UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE ENFERMAGEM … · Conselho Federal de Enfermagem EC Educação...

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE ENFERMAGEM DIONIZE MONTANHA ANÁLISE DAS ATIVIDADES EDUCATIVAS DE TRABALHADORES DE ENFERMAGEM EM UM HOSPITAL DE ENSINO: PÚBLICO PARTICIPANTE, LEVANTAMENTO DE NECESSIDADES E RESULTADOS ESPERADOS SÃO PAULO 2008
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  • UNIVERSIDADE DE SO PAULO ESCOLA DE ENFERMAGEM

    DIONIZE MONTANHA

    ANLISE DAS ATIVIDADES EDUCATIVAS DE

    TRABALHADORES DE ENFERMAGEM EM UM HOSPITAL DE

    ENSINO: PBLICO PARTICIPANTE, LEVANTAMENTO DE

    NECESSIDADES E RESULTADOS ESPERADOS

    SO PAULO 2008

  • DIONIZE MONTANHA

    ANLSE DAS ATIVIDADES EDUCATIVAS DE

    TRABALHADORES DE ENFERMAGEM EM UM HOSPITAL DE

    ENSINO: PBLICO PARTICIPANTE, LEVANTAMENTO DE

    NECESSIDADES E RESULTADOS ESPERADOS

    Dissertao apresentada ao Programa de Ps-graduao em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de So Paulo, para obteno do ttulo de Mestre.

    rea de Concentrao: Administrao de Servios de Enfermagem

    Orientadora: Profa. Dra. Marina Peduzzi

    SO PAULO 2008

  • Catalogao na Publicao (CIP)

    Biblioteca Wanda de Aguiar Horta Escola de Enfermagem da Universidade de So Paulo

    Montanha, Dionize.

    Anlise das atividades educativas de trabalhadores de

    enfermagem em um hospital de ensino: pblico participante,

    levantamento de necessidades e resultados esperados. / Dionize

    Montanha. So Paulo, 2008.

    166 p.

    Dissertao (Mestrado) - Escola de Enfermagem da

    Universidade de So Paulo.

    Orientadora: Prof Dr Marina Peduzzi.

    1. Educao permanente 2. Profissionais de enfermagem

    3. Hospitais de ensino. I. Ttulo.

  • DEDICATRIA

    Este trabalho dedicado com carinho aos trabalhadores da rea da sade,

    em especial, enfermagem.

  • AGRADECIMENTOS

    Professora Doutora Marina Peduzzi, pela pacincia, segurana, responsabilidade, sugestes e direcionamentos importantes durante a orientao e, principalmente, por ter acreditado em mim.

    Professora Doutora Paulina Kurcgant, pela acolhida, respeito e pelos sbios ensinamentos fornecidos. Ao Professor Doutor Ricardo Burg Ceccim e Professora Doutora Maria Madalena Janurio Leite, pela disponibilidade, interesse e valiosas contribuies fornecidas no exame de qualificao. A todos os professores do departamento ENO, secretrias da ps-graduao, funcionrios da biblioteca e demais trabalhadores da USP, pelo carinho, amabilidade e respeito. s enfermeiras Ligia, Dirley, Cludia, Ndia e Sueli, do servio de apoio educacional da instituio do estudo, pelo carinho, receptividade e por todo o apoio fornecido no decorrer das entrevistas. A todos os gerentes de unidades, enfermeiros assistenciais, tcnicos e auxiliares de enfermagem da instituio do estudo, que aceitaram gentilmente participar da pesquisa. Viviane M R Passos, tcnica de enfermagem e aluna, e enfermeira Vera Riva, que gentilmente aceitaram participar de uma entrevista a fim de validar o instrumento, e tambm a Laura Carneiro Mendes Rosa. s amigas Simone de Oliveira, Denise Spsito, Luzinete, Andra Inveno, Antonieta, por todo o apoio, carinho e incentivo. Elaine Giovanini, coordenadora do curso de enfermagem, pelo incentivo e interesse, bem como a todos os professores que compartilham o dia-a-dia de trabalho. Aos meus colegas do grupo de pesquisa, e em especial, Adriana, pela contribuio de referncias, opinies, sugestes. Aos meus pais, Anna e Orlando (in memoriam). E, sobretudo, agradeo s pessoas especiais dessa e de muitas outras jornadas, por t-las feito comigo, meu companheiro Brgson, minhas irms Deizy, Dionia, Deolinda, meu irmo Adalberto, meu cunhado Renato e aos queridos sobrinhos Victor e Vinicius.

  • Ningum diz que uma pintura o retrato da realidade.

    uma dentre muitas possveis imagens onde o autor

    introduz mtodos e tcnicas, mas onde predomina sua

    viso sobre o real e sobre o impacto que lhe causa.

    Nessa obra entra tanto o que visvel como emoes

    e tudo se une para projetar a viso da realidade

    Minayo

  • Resumo

    Montanha D. Anlise das atividades educativas de trabalhadores de enfermagem em um hospital de ensino: pblico participante, levantamento de necessidades e resultados esperados. [dissertao] So Paulo (SP): Escola de Enfermagem da USP: 2008. A pesquisa tem o objetivo de analisar as atividades educativas de trabalhadores de enfermagem quanto ao pblico participante, levantamento de necessidades e resultados esperados. Foi desenvolvida com base no referencial terico do processo de trabalho em sade e enfermagem, trabalho em equipe, integralidade da sade, educao continuada (EC) e educao permanente em sade (EPS), com destaque para a distino entre EC e EPS. O estudo foi realizado em um hospital de ensino localizado em uma regio do municpio de So Paulo. Utilizando abordagem qualitativa, a coleta de dados foi realizada atravs de entrevista semi-estruturada e os sujeitos foram os enfermeiros gerentes de unidades, enfermeiros assistenciais, auxiliares e tcnicos de enfermagem totalizando vinte e cinco participantes. No processo de anlise, os dados empricos foram analisados por meio de tcnica de anlise temtica de Bardin e Minayo. Os resultados mostram que o pblico participante das aes educativas majoritariamente composto por enfermeiros que participam de atividades externas como congressos e similares, e esse investimento no nvel superior traduz a poltica institucional. Em contrapartida, para os trabalhadores de nvel mdio, as aes educativas so orientadas, sobretudo para a reviso de tcnicas e utilizao de novos equipamentos. O levantamento de necessidades de aes educativas de trabalhadores realizado principalmente com base em erros e falhas, bem como na aquisio de novos equipamentos, o que traduz uma ao educativa focada nos procedimentos tcnicos e distanciada da reflexo sobre a prtica. Contudo, os resultados esperados apontam para a melhora da qualidade da assistncia de enfermagem em diferentes sentidos. Em curto prazo, esta essa melhora est relacionada ao desempenho de procedimentos tcnicos, apesar de tambm estar relacionada a mudana de comportamento, desde que ocorra a sensibilizao do trabalhador em relao ao cuidado, tal como ocorre com a introduo de novos projetos. Em mdio e longo prazo espera-se que o trabalhador desenvolva conscincia sobre o trabalho e abordagem reflexiva da prtica, ou seja, que o trabalhador possa questionar-se sobre a prtica do dia-a-dia e mudar o comportamento. Conclui-se que predomina uma prtica educativa pautada na concepo de EC, porm mesclada a aspectos da EPS, pois os trabalhadores apontam a necessidade de aes educativas diferenciadas, com novos formatos, contedos e sentidos, de modo a promover a qualidade da assistncia sade e de enfermagem. Palavras-chave: Processo educativo em enfermagem; Educao Permanente em Sade, Educao continuada.

  • Abstract

    Montanha D. Analysis of educative activities of nurses and nursing assistants in a teaching hospital: Participating public, survey to identify the necessities and expected results. [Dissertation] So Paulo (SP): USP School of Nursing: 2008 This study has the objective to analyze the educative activities of nurses and nursing assistants as the participating public, to survey the necessities and expected results. It was utilized a qualitative approach, with basis in a theoretic referential of the health work process, nursing, team work, health integrality, continuing education (EC), permanent education in health (EPS), and the relevant differences between EC and EPS. The study was conducted in a teaching hospital in So Paulo County. Using a qualitative approach, the data collection was done through a semi-structured interview and the subjects were nurse unity managers, assistant nurses, nursing technicians with a total of twenty five participants. In the analytical process, empirical data were analyzed through a thematic analysis technique of Bardin and Minayo. The results show that the participating public on the educative actions are mostly registered nurses whom participate on external activities as congresses and other outside activities, and this investment in a higher education level translates into the institutional politics. In a counteracting way, for workers on mid-level, the educative actions are oriented above all for technical revisions and the utilization of new equipment. The survey to identify the education necessities of these workers is done mostly on basis of errors and mistakes, as well as in the acquisition of new equipments, that is translated into an educational activity focused in the technical and further apart from the practical reflection. Therefore, the expected results points into the better quality of nursing support various ways. In short term, this betterment is related with the technical procedures, even though it is related with the behavior change that sensibleness the worker in relation to the care, as well as it occurs with the introduction of new projects. In middle and long term it is expected that the worker develop a consciousness about the work and their practical reflection that means, that the worker may question about the day to day practice and change the behavior. It is concluded that the practical education is related in the conception of EC, however mixed with aspects of EPS, because the workers point to the need of differentiated education, with new format, content and meanings, to promote the quality of health care and of nursing. Keywords: Nursing Education Process; Health Permanent Education; Continuing Education.

  • Lista de Siglas

    SIGLA

    REFERNCIA

    ABEn

    Associao Brasileira de Enfermagem

    CCIH

    Comisso de Controle e Infeco Hospitalar

    CNE

    Conselho Nacional de Educao

    COFEN

    Conselho Federal de Enfermagem

    EC

    Educao Continuada

    EPS

    Educao Permanente em Sade

    LDB

    Lei das Diretrizes e Bases da Educao

    OPAS

    Organizao Pan-Americana de Sade

    RH

    Recursos Humanos

    SAE

    Sistematizao da Assistncia de Enfermagem

    SED

    Servio de Apoio Educacional

    SUS

    Sistema nico de Sade

  • Sumrio 1. INTRODUO..................................................................................... 10

    2. OBJETIVOS......................................................................................... 22

    3. REFERENCIAL TERICO................................................................... 23

    3.1. Trabalho em sade...................................................... 26

    3.2. Trabalho em Enfermagem........................................... 30

    3.2. Educao Permanente em Sade............................... 36

    3.3. Educao Continuada.................................................. 36

    3.4. Trabalho em equipe..................................................... 42

    3.5. Integralidade em Sade............................................... 42

    4. TRAGETRIA METODOLGICA....................................................... 44

    5. RESULTADOS E DISCUSSO........................................................... 58

    5.1. Pblico participante........................................................ 58

    5.1.1. Enfermeiros............................................................... 58

    5.1.2. Auxiliares e Tcnicos................................................ 68

    5.1.3. Gerentes de enfermagem......................................... 74

    5.2. Levantamento de Necessidades.................................... 87

    5.2.1. Enfermeiros............................................................... 87

    5.2.2. Auxiliares e Tcnicos................................................ 90

    5.2.3. Gerentes de enfermagem......................................... 98

    5.3. Resultados esperados.................................................... 113

    5.3.1. Enfermeiros............................................................... 113

    5.3.2. Auxiliares e Tcnicos................................................ 118

    5.3.3. Gerentes de enfermagem......................................... 125

    6. SNTESE.............................................................................................. 137

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS........................................................ 151

    ANEXOS................................................................................................... 161

  • Introduo

    10

    1. INTRODUO

    Este estudo vem ao encontro de uma inquietao que me acompanha

    durante a vida profissional: a educao dos trabalhadores em sade e

    enfermagem.

