livre que lhe entre pela porta dentro o Stephen Hawking com uma

pulpite; vá lá, só uma gengivite, que eu até admiro o homem!…

E então onde é que está previsto o dispositivo elevatório para sentar os

tetraplégicos no vaso sanitário? - Algum tipo de grua, ou assim?!… E quem manobra a

grua, já agora?!… Não pode ser qualquer um, que isto não deve ser tarefa fácil!… Ás

tantas, pode até ficar pentaplégico…ou até pior, num dia de azar!…

- Ora, nada disto está previsto!… Também está mal!…

As clínicas de medicina dentária, deviam ser obrigadas a contratar um

funcionário operador de gruas de tetraplégicos. - Devidamente credenciado e com

obrigatoriedade de afixação (é óbvio) de um dístico alusivo na sala de espera, do tipo:

“esta clínica dispõe de operador certificado de gruas de tetraplégicos”.

Poderia até dispensar-se a certificação periódica do operador, já que este poderia

ir praticando uma vez por outra com os utentes dos WC ditos normais, vá lá, os menos

aflitos, sentando-os mecanicamente no vaso sanitário, para ir mantendo a destreza e a

competência.

Por outro lado, é sabido que a maioria de paraplégicos e tetraplégicos, tem

alterações fisiológicas com incapacidade de controlo dos esfíncteres e precisam

frequentemente duma algália. - E nós, dentistas, sabemos algaliar?… Não!… Está mal

outra vez!…

A legislação devia obrigar os médicos dentistas a saber algaliar pessoas!…

Como se fosse preciso muitas vezes e todos os dias, certo?!… A menos que estes já

andem algaliados por sistema e/ou com outros cuidados específicos relativos à sua

limitação, do tipo: “quem vai para o mar, avia-se em terra”!…

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- Espera aí…mas sendo assim, não era preciso tanta alarido por causa das casas

de banho para os deficientes motores!… Deve-me estar a escapar aqui qualquer

coisa!… Só pode!…

- Mas e então os cegos?… Esqueceram-se dos cegos?!…

- Ora, os cegos, que também são muitos, e a avaliar pelo estado dos vasos

sanitários no final do dia, devem ser bastante mais do que aqueles que estão registados,

não estão contemplados na legislação!… É discriminatório, isto!… Está mal mais uma

vez!…

Devia ser obrigatório as clínicas dentárias terem uma casa de banho para os

cegos!… Que, aliás, poderia servir também para os políticos e legisladores, porque, na

definição de cegueira, também entram aqueles que têm visão reduzida e que não

distinguem a luz.

E, cá para mim, desde que um dos nossos reis da primeira dinastia foi declarado

“rex inutilis”, que temos tido muitos políticos, legisladores e, enfim, duma forma geral,

lideres “inutilis”, que nunca viram raio de luz nenhuma!…

Porque é que acham que os nossos governantes andam sempre a correr para

Bruxelas e para a Alemanha?… Para serem puxados da escuridão, para a luz, claro!…

Só não percebo, é porque é que têm sempre que os puxar pelas orelhas!… Francamente,

não se compreende esta fixação dos políticos europeus, nas orelhas dos nossos

governantes!… Se calhar, é porque não têm mais nada por onde se lhe pegue!…

Bem, talvez tenha exagerado um pouco nesta coisa dos lideres “inutilis”!… Não

se deve generalizar, certo?… Pensando melhor, acho que talvez se safem o D. João II e

mais o… o…(estou a puxar pela cabeça)…e mais…bem, só me ocorre mais, é mesmo o

Sr Pinto da Costa, do FCP!… Que, já agora, se a memória não me atraiçoa, até teve um

WC penhorado pelo Estado, no antigo estádio das Antas.

