Teo Rico

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Teoria da Literatura - Prosa

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Teoria da Literatura - Prosa

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Material teórico

Responsável pelo Conteúdo:

Profa. Ms. Helba Carvalho

Revisão Textual:

Prof. Dr. Manoel Francisco Guaranha

Conceito de Literatura e suas Características

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Recomendamos que siga o seguinte roteiro para que tenha um melhor aproveitamento da unidade:

1. Leia o conteúdo teórico da disciplina; 2. Leia o esquema gráfico do conteúdo teórico; 3. Assista à apresentação narrada; 4. Faça a atividade de sistematização; 5. Faça a atividade de aprofundamento; 6. Leia o material complementar; 7. Formule suas dúvidas ao professor da disciplina por meio do módulo Mensagens do

blackboard ou ainda por meio do fórum de dúvidas da disciplina; 8. Procure ler as obras indicadas na bibliografia, principalmente aquelas que estão disponíveis na

biblioteca eletrônica da Universidade, isso irá colocar você em contato com diferentes visões sobre o problema além de fornecer a você um repertório maior de conceitos sobre a literatura e suas características.

Conceito de Literatura e suas Características Ob

jetiv

o de

Ap

rend

izado

• A Metalinguagem

• Intertextualidade

• A Linguagem Literária: Conotação e Denotação

• Conceito de Literatura

Seja bem vindo à unidade da disciplina: Conceito de Literatura e suas características. Nesta unidade, faremos uma reflexão sobre os elementos necessários para conceituar a literatura e caracterizá-la. Além disso, discutiremos outros procedimentos comuns ao texto literário: a intertextualidade, a estilização, a paródia e a metalinguagem.

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U n i d a d e : C o n c e i t o d e L i t e r a t u r a e s u a s C a r a c t e r í s t i c a s

Ao ler o Conteúdo teórico, sobre o Conceito de Literatura e suas características, você deve ter notado que a literatura, como observou Antonio Candido, humaniza o homem e atua em seu desenvolvimento, formando sua personalidade e representando certas realidades sociais e humanas. A literatura, também, permite que você saia do mundo puramente real e entre em contato com o ficcional, o imaginário, fazendo com que desencadeie em você alguns sentimentos, sensações e reflexões ainda não manifestados.

Vamos ver um exemplo de como a sua relação com a literatura pode provocar reflexões maiores em você e no seu futuro aluno?

Veja o que diz Mário Quintana, em seus versos intitulados “Um bom poema”:

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele.

(Disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/quinta.html Acessado em 12 de maio de 2012.)

Quando Mário Quintana diz que o poema “está lendo a gente”, revela que a literatura faz uma leitura do mundo que nós, seres humanos, construímos, logo a impressão que fica é que o texto literário fala algo sobre nós, em sentido amplo, mas que pode atingir a nossa vida em particular, do nosso cotidiano. O exemplo a seguir, é de um poema de Manuel Bandeira, intitulado “O bicho”, escrito na década de 40.

O bicho

Vi ontem um bicho Na imundície do pátio Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa, Não examinava nem cheirava: Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, Não era um gato,

Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. (Disponível em http://www.revista.agulha.nom.br/manuelbandeira03.html. Acessado em 12 de maio de 2012.)

Contextualização

Diálogo com o Autor

Observe a atualidade do assunto do poema e como o seu texto fala sobre a realidade humana, mais especificamente do homem em uma situação tão precária que é igualado a um bicho. Você já deve ter percebido aqui como esse texto literário é capaz de despertar sentimentos como indignação, revolta, sentimento de culpa e impotência diante da realidade social de países que sofrem com a desigualdade social. Trata-se de uma cena que podemos contemplar cada vez mais nas cidades e revela que o poema trata de um tema que ultrapassa o tempo e o nosso país.

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Você, provavelmente, já teve contato com algum texto literário. Deve ter lido, ao longo de sua vida, poemas, contos, romances, crônicas, peças de teatro etc. No momento dessa leitura, você já se perguntou o que é literatura? O que diferencia esses textos literários que você leu dos não literários? Quando surgiu a noção de literatura? Essas são algumas perguntas que vamos tentar responder nessa unidade.

Em primeiro lugar, vamos pensar um pouco sobre a palavra literatura. Ao buscarmos a origem dessa palavra, notamos que a sua origem e conceito não são pacíficos entre os estudiosos que se dedicam a essa matéria. Derivado da palavra latina littera, “significando letra do alfabeto, caráter da escrita” (SOUZA, 2006, p.26), a palavra literatura, segundo Varrão (II a.C.), significa a habilidade de ler e escrever. Porém, desde o início do século XVIII, a palavra deixa de “significar habilidade de ler e escrever, passando a designar um corpo de escritos, sem abandonar, contudo, a acepção antiga de erudição, conhecimento das letras” (SOUZA, 2006, p.29).