    Ao iniciar minha trajetria profissional, recebi um treinamento

    realizado pelo Servio de Educao Continuada (SEC), por dois dias e, por

    quinze dias, na prpria UTI, realizados pela enfermeira da unidade. Aps

    esse perodo, assumi o meu planto no perodo da tarde.

    Decorrido quatro meses de trabalho, deparei-me com um grande

    desafio, que gerou muitas dvidas e inquietaes, pois me foram designados

    os treinamentos dos recm-admitidos. Esses eram destinados adaptao

    do trabalhador ao servio, treinamento de rotinas, tcnicas bsicas de

    enfermagem, normas institucionais, uso de equipamentos, entre outros.

    Quando era detectada uma necessidade relacionada ao pessoal de

    enfermagem ou ao prprio servio, como a introduo de um novo

    equipamento era, ento, realizado o treinamento, individual ou coletivo, que

    ocorria na prpria unidade.

    Fui desenvolvendo a cada dia maior interesse pelas atividades

    educativas, de treinamento, o que colaborou com a promoo do meu

    prprio crescimento e com a percepo das necessidades da instituio, dos

    trabalhadores e, principalmente, da assistncia prestada ao paciente.

    Reconheo que na poca avaliava essa prtica como algo

    imprescindvel ao trabalhador, porm, a concepo de educao continuada

    limitava-se ao treinamento, ou seja, proporcionar ao recm-admitido o

    conhecimento de como uma determinada atividade deveria ser realizada,

    como um equipamento funcionava, entre outros. As relaes ocorriam como

    ocorrem no mtodo tradicional de ensino-aprendizagem, com base na

    concepo de transmisso do conhecimento tcnico-cientfico.

    Aps algum tempo, como coordenadora da rea Oncolgica, tive a

    percepo de que a educao dos trabalhadores era um diferencial nas

    relaes inter-pessoais e na assistncia prestada ao usurio. O servio de

    educao continuada na instituio, nessa poca, dava-se de forma mista. A

  • Introduo

    11

    enfermeira da educao continuada elaborava o cronograma dos

    treinamentos com a definio dos temas que seriam abordados, aplicava

    provas e entrevistas, realizava aulas sobre a instituio e tcnicas bsicas,

    de modo a integrar o recm-admitido ao servio. A preocupao maior do

    servio era com o recm-admitido e sua adaptao instituio, de modo

    que a enfermeira da educao continuada realizava uma parte do processo,

    e a enfermeira da unidade, o treinamento especfico no local de trabalho.

    O recm-admitido permanecia aproximadamente uma semana

    participando de aulas sobre tcnicas bsicas, visitava o hospital e era

    encaminhado unidade, seu local de trabalho. Porm essa prtica era

    ineficaz, trazia problemas para a unidade, pois o funcionrio admitido no

    tinha o devido preparo para a rea qual era designado, havia dificuldade

    para adaptao, talvez pela prpria especificidade da rea. s vezes os

    treinamentos no atingiam o esperado, gerando alta rotatividade e

    absentesmo em demasia.

    Aps um longo perodo atuando dessa forma, at porque na poca as

    mudanas nas instituies ocorriam muito lentamente, instituiu-se que todo o

    processo de seleo, treinamento, acompanhamento e avaliao dos

    funcionrios se daria na prpria unidade de trabalho, sendo realizado pela

    coordenadora da rea.

    Para o treinamento havia um roteiro-guia elaborado pela

    coordenadora, que contemplava os procedimentos de maior relevncia,

    rotinas, uso de equipamentos, sistematizao da assistncia de enfermagem

    (SAE), aulas sobre neoplasia, tipos de tratamento, entre outros. O

    treinamento era realizado com base nas necessidades do servio, uma vez

    que a instituio primava pela qualidade no atendimento, preservando o

    modo de organizao que sempre utilizou e mantendo sua referncia no

    mercado da sade. De modo que o funcionrio reproduzia atividades para

    garantir a satisfao das necessidades da instituio, e sua manuteno no

    emprego.

    Assim, pouco a pouco, fui compreendendo que educar estimular nas

    pessoas a atitude reflexiva, crtica, criativa, de modo a promover no indivduo

  • Introduo

    12

    oportunidades de crescimento, tanto profissional como pessoal. Estimular o

    indivduo a pensar e transformar uma realidade.

    Segundo Freire (1997), a educao o alicerce para que todo ser

    humano possa compreender o mundo sua volta e transform-lo,

    baseando-se em reflexo sobre seu ambiente concreto e, assim, tornando-

    se sujeito.

    A proposta de educao do trabalhador no recente, porm foi

    introduzida no setor produtivo com base nos princpios de Taylor1, que

    props a educao do trabalhador com base em um sistema educativo que

    intensificou o ritmo de trabalho, com o objetivo de aumentar a produo

    industrial (Leite, Pereira, 1991).

    Embora muitas dcadas tenham transcorrido desde a administrao

    cientfica taylorista, seus traos gerais se mantm presentes na educao

    em servio, inclusive no setor sade. Porm, ao lado da educao no

    trabalho reduzida a treinamentos e reciclagens tcnicas, algumas mudanas

    vm sendo introduzidas na capacitao de pessoal em sade, em especial

    propostas que procuram aproximar educao e trabalho, concebidos ambos

    como prtica social.

    A prpria tentativa de fomentar mudanas nas prticas educativas no

    trabalho introduziram a necessidade de avali-las e, nesse sentido, vale

    destacar que apesar da mobilizao das instituies de sade na

    implantao de aes educativas no trabalho, os resultados so pouco

    animadores no que se refere qualidade da produo dos servios

    prestados em sade (Davini, Nervi, Roschke, 2002).

    Segundo o Ministrio da Sade (2000), a gesto de recursos

    humanos tem sido apontada como um elemento crtico para a implantao

    do Sistema nico de Sade (SUS) desde a sua criao. Com base na

    concepo de sade pautada no princpio de integralidade e nas estratgias

    de reorganizao dos servios de sade do SUS, a educao dos

    trabalhadores, no sentido da reflexo sobre a prtica, concebida como

    1 Frederick Winslow Taylor (1856-1915) considerado o pai da administrao cientfica por propor mtodos cientficos cartesianos na administrao de empresas. Seu foco era a eficincia e eficcia operacional na administrao industrial.

  • Introduo

    13

    imprescindvel para construo das mudanas almejadas e da qualidade dos

    servios prestados populao.

    Assim, para o alcance dos objetivos dos servios de sade os

    trabalhadores necessitam de constantes investimentos em aprimoramento e

    atualizaes, e espao para a reflexo sobre sua prtica para assegurar um

    bom desempenho. Nesse sentido, Ceccim e Feuerwerker (2004 p.49)

    referem:

    A incorporao de novidade tecnolgica premente e constante, e novos processos decisrios repercutem na concretizao da responsabilidade tcnico-cientfica, social e tica do cuidado, do tratamento ou do acompanhamento em sade. A rea da sade requer educao permanente.

    Nesse contexto, o presente estudo faz uma abordagem das aes

    educativas de trabalhadores de enfermagem com base no conceito de

    educao permanente em sade (EPS), que se constitui como um projeto

    poltico-pedaggico com vistas transformao das prticas de sade na

    direo da integralidade da sade e do trabalho em equipe.

    A anlise das aes educativas de trabalhadores ser realizada sob

    trs aspectos inter-relacionados: a) pblico participante, ou seja, se as aes

    educativas se destinam a categorias especficas, equipes de trabalho ou ao

    conjunto dos trabalhadores do servio; b) levantamento de necessidades

    para aes educativas de trabalhadores de enfermagem, analisado de modo

    a abranger o usurio, o trabalhador e o servio que caracteriza as demandas

    formativas; e c) resultados esperados a partir das aes educativas de

    trabalhadores de enfermagem, sendo que toda ao educativa demanda

    avaliao e essa apresenta uma relao recproca com o levantamento de

    necessidades.

    Esta pesquisa pretende contribuir para a reflexo e a prtica dos

    processos de trabalho gerencial e de gesto de enfermagem e de sade, de

    modo que as aes educativas articuladas a outros instrumentos possam

    potencializar a transformao das prticas, na perspectiva da integralidade e

    do trabalho em equipe, com foco nas necessidades dos usurios.

  • Introduo

    14

    Levantamento bibliogrfico

    Inicialmente, foi realizado um levantamento bibliogrfico, com a

    finalidade de verificar como as aes educativas tm sido realizadas pelos

    servios de sade. Esse levantamento utilizou como descritores: educao

    continuada em enfermagem, educao permanente em sade e processos

    educativos, no perodo de 2000 a 2006, ao qual foi acrescida a literatura que

    j era do meu conhecimento.

    Ressalto que a maioria das referncias encontradas diz respeito a

    conceitos de educao continuada, principalmente reciclagem e atualizao

    de conhecimento.

    O primeiro marco histrico sobre educao continuada ocorreu na

    Dinamarca na dcada de 50, e o lema, na poca, era de que as pessoas

    deveriam se ajustar a um mundo em mutao, que era preciso a

    capacitao e adaptao dos trabalhadores s mudanas. Nos anos 60, o

    segundo marco, os projetos multinacionais incentivaram a educao de

    adultos, a capacitao de mo-de-obra, com enfoque no mais escolar, e

    sim tcnico-institucional. Na dcada de 70, o terceiro marco histrico

    caracteriza-se pela educao do homem a partir da realidade social em que

    vive e, em interao com outros homens, co-educa-se como sujeito

    transformador (Barroso, Varela, 1979).