- Ora aí está alguém que poderia ter dado uns “bitaites” para ajustar a

regulamentação das casas de banho das clínicas dentárias, agora que me lembro

disso!… E, já agora, sobre as acessibilidades, que também sabe umas coisas sobre

túneis!…

- E então, não te estás a esquecer dos nossos navegantes?!… Perguntam

vocês!…

- Não eram gente de fibra e natureza testicular?!… Insistem vocês!…

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- E eu tenho que responder que sim, que eram!… Mas é que há aqui um pequeno

detalhe, que tenho que vos recordar!…

- É que nós não somos descendentes desses, que, com tanta viagem, nem tinham

tempo nem condições para ter descendentes!… Nós, descendemos é dos que ficaram cá,

a povoar o território e a dedicar-se à agricultura!… E isso faz toda a diferença!…

Ainda por cima, uma agricultura completamente desregulada, com produção

excessiva de nabos e escassez de tomates!… - Nem sequer malaguetas em quantidade

suficiente para nos dar o bocadito de “mau feitio” suficiente, mas necessário, para

mandar o legislador das clínicas dentárias… encher-se de couves!… (Continua a dar-me

que pensar esta coisa de puxarem os nossos políticos pelas orelhas…)

Bom, mas voltando ao WC que as clínicas dentárias deveriam ser obrigadas a ter

para os cegos que raramente lá irão (como os deficientes motores), mas que a gente

deveria ter como se fossem lá todos os dias…até já estou a imaginar como é que deveria

ser essa tal casa de banho dos cegos!… Querem que vos diga?!… Eu digo!…

- Em minha opinião, deveria ter um vaso sanitário gigante, que ocupasse todo o

compartimento do WC até à porta e um aviso sonoro, em caso, mesmo assim, de

falharem o vaso. Também com as paredes pintadas com uma tinta à prova de água... por

causa dos mais brincalhões!…

Naturalmente, deveria haver obrigatoriedade dum corrimão que guiasse o cego

desde a sala de espera até ao respectivo WC, não se fosse dar o caso de este ter vontade

de urinar e entrar no WC errado, com alguém sentado lá dentro (xiiiiii…).

E o tal corrimão, já agora, até poderia conter gravadas informações úteis (em

braille, naturalmente), do tipo: “faltam 3 metros para o WC”… “agora faltam só 2

metros”….”cuidado com o nariz”, etc….

Bom, a alternativa ao corrimão, poderia ser um cão!… Mas o cão não deve

poder entrar nas clínicas, por causa das pulgas e isso!… A menos que fosse um cão

indígena!… Um cão residente da própria clínica, também devidamente certificado e

adestrado para a função, equipado com resguardo “water proof” (estão a ver porquê,

né?- São cegos…) e isento de pulgas, evidentemente.

– Assim, talvez já pudesse ser!… Naturalmente, teríamos que ter também a

respectiva avença sanitária (de afixação obrigatória, claro) com um veterinário.

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Ora aí está! - É isso mesmo, as clínicas sem corrimão para cegos, teriam que

obrigatoriamente ter um cão residente para este efeito.

– Mas este cão, teria que ser obrigado a fazer cursos de reciclagem para não

perder a competência, em caso de escassez de utentes cegos!...

E, naturalmente, também mais um WC para o cão residente!… Sim, porque mais

WC, menos WC, numa clínica dentária, tanto faz!….O que mais nos sobra, é espaço

para casas de banho!…Para homens, mulheres, deficientes, funcionários e, já agora,

porque não para o cão residente?!…

- Mas admito que este problema do cão, pode vir a ser complicado de

resolver!… É melhor optar pelo corrimão com instruções em braille!… É claro que se o

dístico obrigatório que diz: “existe livro de reclamações”, puder ser pendurado ao

pescoço do cão….pode ter alguma vantagem sobre o corrimão!… - Mas atenção!… Não

serei eu a afiançar-vos a eficácia dissuasora, de um cão enfarpelado numa fatiota