Esse conceito, bastante amplo, em diversos idiomas ocidentais, ainda no século XVIII, passa a significar um corpo de escritos heterogêneos sobre saberes distintos, importantes para o homem, como filosofia, eloquência, história, ciência, carta, prosa ficcional, poesia. A partir do século XIX, a palavra literatura passou a incorporar apenas o conjunto de escritos não científicos, divididos em três segmentos: filosofia, ciências do espírito (ciências morais, como políticas, históricas, culturais, sociais, humanísticas) e literatura stricto sensu (abrangendo a prosa ficcional e a poesia). Assim chegamos ao significado contemporâneo do termo literatura.

Essa breve observação histórica acerca da palavra literatura ainda não resolve muitas das questões colocadas anteriomente, pois você deve se perguntar agora o que é essa literatura que 0abrange a poesia e a prosa de ficção? Como posso saber se um texto é literário ou não?

Somente no século XX que vários estudiosos se propuseram a definir o discurso literário em oposição a outros escritos. Alguns teóricos buscaram termos que pudessem caracterizar o texto literário, como: literariedade (Roman Jakobson, 1919); denotação e conotação (Yvor Winters, 1947); desvio lingüístico (Leo Sptzer, 1948); conotação (Roland Barthes, 1964); discurso ficcional (Wolfgang Iser); imaginário/obra ficcional (Luiz Costa Lima) etc (SOUZA, 2006, p.35-36)

Partindo dos termos acima, apontados por diferentes estudiosos da literatura, observamos que não é fácil conceituar ou definir a literatura, visto que sua conceituação ainda permanece em aberto, acompanhando o dinamismo da cultura em que se insere. No entanto, isso não significa que não podemos indicar os traços peculiares do discurso literário, pensando, sobretudo, no que alguns teóricos possam concordar a respeito do que é literário ou literariedade.

Conceito de Literatura

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Jonathan Culler, em seu texto “A Literariedade”, observa que: “O problema essencial consiste em encontrar particularidades específicas das obras literárias que sejam suficientemente genéricas (gerais) para manifestar-se na prosa assim como na poesia.” (1993, p.3) Parece consenso entre os teóricos que a literariedade ou as características do discurso literário, tanto na prosa quanto na poesia está no imaginário, no ficcional. Porém, alerta Culler que:

“Mas esta concepção de literatura como ficção não é de todo exata, posto que as obras literárias também põem em cena realidades históricas e psicológicas – Napoleão, a batalha de Waterloo, as condições de trabalho dos trabalhadores das minas, o sentimento de ciúmes de um menino mimado etc. Podemos então dizer que a obra se refere mais a um mundo possível entre vários mundos possíveis do que a um mundo imaginário.” (p.10)

Para Culler, o que é fictício é o ato de narrar, de descrever os personagens etc. Isso significa que o texto literário não é puramente ficcional, na medida em que representa uma realidade possível e não a realidade imediata.

Vamos ver um exemplo disso no livro A linguagem literária, de Domício Proença Filho (2007, p.5). Quando uma pessoa diz a seguinte frase: - Uma flor nasceu no chão da minha rua! Considerando a situação da fala, a impressão que se tem é que essa situação realmente ocorreu, ou seja, que o interlocutor fez uma seleção de palavras de seu idioma e estabeleceu uma sequência que conferem à frase uma relação com a realidade imediata.

Agora observe o fragmento do poema a seguir:

Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, Garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros, É feia. Mas é realmente uma flor.

Observe que a frase mencionada, anteriormente, aparece neste texto combinada com

outros elementos, fazendo um uso especial da língua. Domício Proença Filho (2007, p.6-7) observa que, nesse fragmento do poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, não somente a distribuição das palavras no espaço proporciona um certo ritmo, mas a palavra “flor”, associada as demais afirmações, confere um sentido múltiplo, ou seja, a flor dessa rua deixa de ser um elemento vegetal, concreto, como na frase citada, e assume um sentido no próprio texto (mesmo remetendo a uma realidade dos homens e do mundo), como a esperança de mudança.

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O autor chega a seguinte conclusão:

“A fala ou discurso é, no uso cotidiano, um instrumento da informação e da ação. A significação das palavras, nesse caso, tem por base o jogo de relações configuradoras do idioma que falamos. Vincula-se a uma verdade de correspondência.” “O mesmo não acontece com o discurso literário. Este se encontra a serviço da criação artística. O texto da literatura é um objeto de linguagem ao qual se associa uma representação de realidades físicas, sociais e emocionais mediatizadas pelas palavras da língua na configuração de um objeto estético” (2007, p.7)

Assim, o texto literário exige um tipo de descodificação que se relaciona com o

repertório cultural e a capacidade do receptor, ou seja, os vários significados que o discurso literário poderá assumir não depende somente da maneira como o artista da palavra organiza o seu discurso, mas da forma como o receptor, munido de seu conhecimento, é capaz de extrair múltiplos significados do texto literário.