    Em 1979, a Associao Brasileira de Enfermagem (ABEn) promoveu

    o primeiro seminrio de educao continuada, no Brasil, e recomendou s

    instituies de sade que se mobilizassem para elaborao de programas

    de aperfeioamento dos profissionais participantes da assistncia de

    enfermagem (ABEn, 1980) .

    A legislao que regulamenta o exerccio para os profissionais de

    enfermagem estabelece, no decreto n 94.406, de 8 de junho de 1987, como

    atividade privativa do enfermeiro, a participao nos programas de

    treinamento e aprimoramento de pessoal de sade, particularmente de

    educao continuada (Brasil, 1987). De forma que o enfermeiro deve

    manter-se atualizado e tem obrigao de ser o facilitador do processo de

    educao continuada para os demais membros da equipe de enfermagem,

  • Introduo

    15

    esteja ele em funo assistencial, gerencial ou de superviso (Oguisso,

    2000).

    A legislao recente sobre a educao em sade e enfermagem

    assinala a necessidade de aproximao entre o ensino e os servios de

    sade. Com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Sade, a

    resoluo CNE/CES n 1133/2001 (Brasil, 2001) tem como objetivo levar os

    alunos de graduao em Sade a aprender a aprender, o que engloba

    aprender a ser, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a

    conhecer, garantindo a capacitao de profissionais com autonomia e

    discernimento para assegurar a integralidade da ateno e a qualidade da

    humanizao do atendimento prestado aos indivduos, famlia e

    comunidade.

    E, dentre as competncias gerais encontra-se a educao

    permanente em sade de acordo com as quais os profissionais devem ser

    capazes de aprender continuamente, tanto na formao quanto na prtica, e

    ter o compromisso com a sua educao, assim como a das futuras geraes

    de profissionais. O enfermeiro, dentre todas as competncias e habilidades

    especficas da categoria profissional deve atuar como sujeito no processo

    de formao de recursos humanos, atender as necessidades sociais da

    sade, com nfase no SUS, e assegurar a integralidade da ateno e a

    qualidade e a humanizao no atendimento.

    Com base nos Princpios e Diretrizes para a Gesto do Trabalho no

    SUS, a Norma Operacional Bsica de Recurso Humanos em Sade

    (NOB/RH-SUS; Brasil, 2003) aponta que a educao permanente deve ser

    parte do processo de trabalho nas trs esferas da gesto, devendo

    assegurar a formao e a capacitao dos trabalhadores em sade, de

    forma que se desenvolvam na carreira e atuem com vistas a melhorar a

    qualidade de assistncia ao usurio. De modo que necessrio definir

    mecanismos para a liberao do trabalhador para participar em eventos de

    capacitao e aperfeioamento profissional. Os programas de educao

    permanente devem prever a avaliao do desenvolvimento do trabalhador,

    ou seja, devero ser utilizados indicadores de impacto dos processos de

    desenvolvimento sobre o atendimento populao.

  • Introduo

    16

    Em relao concepo da educao continuada, encontram-se

    vrias denominaes: educao em servio, treinamento e desenvolvimento,

    educao contnua, capacitao, entre outros.

    Em 1978, a Organizao Pan-Americana de Sade (OPAS) define

    educao continuada como:

    um processo permanente que se inicia aps a formao bsica e est destinado a atualizar e melhorar a capacitao de pessoas ou grupos, frente s evolues cientficas e tecnolgicas, s necessidades sociais e aos objetivos e metas institucionais.

    Silva et al. (1989, p.139) publicam o primeiro livro de educao

    continuada da rea de enfermagem com o objetivo de auxiliar enfermeiros

    com interesse nessa rea. As autoras definem a educao continuada como

    um conjunto de prticas educacionais planejadas no sentido de promover

    oportunidades de desenvolvimento do funcionrio, com a finalidade de

    ajud-lo a atuar mais efetiva e eficazmente na sua vida institucional.

    Dilly & Jesus (1995, p.190) consideram a educao continuada como:

    um processo que se confunde com a prpria vida, sendo que na rea da enfermagem tem de ser reservado o uso do termo para designar o conjunto de prticas educacionais que visem a melhorar e a atualizar a capacidade do indivduo, oportunizando o desenvolvimento do funcionrio e sua participao eficaz na vida profissional.

    Peres, Leite, Gonalves (2005, p.138-56) abordam educao

    continuada como:

    um processo que impulsiona a transformao da organizao, criando oportunidades de capacitao e de desenvolvimento pessoal e profissional dentro de uma viso crtica e responsvel da realidade, resultando na construo de conhecimentos importantes para a organizao, para a profisso e para a sociedade.

    As concepes de educao continuada trazidas pela OPAS (1978),

    Silva et al (1989), Dilly & Jesus (1995) esto orientadas para a educao do

    profissional aps a formao inicial, preparo para a funo, melhor

  • Introduo

    17

    desempenho, atualizao em vista da evoluo cientfica e tecnolgica,

    enquanto Peres, Leite e Gonalves (2005) conceituam de forma mais

    inovadora, no sentido de transformao da organizao, numa viso crtica e

    responsvel, resultando na construo de conhecimentos para a

    organizao, profisso e sociedade.

    Segundo Peres, Leite e Gonalves (2005), a educao continuada

    constituda pelos processos: recrutamento e seleo de pessoal,

    treinamento e desenvolvimento, e avaliao de desempenho profissional.

    Segundo as autoras o treinamento constitui ao sistematizada de

    capacitao e adaptao do indivduo a uma situao especfica, visa a

    aumentar o conhecimento terico e prtico, capacitando o indivduo para

    executar o seu trabalho com eficincia. O desenvolvimento vai alm da

    eficincia no trabalho e pressupe a ampliao das competncias pessoais

    e profissionais que instrumentalizam o indivduo para a transformao da

    realidade (Peres, Leite, Gonalves, 2005, p. 144).

    Para isso se faz necessria, nas organizaes, uma poltica de

    treinamento e desenvolvimento em que haja a valorizao dos profissionais,

    ou seja, que os indivduos sejam estimulados e procurem continuamente seu

    autodesenvolvimento.

    Avaliao de desempenho: um processo dinmico de mensurao

    individual da qualidade do desempenho profissional, no cargo ocupado,

    conforme critrios pr-definidos. Constitui-se um instrumento gerencial por

    meio do qual possvel traar metas de desenvolvimento. Compreende

    anlise de vrios aspectos do profissional, como atitudes, habilidades,

    conhecimentos, produtividade, eficincia e eficcia (Peres, Leite, Gonalves,

    2005).

    Para Kurcgant (1991, p.133-45), geralmente o responsvel pela

    avaliao de um funcionrio o chefe imediato; entretanto, todas as

    pessoas que participam do processo so responsveis pelos resultados, em

    todos os nveis da organizao. A autora destaca que a avaliao de

    desempenho concebida como uma atividade isolada, no reflete a filosofia

    da organizao e do prprio servio de enfermagem.

  • Introduo

    18

    importante haver sinergia positiva entre avaliado e avaliador, de

    forma a promover o crescimento de ambos. Atravs de uma avaliao de

    desempenho criteriosa possvel proporcionar desenvolvimento aos

    indivduos; essa deve conter objetivos bem definidos e estar em

    consonncia com a poltica e a filosofia da instituio (Gonalves, Peres e

    Leite, 2005).

    A EC foi introduzida nas instituies de sade lentamente, com a

    utilizao de instrumentos prprios e uma atuao centralizada e

    fragmentada, pois contava com apenas um profissional para atender as

    necessidades da instituio quanto aos processos citados, sendo invivel na

    prtica. Assim, direcionou o foco de atuao nas contrataes, no

    planejamento e execuo de treinamentos, reviso de tcnicas bsicas,

    principalmente adequao do profissional ao seu local de trabalho.

    concebida como atividades de ensino efetuadas aps a graduao, com fim

    de atualizao que inclui aulas de treinamento, palestras, congressos,

    cursos, entre outros.

    Segundo levantamento do COFEN/ABEN realizado em 1982/83,

    nesse perodo 42,1% dos hospitais brasileiros tinham programa de educao

    em servio, e esses programas eram designados atualizao de

    conhecimento (Pereira, 1992 p.112).

    Para Bicudo e Garcia (1992 p.201-3), nas instituies hospitalares o

    sistema centralizado foi muito utilizado no passado, no qual os programas

    eram desenvolvidos pelos enfermeiros de EC, exclusivamente. Relatam que,

    atualmente, h uma nova tendncia descentralizao das atividades, em

    que o foco est em capacitar as enfermeiras das reas para assumir esse

    trabalho (Bicudo et al. 2004).

    Vale ressaltar que apesar da mobilizao das instituies de sade no

    sentido de implantar a EC, isso no significa desenvolvimento de recursos

    humanos. Para isso, importante uma poltica de valorizao dos

    profissionais, integrando aprendizagem, competncia, e estimulando as

    pessoas ao autodesenvolvimento. importante que os profissionais estejam

    engajados nos objetivos do servio, e tenham interesse no prprio

  • Introduo

    19

    desenvolvimento; tambm importante que haja interesse da alta

    administrao para que ocorra impacto na prtica.

    Embora se observe uma crescente valorizao da EC, como foi

    apontado acima, esta vem sendo desenvolvida nas instituies de sade

    com base em um modelo tradicional, ou seja, atravs de atividades isoladas,

    no centradas nos problemas da prtica concreta. Utiliza estratgias

    conservadoras, como aulas, palestras, cursos, seminrios, de modo que no

    se constitui como espao de reflexo do trabalho e restringe-se a preparar o

    trabalhador para atuao eficaz na sua unidade de trabalho.

    Segundo Koizumi et al. (1998), em estudo sobre EC, de 43 UTIs no

    municpio de So Paulo apenas 34 UTIs tm treinamento inicial especfico

    para a equipe de enfermagem, e os programas de atualizao so

    desenvolvidos por 18 UTIs, com enfoque principalmente na reviso de

    tcnicas e rotinas e atualizao de patologias.

    Em Davim et al. (1999), entre as atividades desenvolvidas pelos

    enfermeiros, as mais citadas foram palestras, treinamentos em grupos e

    individuais, curso para atualizaes e demonstrao de tcnicas.

    No estudo realizado por Souza e Ceribelli (2004), a EC direcionada

    a desenvolver conhecimentos para adaptar o profissional ao ambiente de

    trabalho, e a oferta de atividades educativas ocorre por ocasio da chegada

    de um novo equipamento, com realizao de programas de treinamento.

