Vil©m Flusser-O Universo Das Imagens T©cnicas_ Elogio Da Superficialidade-AnnaBlume (2008)

download Vil©m Flusser-O Universo Das Imagens T©cnicas_ Elogio Da Superficialidade-AnnaBlume (2008)

of 77

  • date post

    08-Jan-2016
  • Category

    Documents

  • view

    120
  • download

    36

Embed Size (px)

description

O Universo das Imagens técnicas

Transcript of Vil©m Flusser-O Universo Das Imagens T©cnicas_ Elogio Da Superficialidade-AnnaBlume (2008)

  • I'

    O universo das imagens tcnicas Elogio da superficialidade

    Vilm Flusser

    Reviso Tcnica: Gustavo Bernardo

  • Ccnuo de D0
  • r

    l'refcio

    , I Escalada da Abstrao

    1;:-uc um livro chave para o entendimento de Vilm Flusser. nele

  • lO

    c ia da "caixa preta", talvez pretendendo corrigir a leitura simplista que ocorreu quele, i nevitavelmente provocada pela crena de que se tratava de livro sobre a fotografia. Aqui ele apresenta os desdobramentos c conseqncias de seu importante conceito de 'escalada da abstrao' que depois ser retomado em inmeros ensaios reunidos em seu 'Medienlcultur' (Cultura dos media). Mas no apenas isso, trata-se de um estudos das conseqncias scio-ambientais (no apenas na natureza e na sociedade, mas sobretudo na cultura) geradas pela proliferao das tc

  • o. Advertncia*

    O que se pretende buscar por meio das idias aqui colocadas so tendncias que se manifestam, aos poucos, nas imagens tcnicas atuais (como fotografia e televiso). Junto com estas idias, alcanamos a rep;io das futuras imagens eletrnicas que sintetizam a sociedade. Do ponto de vista contemporneo, ser uma sociedade estranha com vida 1adicalmente diferente da nossa. As categorias atuais de sociedade, poltica e arte sero meras defasagens e o prprio instinto vital, a dispoio existencial, ir adquirir um tom novo e extico para ns. Neste caso, no se trata de um lugar distante em algum futuro in imaginvel: j estamos prontos para mergulhar nele. Numerosos aspectos destas t'stranhas formas sociais e vitais esto palpveis j hoje nos nossos arredores e em ns mesmos. Estamos vivendo numa utopia emergente sobre a qual podemos dizer que invade a essncia do nosso ambiente l' de todos os nossos poros. O que est acontecendo em volta de ns c dentro de ns mesmos fantstico c todas as utopias antecedentes, positivas ou negativas, esto perdendo as cores perante o que est emergindo. sobre isso que vai discutir o ensaio que segue.

    Utopia sign ifica "sem cho", ausncia do lugar onde o homem poderia parar. Estamos enfrentando, inseguros, o futuro imediato que est emergindo- estamos apenas agarrados nas estruturas, que a utopia j produziu. o caso deste ensaio: ele se agarra s atuais imagens tcnicas, ele as "critica". este sentido, apresenta uma continuao e um aprimoramento do argumento do nosso ensaio antecedente, A.filow.fia da caixa preta. Razo porque este ensaio no quer (pelo menos em primeira instncia) ser lido como uma I iteratura fantstica futurista,

    * Prefcio escrito por Vilm 171usser para a crlio ;licm de lns Universwn der tcclwisc/,en Bildcr. Gottingen, 1985. Traduo de Eva Batlickova.

    LJ

  • '4

    mas sim como crtica do presente apesar de vibrar nela o sentimento penetrante e predominante da insegurana frente emergncia do novo.

    Partindo das imagens tcnicas atuais, podemos reconhecer nelas duas tendncias bsicas diferentes. Uma indica o rumo da sociedade totalitria, centralmente programada, dos receptores das imagens e dos funcionrios das imagens; a outra indica o rumo para a sociedade telemtica dialogante dos criadores das imagens e dos colecionadores das imagens. As duas formas de sociedade parecem fantsticas para ns, embora a primeira utopia tenha caractersticas negativas, a segunda positivas. Hoje, sem dvida, ainda temos liberdade de pr em q uesto esta aval iao. Mas o que no podemos questionar mais o domnio das imagens tcnicas na sociedade futura. Como no deve ocorrer nenhuma catstrofe o que ex definir ione imprevisvel- ento quase certo que as imagens tcnicas concentraro os interesses existenciais dos homens futuros.

    Justamente isso nos autoriza c obriga a denominar a sociedade emergente como utopia. Ela no estar em lugar nenhum nem em nenhum tempo, somente em reas imaginrias; naquelas reas em que cuja histria e geografia se entrelaam. A inteno do ensaio que se segue captar esta disposio vital irreal, que comeou a se condensar em imagens tcnicas: a disposi5o vital da "sociedade puramente informacional".

    Este prefcio apelativo, como na maioria dos casos, foi escrito depois do livro terminado. Ele coincide, de certo modo, ainda com experincias c preocupaes da recente viagem para o pas dos nossos filhos e netos. Por isso necessrio um aviso: no se deve esperar deste ensaio respostas, porm perguntas, embora as perguntas sejam mascaradas como respostas. Em outras palavras: este ensaio no tenta propor qualquer tipo de soluo ao problema esboado, porm busca, crit icamente, pr em questo as tendncias que se encontram nos seus fundamentos.