Você já deve ter notado, então, que o papel interativo do leitor é muito importante para desvendar o discurso literário. Por isso, quanto mais repertório tivermos, com pesquisas em livros, em sites acadêmicos, em cursos etc, mais ampliamos nossa capacidade de interpretação e análise do texto literário.

Discutindo ainda sobre as características da literatura ou do texto literário, o crítico Antonio Candido, em seu texto “O direito à literatura”, sustenta a tese de que a literatura é parte integrante dos Direitos Humanos. Isto significa que aquilo que é indispensável para mim é também para o próximo, como casa, comida, saúde, instrução etc. A partir de ideias do sociólogo francês Louis-Joseph Lebret, fundador do movimento Economia e Humanismo, e da distinção que este faz entre bens compressíveis e bens incompressíveis, Candido (1995, p.66) associa-os ao problema dos Direitos Humanos. Diz o crítico:

Certos bens são obviamente incompressíveis, como o alimento, a casa, a roupa. Outros são compressíveis, como os cosméticos, os enfeites, as roupas extras. A fronteira entre ambos é muitas vezes difícil de fixar, mesmo quando pensamos nos que são considerados indispensáveis. O primeiro litro de arroz de uma saca é menos importante do que o último, e sabemos que com base em coisas como esta se elaborou em economia da “utilidade marginal”, segundo a qual o valor de uma coisa depende da grande necessidade relativa que temos dela. O fato é que cada época e cada cultura fixam os critérios de incompressibilidade, que estão ligados à divisão da sociedade em classes, pois inclusive a educação pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que é indispensável para uma camada social não o é para outra. (1995, p.67)

A pergunta que Candido nos faz é: por que a arte e a literatura não podem ser bens incompressíveis, como a alimentação, a moradia, a instrução, o vestuário, a liberdade individual etc? A literatura pode ser uma necessidade desse tipo? O que você acha?

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Antes de responder a essa questão, veja que o crítico nos apresenta um conceito bem amplo de literatura como aquela que compreende

“todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade, em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos folclore, lenda, chiste, até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações.” (1995, p.68).

Candido argumenta que ninguém consegue passar vinte e quatro horas do dia sem se entregar, em algum momento, ao universo fabulado ou imaginário. Esse contato pode ocorrer desde um devaneio amoroso no ônibus, passando pela novela de televisão até a leitura de um romance.

Para Candido, a função da literatura é humanizar e nessa condição, de humanizadora, ela apresenta três faces:

“(1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e significado; (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação difusa e inconsciente” (1995, p.71)

As três faces, juntas, caracterizam o texto literário. Porém, é a primeira face, ou a forma de organizar o discurso ou mensagem que principia o nível humanizador, que é aquilo que confere ao homem a capacidade de refletir, adquirir o saber, ter boa disposição para com o próximo, afinar as emoções, perceber a complexidade do mundo e dos seres etc. Nesse sentido, “o conteúdo só atua por causa da forma” (1995, p.72). Como vimos anteriormente, o fragmento do poema de Drummond, sobre a flor que nasce na rua, pode desempenhar esse papel humanizador, na medida em que organiza um discurso que transcende a realidade cotidiana, proporcionando novas associações e interpretações acerca do mundo, criando novas formas de dizer.

Candido também considera que o papel humanizador da literatura está também em sua capacidade de focalizar situações de restrição dos direitos humanos, como observamos nos romances sociais de Graciliano Ramos, Aluísio Azevedo, Émile Zola, entre outros.

Encerramos essa breve introdução ao conceito de literatura com uma reflexão do próprio Antonio Candido que, ao discutir as várias formas de literatura, da erudita a popular, e o acesso das mesmas aos diferentes níveis sociais, problematiza o caso brasileiro:

A este respeito o Brasil se distingue pela alta taxa de iniqüidade, pois como é sabido temos de um lado os mais altos níveis de instrução e de cultura erudita, e de outro a massa numericamente predominante de espoliados, sem acesso aos bens desta, e, aliás, aos próprios bens materiais necessário à sobrevivência. (1995, p.74)

Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável. (1995, p.76)

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Quando falamos a respeito do conceito de literatura, no item anterior, já adiantamos algumas características da linguagem literária, como a capacidade de criar novos sentidos para as palavras. Quando o escritor constrói o seu texto, trabalha com a camada semântica das palavras que trata “do sentido e da evolução das palavras no curso do tempo”, conforme observa o crítico literário Massaud Moisés (2009, p.28). Essas palavras que integram o texto literário podem ser estudadas “estática ou didaticamente”. Moisés considera que o primeiro caso, o estático, refere-se ao sentido dos vocábulos no dicionário, chamado de denotação.