    Pesquisa realizada por Lorencette (2002), com base na viso dos

    gerentes de enfermagem, mostra que h unanimidade sobre a importncia

    da EC, porm ainda uma educao bastante fragilizada no contexto do

    trabalho, com o foco, como j mencionado acima, em treinamentos e

    reciclagens em relao aos problemas que ocorrem, tendo em vista a

    satisfao da clientela e a imagem da instituio. A autora refere algumas

    dificuldades para desenvolver programas de treinamento, como: pouco

    envolvimento de enfermeiros dos setores, nmero insuficiente de pessoal,

    alta rotatividade, recursos insuficientes, entre outros.

    Na literatura consultada, foram encontradas escassas contribuies

    em relao ao levantamento de necessidades e resultados dos processos

    educativos.

  • Introduo

    20

    Em um estudo feito por Luz (2000), no qual avalia 22 hospitais da

    cidade de So Paulo, observa-se que, em relao ao levantamento de

    necessidades, aparece em 1 lugar a necessidade setorial, seguida por

    questionrio de pesquisa da EC e, em 3, iatrogenias. A opinio do cliente

    aparece em 4 lugar, seguida por outras, em menor freqncia.

    Haddad, Roschke, Davini (1994) referem que a Organizao Pan-

    Americana de Sade tem promovido uma proposta para identificar as

    necessidades de EPS, a partir da anlise de uma trade: necessidade de

    sade da populao, do servio e dos trabalhadores, pois os processos

    educativos devem melhorar o atendimento s necessidades de sade da

    populao. E, em relao aos resultados, necessrio que o trabalhador

    demonstre melhoria nos produtos ou nos processos de trabalho, assim como

    nas atitudes. Os autores (Haddad, Roscke, Davini, 1994, p.145-85)

    ressaltam haver divergncias nas solues educativas entre o que se

    oferece e o de que se necessita, muitos programas ofertados no so

    aceitveis ou relevantes, nem para a populao nem para os utilizadores

    potenciais.

    Observa-se, assim, que apesar de a EC ser introduzida nos servios

    de sade h muito tempo, necessrio analisar o uso dessa ferramenta,

    uma vez que ela vem se mostrando pouco eficaz, no sentido de estar

    voltada s necessidades da populao, reflexo crtica sobre a prtica e

    melhoria dos processos de trabalho. Sobretudo, observam-se mudanas

    pouco significativas no sentido de melhoria das prticas em sade.

    medida que se centra no desempenho de cada categoria

    profissional em suas funes determinadas social e tecnicamente pela

    diviso do trabalho, acaba por acentuar a fragmentao do cuidado, das

    equipes e do processo de trabalho (Ribeiro; Motta, 1996).

    Dessa maneira, a estratgia de EPS pode ser um diferencial para a

    prestao de servios em sade no Brasil, porque entendida como uma

    ao contnua, institucionalizada, interdisciplinar, multiprofissional, centrada

    no processo de trabalho.

    Assim, a educao do trabalhador em sade visa no somente a

    atender s exigncias de mercado, mas a desenvolver no indivduo a

  • Introduo

    21

    reflexo sobre suas aes, possibilitar aos profissionais a construo de

    alternativas para mudanas tanto na sua prtica do dia-a-dia como em

    polticas pblicas. Sem dvida, a educao do trabalhador por si s no

    resolver os problemas de sade do Pas, porm poder ser a melhor

    ferramenta para modificar as rgidas estruturas da sade.

    Para Sudan (2005, p.124),

    as atividades educativas no trabalho no podem apresentar um condicionamento limitante, mas desenvolver conhecimento contextualizado, no qual esteja presente a reflexo crtica sobre as situaes, o trabalho em equipe, constituindo-se realmente como processo educativo, construtor de carter, de valores, de reflexo crtica, essenciais ao exerccio da cidadania e de uma prtica de sade de qualidade.

    Assim, a EPS pode ser o norteador da educao profissional, ao

    assumir como objeto de prtica e transformao o prprio processo de

    trabalho. Trata-se de uma implementao bem diferente de qualquer

    interveno educativa at ento, envolve mltiplas dimenses do processo

    de trabalho, incluindo o contexto humano, tcnico e social.

    Vale destacar que as concepes de EPS e a EC no so

    antagnicas, podem conviver de forma complementar, mas observam-se

    diferenas importantes entre ambas. A educao permanente centrada no

    cotidiano do processo de trabalho, na multiprofissionalidade, valoriza a

    transformao das prticas e o trabalho em equipe; a educao continuada

    valoriza a cincia e o sujeito como fonte de conhecimento, as reas

    individuais, e coloca-se na perspectiva de transformao da organizao em

    que est inserido o trabalhador.

    Para Ceccim (2005), a EPS constitui estratgia fundamental para

    transformaes no trabalho, para que esse se torne o local de atuao

    crtica, reflexiva, propositiva, compromissada e tecnicamente competente.

    H necessidade de descentralizar e disseminar a capacidade pedaggica

    por dentro do setor.

  • Objetivos

    22

    2. OBJETIVOS GERAL

    Analisar as atividades educativas de trabalhadores de enfermagem em um

    hospital de ensino, quanto ao levantamento de necessidades, aos resultados

    esperados e ao pblico participante.

    ESPECFICOS

    1- Identificar e analisar o pblico participante dos processos educativos

    de trabalhadores de enfermagem, na percepo dos gerentes e

    trabalhadores de enfermagem.

    2- Analisar o processo de levantamento de necessidades para a

    implantao das atividades educativas de trabalhadores, na

    percepo dos gerentes e trabalhadores de enfermagem.

    3- Analisar os resultados esperados a partir da realizao de atividades

    educativas de trabalhadores de enfermagem, na percepo dos

    gerentes e trabalhadores de enfermagem.

  • Referencial terico

    23

    3. REFERENCIAL TERICO

    A pesquisa est fundamentada no referencial terico sobre trabalho

    em sade e enfermagem, educao permanente em sade, educao

    continuada, trabalho em equipe e integralidade.

    O conceito de processo de trabalho desenvolvido por Marx em sua

    obra O Capital define

    o trabalho como um processo, onde o ser humano, com sua prpria ao, impulsiona, regula e controla seu intercmbio material com a natureza. O trabalhador pe em movimento as foras naturais de seu corpo, braos e pernas, cabea e mos, a fim de apropriar-se dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma til vida humana.

    Portanto, o trabalho constitui mediao entre o homem e a natureza,

    operando transformaes requeridas por necessidades humanas (Marx,

    1994; Mendes-Gonalves, 1992).

    Para entender o processo de trabalho importante ter a clareza dos

    elementos que o constituem: o prprio trabalho, atividade adequada a um

    fim, o objeto de trabalho, a matria a que se aplica o trabalho e os meios de

    trabalho, o instrumental que incidir sobre o objeto na realizao do produto

    (Marx, 1994).

    A realizao de um produto resulta de uma inteno, ou seja, um

    projeto que o homem tem em mente somado a um saber tecnolgico (saber

    fazer), em conjunto com os elementos constituintes do processo. Assim, o

    trabalhador no apenas transforma o objeto sobre o qual incide sua ao,

    mas tambm transforma a si mesmo atravs do trabalho (Marx, 1994). Ao

    desenvolver o trabalho, pode modific-lo, sendo capaz de resolver os

    imprevistos que surgem, podendo mudar inclusive a concepo inicial,

    transformando seu modo de pensar. O homem opera, muitas vezes, com

    objetos previamente transformados pela relao homem-natureza e, dessa

    maneira, visualiza-se a capacidade humana de separar a concepo (projeto

    intelectual) da execuo (ao), na qual se utilizam os instrumentos para sua

    realizao (Peduzzi,1998).

  • Referencial terico

    24

    Todo projeto se dirige a uma finalidade, assim possvel expressar

    que algo que havia antes se transforma em outro algo que h depois

    atravs de um processo no qual o trabalhador aplica uma quantidade de

    energia adequada transformao do objeto e, aps a transformao, o

    algo depois ser capaz de satisfazer a uma necessidade (Mendes-

    Gonalves,1992).

    Para que o trabalho se concretize, necessria a presena da fora

    de trabalho, ou seja, a capacidade de trabalho na qual o trabalhador coloca

    a sua energia para a transformao do objeto. A fora de trabalho fornece

    energias mecnicas e intelectuais que controlam as energias mecnicas,

    portanto, o trabalho a atividade coordenada de consumo de energia

    intelectual-mecnica, conforme o fim desejado (Mendes-Gonalves, 1992).

    O objeto de trabalho a matria a ser transformada, que pode estar

    em estado bruto ou ser resultado de um trabalho anterior, como a matria-

    prima. Entre o objeto e o instrumento h uma relao de reciprocidade, uma

    vez que o objeto de trabalho demanda instrumentos apropriados a ele, assim

    como os instrumentos devem ser aplicados aos objetos correspondentes. O

    objeto, por si s, no objeto; ser quando estiver direcionado a uma

    finalidade, a partir de uma dada concepo por parte do trabalhador

    (Peduzzi,1998; Almeida e Rocha, 1997).

    Os meios de trabalho so os instrumentos que o trabalhador insere

    entre si mesmo e o objeto de trabalho e lhe serve para dirigir sua atividade

    sobre esse objeto, transformando-o (Marx,1994). atravs dos instrumentos

    que identificamos as pocas econmicas e as condies sociais em que se

    realiza o trabalho, que pode se apresentar de vrias maneiras, como

    equipamentos, materiais, instrumentais, saber estruturado, entre outros.

    Outro aspecto a ser destacado na anlise do trabalho est na relao

    do prprio trabalho (produo) com as carncias humanas-sociais

    (consumo). O processo de trabalho termina quando se conclui o produto. O

    produto ento um valor-de-uso e quando esse produto passa a ser uma

    mercadoria adquire o carter de valor-de-troca. Segundo Marx (1994),

    qualquer mercadoria se apresenta sob o duplo aspecto de valor de uso e de

    valor de troca, sendo o valor de uso a prpria utilidade da mercadoria, de

  • Referencial terico

    25

    modo que existe uma relao entre o consumidor e o objeto consumido.

    Assim, o processo de trabalho e as necessidades configuram entre si uma

    relao recproca, de mtua influncia.

    Merhy (1997) tambm ressalta que as necessidades apresentam

    duplo movimento, ou seja, um produto um valor de uso (apresenta uma

    utilidade prpria) quando, inserido no mercado, apresenta um valor de troca,

    por exemplo, dinheiro, e esse dinheiro (produto) poder ser utilizado para

    aquisio de um outro produto existente no mercado.