“water-proof”!…

E já que falei em sala de espera, então aqui é que os cegos são totalmente

discriminados por esta lei!… - Nem dá para acreditar!…

Então como é que eles podem tomar conhecimento das mil e uma tretas que

agora temos que afixar nas paredes e que fazem a sala de espera dum dentista parecer

uma repartição pública “vulgaris” ou um qualquer quiosque mal amanhado!…

- E como é que os cegos sabem que temos livro de reclamações?…

- E como é que reclamam, já agora?… - Mais uma vez, está mal!…

Devíamos ser obrigados a afixar tudo em duplicado, em braille!… - Assim é que

estava bem!… E também devíamos ser obrigados a ter uma máquina de escrever em

braille e um livro próprio para os cegos poderem reclamar!…

- E como é que percebemos a reclamação, já agora?!… Lá está, os dentistas,

além de serem todos obrigados a saber algaliar pessoas, deviam ser todos também

obrigados a fazer um curso para ler e escrever em braille!… Assim é que estava bem!…

E dada a escassa probabilidade disso acontecer, com reciclagens obrigatórias

também, tal como para o cão residente!… Mas as probabilidades, aqui, já se percebeu,

não contam para nada, certo?!… Tem que ser como se acontecesse todos os dias…e até

mais que uma vez por dia!…

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E, já agora, convém não esquecer outros discriminados por esta lei: - os surdos-

mudos!…

- Sim, que eles também podem ter problemas de dentes, ou estou enganado?!…

- E então?!…Já se vê que a lei, aqui, também é muito insuficientezinha!…

- Temos que saber “linguagem” gestual!… Tem que ser obrigatório para os

dentistas!… Senão como é que diabo vamos perceber o que têm, hem?!…

Os legisladores também não pensaram nesta!… Vá lá, que estes, ao menos,

podem usar os WCs comuns, acho eu!…- Mas a reciclagem da “linguagem” gestual,

tem que ser obrigatória também, senão a gente esquece-se, por falta de prática!…

E agora, então, tenho que fazer mais uma casa de banho para os funcionários,

porque as clínicas com três gabinetes, ou mais; têm que ter um WC próprio para os

funcionários!...

Só ainda não percebi, porque é que até dois gabinetes os funcionários podem

usar os WCs normais, e, com três gabinetes, os chamamentos da natureza dos

funcionários, já têm que ser efectuados em local próprio para o efeito?!…

– Francamente não percebo a relação!… Mas deve ser limitação

minha!…Também com o metro quadrado da construção tão barato como está, o que é

que nos custa ter mais uma casita de banho, certo?!…

Mas o facto de eu não entender bem esta coisa do WC para os funcionários, só

pode ser mesmo problema meu. É que o legislador, aqui, até está bastante avançado!…

Está mais avançado, por exemplo, que os indivíduos que se ocupam da

sinalética!… - É que há dísticos para WCs de homens e mulheres (alguns até bem

engraçados), também para deficientes…mas para funcionários, não encontrei!…

Alguém lhes deveria dizer que há um novo sexo/género (ou condição, não sei

bem) que se adquire a partir de três gabinetes, e que tem que ser convenientemente

assinalado!… - Isto, parecendo insignificante, pode dar origem a muitos equívocos!…

Basta vocês tentarem imaginar como é que deveria ser um daqueles “stickers”

indicadores do tal WC dos funcionários…ainda por cima para cobrir os dois sexos!…

Presumo eu que, em consequência, venha também a ser obrigatório que aqueles

impressos que a gente tem que preencher por “dá cá aquela palha”, e onde se assinala o

género (masculino e feminino), venha também a constar mais um quadradinho para

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assinalar: - funcionário!… - Que é um novo género!…E que precisa de um WC

próprio!…

E, já agora, porque não também uma casa de banho para os…

disfuncionários!… - Que é para cobrir as situações daquelas pessoas que tenham algum

tipo de disfunção de natureza génito-urinária, e que podem ficar baralhadas acerca de

qual WC utilizar.