A sugestão que o crítico nos apresenta antes de iniciar a análise de um texto literário é conhecer as palavras nele empregadas no seu sentido primeiro, do dicionário. Em seguida, passa-se a estudá-las dinamicamente, ou seja, o sentido que elas adquirem com relação às demais, no corpo do texto, podendo assumir um sentido figurado ou conotativo. Assim, quando o estudioso Domício Proença Filho destaca a palavra “flor” no poema de Carlos Drummond de Andrade observamos que esta assume uma dimensão conotativa que, associada às demais palavras do poema, gera diferentes significados, que são gerados a partir das impressões emotivas do poeta em relação à sua época.

Segundo Mattoso Câmara Jr., citado por Domício Proença Filho (2007, p.33), a conotação está ligada às funções emotiva e conativa e depende dos seguintes fatores: 1) aspectos fônicos do vocábulo; 2) associação com outras palavras; 3) a própria denotação; 4) pertencer a palavras a uma dada língua especial; 5) situar-se entre os arcaísmos e regionalismos; 6) impressões emocionais coletivas ou mesmo individuais (de época).

Voltando à imagem da “flor”, presente no poema de Drummond, pode-se dizer que ela pode ser uma metáfora da poesia, aqui exposta de maneira surpreendente, pois concentra atributos inversos aos estabelecidos pela tradição poética, ou seja, ela é desbotada, sem cor, sem nome, é feia. Seu nome não está nos livros, nos dicionários, ou seja, é uma flor que ao nascer ainda não tem sentido, mas que é capaz de gerar um novo sentido, conotativo, a partir das impressões do poeta, ou seja, da função emotiva de quem expressa, o remetente, e das impressões do leitor, destinatário.

A Linguagem Literária: Conotação e Denotação

Para Pensar

Candido acredita que a sociedade brasileira mantém a desigualdade como regra, por isso a literatura erudita, considerada mais complexa, como os textos de Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Tomás Antônio Gonzaga, Cecília Meireles etc não chegam às classes populares. Você concorda com essa ideia de Candido?

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Para isso, o poeta torna de novo presente a realidade “flor”, para que possamos ter dela uma visão mais profunda e complexa, que escapa à nossa percepção imediata, ou seja, ele propõe, com isso, uma representação ou interpretação da realidade e isso se dá por meio da linguagem. Essa linguagem repercute em nós leitores na medida em que diz respeito a processos psíquicos, sociais e existenciais que coincidem com o nosso ser enquanto ser social.

Antes de tratar da linguagem especificamente literária e sua capacidade de representação do mundo, vamos, primeiro, observar algumas noções a respeito do termo “linguagem”. Segundo Iouri Lotman, citado por Domício Proença (2007, p.20), “por linguagem entendemos todo sistema de comunicação que utiliza signos organizados de modo particular”. Para se comunicar, organizamos nossas ideias, nossa forma de se expressar convertendo a realidade em signos linguísticos.

O que podemos entender por signo linguístico? De maneira geral, é tudo que possa estar no lugar de outra coisa ou representa outro, segundo Charles Sanders Peirce. Para o linguista Ferdinand Saussure, o signo é composto de duas faces: o significante, que corresponde à imagem acústica ou manifestação fônica do signo; e o significado, que é o conceito, o sentido do signo linguístico. Por exemplo, o signo linguístico “vaso” (está no lugar do objeto) e une o conceito da palavra a sua imagem acústica, ou seja, seu som representado em nosso cérebro.

Como comentamos anteriormente, quando nos comunicamos verbalmente, utilizamos uma linguagem composta de signos linguísticos. O processo de comunicação, no entanto, implica fatores e funções que é objeto de discussão de alguns estudiosos, como Roman Jakobson. Em seu livro Linguística e Comunicação, o estudioso apresenta seis fatores as quais se ligam seis funções da linguagem. Vejamos a junção dos dois esquemas do linguística:

(JAKOBSON, 2005, p.82 e 86)

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Observe que cada um desses seis fatores determina uma diferente função da linguagem. Ao lermos um texto, observaremos que, normalmente, há mais de uma função presente. Segundo Jakobson, a estrutura verbal de uma mensagem depende basicamente da função predominante. A função referencial está relacionada ao referente ou contexto, que é o objeto ou situação de que a mensagem trata. Transmite uma informação objetiva e predomina em textos científicos e jornalísticos.

A chamada função emotiva ou "expressiva", centrada no remetente, visa a uma expressão direta da atitude de quem fala em relação àquilo de que está falando. Tende a suscitar a impressão de uma certa emoção, verdadeira ou simulada; por isso, o termo "função emotiva". O leitor sente no texto a presença do remetente.

A orientação para o destinatário, a função conativa ou apelativa, encontra sua expressão gramatical mais pura no vocativo e no imperativo, no sentido de persuadir e seduzir o destinatário.

Há mensagens que servem fundamentalmente para prolongar ou interromper a comunicação, para verificar se o canal funciona ("Alô, está me ouvindo?"), para atrair a atenção do interlocutor. Quando a mensagem se orienta para o canal de comunicação ou o contato, que se expressa em certar formas de chamar a atenção para verificar se a mensagem está sendo transmitida. A este fator está associada à função fática.