    Assim, os conhecimentos adquiridos pelo trabalhador, juntamente

    com suas habilidades adquiridas socialmente e integradas s caractersticas

    pessoais, sero para o trabalhador um valor de uso que ser transformado

    em valor de troca quando, em um determinado momento histrico, for

    reconhecido pelo capital como relevante ao processo produtivo (Signini,

    2000).

    De modo que a valorizao do produto ocorre quando o valor de uso

    torna-se valor de troca, significando que uma mercadoria pode ser vendida

    com valor superior aos investimentos empregados para a produo,

    constituindo o excedente, a mais valia, o lucro (Marx, 1994).

    Na essncia do trabalho humano, o objetivo maior a manuteno da

    espcie humana, melhorando suas condies de existncia. Nesse contexto,

    o salrio pago ao trabalhador, como preo pelo seu trabalho, determinado

    pelo capitalista, e dependente da relao entre oferta e procura de fora de

    trabalho.

    As necessidades sociais que movem o sujeito ao, sendo o

    trabalho um processo de transformao social, porque o homem tem

    necessidades que precisam ser atendidas e essa transformao ocorre com

    o consumo da fora de trabalho, com os instrumentos apropriados ao

    durante a realizao do seu trabalho (Peduzzi, 1998).

  • Referencial terico

    26

    3.1 Trabalho em sade

    Na Amrica Latina, as pesquisas sobre trabalho em sade se

    iniciaram nos anos 60 do sculo XX. No Brasil, segundo Nogueira (2002),

    nos anos 70 observam-se duas variantes importantes no estudo do trabalho

    em sade: uma mais sociolgica, iniciada pelos estudos do trabalho mdico

    em So Paulo, realizados por Donnangelo, em 1975, e outra mais

    econmico-demogrfica, com dados de censos e estatsticas nacionais, com

    estudos realizados por Mdici (1987) e Machado (1992).

    Na primeira variante, alm dos estudos de Maria Ceclia Ferro

    Donnangelo, pode-se citar Schraiber (1993), que analisou o trabalho dos

    mdicos no Brasil, enquanto agentes tcnicos e sujeitos histricos, tendo

    como foco de investigao a autonomia desses profissionais, num momento

    histrico em que a medicina liberal transitava para a chamada medicina

    tecnolgica.

    Conforme Nogueira (2002), a segunda variante teve sua base na

    economia poltica, que foca o aspecto descritivo e crtico da fora de trabalho

    em sade, enfatizando aspectos do mercado de trabalho, relaes de

    trabalho, trabalho assalariado, entre outros.

    A abordagem do trabalho em sade foi influenciada pela viso

    marxista do processo de trabalho que trata da dinmica estabelecida entre

    dimenso tcnica e dimenso social (Nogueira, 2002).

    Assim, o trabalho se constitui porque h uma necessidade a ser

    satisfeita e, na sade, a finalidade refere-se s necessidades de sade da

    populao (Peduzzi e Anselmi, 2002).

    O trabalho em sade integra a prestao de servios sade, em que

    os servios so consumidos no ato da produo, ou seja, no momento da

    assistncia, podendo ser individuais, grupais ou coletivos. Ser um trabalho

    que lida com o objeto humano que o diferencia de outros trabalhos do

    mesmo setor de prestao de servios (Peduzzi e Ciampone, 2005).

    Para Martins e Poz (1998), o trabalho em sade caracterizado por

    uma produo no material, consumida no ato de sua realizao e, portanto,

    no h bens a serem estocados e/ou comercializados, havendo

  • Referencial terico

    27

    intersubjetividade entre os sujeitos e significativo grau de autonomia. Tem

    carter interdisciplinar, saberes e tcnicas especficas e necessita de uma

    equipe.

    No processo de trabalho em sade, a transformao do objeto de

    trabalho pode se dar tanto na promoo, como na preveno e/ou

    recuperao da sade. Necessita de intensas relaes entre usurios e

    trabalhadores, e o trabalhador pode inclusive perder seu objeto de trabalho

    pela morte de um paciente (Felli e Peduzzi, 2005). Nesse contexto, o

    trabalho em sade, como o trabalho em enfermagem, traduz-se como ao

    produtiva e interao social (Scraiber et al., 1999).

    Merhy (1997) e Paro (1988) destacam os aspectos relacionados ao

    trabalho vivo e o trabalho morto; o trabalho vivo o que est em processo e

    est em ao, e o trabalho morto so todos os produtos-meios que esto

    envolvidos no processo de trabalho, e so resultado de um processo de

    trabalho anterior. Assim, na sade, destaca-se a dimenso do trabalho vivo

    em ato, ou seja, aquele que ocorre no momento da assistncia e do cuidado

    sade, portanto, permeado por intersees e pelas relaes interpessoais.

    na esfera do trabalho vivo que as relaes se intensificam e as noes de

    autonomia e autogoverno do sujeito se tornam operativas.

    Outra abordagem sobre trabalho em sade est na diviso social e

    tcnica do trabalho, que se originou da diviso do trabalho mdico, advinda

    de um processo histrico.

    A diviso social do trabalho inerente ao trabalho humano, passando

    a ser social uma vez que a execuo se d na sociedade e atravs dela,

    portanto, caracterstica de todas as sociedades. A diviso tcnica iniciou-

    se com a manufatura, introduzida pela produo capitalista em meados do

    sculo XVI e ltimo tero do sculo XVIII. O trabalho antes desenvolvido

    pelos antigos artesos, em que o processo de trabalho era realizado por eles

    do incio ao fim, passa a ser desenvolvido por vrios trabalhadores de forma

    parcelar, no qual cada um realiza uma parte do trabalho (Peduzzi, 1998).

    E nesse processo produtivo de diviso do trabalho que se inicia a

    histria da desqualificao do trabalhador e a extrao da mais-valia

    (Kuenzar, 2002).

  • Referencial terico

    28

    E assim, um nico trabalhador no conseguir produzir nenhum

    trabalho por completo, apenas ser possvel o resultado do trabalho de

    vrios trabalhadores em um trabalho coletivo. Isso que caracteriza a

    denominao de trabalhador coletivo; vrios trabalhadores parciais e

    limitados so atores na realizao de um mesmo produto.

    Na rea da sade, o mdico torna-se o agente hegemnico do

    processo de produo, por apropriar-se do momento mais sensvel da

    tomada de deciso que a teraputica e o diagnstico. A medicina

    legitimou-se soberana por ser responsvel por introduzir os conhecimentos

    sobre sade e doena, fundamentados cientificamente, e por legitimar esse

    trabalho como competncia exclusiva para atuao no campo da doena

    (Peduzzi, 1998).

    Assim, possvel fazer a distino e a elitizao do trabalho mdico

    em relao s outras categorias profissionais da sade, o que contribui para

    a configurao do modelo biomdico determinado historicamente como

    hegemnico.

    A diviso do trabalho mdico se d pelas especialidades mdicas e

    tambm pelas outras prticas que se agregaram ao trabalho mdico e so

    necessrias para o processo de trabalho em sade, tais como: enfermagem,

    fisioterapia, nutrio, entre outros.

    Vale destacar que, para a assistncia sade, cada trabalho

    especializado (enfermagem, medicina, nutrio, fisioterapia, entre outros)

    meio para a realizao do trabalho em sade. Cada trabalhador transforma o

    objeto utilizando um saber especfico, uma estrutura fsica e instrumentos

    prprios, quer sejam materiais, equipamentos ou o saber tcnico. Na

    realizao das atividades pelos vrios profissionais, h relaes hierrquicas

    e, portanto, relaes desiguais, nas quais uns so superiores aos outros

    (Peduzzi e Ciampone, 2005).

    Assim, cada trabalho especializado constitui um processo de trabalho

    especfico que lhe prprio e que apresenta autonomia tcnica para a ao

    baseada no saber da respectiva profisso, respaldada pela lei do exerccio

    profissional de cada categoria.

  • Referencial terico

    29

    Segundo Peduzzi (1998, p.268), a autonomia tcnica est

    relacionada complexidade do trabalho e a algum grau de incerteza, e

    realiza-se por intermdio da qualificao intelectual dos agentes e do espao

    decisrio implcito s aes de sade.

    Dessa forma, o trabalho em sade subentende a autonomia tcnica

    dos sujeitos, relacionada complexidade do trabalho, ocorrendo atravs da

    qualificao dos profissionais e do espao decisrio existente nas aes ou

    servios de sade. A autonomia altera-se de acordo com as alteraes

    tecnolgicas (Schraiber, 1993).

    Alm da complexidade, outras caractersticas se apresentam no

    processo de trabalho em sade, segundo Quintana, Roschke e Ribeiro

    (1994, p.33-61): heterogeneidade e fragmentao. A heterogeneidade diz

    respeito diversidade dos vrios processos de trabalho que coexistem nas

    instituies de sade e, na maioria das vezes, apresentam uma organizao

    prpria, sem articulao apropriada com os demais processos de trabalho. A

    fragmentao aborda vrias dimenses, como a dimenso conceitual,

    separao do pensar e do fazer; a dimenso tcnica, caracterizada pela

    presena cada vez maior de profissionais especializados e a dimenso

    social que expressa relaes rgidas de hierarquia e subordinao,

    configurando a diviso tcnica e social do trabalho.

    Os profissionais inseridos nas diversas reas do setor de sade

    atuam no mbito da intersubjetividade (usurio trabalhador) para atender

    s necessidades de sade dos usurios que procuram os servios de sade.

    Assim, o trabalho em sade configura-se como trabalho reflexivo, destinado

    preveno, manuteno ou restaurao da sade do indivduo, no qual as

    decises a serem tomadas implicam a articulao de vrios saberes que

    provm da formao geral (nfase no conhecimento cientfico), da formao

    profissional (nfase no conhecimento tcnico) e das experincias de trabalho

    e social (qualificaes tcitas) mediados pela dimenso tico-poltica e pela

    interao com os usurios (Offe, 1991).

    Para alm das questes mais internas do processo de trabalho e da

    micropoltica do trabalho vivo em ato, h que se considerar as mudanas

    ocorridas no mundo do trabalho, a partir do final dos anos 70 e incio dos

  • Referencial terico

    30

    anos 80, que provocaram impactos tambm no trabalho em sade (Peduzzi,

    2003; Baraldi, 2005).

    Deluiz (2001) destaca dois aspectos nesse contexto. Por um lado, a

    exigncia de melhoria nos processos e servios, demandou novos perfis

    profissionais e novos mecanismos de gesto: o perfil do profissional

    caracterizado pela polivalncia, multiqualificao, que trabalhe em equipe.