Por mim, acho que poderiam usar qualquer um, incluindo o dos deficientes

motores!… - Quando muito, podem é ter que mudar de sapatos várias vezes ao dia!…

- Mas isso, já não é problema nosso!… - É, é, “carago”!… Que o chão das casas

de banho também é nosso!… - Irra, que seja qual for o lado porque se espreite para isto,

sobra sempre para nós!…

Mas, o legislador, também está muito mais avançado que os engenheiros e os

arquitectos, que, por exemplo, fazem os prédios sem prever instalações de esgotos por

todo o lado, que é para a gente poder fazer WCs em número e local que nos apeteça, e

que satisfaça o vanguardismo do legislador das clínicas dentárias!… - Está mal mais

uma vez!…

É que agora, por causa desta falta de visão dos arquitectos e engenheiros, o WC

dos funcionários, está-me a dar água pela barba!…

E não sou o único!… O Sr Maia (é o meu empreiteiro) tem andado desesperado

a zurzir os ouvidos aos trolhas (ou será que agora se chamam técnicos de construção

civil?) para que encontrem uma tal de “Corette”. – Parece que ainda ninguém lhe pôs a

vista em cima, mas acho que faz falta para o tal WC dos funcionários!…

Os trolhas, acham que a vão encontrar atrás duma das paredes lá da clínica,

porque cada vez que o sr Maia pergunta por essa tal “Corette”, pegam nas marretas e

escavacam-me mais uma parede!… E isto anda-me a pôr nervoso!…

Até já queriam ir procurá-la no consultório do lado, vejam lá bem!... - Eu é que

não deixei!… - Até porque o vizinho, que é médico mas não dentista, estou cá meio

desconfiado que não sabe, nem nunca vai querer saber de “Corette” nenhuma!… - Isto

deve ser só uma das habituais esquisitices para dentistas!…

- Mas eu acho que os trolhas estão enganados!… E que não vão nada encontrar a

tal “Corette” atrás duma parede lá da clínica! - Cá para mim, acho que essa tal “Corette”

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que põe os cabelos em pé ao Sr Maia, deve ser mas é alguma “franciú” que veio para

aqui ao abrigo de algum qualquer Erasmus da construção civil.

Está mas é para aí nalguma esplanada a apanhar sol e a beber umas cervejas e é

por isso que não a encontram!… - Mas também não deixa de ser estranho…é que o Sr

Maia nem sequer fala francês!… Bem, mas também isso não é impedimento nenhum,

certo?!… - Alguém devia explicar ao Sr Maia, como é que funciona esta coisa do

Erasmus!… - Eu não, que estou muito ocupado a resolver o dilema da casa de banho

dos funcionários da minha clínica, que, como já perceberam, está agora fechada para

obras!… O Carnaval pareceu-me, até, uma altura bastante adequada para este tipo de

remodelação!…

É claro que também posso sempre eliminar um gabinete e despedir a respectiva

assistente e médico dentista, para fazer o WC dos funcionários!…

- Mas…espera aí!…. Se eu eliminar um gabinete, já não vou ser obrigado a fazer

o tal WC dos funcionários…que assim retornam à sua condição de género masculino e

feminino!… Aqui está, agora, um verdadeiro problema!… Nem sei que faça!… WC dos

funcionários, ou redução de gabinetes e de postos de trabalho?…

- Sabem que mais?!… Acho que vou mas é desactivar um gabinete e despedir a

assistente e o médico dentista respectivos!...

