UMA ANÁLISE EXPLORATÓRIA DA CAPACIDADE DE SUPORTE ... 4 - Planejamento... · Capacidade de...

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  • UMA ANLISE EXPLORATRIA DA CAPACIDADE DE SUPORTE

    AMBIENTAL EM REAS URBANIZADAS

    S. V. de Mello; I. M. Kaiser; A. S. P. Peixoto; G. G. Manzato

    RESUMO

    Recentes acontecimentos sobre escassez de recursos naturais, como a gua, geraram grandes

    prejuzos ao Brasil e sua populao. Assim, o objetivo desse trabalho a elaborao de

    uma ferramenta que auxilie a administrao sustentvel desses recursos, baseada em uma

    aplicao das anlises estocsticas de fronteira. Os elementos de anlise foram os municpios

    e as Unidades Hidrogrficas de Gerenciamento de Recursos Hdricos (UGRHI) do estado de

    So Paulo. A aplicao do modelo proposto identificou regies em potencial dficit hdrico,

    ou seja, regies onde a natureza no est conseguindo suprir, de forma sustentvel, a

    demanda de gua das populaes ali residentes. O estudo revelou tambm uma

    aplicabilidade diferente para as anlises estocsticas de fronteira com foco na esfera

    ambiental.

    1 INTRODUO

    Promover o desenvolvimento da humanidade aliado preservao do meio ambiente um

    dos principais desafios do sculo XXI. Estudos recentes das Naes Unidas (UN, 2015)

    demonstram que 54 % da populao mundial vive em reas urbanas e projetam que a

    populao mundial urbana alcanar a marca de 66 % at 2050. Diante desses nmeros,

    esto previstas mudanas significativas para a populao global, tanto em termos da

    quantidade de pessoas no mundo, como em termos de sua distribuio espacial.

    Em princpio, por encontrarem melhores condies, as pessoas migram para as cidades

    esperando aprimorar a sua qualidade de vida (Rodrguez-Pose e Ketterer, 2012), uma vez

    que estes locais concentram a maioria das atividades econmicas e possuem as melhores

    redes de infraestrutura (transportes, telecomunicaes, energia eltrica, sade, educao,

    lazer, etc.). Por outro lado, esses centros compreendem atividades humanas com diversas

    interaes sociais e ambientais (Kourtit e Nijkamp, 2013) promovendo uma enorme presso

    nessas reas. Conforme Rodrigues da Silva et al. (2008), essas interaes so consequncias

    das relaes espaciais, econmicas, polticas, sociais e demogrficas existentes nas reas

    urbanizadas. Com isso, observam-se inmeros esforos em elaborar modelos capazes de

    representar as inter-relaes presentes nessas estruturas multidimensionais e complexas.

    Esta no uma preocupao recente. J na dcada de 1980 foi publicado o relatrio

    Brundtland, intitulado de Our commom future (WECD, 1987), introduzindo o conceito de

    Desenvolvimento Sustentvel. Este conceito definido como uma poltica de acolhimento

  • das necessidades das populaes atuais sem afetar a expectativa das geraes futuras em

    atenderem as suas devidas necessidades. A ideologia do Desenvolvimento Sustentvel foi

    concretizada na conferncia Rio-92 e incorporada em vrias agendas mundiais, como a

    agenda das Naes Unidas de desenvolvimento e de direitos humanos. Desde ento esse

    conceito vem sendo discutido em todos os encontros internacionais que tratam do clima e do

    futuro do planeta, gerando diversos estudos, tecnologias e metodologias que buscam

    minimizar o impacto da atividade humana sobre a natureza.

    Neste sentido, diversas ferramentas de anlise de impactos ambientais tm sido

    desenvolvidas para os mais variados fins e continuam sendo aprimoradas at hoje. Algumas

    se assemelham com as caractersticas do estudo aqui desenvolvido, nas quais as anlises de

    Capacidade de Suporte, de Pegada Ecolgica e as anlises Emergy merecem destaque. Uma

    breve introduo desses conceitos ser elaborada a seguir.

    A Capacidade de Suporte definida como a mxima populao de uma dada espcie que

    pode ser suportada em um dado habitat sem que haja prejuzos na produtividade deste habitat

    (Rees, 1996). Esse conceito evidenciou a dependncia das atividades humanas com os

    processos ecolgicos, desmistificando a ideia de que os recursos naturais so bens gratuitos

    da natureza. Com o desenvolvimento desses conceitos, foi estabelecida a Ecologia

    Econmica, que se concretizou com a teoria do Capital Natural e da Receita Natural

    (Pearce et al., 1989; Victor, 1991; Wackernagel e Rees 1997; Wackernagel et al. 1999).

    A teoria do Capital Natural propicia um entendimento do significado de sustentabilidade, ou

    seja, nenhum projeto para o desenvolvimento sustentvel se depender continuamente da

    reduo do capital produtivo da Ecosfera. A partir dessa perspectiva, uma sociedade pode

    ser considerada economicamente sustentvel se ela conseguir passar adiante um depsito

    suficiente de capital natural para as prximas geraes (Solow, 1986; Pearce, 1994).

