Sem Fé Sem Lei Sem Rei

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Sem Fé Sem Lei Sem Rei

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  • sem fsem leisem rei

  • Podem-se descobrir os outros em si mesmo, e perceber que no se um substncia homognea, e radicalmente diferente de tudo que no si mesmo; eu um outro. Mas cada um dos outros um eu tambm, sujeito como eu. Somente meu ponto de vista, segundo o qual todos esto l e eu estou aqui, pode realmente separ-los e distingui-los de mim. [Tztvan Todorov]

    () quero falar da descoberta que o eu faz do outro. [Tztvan Todorov]

  • QUem DefeNDe UmlUTA PelO OUTrO

  • A essa altura de nossa histria surgiu um novo grupo social. No primeiro dia do encontro, em 24 de maro de 2003, os pajs krah se reuniram, sentando-se em em crculo. Formando um outro crculo em torno deles estavam os chefes de aldeia, os ancios e os representantes da associao. Como todos os grupos J utilizam uma uma linguagem sociolgica espacializada, essa disposio espacial era um indcio seguro de uma coletividade que se distinguia em um contexto especfico. Nesse caso, a linguagem espacial operava em dois nveis distintos. Em primeiro lugar, o encontro acontecia numa aldeia inovadora sui generis, uma espcie de Naes (Krah) Unidas, e que se distinguia das aldeias comuns. Era um conjunto circular de casas em torno de um ptio central, muito parecido com todas as aldeias krah e seguindo alis o modelo ideal de aldeia dos povos de lngua J. Mas as casas no eram unidades uxorilocais, como nas aldeias reais, e sim como que embaixadas das diferentes aldeias. O padro circular era eloquente e compreendido por todos. Era igualmente fcil de entender a outra encenao espacial, a saber, o crculo de pajs circunscrito pelo anel de ancios e chefes de aldeia. Assim, os Krah traduziam e representavam visualmente em termos explicitamente krah a novidade do regime representativo no qual estavam sendo introduzidos. ***O recm-instituido colegiado de pajs passou discusso de temas como a hierarquia de especialistas, o encaminhamento de pacientes e outras questes de procedimento. Entre os temas discutidos, o principal era a reivindicao de que o estado apoiasse, e na prtica financiasse, o exerccio da medicina tradicional. O raciocnio era lcido. Se o conhecimento mdico krah era considerado importante por uma escola de medicina, ento devia de ser tratado do mesmo modo que a prtica mdica ocidental (pblica). Deveria haver instalaes adequadas e os pajs e seus auxiliares deveriam ser pagos pelo estado. A mera sugesto dessa proposta horrorizou a faculdade de medicina e deixou constangido a representante do Ministrio da Sade. A Faculdade de Medicina estava disposta a fornecer assistncia mdica ocidental aos Krah, como vinha fazendo no Parque Nacional do Xingu havia dcadas, mas estava longe de tolerar, e menos ainda patrocinar, a medicina indgena.

    Esse episdio aponta para os efeitos de espelhamento que fazem parte de qualquer negociao, e particularmente de transaes de tipo jurdico ou poltico que envolvem povos indgenas e a sociedade mais ampla. Seno vejamos. Se por um lado os wayak krah ou pajs, bem descritos pela literatura etnogrfica, podiam ser facilmente entendidos como tradicionais, por outro lado um colegiado de wayak

  • com procedimentos acordados era uma novidade institucional decorrente de uma situao ou negociao especfica, no caso a reivindicao de uma medicina tradicional apoiada pelo estado, espelhando explicitamente a estrutura da bio-medicina ao mesmo tempo em que exigia reconhecimento por parte dela. O colegiado era por isso menos autntico? Mas ento, o que fazer com a forma espacial na qual se havia apresentado? O colegiado propriamene dito foi encenado por meio de dispositivos espaciais e lingsticos estritamente tradicionais entre os Krah, mostrando que recursos culturais krah haviam sido mobilizados na empreitada. A questo tradio versus inovao se torna extraordinarimente intrincada. Em que bases h de se julgar da autenticidade do procedimento como um todo? Na forma de reivindicar (que pode ser entendida como tradicional) ou no objeto da reivindicao (que parece inovar)? Ou ainda na coletividade (que tambm por sua vez inova em linguagem tradicional)? A moral da histria, ao contrrio do que se possa pensar, no decidir sobre a autenticidade do procedimento; a moral que a autenticidade uma questo indecidvel. O colegiado era por isso menos autntico? Mas ento, o que fazer com a forma espacial na qual se havia apresentado? O colegiado propriamene dito foi encenado por meio de dispositivos espaciais e lingsticos estritamente tradicionais entre os Krah, mostrando que recursos culturais krah haviam sido mobilizados na empreitada. A questo tradio versus inovao se torna extraordinarimente intrincada. Em que bases h de se julgar da autenticidade do procedimento como um todo? Na forma de reivindicar (que pode ser entendida como tradicional) ou no objeto da reivindicao (que parece inovar)? Ou ainda na coletividade (que tambm por sua vez inova em linguagem tradicional)? A moral da histria, ao contrrio do que se possa pensar, no decidir sobre a autenticidade do procedimento; a moral que a autenticidade uma questo indecidvel.