Quando o emissor explica um código usando o próprio código, temos a função metalinguística. Quando um poema ou um romance fala da própria ação de fazer um poema ou um romance, observamos este tipo de função.

Ao fator cujo enfoque seja a mensagem por ela própria, temos a função poética da linguagem. Jakobson destaca que qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia ou de confinar a poesia à função poética seria uma simplificação excessiva e enganadora. A função poética não é a única função da arte verbal, mas tão somente a função dominante. Ela pode ser observada por meio das formas das palavras, da sonoridade, do ritmo, das novas possibilidades de combinações dos signos linguísticos, proporcionando novos jogos de imagens e de ideias. Com isso, a mensagem é elaborada de forma imprevista e inovadora o que caracteriza os textos literários e publicitários.

É importante destacar que as funções não se excluem: é raro encontrar uma mensagem com apenas uma função, além disso, identificar as funções é uma forma simples de interpretação da mensagem. Vejamos, agora, como os elementos da comunicação apresentados por Jakobson podem ser observados na interpretação do poema a seguir, de Manuel Bandeira:

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Irene no céu

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

- Entra Irene. Você não precisa pedir licença.

(BANDEIRA, 1993, p.142)

Na primeira estrofe, notamos uma frase toda feita de enumeração, sem verbo, com a repetição do substantivo Irene, numa anáfora caracterizadora da expressividade com que pretende jogar diante dos nossos olhos a figura central do poema. Mesmo sendo uma estrofe que faz a descrição de Irene, de forma objetiva, que pode levar o leitor a identificar a função referencial, considerando Irene como referente. Porém, a segunda estrofe do poema revela que Irene não é mais do que referente, é destinatário da mensagem, pois é a ela que o poeta e São Pedro voltam as suas mensagens, no sentido de persuadi-la a entrar no céu sem precisar pedir licença. Dessa forma, observamos que a função conativa ou apelativa se faz presente.

Na segunda estrofe, o verbo na primeira pessoa, “imagino”, marca a presença mais explícita do remetente e de como Irene e sua situação fazem parte da criação do poeta, ao imaginá-la no céu. Aqui temos a presença da função emotiva. O diálogo inusitado entre Irene e São Pedro propõe uma organização da mensagem inovadora para um poema, pois o diálogo é mais comum nos textos em prosa e em situações cotidianas de conversação. Isso imprime ao poema um tom descontraído, informal e de proximidade entre Irene e São Pedro que é reforçado na conjugação do verbo entrar ("Entra, Irene. Você não precisa pedir licença."), um desvio à norma culta: sabemos que entra é forma de imperativo de segunda pessoa do singular, e você, embora pronome de segunda, exige flexões de terceira pessoa. O desvio da norma foi em nome do efeito expressivo, traduzindo, também, a naturalidade e o afeto com que o poeta marca as palavras de São Pedro, colocando Irene à vontade no momento de seu ingresso no céu. O adjetivo bonachão e a expressão Licença, meu branco, também estão associados à forma verbal “Entra”, na medida em que parecem criar condições favoráveis à entrada de Irene. Podemos dizer que todos esses recursos utilizados pelo poeta, incluindo a repetição da palavra Irene na primeira estrofe, como anáfora, revelam a presença da função poética.

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O poeta Manuel Bandeira ao produzir a linguagem para esse poema Irene no céu, produz também um discurso que não deixa de ser “uma atividade comunicativa entre interlocutores; atividade produtora de sentidos que se dá na interação entre falantes”, conforme observou Helena Brandão (p.2). Ainda, segundo a estudiosa, todo falante/ouvinte, escritor/leitor estão inseridos em um determinado tempo histórico, espaço geográfico, pertencem a um determinado grupo que possui determinadas crenças, valores culturais, sociais, ou seja, uma ideologia. Sendo assim, “todo discurso produz sentidos que expressam as posições sociais, culturais, ideológicas dos sujeitos da linguagem.” (p.3) Assim, segundo Bakhtin (2002, p.141), o discurso só tem sentido num contexto em que é produzido, além disso, ele é também dialógico porque quando falamos ou escrevemos, dialogamos com outros discursos, trazendo a fala do outro para o nosso discurso.

O discurso se manifesta ou se materializa sob a forma de enunciados ou frases e textos, como o caso do poema de Bandeira. E, no nível discursivo, podemos apresentar mais observações sobre esse texto, a maneira como este revela um processo de relações interacionais, entre o escritor, o leitor e o contexto, que vai além do linguístico (o vocabulário, a gramática da língua, suas regras morfológicas e sintáticas), atingindo o extralinguístico, ou seja, o conhecimento histórico, cultural, social etc.