    Contudo, por outro lado, observa-se desemprego, trabalho precarizado e

    informal, terceirizaes, entre outros. A autora retrata esses dois lados do

    mundo do trabalho como lado sombra e lado luminoso, onde o lado

    sombra marcado pelo enxugamento das estruturas de operao,

    terceirizao de atividades, desemprego e emprego precrio; e o lado

    luminoso, pela possibilidade de um trabalho com novos contedos a partir

    de novas concepes gerenciais e da introduo de novas tecnologias que

    exigem maior base de educao geral, alm de novos requisitos e atributos

    de qualificao profissional, portanto com destaque para os processos

    educativos de trabalhadores inseridos em servio.

    3.2 Trabalho em enfermagem

    Na enfermagem, a abordagem do processo de trabalho iniciou-se nos

    anos 80 e dentre as autoras destacam-se: Maria Ceclia Puntel de Almeida

    (1984); Graciette Borgues da Silva (1986); Brigitta Castellanos (1987);

    Denise Pires (1989). Essa abordagem permite analisar a enfermagem como

    prtica social que se insere no mundo do trabalho e na ateno sade, e

    marcada por determinaes histricas, sociais, econmicas e polticas.

    At o final do sculo XVIII e incio do XIX, a enfermagem constitua

    uma prtica independente da medicina. Suas aes eram independentes

    das aes do mdico. O cuidado de enfermagem no era destinado ao

    corpo fsico, mas tinha cunho religioso, o objeto de trabalho da enfermagem

    era o ambiente de trabalho, enquanto o do mdico, o corpo doente (Almeida

    e Rocha,1997). E o hospital era um local para abrigar indigentes, viajantes, e

    no um local de cura.

  • Referencial terico

    31

    Nesse perodo ocorreram marcantes transformaes na instituio

    hospitalar, que passa a se constituir como local de cura pela necessidade do

    sistema capitalista de curar seus feridos em guerras. Por atender

    satisfatoriamente ao projeto poltico-social da poca e pela necessidade de

    organizar os hospitais que a enfermagem se insere no processo de

    trabalho em sade. Assim, alm do cuidado ao doente, organizava o local de

    trabalho. De modo que, nesse perodo, a enfermagem se institucionaliza

    como rea especfica de trabalho.

    Gomes et al. (1997) destacam que o trabalho de enfermagem

    organizou-se em trs direes: no sentido de organizar o cuidado ao doente,

    o que ocorreu pela sistematizao das tcnicas de enfermagem; na

    organizao do ambiente teraputico, que se deu por meio de mecanismos

    de purificao do ar, limpeza, higiene entre outros, e no sentido de organizar

    os agentes de enfermagem por meio de treinamento, utilizando as tcnicas e

    mecanismos disciplinares. Dessa forma, o processo de trabalho de

    enfermagem constituiu-se com base na diviso do trabalho e configura a

    separao entre a concepo e a execuo do cuidado, ou seja, alguns

    agentes gerenciam, e outros executam (Pires, 1989; Gomes et al. 1997).

    A organizao e a execuo do cuidado ao paciente eram realizadas

    pelas lady nurses, que pertenciam s classes mais altas da sociedade e

    eram responsveis pela superviso e ensino, e pelas nurses de nvel

    scioeconmico menor, que eram responsveis pelo cuidado direto aos

    pacientes (Gomes et al., 1997; Silva, 1989).

    Portanto, o trabalho em enfermagem mostrou, desde sua origem, uma

    diviso tcnica e social do trabalho, constituindo uma hierarquia na qual as

    pessoas provenientes de classes sociais mais altas assumiam a funo de

    superviso e educao, enquanto as de classe social menos favorecida

    assumiam o cuidado ao doente (Almeida e Rocha, 1986; Pires, 1989).

    Trata-se de uma profisso que tem enfrentado muitos desafios na

    construo de sua identidade, na apropriao do objeto central do seu

    trabalho, que o cuidado de enfermagem. Cuidar de maneira simples

    significa fornecer ajuda, no entanto, trata-se de um processo complexo, uma

    vez que demanda intensas relaes e implicaes ticas.

  • Referencial terico

    32

    Rossi e Lima (2005) consideram cuidado como ato individual que

    prestamos a ns mesmos, desde que adquirimos autonomia, mas um ato

    de reciprocidade que somos levados a prestar a qualquer pessoa que,

    temporariamente ou definitivamente, tem necessidade de ajuda.

    Alm do cuidado, ncleo do processo de trabalho de enfermagem,

    esse composto por outras trs subcategorias: administrar ou gerenciar;

    pesquisar; e ensinar. Cada um deles pode ser referido como um processo

    parte, com seus prprios elementos (Silva, 1989).

    No entender de Felli e Peduzzi (2005), as intervenes do enfermeiro

    no trabalho concretizam duas formas: o processo de cuidar e o de

    administrar, no entanto, o enfermeiro tem assumido cada vez mais

    atividades administrativas.

    No Brasil, o processo de diviso do trabalho de enfermagem

    configurou as aes de cuidados que so divididas entre os enfermeiros,

    auxiliares, tcnicos de enfermagem. Contudo, aos enfermeiros so

    atribudas as atividades mais intelectuais de gerenciamento do cuidado e da

    unidade, incluindo todos os recursos, enquanto ao pessoal de nvel mdio

    so atribudas majoritariamente as atividades assistenciais. (Almeida e

    Rocha, 1989; Peduzzi, 1998; Peduzzi e Anselmi; 2002).

    Com base no que Kuenzer (2002) denomina pedagogia de fbrica, os

    trabalhadores de menor qualificao profissional so os executores do

    trabalho, expropriados do saber sobre o trabalho, perdem a caracterizao

    que os faz humanos: a possibilidade de pensar, planejar, criar; e a cincia,

    por sua vez, passa a ser um privilgio das categorias a quem cabe o

    planejamento do trabalho e atua sobre os trabalhadores da execuo.

    A autora acrescenta que enquanto o capitalismo opera a ciso teoria

    e prtica, surgem dois tipos de ensino: para os trabalhadores ligados

    execuo, a pedagogia do trabalho assume caracterstica de um ensino

    prtico, ministrado no prprio local de trabalho; e o destinado s funes de

    planejamento e controle se faz por meio da apreenso sistematizada do

    contedo cientfico do trabalho.

    Importante destacar que no interior desse processo de trabalho h

    diferenas tcnicas e desigualdades sociais. As diferenas tcnicas dizem

  • Referencial terico

    33

    respeito aos saberes e as intervenes tcnicas que permeiam a atuao de

    cada categoria profissional de enfermagem, e as desigualdades sociais

    referem-se a valores e normas sociais que hierarquizam e disciplinam as

    diferenas tcnicas entre os distintos trabalhadores. Assim, h uma relao

    hierrquica entre as diferentes categorias profissionais, estabelecendo-se

    relao de subordinao e dominao que interferem de forma expressiva

    no modo de organizar o trabalho e prestar cuidados aos usurios (Peduzzi,

    1998).

    Assim, no trabalho de enfermagem identifica-se, por um lado, um

    trabalho eminentemente manual, visto que sua dimenso intelectual estar

    sempre presente, mas limitada a noes gerais, que consistem na

    distribuio de tarefas mais simples ligadas diretamente ao cuidado aos

    auxiliares e tcnicos de enfermagem; e, de outro, um trabalho intelectual

    realizado pelos enfermeiros, que se refere s aes voltadas ao

    planejamento do cuidado e superviso do trabalho dos auxiliares e tcnicos

    (Almeida e Rocha, 1986; Pires, 1989).

    Almeida e Rocha (1986) acrescentam que o enfermeiro est

    distanciado do seu objeto de trabalho o cuidado de enfermagem e

    gerencia o processo de trabalho realizado por trabalhadores parcelares e

    alienados do processo de trabalho (ao mesmo tempo), para controlar esse

    pessoal utiliza o seu saber como instrumental ideolgico do poder.

    3.2.1 Gerncia em sade e enfermagem

    A diviso tcnica do trabalho teve incio no capitalismo com a

    manufatura e, assim, a produo que era realizada por apenas uma pessoa

    passa, ento, a ser realizada coletivamente, e as tarefas so separadas

    umas das outras e realizadas por vrios trabalhadores at o trmino do

    processo. O trabalhador no consegue concluir isoladamente nenhum

    produto, ou seja, todo produto faz parte de um trabalho coletivo e este passa

    a demandar aes de cunho gerencial.

  • Referencial terico

    34

    ento introduzida a gerncia, inicialmente na figura do capitalista e

    posteriormente, com maior diversificao e complexidade nas tarefas, por

    um tipo especial de assalariado que comanda em nome do capital todo o

    desenvolvimento do processo de trabalho numa perspectiva de controle

    (Mishima et al., 1997; Pires, 1989; Silva, 1989). Portanto, gerncia cabem

    as atividades de planejamento e controle e a outras pessoas sua execuo.

    No que se refere especificamente enfermagem, o processo de

    trabalho composto por duas dimenses: assistencial e gerencial (Felli,

    Peduzzi, 2005). Segundo as autoras referidas, no processo de trabalho

    gerencial os objetos de trabalho do enfermeiro so: a organizao do

    trabalho e os recursos humanos de enfermagem e, para a sua execuo,

    utilizado um conjunto de instrumentos tcnicos prprios da gerncia, tais

    como: planejamento, dimensionamento de pessoal, recrutamento e seleo,

    educao continuada e/ou permanente, avaliao de desempenho, entre

    outros.

    Para Mishima et al. (1997), a atividade gerencial extremamente

    dinmica, dialtica, e contempla as dimenses tcnica, poltica e

    comunicativa, em permanente articulao, exigindo constante

    reflexo/tomada de deciso por parte do seu agente executor. Dessa forma,

    a gerncia em sade uma atividade meio, cuja ao central est posta na

    articulao e integrao e possibilita a transformao do processo de

    trabalho.

    A gerncia, enquanto processo de trabalho, pode ser analisada em

    duas vertentes: uma, denominada de modelo racional, tem foco nas

    organizaes e nos indivduos, fundamentada na Teoria Geral da

    Administrao; outra, denominada modelo histrico-social, tem abordagem

    das prticas sociais e sua historicidade (Felli e Peduzzi, 2005).

    No modelo racional a ao gerencial est fundamentada, sobretudo,

    nas teorias do incio do sculo XX, de Taylor, Fayol e Ford, nas quais o foco

    est na produo em massa, controle de tempo e movimento; trabalho

    parcelado e fragmentado por funes, remunerao por produo, ciso

    entre a concepo e a execuo do trabalho; unidades verticalizadas e

    trabalho coletivo alienado (Chanlat, 1995; Pires, 2004; Felli e Peduzzi, 2005).