    [Manuela Carneiro da Cunha, Cantes de ida y vuelta, Direitos intelectuais indgenas, cultura e cultura, Uma perereca e outras histrias]

  • iN The AmericAs geNOciDe is sO celebrATOry

    Vandalism | Jimmie Durham, Sila, Calabria, October 11, 2013http://www.forumpermanente.org/revista/numero-4/textos/vandalism?searchterm=Vandalism

  • A irm Tuira Kayapo, me e guerreira indgena, mostrou ao mundo o que acontece quando as mulheres tomam as rdeas do seu destino. O mundo a conheceu em 1989, no encontro em Altamira, Brasil, contra a construo de represas no rio Xingu [amaznia brasileira]. Apareceu na sala com sua pintura de guerra, nua e com um faco. Aproximou-se do presidente da companhia eltrica do Brasil e colocou o faco em seu pescoo e proclamou que o povo indgena e toda a Amaznia consideravam as intervenes no rio como um ato de terrorismo e guerra.

    E continou, dizendo: Voc um mentiroso! No necessitamos de eletricidade! A eletricidade no vai nos proporcionar comida. Necessitamos que nossos rios fluam livremente, pois nosso futuro e de toda a humanidade depende disso. Necessitamos de nossas florestas intactas para poder recolher nosso alimento. No necessitamos de sua represa!

    Despediu-se dizendo:Meu apelido: ofendida;Meu nome: humilhada;Meu estado: rebeldeMinha idade: a idade da pedra.

  • No livro, voc pergunta: O que acontece quando se leva o pensamento nativo a srio?. E continua: Levar a srio , para comear, no neutralizar. Partindo destes termos, quais so as maiores ameaas de neutralizao do pensamento indgena no Brasil hoje?

    Neutralizar este pensamento significa reduzi-lo ao efeito de um complexo de causas ou condies cuja posse conceitual no lhes pertence. Significa, como escrevi no livro, pr entre parnteses a questo de saber se e como tal pensamento ilustra universais cognitivos da espcie humana, explica-se por certos modos de transmisso socialmente determinada do conhecimento, exprime uma viso de mundo culturalmente particular, valida funcionalmente a distribuio do poder poltico, e outras tantas formas de neutralizao do pensamento alheio. Trata-se de suspender tais explicaes-padro, tpicas das cincias humanas, ou, pelo menos, evitar encerrar a antropologia nela. Trata-se de decidir, em suma, pensar o outro pensamento como uma atualizao de virtualidades insuspeitas do pensamento em geral, o nosso inclusive. Trat-lo como tratamos qualquer sistema intelectual ocidental: como algo que diz algo que deve ser tratado em seus prprios termos, se quisermos respeit-lo e incorpor-lo como uma contribuio singular e valiosa nossa prpria e orgulhosa tradio intelectual. S depois disso poderemos, se tal for nossa veleidade, anatomiz-lo e dissec-lo segundo os instrumentos usuais da reduo cientfica das prticas de sentido humano.

    Mas sua pergunta acrescentava no Brasil hoje. No Brasil hoje o que se v muito mais que uma neutralizao do pensamento nativo. O que se v uma ofensiva feroz para acabar com os nativos, para varrer suas formas de vida (e portanto de pensamento) da face do territrio nacional. O que se pretende hoje o que sempre se pretendeu, mas hoje os mtodos so ao mesmo tempo cada vez mais sutis e eficazes sem deixarem de ser brutais como sempre foram silenciar os ndios, desindianizar todo pensamento nativo, de modo a transformar aquela caboclada atrasada toda que continua a rexistir (este o modo de existncia dos ndios no Brasil hoje: a rexistncia) em pobre, isto , em bom brasileiro, mal assistencializado, mal alfabetizado, convertido ao cristianismo evanglico por um exrcito de missionrios fanticos, transformado em consumidor dcil do estoque infinito de porcarias produzidas pela economia mundial. Em suma: fazer do ndio (os que no tiverem sido exterminados antes) um cidado. Cidado pobre, claro. ndio rico seria uma ofensa praticamente teolgica, uma heresia, ideologia nacional. Para faz-lo passar de ndio a pobre, preciso primeiro tirar dele o que ele tem suas terras, seu modo de vida, os fundamentos ecolgicos e morais de sua

  • economia, sua autonomia poltica interna para obrig-lo a desejar consumir o que ele no tem o que produzido na terra dos outros (no pas do agronegcio, por exemplo, ou nas fbricas chinesas).

    http://oglobo.globo.com/cultura/livros/eduardo-viveiros-de-castro-que-se-ve-no-brasil-hoje-uma-ofensiva-feroz-contra-os-indios-17261624

  • Hoje faz 11 anos que nosso irmo e companheiro Mrio Juruna (Xavante) nos deixou. Foi o nico deputado federal ndio na histria do Brasil, eleito pelo PDT /RJ(1983-1987). Responsvel pela criao da Comisso Permanente do ndio, que levou o problema indgena ao reconhecimento oficial. Era destemido, enfrentavam os generais e a cpula em plena Ditatura Militar, pelos direitos indgenas.Foi tambm o nico deputado na histria do Brasil a denunciar o esquema de corru