Pensando no nível discursivo do poema Irene no céu, podemos observar a condição de subserviência do negro de forma a manter todos os significados embutidos neste rótulo no período escravocrata, ou seja, no discurso literário do poeta percebemos o diálogo com outro discurso, ideologicamente marcado: Irene não demonstra autonomia alguma, e isso podemos observar claramente no verso “– Licença, meu branco!”; neste fica clara a noção despertencimento e subordinação, assim como, por ela ser boa e estar sempre de bom humor, características almejadas pelos senhores de escravos.

Podemos sintetizar este item, citando algumas características que marcam o discurso literário, levantadas por Domício Proença Filho (2007, p.40-50):

1) complexidade: em relação ao discurso comum, o texto literário ultrapassa os limites do codificador, mergulha na direção do ser individual, do ser social e do ser humano, produzindo realidades e não as reproduzindo. Nesse sentido, a obra literária não é verdadeira, mas possui a equivalência da verdade, ou seja, aquilo que pode ser, que apresenta coerência em sua estrutura. Isso significa que a obra literária apresenta verossimilhança e mimese, na medida em que imita a realidade, recriando-a;

2) multissignificação: no sentido que este tipo de discurso cria significados, apresentando uma multiplicidade de sentidos, sem obediência às normas usuais da língua;

3) predomínio da conotação: a linguagem literária é eminentemente conotativa, apresenta os elementos identificadores de uma realidade concreta que garante a verossimilhança e o segredo do valor poético de um texto;

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4) liberdade: é o espaço da criação, possibilidade de transgressão; invenção de novos meios de expressão e nova utilização dos recursos vigentes;

5) ênfase no significante: preocupação com a forma, com os recursos linguísticos e estilísticos a serem usados;

6) variabilidade: envolve mutação no tempo, no espaço, na cultura, nas pessoas, na linguaguem. O discurso literário está em permanente invenção;

7) manifesta-se em prosa ou em verso. Observadas as características do discurso literário, vamos destacar mais alguns elementos que podem ser notados em alguns textos literários.

A noção de intertextualidade foi introduzida por Julia Kristeva para o estudo da

literatura. A semioticista passa a designar por intertextualidade a noção de dialogismo. Porém, para José Luiz Fiorin (2006, p.52) a intertextualidade deveria ser um tipo composicional de dialogismo. Mas não nos interessa aqui entrar na discussão desses termos e sim apresentarmos, de forma mais simplificada, que a intertextualidade consiste no “encontro de duas materialidades linguísticas, de dois textos”, segundo Fiorin (2006, p.53). Isso significa que a intertextualidade ocorre quando se observa a presença de um texto em um outro. No campo literário, para percebermos esta relação de um texto com outro, temos que, no papel de leitores, termos um bom conhecimento dos textos literários, além de pesquisarmos bastante.

Vamos ver um exemplo de intertextualidade? Veja como o poeta Augusto Linhares dialoga com o poema Irene no céu, de Manuel Bandeira. Leia com atenção o poema a seguir:

Mãe Preta (poema de Augusto Linhares)

Quando Dodora ao Céu chegar, é minha crença, e ao Chaveiro disser: — Dá licença, meu Santo? São Pedro, vendo-a, lhe dirá com certo espanto: — Você, Dodora, não precisa de licença!...

E a porta lhe abrirá paternalmente. E ela, para de todo ser feliz numa tal hora, seu cachimbinho acende. Acende-o numa estrela; mas São Pedro lhe diz: — Não, aqui não, Dodora...

(VALENTE, 1986, p.12)

Intertextualidade

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O poema de Augusto Linhares, publicado em 1948, utiliza o poema (texto) Irene no céu, de Manuel Bandeira, publicado em Libertinagem, de 1930. Observe que Linhares, com outras palavras e expressões, como “Dodora”, “meu Santo”, “Chaveiro” etc, apresenta o seu poema também em duas estrofes, substitui o nome Irene por Dodora, mas a situação permanece a mesma: Dodora como Irene consegue entrar no céu e não precisa pedir licença. Note que o diálogo desencadeado pela figura feminina aparece logo na primeira estrofe. E a referência a uma mulher negra, preta, aparece no título do poema, sendo retomado na segunda estrofe com a citação de um hábito relacionado à “mãe preta”, o fumar cachimbo.

Observe que a segunda estrofe, ao contrário do poema de Bandeira, desenvolve a ação de Dodora após sua entrada no céu: São Pedro permite a sua entrada, mas a proíbe de fumar cachimbo. Você deve ter notado que Linhares, ao citar o texto de Bandeira, não nega o que está sendo imitado, ou seja, não se opõe ao sentido de subserviência do negro em relação ao branco, que não só está nos pedidos de licença de Irene e Dodora, mas no impedimento desta de realizar um costume (fumar cachimbo) no céu. Podemos dizer que o texto de Linhares é uma estilização do poema de Bandeira, na medida em que se trata de uma “imitação de um texto ou estilo, sem a intenção de negar o que está sendo imitado” (FIORIN, 2006, p.43).