  • Referencial terico

    35

    Com a globalizao e as mudanas no mundo do trabalho, so

    necessrias novas formas de organizar o trabalho perante o mercado.

    Assim, ocorre um movimento do modelo racional para o flexvel, no

    qual a produo est voltada para a demanda, diversificada e o consumo

    que determina a produo. No processo produtivo flexvel, o trabalhador

    polivalente, o trabalho realizado em equipe e h uma tendncia

    horizontalizao; implantao de vrios programas de qualidade; reviso de

    processos de trabalho com reduo de nveis hierrquicos; intensificao do

    ritmo de trabalho, mudanas que tendem manuteno da lucratividade

    (Felli e Peduzzi, 2005).

    A outra vertente da gerncia referida acima concebida como

    processo histrico-social que se configura na perspectiva das prticas de

    sade, historicamente estruturadas e socialmente articuladas. Assim, a

    gerncia em sade e em enfermagem desenvolve o trabalho voltado para a

    organizao e controle dos processos de trabalho e tambm para as

    necessidades de sade da populao, o que implica autonomia dos sujeitos

    envolvidos nos processos. Apresenta um carter articulador e integrativo,

    sendo suas aes determinadas e determinantes do processo de

    organizao de servios de sade e das polticas sociais, especificamente

    as de sade (Mishima et al., 1997). Segundo as autoras, no processo de

    trabalho gerencial, da perspectiva das prticas de sade, identificam-se

    quatro dimenses inerentes: tcnica, poltica, comunicativa e de

    desenvolvimento de cidadania.

    Assim, novas formas de organizao do trabalho so possveis e

    formas diferentes de gerenciamento podem ser implementadas nas diversas

    organizaes de sade para uma assistncia de enfermagem diferenciada,

    com qualidade de atendimento populao. As formas de trabalho esto

    diretamente relacionadas s instituies e suas condies de trabalho, aos

    modelos assistenciais e gerenciais existentes, bem como s polticas sociais

    de sade.

    Rossi e Lima (2005) relatam que o enfermeiro gerencia o cuidado

    quando o planeja, delega ou o faz, quando prev e prov recursos, capacita

    sua equipe, educa o usurio, interage com outros profissionais, ocupa

  • Referencial terico

    36

    espaos de articulao e negociao em nome da concretizao e melhoria

    do cuidado.

    No processo de trabalho em enfermagem e sade um dos

    instrumentos utilizados pela gerncia para atingir constantemente a

    qualidade da assistncia e do cuidado sade a educao dos

    trabalhadores, sendo estes objetos de trabalho da gerncia.

    Para Rossi e Lima (2005) o grande compromisso e desafio de quem

    gerencia o cuidado valorizar, e habilitar-se para utilizar, as relaes como

    tecnologias, de modo a construir o cotidiano de trabalho por intermdio da

    construo mtua dos sujeitos e, atravs dessas relaes, dar sustentao

    satisfao das necessidades dos indivduos e valorizar trabalhadores e

    usurios para intervirem no trabalho vivo em ato.

    Nesse sentido, Merhy (1997) afirma que estamos vivendo uma

    situao histrico-social, e que o desafio das organizaes produtivas s

    poder ser enfrentado atravs de modelos gerenciais menos burocrticos,

    que permitam s organizaes a plasticidade que as transformam em um

    organismo inteligente, assimilar o que ocorre no seu interior e sua volta, e

    elaborar solues adequadas para cada problema novo. A gesto seria o

    campo tecnolgico para dar s organizaes essa plasticidade.

    Com base nas concepes adotadas, entende-se que o

    gerenciamento em sade e enfermagem est pautado em um modelo

    assistencial a seguir, utiliza instrumentos apropriados como planejamento e,

    principalmente, desenvolve relaes de trabalho de modo a compreender

    como essas relaes se processam e seus limites, entre pares, equipes,

    conseguindo articular aes com a finalidade de melhorar os processos de

    trabalho, promover a transformao do sujeito e a qualidade de assistncia

    ao usurio.

    3.4 Educao permanente em sade

    Na considerada era do conhecimento, as organizaes do setor

    sade vm olhando com maior ateno para o desenvolvimento dos

    profissionais, com o objetivo de melhorar a qualidade dos servios prestados

  • Referencial terico

    37

    populao. Para isso, uma das estratgias que est sendo colocada em

    pauta o investimento em recursos humanos (RH), atravs de processos

    educativos.

    Para Freire (1997), toda ao educativa deve estar precedida de

    reflexo, e isso ocorre quando h integrao do homem com o seu contexto,

    o que pode levar compreenso da realidade desse contexto, e sua

    transformao.

    Nessa perspectiva, os trabalhadores necessitam constantemente de

    investimentos para o desenvolvimento de espao para reflexo crtica sobre

    a prtica cotidiana, de modo a garantir um desempenho com qualidade e

    sua emancipao como sujeitos sociais. Nesse sentido, destacam-se o

    trabalho em equipe e a educao permanente como estratgias

    imprescindveis para uma melhor prtica da sade e da enfermagem.

    Desde meados dos anos 1980, a OPAS Organizao Pan-

    Americana de Sade vem trabalhando com o conceito de EPS como um

    processo constante, de natureza participativa e multifuncional. Vale ressaltar

    que essa organizao tem atuado no acompanhamento de processos de

    capacitao profissional em diversos pases latino-americanos e que os

    resultados so pouco animadores no que se refere qualidade da produo

    dos servios prestados em sade (Davini, Nervi, Roschke, 2002).

    Em 2004, no Brasil, o Ministrio da Sade instituiu a Poltica de EPS

    como estratgia para o SUS, para formao e desenvolvimento de

    trabalhadores de sade (Brasil, 2004). Essa poltica prope que os

    processos de trabalho de capacitao dos trabalhadores de sade tomem

    como referncia as necessidades de sade da populao, a gesto setorial

    e o controle social em sade, tendo como objetivo a transformao das

    prticas profissionais e a organizao do trabalho a partir da

    problematizao do processo de trabalho. Nessa proposta, o Ministrio da

    Sade (Brasil, 2005) define: Problematizar significa refletir sobre

    determinadas situaes, questionando fatos, fenmenos e idias,

    compreendendo os processos e propondo solues, de modo que a

    educao permanente baseia-se na aprendizagem significativa e prope que

  • Referencial terico

    38

    ocorram transformaes das prticas profissionais baseadas na reflexo

    crtica das prticas reais.

    Segundo Ceccim, Feuerwerker (2004), aprendizagem significativa

    acontece quando algo apreendido faz sentido para ns, quando um

    conhecimento novo construdo a partir de um dilogo com o que j

    sabamos antes. Na aprendizagem significativa, acumulamos e renovamos

    experincias.

    EPS uma estratgia que partiu da idia de que o processo de

    educao dos trabalhadores da sade deve ser direcionado pelas

    necessidades da populao, pelo controle social e do prprio setor da

    sade, que seja estruturado a partir da problematizao do processo de

    trabalho com o objetivo de transformao das prticas e organizao do

    trabalho (Brasil, 2005; Ceccim, 2005).

    A EPS aprendizagem no trabalho, em que o aprender e o ensinar se

    articulam ao cotidiano do trabalho e das organizaes (Roschke; Quintana;

    Ribeiro, 1994, p.33-61). Assim, a proposta ser construda no interior do

    trabalho das equipes e a capacitao deve ser determinada a partir dos

    problemas que ocorrem no dia-a-dia, referente ateno sade e

    organizao do trabalho.

    Segundo Ceccim e Feuerwerker (2004), o SUS teve vrias iniciativas

    para mudanas no processo de formao, no sentido de aproximar

    instituies formadoras, aes e servios do SUS. Porm, aps uma

    seqncia de rodadas de avaliao realizadas em julho de 2003 com

    coordenadores, gestores municipais e estaduais e docentes universitrios,

    concluiu-se que todas as iniciativas foram muito tmidas na sua capacidade

    de promover mudanas nas prticas dominantes no sistema de sade,

    limitadas a introduzir mudanas pontuais nos modelos hegemnicos de

    formao e cuidado em sade. Os autores afirmam que tem sido limitado o

    impacto das aes do SUS em educao, no sentido de alimentar os

    processos de mudanas sobre as instituies formadoras, e nulas em

    apresentar a formao como uma poltica do SUS.

    Na proposta de educao permanente em sade, a formao e o

    desenvolvimento devem ocorrer de modo descentralizado, ascendente e

  • Referencial terico

    39

    transdisciplinar (Ceccim e Feuerwerker, 2004). E, como resultado, espera-se

    a democratizao dos espaos, o desenvolvimento do trabalho em equipe, o

    desenvolvimento da capacidade de aprender e de ensinar de todos os atores

    envolvidos, e a melhoria permanente da qualidade do cuidado e da

    humanizao do atendimento (Brasil, 2005).

    Em se tratando de educao em sade, importante esclarecer a

    distino entre educao continuada e educao permanente.

    Segundo Davini, Nervi, Roschke, (2002, p.108-12), a EC

    tradicionalmente desenvolvida no setor de sade como uma extenso do

    modelo escolar e acadmico, centrado na atualizao de conhecimentos,

    geralmente de enfoque disciplinar, baseado em tcnicas de transmisso com

    fins de atualizao, uma estratgia descontnua da capacitao, com ruptura

    dos tempos, em cursos peridicos, sem seqncia constante e centrada em

    cada categoria profissional.

    Assim, a EC se volta ao indivduo no espao institucional, com o

    objetivo de adequ-lo para o trabalho na respectiva unidade onde exercer

    sua funo, direcionado para comportamentos institucionalizados, normas e

    rotinas pr-estabelecidos.

    A EPS tem como objeto de trabalho o prprio processo de trabalho,

    orientado para a melhoria contnua da qualidade dos servios, para a

    eqidade no cuidado e o acesso aos servios de sade, parte de uma

    reflexo do que acontece nos servios (Ceccim, 2005). E Rovere (1994,

    p.63-106) sintetiza a educao permanente em sade como a educao no

    trabalho, pelo trabalho e para o trabalho nos diferentes servios cuja

    finalidade melhorar a sade da populao, dessa maneira diferenciando-

    se de outras propostas educativas.