    Neste contexto, uma questo fundamental para a sustentabilidade ecolgica a investigao

    sobre os depsitos remanescentes de Capital Natural visando verificar se estes so adequados

    para providenciar os recursos consumidos, assimilar os resduos produzidos pelas geraes

    presentes e futuras e, simultaneamente, garantir as funes gerais para a manuteno da vida

    na Ecosfera (Rees, 1996). A percepo de que as anlises de capacidade de suporte na

    natureza no so fixas e estticas tornou-se presente. As relaes so complexas e envolvem

    o nvel tecnolgico da populao, a cultura e a estrutura de produo e consumo (Arrow et

    al., 1995).

    A partir dos conceitos de Capital Natural, foi estabelecida uma abordagem diferente da

    capacidade de suporte, intitulada de Pegada Ecolgica (Rees, 1992; Wackernagel e Rees,

    1997; Wackernagel et al., 1999). Ao invs de perguntar o tamanho da populao que uma

    certa regio pode suportar, o problema foi invertido calculando-se qual a rea produtiva total

    que necessria para manter constantemente uma determinada populao.

    A Pegada Ecolgica de uma populao pode ser representada pela rea continuadamente

    requerida para gerar a quantidade de energia de biomassa e de recursos naturais necessrios

    para o consumo desta populao. Em outras palavras, a Pegada Ecolgica foi criada para

    representar o atual estado de consumo dos recursos naturais e a carga de resduos gerada

    pelo homem, definindo uma rea de ecossistema necessria para suprir as necessidades

    humanas em um determinado local e comparando com o total de rea disponvel (Kitzes et

    al., 2009). Galli (2012) analisou a pegada ecolgica em escala mundial e verificou que em

  • pases economicamente desenvolvidos a pegada ecolgica vem aumentando

    consideravelmente, enquanto em pases menos desenvolvidos, a pegada ecolgica

    permaneceu estvel ou diminuiu historicamente.

    Paralelamente aos conceitos de Capacidade de Suporte e Pegada Ecolgica, foram

    desenvolvidos os conceitos de anlise de Energia ou Emergy envolvendo um determinado

    ecossistema (Odum, 1969; Odum, 1973, 1988, 1996). A anlise de Energia o processo para

    se determinar o quanto de energia requerida, direta e indiretamente, para permitir que um

    sistema (geralmente um sistema econmico) produza um bem ou um servio. A motivao

    bsica das anlises de Energia quantificar a relao entre as atividades humanas e sua

    demanda por energia, evidenciando que essas anlises so to teis, do ponto de vista

    ecolgico, quanto as anlises econmicas convencionais (Odum, 2002). A partir da dcada

    de 1990, com a preocupao ambiental ganhando fora, as anlises de energia comearam a

    ser usadas como indicadores ambientais (Brown e Herendeen, 1996).

    De forma semelhante Pegada Ecolgica, o objetivo das anlises Emergy (como so

    geralmente chamadas) avaliar se determinada regio consegue suprir a demanda de sua

    populao por bens e servios sem que ocorra o estresse do meio ambiente e a degradao

    ambiental. Hossaini e Hewage (2013) aplicaram as anlises Emergy em provncias do

    Canad gerando mapas a partir de seus resultados para entender como o turismo pode afetar

    ecologicamente essas regies. Outro exemplo da aplicao foi a caracterizao da evoluo

    e do desenvolvimento do ambiente urbano na cidade de Macao na China atravs das anlises

    Emergy realizado por Lei et al. (2008). Foi concludo que a regio de Macao absorve mais

    quantidade de Emergy do que o seu meio ambiente pode fornecer.

    Por outro lado, combinando os clculos de Pegada Ecolgica com as anlises Emergy, Zhao

    et al. (2005) criaram um mtodo alternativo, analisando-o sobre a provncia de Gansu e

    compararam com a Pegada Ecolgica obtendo resultados parecidos. Nakajima e Ortega

    (2016) simplificaram a metodologia que une Capacidade de Suporte e Pegada Ecolgica

    com as anlises Emergy, de modo semelhante ao feito por Zhao et al. (2005). Os autores

    analisaram o muncipio de Ibina-SP e compararam com os mtodos anteriores (Pegada

    Ecolgica e Emergy), focando na questo dos combustveis fsseis. As anlises levaram

    concluso de que mais da metade de todo o impacto sobre a natureza proveniente da queima

    dos combustveis.

    Conforme o entendimento e aprimoramento das metodologias que tratam de impactos

    ambientais avanam, surgem novas ideias para contribuir na abordagem e modelagem dos

    problemas enunciados. Dessa forma, o mtodo aqui proposto tem por objetivo auxiliar nessa

    questo. Para este estudo preliminar, o foco a oferta de gua, um dos bens mais preciosos

    da Terra. Um dos cenrios futuros frequentemente investigado a escassez de gua, situao

    que afetou seriamente a regio sudeste do Brasil nos anos de 2014 e 2015. Cortes e

    racionamento foram impostos populao devido forte estiagem, gerando prejuzos. O que

    era um cenrio remoto em u