Mas não foi só Linhares que imitou esse poema de Manuel Bandeira, no seu exercício de intertextualidade. Outros poetas também praticaram esse diálogo com Irene no céu. Veja o que o poeta contemporâneo Mário Barbosa, escreveu:

O que não dizia o poeminha do Manuel:

Irene preta! Boa Irene um amor mas nem sempre Irene está de bom humor

Se existisse mesmo o Céu imagino Irene à porta: - Pela entrada de serviço - diz S. Pedro dedo em riste - Pro inferno, seu racista - ela corta.

Irene não dá bandeira ela não é de brincadeira (Publicado em Cadernos Negros)

(BERTOZZI, 2007)

O poema de Márcio Barbosa imita o texto de Bandeira, no entanto, nega-o, atribuindo uma direção diversa ao seu sentido que acentua diferenças. Esse tipo de imitação se chama paródia. Vamos ver quais são essas diferenças?

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O título do poema já chama a atenção pois propõe apresentar algo não dito no poema de Bandeira: “O que não dizia o poeminha de Bandeira”. O poeta ressalta que nem sempre Irene está de bom humor e São Pedro pede que ela entre pela entrada de serviço. O sentido original do poema de Bandeira é subvertido na medida em que Irene, mesmo depois de morta, deve continuar submissa. Porém, sua reação imprevisível apresenta uma resposta cortante, que se impõe sobre São Pedro e expõe o problema do racismo até no céu. Márcio Barbosa, com humor e ironia, resgata também o sobrenome do poeta “bandeira”, deixando explícito na gíria “não dá bandeira”, no sentido de que Irene está em oposição à Irene de Bandeira, pois tem consciência do preconceito de raça, não admite ser tratada como diferente e se impõe diante do branco.

Você deve ter notado que os dois poemas, tanto de Augusto Linhares quanto o de Márcio Barbosa são exemplos de textos intertextuais, na medida em que dialogam, cada um a sua maneira, com o poema de Manuel Bandeira.

No próximo item, vamos observar como alguns escritores escrevem sobre o próprio ato de escrever, ao focarem em seus textos, a função metalinguística, conforme vimos nas funções da linguagem propostas por Roman Jakobson.

A palavra metalinguagem, formada com o prefixo grego meta, designa a linguagem que se debruça sobre si mesma. Por extensão, diz-se também: metadiscurso, metaliteratura, metapoema e metanarrativa.

“Quando consultamos o dicionário para nos inteirarmos do significado da palavra metalinguagem, estávamos nos valendo da função metalinguística, pois o dicionário é um repertório de palavras sobre palavras, à disposição do falante, nativo ou não.” (CEIA, 2012)

Samira Chalhub (2002, p.8) explica que (…) a linguagem da linguagem (…) é

metalinguagem – uma “leitura relacional”, isto é, mantém relações de pertença porque implica sistemas de signos de um mesmo conjunto onde as referências apontam para si próprias, e permite, também, estruturar explicativamente a descrição de um objeto.

Conforme vimos em Jakobson, a função metalinguística é percebida quando o texto fornece informações sobre o código de uso. Quando se faz uma tradução de uma língua para outra, temos um trabalho metalinguístico com o código, pois o tradutor opera com um código, uma língua, buscando uma mensagem estética mais ou menos equivalente com outro código.

A Metalinguagem

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No entanto, os exemplos que vamos ver adiante não estão no terreno da tradução, mas de que forma a literatura fala sobre ela mesma, ou seja, como o código (a linguagem literária) falando sobre o código (a linguagem literária). Se continuarmos no exemplo de Manuel Bandeira, podemos encontrar o trabalho metalinguístico nos seguintes versos:

Desencanto

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto. Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração. E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.

(BANDEIRA, 1993, p.43)

Você deve ter notado que o poeta escreve sobre o próprio ato de poetar, escrever versos. Pode-se dizer que além de ser um exercício de metalinguagem, trata-se de um metapoema, que descreve o ato de fazer poesia como uma espécie de “válvula de escape”, como um desabafo de um ser que sofre e espera a morte. Palavras como “versos” (reiterada várias vezes ao longo do poema) e “livro” compõem o percurso figurativo do “fazer poético”. Mais especificamente, porém, podemos dizer que o tema é o do “fazer poético”, como fuga do sofrimento. Já o poema Canção, de Cecília Meireles é um outro exemplo de metapoema:

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CANÇÃO Nunca eu tivera querido dizer palavra tão louca: bateu-me o vento na boca, e depois no teu ouvido. Levou somente a palavra, deixou ficar o sentido. O sentido está guardado no rosto com que te miro, neste perdido suspiro que te segue alucinado, no meu sorriso suspenso como um beijo malogrado. Nunca ninguém viu ninguém que o amor pusesse tão triste. Essa tristeza não viste, e eu sei que ela se vê bem... Só se aquele mesmo vento fechou teus olhos, também...