    1. Abstrair

    '-;omos testemunhas, colaboradores e vtimas de revoluo cultural

    llljn mbito apenas adivinhamos. Um dos sintOmas dessa revoluo

    1 ,1 emergncia das imagens tcnicas em nosso torno. Fotografias, fil

    llll'S, imagens de TV, de vdeo c dos terminais de computador assumem

    11 pnpel de portadores de informao outrora desempenhado por textos

    lirwnrcs. o mais vivenciamos, conhecemos c valorizamos o mundo

    JJ;raas a l inhas escritas, mas agora graas a superfcies imaginadas.

    Como a estrutura da mediao influi sobre a mensagem, h mutao

    ua nossa vivncia, nosso conhecimento e nossos valores. O mundo no

    ..,c apresenta mais enquanto linha, processo, acontecimento, mas en

    t[ uanto plano, cena) contexto- como era o caso na pr-histria e como

    ,1inda o caso para iletrados. No entanto, o presente ensaio procurar

    demonstrar que no se trata de retorno a situao pr-alfabtica mas

    ele avano rumo a situao nova, ps-histrica, sucessora da h istria

    c da escrita. Nossa tese: as novas imagens no ocupam o mesmo nvel

    ontolgico das imagens tradicionais, porque so fenmenos sem pa

    ralelo no passado. As imagens tradicionais so superfcies abstradas

    de volumes, enquanto as imagens tcnicas so superfcies construdas

    com pontos. De maneira que, ao recorrermos a tais imagens, no es

    tamos retornando da u nidimensional idade para a bidimensionalidade,

    mas nos precipitando da unidimensional idade para o abismo da zero

    dimensional idade. No se trata de volLa do processo para a cena, mas

    sim de queda do processo rumo ao vcuo dos quanta. A superficial ida

    de que se pretende elogiar a das superfcies que se condensam sobre

    semelhante abismo. 0 animal e o " homem natural" (tal cnntradico in adiectu) encon

    tram-se mergulhados no espao-tempo, no mundo de volumes que se aproximam e se afastam. O homem, ao contrrio do animal, possui

  • mos com as quais pode segurar os volumes, pode fazer com que parem. Por essa "manipulao" o homem abstrai o tempo e destarte transforma o mundo em "circunstnncia". Os objetos abstratos que surgem em torno do homem podem ser modificados, "resolvidos" ("objeto" c "problema" so sinnimos). A circunstncia abstrata, objetiva, problemtica, pode ser "informada" c resultar em Vnus de Nillendorf em ) faca de slex, em "cultura". A manipu lao o gesto primordial; graas a ele o homem abstrai o tempo do mundo concreto e transforma a si prprio em ente abstraidor, isto , em homem propriamente dito.

    Entretanto, as mos no manipulam cegamente: elas esto sob o controle dos olhos. A coordenao das mos com os olhos, da praxi.r com a teoria, um dos temas da existncia humana. M ilhes de anos se passaram at que tivssemos aprendido a olhar primeiro e manipular em seguida, a fazer imagens que servissem de modelos para uma ao subseqente. As imagens (por exemplo, as de Lascaux) fixam vises: a viso da circunstncia. Os olhos percebem as superfcies dos volumes. As imagens abstraem, portanto, a profu ndidade da circunstncia e a fixam em planos, transformam a circunstncia em cena. A viso o segundo gesto a abstrair (abstrai a profundidade da circu nstncia); graas a ele o homem transforma a si prprio em homo sapiens, ou seja, em ente que age conforme projeto.

    A circu nstncia imaginada, a cena, representa a circunstncia palpvel. As mos doravantc, devidamente orientadas pelas imagens, agem sobre a circunstncia. Mas essa mediao entre homem e circunstncia palpvel, propsito das imagens, comporta ambigidade. As imagens podem substituir-se pela circunstncia a ser por elas representada, podem tornar-se opacas c vedar o acesso ao mundo palpvel. O homem pode agir em fu no das imagens ("magia"). Dezenas de milnios se passaram at que tivssemos aprendido a tornar transparentes as imagens, a "explic-las", a arrancar com os dedos os elementos da superfcie das imagens c a al inh-los a fim de cont-los; at que tivssemos aprendido a rasgar o tecido do contexto imaginado e a enfiar os elementos sobre as linhas, a tornar as cenas "contveis" (nos

    do1s sentidos do termo), a desenrolar c desenvolver as cenas em pro

    ttssos, vale dizer, a escrever textos e a "conceber o imaginao". Con,1qcntemcnte, a conceituao o terceiro gesto abstraidor (abstrai a

    l.uura da superfcie); graas a ele o homem transforma a si prprio

    tm homem histrico, em atOr que concebe o imaginado.

    Textos so sries de conceitos, bacos, colares. Os fios que ordell.lm os conceitos (por exemplo, a sintaxe, as regras matemticas c lf,icas) so frutos de conveno. Os textos representam cenas imagill.tdas assim como as cenas representam a circunstncia palpvel. O 1111iverso mediado pelos textos, tal un iverso contvel, ordenado conlimne os fios do texto. E mais de trs mil anos se passaram at que

    1 ivssemos "descoberta" este fato, at que tivssemos aprendido que

    ,, melem "dcscobena" no universo pelas cincias da natureza projc

    ao da l inearidade lgico-matemtica dos seus textos, e que o pensa

    mento cientfico concebe conforme a estrutura dos seus textos assim

    tomo o pensamento pr-histrico imaginava conforme a estrutura das

    s11as imagens. Essa conscientizao, recente, faz com que se perca a

    confiana nos fi