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    [Recenso a] HOMERO - Ilada

    Autor(es): Ferreira, Jos Ribeiro

    Publicado por: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de EstudosClssicos

    URLpersistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/28041

    Accessed : 1-Dec-2018 11:02:40

    digitalis.uc.pt

  • Vol. LVII

    IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRACOIMBRA UNIVERSITY PRESS

  • H O M E R O , Ilada, Int roduo e t raduo de Frederico Loureno (Lisboa, Livros Cotovia, 2005) 503 p .

    CANTO DE SANGUE E LGRIMAS: A ILADA

    A Ilada um canto de sangue e lgrimas, em que o sofrimento redime e aparece corno espcie de aprendizagem; um texto pico que cobre apenas breves dias da Guerra de Tria, com. a narrao de sucessivos combates em que os prprios deuses se envolvem, so feridos; um. poema de guerra em que os cavalos de Aquiles tambm choram, e em que os momentos de paz so esparsas ilhas apaziguadoras e quase sempre evocao de um passado feliz que contrasta com a guerra, morte e sofrimento actuais. Um poema em que, como acentua Lusa Neto Jorge e lembra Frederico Loureno (p. 7), luz e morte coincidem hora a hora.

    Tudo comea com. um acto de prepotncia e insolncia ou hybris de Agammnon, praticado contra o sacerdote Crises que, escudado com as insgnias -de Apolo, veio suplicar a libertao da filha, Criseida, a troco de opulento resgate. Em consequncia, o deus lana sobre o exrcito uma peste que aos poucos vai dizimando homens e animais, at que Aquiles, ultrapassando o chefe da expe-dio, resolve convocar a assembleia dos guerreiros e consultar o adivinho Calcas. Dele obtm a revelao de que tudo se deve ofensa de Agammnon e de que a calamidade no cessar sem a jovem ser devolvida ao pai e de Apolo ser apaziguado com um sacrifcio. E imediata a. revolta do Atrida, por se ver constrangido a devolver Criseida ao pai, e logo anuncia que vai retirar a cativa de Aquiles, Briseida. Entre os dois guerreiros gera-se ento uma discusso violenta que termina com a retirada do Pelida, encolerizado, e ao combate, quebrada a confiana, se recusa voltar, mesmo que insistentemente solicitado por todos, e pelo prprio Agammnon que apresenta desculpas e lhe promete volumosa recompensa. S a morte do seu grande amigo Ptroclo por Heitor, chefe dos Troianos, e o desejo de vingana o fazem regressar. No depe a clera, esta apenas muda de sentido: agora concentra-se no filho de Pramo e nele procura satisfazer a sua ira pela perda do amigo. Nem a morte do grande guerreiro troiano aplaca essa clera. S se apazigua, quando o velho rei de lion, humilde, destroado pela dor e consternado, vem sua tenda, lhe abraa os joelhos, lhe beija as mos que tantos dos seus filhos mataram e lhe suplica o corpo do filho.

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    Ento Aquiles comove-se, lembra-se da dor .do seu prprio pai que o no ver regressar vivo e, alm do corpo, concede doze dias para as devidas honras fnebres. com elas que o poema termina. Narra assim um. episdio e breve momento da guerra de Tria, mas concentra e simboliza todo esse conflito de dez anos.

    A verso da Ilada, por Frederico Loureno, publicada nos Livros Cotovia, na roupagem, de verso solto, ritmado e de flego amplo, j utilizado na traduo da Odisseia (Lisboa, Cotovia, 2,003), merece-me palavras idnticas s que na ocasio escrevi: convida-nos leitura, leva-nos embalados na fruio ritmada do texto, interessa-nos na narrao dos combates, prende-rios s descries dos episdios, envolve-nos nos sofrimentos e emoes das figuras. Alm. da sua. qualidade literria, vem ainda colmatar uma lacuna grave, j que as tradues at agora disponveis (especificadas no Dicionrio de Literatura Grega Lisboa, Verbo, 2001), de modo geral no satisfazem, por dificilmente disfararem a idade, ou pecarem pela falta de fidelidade, ou serem parcelares e fragmentrias. Da que subscreva as palavras de Frederico Loureno, na Introduo (p. 8), quando acentua que os trechos da Ilada apresentados por M. H. Rocha Pereira na antologia Hlade so, pode dizer-se com rigorosa objectividade, a primeira traduo, desde o Renascimento aos nossos dias, a exprimir em lngua portuguesa o que est, de facto, no texto grego. Da que, como j o fiz a respeito da Odisseia, me apraza, saudar, de forma efusiva, esta verso da Ilada - que agrada mesmo pela apresentao esttica do livro, a sua qualidade grfica. Bem o merece este notvel, poema que Eugnio de Andrade diz ter sempre mo (O Sal da Lngua) e no qual Miguel Torga considera necessrio de vez em quando retemperar a coragem (Dirio de 26.1.1942). Para fazer tambm minhas as palavras de Frederico Loureno, na abertura da "Introduo" (p. 7), o primeiro livro da literatura europeia que, sob certo ponto de vista, nenhum outro que se lhe tenha seguido conseguiu superar e que, lido hoje, no sculo XXI depois de Cristo, mantm inalterada a sua capacidade esmagadora de comover e perturbar.