Assim, já não teria que fazer o tal WC dos funcionários, o Sr Maia deixava de

azucrinar a cabeça aos trolhas, os trolhas deixavam de me escavacar as paredes à

procura da tal “Corette”, de que já ninguém haveria de querer saber, e dormíamos todos

melhor!… - Bem, menos talvez a funcionária e o dentista despedidos!… Mas também

seria má vontade deles ficarem aborrecidos só por isso!… – Quem é que hoje em dia

pode estranhar ir parar ao desemprego, certo?!…

E tenho que vos dizer também, que o legislador está tão avançado nesta coisa da

regulamentação das clínicas dentárias, que até na dinamização da nossa estagnada

economia pensou!… - Duma forma enviesada, é certo, e não na economia dos dentistas,

também é mais do que certo, mas pensou!…

Já viram a quantidade de obras que vão ser necessárias?!… A louça de WCs que

vai ser consumida?… E de clínicas novas que terão que ser refeitas ou

deslocalizadas?… É claro que, no processo, algumas poderão até ter que fechar por

espaço insuficiente para tanto WC; mas não há bela sem senão, certo?!…

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Entretanto, gostaria de deixar já aqui o convite para visitarem a minha clínica,

depois das obras efectuadas, naturalmente.

Só não sei se vos convide na qualidade de “Director Clínico” ou se na qualidade

de “Director de Sanitários”!… - Mas há uma coisa que sei!…Venham com tempo,

muito tempo mesmo!… A clínica visita-se num instante…já as casas de banho!…

Isto, se entretanto não me vierem a recusar o licenciamento, por ter um espaço

clínico situado numa área insalubre, provocada por tanta casa de banho à volta!…

- E então?!… Sempre perceberam quem são o polícia, a palha e o burro desta

história?!… Claro que sim!… Nem há como escrever para gente esperta!…

P. S.: Entretanto, acabo de ser surpreendido, agorinha mesmo (e parece que não fui só

eu) que, assim, sem mais nem onde, foi hoje anunciado o PEC 4!… - PEC do Governo

(Pacto de Estabilidade e Crescimento) e não PEC dos rallys (Prova de Estrada

Classificativa); onde os pópós andam depressa, mas nada que se compare ao ritmo dos

PECs do Governo.

E parece que nem ao Presidente da República deram…cavaco!… Mas como “é

entrudo, passa tudo”, certo?!… Então, para quê o incómodo?!… O entrudo é uma

excelente altura para um PEC do Governo…tal como para fazer as obras dos WCs das

clínicas dentárias!…

E eu, até acabo de vislumbrar mais uma vantagem para os WCs específicos das

nossas clínicas!… - É que, com este PEC 4, o pessoal vai ficar ainda tão mais “à rasca”

(por coincidência, é hoje o dia da manifestação dos ditos), que os WCs para deficientes

motores e cegos, não tarda nada, vão ser os que têm mais uso!…

E não estou a falar só dos propriamente ditos; estou também a falar daqueles a

quem a fome possa vir a reduzir a capacidade motora e também aos cegos, pela

mesmíssima razão! – Por algum motivo se diz: -“estou cá com uma fome que nem

vejo”!…

O WC dos funcionários, esse, é que talvez não venha mesmo a ter qualquer

utilidade!… Há-de ser o “Instituto do (Des)Emprego” a ter que os fazer!…

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- Mas…espera aí outra vez!… Este Instituto não é um organismo estatal?!…

Então não deve precisar de se submeter às esquisitices obrigatórias para os dentistas,

certo?!… Ora vejam lá bem, o que agora me havia de ter passado pela cabeça!…

Na verdade, até nem sei mesmo se as nossas cadeiras virão, nos próximos

tempos, a ter grande utilização, derivado aos PECs!… - Mas calma lá, malta!…Temos

agora uma grande vantagem!… - É que se nos acontecer alguma “degradação financeira

acelerada” (não a do tipo “polícia espanhol”, mas a do tipo PEC do Governo) e nos

virmos “à rasca”, e tivermos que ser penhorados; com tanto WC pela frente, não é tão

cedo que nos “apanham” as cadeiras!…

Post Scriptum (o anterior era só PS).: Este texto foi escrito em português pré-acordo

ortográfico e faço questão que fique escrito nessa forma. – É que burro velho, não

aprende, nem quer aprender…a sambar!…

…E, já agora, desculpem lá qualquer m… a mais!…

Carlos Silva