(MEIRELES, 2001, p.57)

No poema Canção, a poeta, diferente de Bandeira, parte de uma unidade menor do fazer poético: a palavra. É importante destacar que ela inicia sua reflexão partindo do signo linguístico e suas duas dimensões, como vimos anteriormente. A palavra dita, o seu significante ou imagem acústica foi levado pelo vento, ao passo que seu significado ou sentido ficou. E é esse significado, sentido, que a que a poeta poderá atribuir outros sentidos, característica muito particular da linguagem literária. Nesse caso, o fazer poético parece figurar uma desilusão amorosa, que só deixou tristeza, vista pelo eu lírico, mas não pelo amado.

Para não ficarmos com apenas exemplos de textos literários em verso, vamos à prosa, mais propriamente, à narrativa. Vejamos como Machado de Assis desenvolveu, em um dos seus romances, a metalinguagem ou, no caso, a metanarrativa:

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“Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e, aliás, ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regulare fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.” (ASSIS, 2001, p.172)

Note que Machado de Assis, no trecho anterior do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas mostra o narrador, o próprio Brás Cubas, definindo o estilo dessa narrativa na introdução que escreveu para o livro, “Ao leitor”. Trata-se da narrativa falando da própria narrativa: Brás Cubas escreve as suas memórias e aproveita para criticar a narrativa “direta e nutrida” da época, representada, sobretudo, pelo romance romântico. Com isso, Machado de Assis procura deixar claro que está inaugurando uma nova narrativa, que não segue uma ordem cronológica e lógica dos fatos, muito menos uma relação de causa e consequência. Por isso, compara essa narrativa e seu estilo com o desequilíbrio dos ébrios. Ainda, não podemos esquecer que Brás Cubas estende a sua crítica ao leitor, que estava acostumado com narrativas bem ordenadas e lineares do Romantismo e que, provavelmente, não teria condições intelectuais de acompanhar tamanha inovação de suas Memórias.

Finalizamos aqui a nossa primeira unidade, com os conceitos básicos acerca da linguagem literária. Espero que tenha gostado! Agora, mostre o que você aprendeu realizando as atividades propostas sobre os assuntos tratados aqui.

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Conceito de Literatura e suas Características:

Para que você possa entender melhor o conceito de literatura e compreender as suas funções, leia os excertos do livro Teoria da Literatura, de Vitor Manuel de Aguiar e Silva, disponível no endereço: http://www.ufrgs.br/proin/versao_1/aguiar/index.html

Material Complementar

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ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo, Ateliê Editorial, 2001.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da Vida Inteira. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993.

BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance. Equipe de tradução do russo: Aurora FornoniBernadini et al. 5. ed. São Paulo:Hucitec/Annablume, 2002.

BERTOZZI, Carla. “Literatura Negra: uma outra história”.Ensaio de 12 de agosto de 2007. Disponível no link http://www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=2649. Acessado em 06-02-2012.

BRANDÃO, Helena Nagamine. “Analisando o discurso”. Disponível em http://www.museulinguaportuguesa.org.br/colunas_interna.php?id_coluna=1, Acessado em 01-02-2012.

CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. 4.ed, São Paulo: Perspectiva, 1992.

CANDIDO, Antonio. “O direito à literatura”. In: Vários escritos– edição revista e ampliada. São Paulo, Duas Cidades, 1995.

CEIA, Carlos, s.v. “Metalinguagem”. E-Dicionário de Termos Literários,coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, http://www.edtl.com.pt, acessado em 06-02-2012.

CHALUB, Samira. A Metalinguagem. São Paulo, Ática, 2002.

CULLER, J.“A literariedade”. In ANGENOT, Marc etalii. Teoria Literaria. Madrid: Sigloveintiuno editores: 1993, pp. 36-50. Tradução: Manoel Francisco Guaranha.

FÁVERO, L. L. Paródia e dialogismo. In: BARROS, D. L. P. de; FIORIN, J. L. (Orgs.).Dialogismo, Polifonia, Intertextualidade: Em torno de Bakhtin. 2ª ed. São Paulo: Editora daUniversidade de São Paulo, 2003.

FILHO, Domício Proença. A linguagem literária. São Paulo, Ática, 2007.

FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo, Ática, 2006.

______. Interdiscursividade e Intertextualidade. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: outros conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2006.

JAKOBSON, Roman. Linguística e Comunicação. São Paulo, Cultrix, 2005.

MEIRELES, Cecília. Antologia Poética. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.

MOISÉS, Massaud. A análise literária. São Paulo, Cultrix, 2009.

SOUZA, Roberto Acízelo de. Introdução aos estudos literários: objetos, disciplinas, instrumentos. São Paulo, Martins Fontes, 2006.

VALENTE, Décio. O Plágio. São Paulo, n/d, 1986.

Referências

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Anotações

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