    Judiciosa, medida e bem informada, a "Introduo" (pp, 7-25) discute os principais problemas e aborda os assuntos mais relevantes para. a compreenso do poema: a complexa histria da transmisso do texto e a sua divulgao em. Portugal; a questo da autoria e da existncia de um poeta de nome Homero; a conscincia cio valor da poesia que, segundo Frederico Loureno, um dos aspectos mais belos da Ilada (p. 22); a importncia, dos smiles como processo literrio (pp. 22-23). No que respeita discusso do papel de oralidade e escrita na composio da Ilada e da Odisseia, manifesta aceitao pela tendncia actual que, embora valorize a tradio oral, se inclina para. uma composio j escrita, dos poemas, considerando ser difcil no vermos na concepo e estrutura arquitectnicas da Ilada dados que apontam no sentido da escrita (p. 9). Em

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    breve resumo da aco, aponta o facto escolhido pelo poeta para pr em movimento a aco do poema -. a desconsiderao de Agammnon a Crises (p. 10) - sublinha alguns episdios mais significativos e discute passos ou aspectos controversos, casos cia Boiotia ou "Catlogo das Naus" (p. 10), dos alegados vestgios de teriomorfismo (pp. 24-25). Bem apropriadas so as linhas que dedica descrio do Escudo de Aquiles do Canto XVIII que considera todo um universo de experincia humana que a est gravado (p. 20).

    A caracterizao das figuras breve mas fina e certeira, sublinhando os traos fundamentais: Aquiles, Heitor, Diomedes, Nestor, Agammnon, Ulisses, Ajax, P ri amo, Hcuba, Andrmaca, Helena, Paris aparecem vivos, fortes, imprevistos nas suas reaces, sentimentos e exploses. Dou como exemplo estas rpidas notas sobre o contraste entre Heitor e Paris (p. 18): Se Heitor "enche as medidas" a qualquer leitor pela nobreza, virilidade, esprito de sacrifcio e digna aceitao da tragicidade do destino humano .(alm de ser ideal, filho, esposo e pai), Paris fascina pela irresponsabilidade, narcisismo e despreocupada entrega ao prazer do sexo. Ou estas sobre duas das principais figuras femininas do poema que ficaro na mente do leitor (p. 18): Hcuba com o seu sofrimento esmagador; Andrmaca, de cuja boca Homero faz sempre fluir poesia da mais arrebatada genialidade. Curioso (e de certo modo estranho) que, a propsito da Embaixada a. Aquiles, no Canto IX, constituda por Ulisses, jax e Fnix, embora o texto grego empregue o dual (vv. 182 sqq.), portanto pensando apenas em dois - a famosa questo dos duais - Frederico Loureno parea pender para a interpretao que resolve o problema pela destituio ou desqualificao de Fnix, j que o no refere nestas palavras relativas a essa difcil misso (p. 15): Agammnon manda Ulisses e jax tenda de Aquiles com a incumbncia de prometerem mundos e fundos se ele reconsiderar a sua posio. Considero, contudo, acertado o seguro sublinhar de que a natureza da relao entre Aquiles e Ptroclo no deve ser vista como uma relao homoertca e sexual, j que tal seria tresler o que Homero nos diz sobre homens e mulheres, tanto na Ilada como na Odisseia, mas antes ser olhada como uma relao de amor herico, elo de lealdade na mundividncia homrica no menos inquebrantvel na morte - e depois dela - do que no convvio dirio (pp. 12-13). No menos acertado o realce dado discusso e ao conflito entre Agammnon e Aquiles, nascidos pelo facto de o primeiro, soberano mximo e 'pastor do povo', sentir a mais ressabiada inveja perante o segundo, o maior de todos os heris (p. 11), o que o leva a desconsider-lo, retirando-lhe Briseida que, ao contrrio de Criseida para Agammnon, muito mais do que mero objecto sexual, e inquinando definitivamente a relao de confiana entre os dois; bem como o sublinhar da clera ou mnis de Aquiles que dessa desconsiderao nasce e se vai tornar o tema central e aglutinador do poema: desencadeada no Canto I, s se apazigua no XXIV, no momento em que Pramo, smbolo do sofrimento de pai e de rei, vai

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    suplicar o corpo do