    Segundo Davini, Nervi, Rochke (2002, p.108-12), a EPS representa

    um importante giro na concepo e na prtica de capacitao dos

    trabalhadores nos servios. Supe inverter a lgica do processo, incorporar

    o ensino e o aprendizado na vida cotidiana das organizaes e das prticas

    sociais e do trabalho, no contexto real em que ocorre. Tambm prope

    modificar as estratgias educativas, a partir da prtica como fonte de

    conhecimento e de problemas para a problematizao do prprio processo

  • Referencial terico

    40

    de trabalho; os sujeitos como atores reflexivos da prtica e construtores de

    conhecimento e alternativas de ao em lugar de receptores; a equipe de

    trabalho como estrutura de interao; ampliao de espaos educativos fora

    da sala de aula e dentro de organizaes, comunidades, clubes,

    associaes.

    A concepo de EPS pretende tomar as situaes dirias de trabalho

    como foco de aprendizado, analisando reflexivamente os problemas da

    prtica e valorizando o prprio processo de trabalho no contexto em que se

    vive.

    Assim sendo, a educao permanente em sade aprendizagem no

    trabalho, na qual o aprender e o ensinar se incorporam ao cotidiano da

    gesto e de outras aes de sade e, dessa maneira, coloca o SUS como

    um interlocutor nato das escolas na formulao e implementao dos

    projetos poltico-pedaggicos e na formao profissional, e no como mero

    campo de estgio ou aprendizagem prtica.

    A poltica de EPS uma estratgia que visa a contribuir para

    transformar e qualificar a ateno sade; a organizao das aes e dos

    servios; os processos formativos; as prticas de sade e as prticas

    pedaggicas. necessrio para isso um trabalho articulado entre o sistema

    de sade e as instituies de ensino, colocando em evidncia a formao e

    o desenvolvimento (Ceccim e Feuerwerker, 2004).

    Refletindo sobre a EPS como estratgia para a mudana,

    necessrio considerar que esse processo requer mudana de

    comportamento no ser humano. Assim, estar aberto, disponvel e

    interessado em novos conhecimentos, desenvolver novas formas de fazer as

    prticas ser necessrio para esse desafio.

    Para ocupar o lugar ativo da EPS, Ceccim (2005) enfatiza que

    precisamos abandonar o sujeito que somos, precisamos ser produo de

    subjetividade: abrir fronteiras o tempo todo, desterritorializando grades de

    comportamento ou de gesto do processo de trabalho. O autor apresenta

    como condio indispensvel para uma pessoa ou uma organizao decidir

    mudar ou incorporar novos conceitos, a deteco e o contato com os

    desconfortos experimentados no cotidiano do trabalho, a percepo de que

  • Referencial terico

    41

    a maneira vigente de fazer ou pensar insuficiente ou insatisfatria para dar

    conta dos desafios do trabalho. A vivncia e/ou a reflexo sobre as prticas

    vividas que podem produzir o contato com o desconforto e aps, produzir

    alternativas de prticas e conceitos, para enfrentar o desafio de produzir

    transformaes.

    Dessa forma, para produzir mudanas no sistema de sade brasileiro

    aproximando os servios de sade da ateno integral, humanizada e de

    qualidade importante a capacidade de dialogar com as prticas de gesto

    e de ateno de sade, estimulando a produo de transformaes.

    Desde 2003 o Ministrio da Sade vem instituindo a poltica de EPS

    como estratgia para o SUS, para a formao e o desenvolvimento de

    trabalhadores para o setor de sade. Essa poltica estava sendo construda

    nos Plos de EPS de cada municpio e foi recentemente ratificada com a

    publicao da Portaria 1996/2007 (Brasil, 2007), na qual introduz para as

    decises de EPS os Colegiados de Gesto Regional, com a participao das

    Comisses Permanentes de Integrao Ensino-Servio (CIES). O colegiado

    deve incentivar e promover a participao nas Comisses de Integrao

    Ensino-Servio dos gestores, servios de sade, instituies formadoras que

    atuam na rea de formao e desenvolvimento de pessoal para o setor

    sade, hospitais de ensino, trabalhadores da sade, conselhos municipais e

    estaduais, gestores estaduais e municipais. So instncias de articulao

    interinstitucional para a gesto da educao permanente em sade. Essas

    instncias servem para a articulao, o dilogo, a negociao e a pactuao

    interinstitucional. Todos juntos, interagindo, identificam necessidades e

    constroem as estratgias e as polticas no campo da formao e do

    desenvolvimento, sempre procurando melhorar a qualidade da gesto,

    aperfeioar a ateno integral sade, popularizar o conceito ampliado de

    sade e fortalecer o controle social. So partes do Sistema nico de Sade

    responsveis tanto pelas prticas de sade quanto pelas aes de educao

    em sade. So rodas de debates e construo coletiva. Merhy (2005)

    mostra que todo processo voltado s questes da educao permanente

    tem que ter a fora de gerar no trabalhador, no seu cotidiano do trabalho,

    transformaes na prtica, o que implica problematizar a si mesmo no agir,

  • Referencial terico

    42

    pela gerao de problematizaes no no abstrato, mas no concreto do

    trabalho de cada equipe.

    A EPS, na sua concepo, pode ser o diferencial para uma mudana

    acentuada nos processos de trabalho em sade e enfermagem, garantindo

    transformaes por intermdio de mudanas no ensinar e aprender.

    Alm dos conceitos apresentados, destacam-se tambm os conceitos

    de trabalho em equipe e integralidade em sade.

    A proposta do trabalho em equipe coloca-se como alternativa de

    recomposio dos trabalhos executados pelos distintos agentes da

    enfermagem, na perspectiva da integralidade do cuidado.

    A noo de equipe diz respeito realizao de uma tarefa ou trabalho

    por vrios indivduos, com um objetivo comum a atingir, compartilhando o

    mesmo espao fsico e a mesma clientela, embora isso no signifique

    automaticamente a integrao das aes orientadas para o cuidado integral

    de enfermagem.

    Peduzzi (1998, 2001) analisa que atravs da articulao das aes

    e de uma prtica comunicativa que os profissionais podem alcanar o

    entendimento mtuo e a construo de consensos sobre os seus planos de

    ao, caracterizando o trabalho em equipe.

    A autora identifica dois tipos diferentes de equipe: equipe

    agrupamento e equipe integrao. A primeira caracterizada pelo

    agrupamento de agentes onde h a justaposio das aes e a segunda, na

    qual ocorre a articulao das aes e a dos profissionais.

    A integrao no trabalho em equipe se expressa sob dois aspectos: a

    articulao das aes e a comunicao. Entende-se como articulao das

    aes o fato de colocar em evidncia as conexes existentes entre as

    intervenes tcnicas realizadas pelo conjunto de profissionais inseridos

    numa mesma situao de trabalho, e a interao dos agentes no sentido da

    prtica comunicativa, em que os envolvidos buscam o reconhecimento e o

    entendimento mtuo (Peduzzi, 1998, 2001).

    O termo integralidade, na sua origem, relaciona-se com um

    movimento que ficou conhecido como medicina integral, originrio de

    discusses sobre o ensino mdico nos Estados Unidos, nos anos 1960. A

  • Referencial terico

    43

    medicina integral criticava a atitude cada vez mais fragmentria,

    reducionista, da assistncia aos pacientes; os mdicos tendiam a recortar

    analiticamente os pacientes, apenas para o aparelho no qual se

    especializaram, com ateno exclusiva dimenso biolgica, em detrimento

    das dimenses cultural, social e psicolgica. Essa crtica levou reforma

    curricular, de modo que as escolas produzissem mdicos que fossem

    capazes de apreender seus pacientes e suas necessidades de forma

    integral (Mattos, 2006).

    A integralidade um dos princpios do SUS, e se expressa na

    organizao dos servios e das prticas de sade, procurando articular as

    aes de promoo, preveno e recuperao da sade (Mattos, 2004).

    Mattos (2006) refere que, na integralidade, a equipe que atende o

    usurio deve ser capaz de identificar a doena que causa sofrimento, e

    reconhecer, atravs de uma conversa, demandas silenciosas, para a

    apreenso ampliada das necessidades de sade, a fim de contextualizar

    adequadamente as ofertas a serem feitas aos usurios, de modo a identificar

    os momentos mais propcios a essas ofertas.

  • Trajetria Metodolgica

    44

    4. TRAJETRIA METODOLOGICA

    4.1 Tipo de pesquisa

    A pesquisa foi desenvolvida na modalidade qualitativa sobre as

    atividades educativas de trabalhadores de enfermagem na instituio

    estudada2, especialmente a anlise do pblico participante, do levantamento

    de necessidades e dos resultados esperados com a realizao das

    atividades educativas.

    Para Chizzotti (2001, p.79)

    a abordagem qualitativa parte do fundamento que h uma relao dinmica entre o mundo real e o sujeito, uma interdependncia viva entre o sujeito e o objeto, um vnculo indissocivel entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito.

    A pesquisa qualitativa baseia-se na premissa de que os

    conhecimentos sobre os indivduos s so possveis com a descrio da

    experincia humana, tal como ela vivida e definida por seus prprios

    atores (Polit, Hungler, 1995).

    Para Minayo (2004, p. 269), as metodologias de pesquisa qualitativa

    so aquelas capazes de incorporar a questo do significado e da

    intencionalidade como inerentes aos atos, s relaes e s estruturas

    sociais, sendo essas ltimas tomadas tanto no seu advento quanto na sua

    transformao, como construes humanas significativas.

    4.2 Campo de estudo

    A descrio do campo de estudo foi realizada com base em

    documentos levantados na instituio estudada: descrio do servio de

    2 A presente pesquisa est integrada a um projeto principal intitulado Anlise dos

    processos educativos de trabalhadores e equipes de sade e de enfermagem: caractersticas, levantamento de necessidades e resultados esperados, coordenado pela Profa. Dra. Marina Peduzzi, que conta com auxlio FAPESP e da OPAS/MS (Rede Observatrio de RHS).

  • Trajetria Metodolgica

    45

    enfermagem; filosofia, objetivos, sistema de assistncia de enfermagem,

    manual do servio de apoio educacional.

    O Hospital no qual foi realizada a pesquisa integra o SUS, est

    localizado no municpio de So Paulo, e tem por finalidade promover o

    ensino, a pesquisa e a extenso de servios comunidade que reside na

    rea de abrangncia de uma determinada regio do municpio de So Paulo.

    Os rgos da administrao superior so: o conselho deliberativo e a

    superintendncia. O Conselho Deliberativo tem a finalidade de coordenar,

    supervisionar e controlar as atividades desenvolvidas nas reas mdica, de

    enfermagem e demais.

    O departamento de enfermagem tem quatro divises: enfermagem

    cirrgica, enfermagem clnica, enfermagem materno-infantil e de pacientes

    externos. Essas quatro divises compem treze sees e trs setores. O

    departamento de enfermagem agrega tambm o Servio de Apoio

    Educacio