Publicaçoes Desertos Verdes

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Índice O Latifúndio dos Eucaliptos Informações básicas sobre as monoculturas de árvores e as indústrias de papel No dia 08 de março de 2006, muita gente ficou sem entender porque duas mil mulheres camponesas gaúchas realizaram uma ação política de desobediência civil, contra a empresa multinacional Aracruz Celulose, para chamar a atenção dos males que as monoculturas do agronegócio multinacional, em especial os novos latifúndios de eucalipto e pinus, causam ao povo e ao meio-ambiente. Apresentação

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  • ndice

    Apresentao 4As mudas romperam o silncio 5Captulo I - O Eucalipto 6Captulo II - O Pinus 9Captulo III - Accia Negra 10Captulo IV - As Monoculturas 10Captulo V - Monoculturas de Eucalipto e Pinus 12Captulo VI - O novo tipo de Latifndio 13Captulo VII - As Multinacionais do Eucalpto 15Captulo VIII - Deserto Verde 17Captulo IX - A Sujeira do Papel Branco 19Captulo X - O Princpio da Precauo 22Captulo XI - As leis Que Protegem 24 Captulo XII - Mulheres Enfrentam 26Captulo XIII - Por Que o Ato na Aracruz 29Captulo XIV - Os Vendilhes da Natureza 31

    O Latifndio dos Eucaliptos

    Informaes bsicas sobre as monoculturas de rvores

    e as indstrias de papel

  • Apresentao

    No dia 08 de maro de 2006, muita gente ficou sem entender porque duas mil mulheres camponesas gachas realizaram uma ao poltica de desobedincia civil, contra a empresa multinacional Aracruz Celulose, para chamar a ateno dos males que as monoculturas do agronegcio multinacional, em especial os novos latifndios de eucalipto e pinus, causam ao povo e ao meio-ambiente.

    Antes da ao das mulheres da Via Campesina, o debate sobre os Desertos Verdes estava bloqueado ao grande pblico. A grande mdia perseguiu as mulheres e promoveu forte campanha de criminalizao, mas a ao chamou a ateno do grande pblico para o problema e despertou o debate na sociedade.

    Esta cartilha uma tentativa de ampliar a discusso sobre os impactos - sociais, econmicos e ambientais - destes novos latifndios que hoje expulsam nosso povo do campo e ameaam a natureza. So trs grandes empresas que pretendem adquirir cerca de um milho de hectares de terra que sero utilizados para o plantio da monocultura de eucalipto e pinus, para a produo de celulose e papel.

    Nesta cartilha, procuramos trazer um conjunto de informaes para aprofundar o debate e o estudo sobre o tema, provocado e iniciado com o conjunto da populao, em maro de 2006.

  • As mudas romperam o silncio

    I Havia um silncio, sepulcral

    sobre dezoito mil hectares roubados dos povos tupi-guarani

    sobre dez mil famlias quilombolasexpulsas de seus territrios

    sobre milhes de litros de herbicidas derramados nas plantaes

    Havia um silncio promscuosobre o cloro utilizado no branqueamento do papel

    a produzir toxinas que agridem plantas, bichos e gentes

    sobre o desaparecimento de mais de quatrocentas espcies de aves e quarenta

    de mamferosdo norte do Esprito Santo

    Havia um silncio intransponvelsobre a natureza de uma planta que consome trinta litros de gua-dia

    e no d flores nem sementes

    sobre uma plantao que produzia bilhes e mais bilhes de dlares para

    meia dzia de senhores

    Havia um silncio espessosobre milhares de hectares acumulados

    no Esprito Santo, Minas, Bahiae Rio Grande do Sul

    Havia um silncio cmplicesobre a destruio da Mata Atlntica e

    dos pampas pelo cultivo homogneo de uma s rvore: o eucalipto.

    Havia um silncio compradosobre a volpia do lucro

    Sim, havia um silncio globalsobre os capitais suecos sobre as

    empresas norueguesassobre a grande banca nacional

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    Por fim havia um imenso deserto verdeem concerto com o silncio.

    II

    De repente milhares de mulheres se juntaram e destruram mudas a opresso e a mentira

    As mudas gritaramde repente

    e no mais que de repente o riso da burguesia fez-se espanto

    tornou-se esgar, desconcerto.

    III

    A ordem levantou-se incrdulaclamando progresso e cinciaimprecando em termos chulos

    obscenidades e calo

    Jornais, rdios, revistas, a internet e a TV,as empresas anunciantes

    executivos bem-falantes assessores rastejantes

    tcnicos bem-pensantesos governos vacilantes

    a direita vociferantee todos os extremistas de centro

    fizeram coro, eco, comcio e declaraesdefendendo o capital:

    Elas no podem romper o silncio!

    E clamaram por degola.

    IV

    De repenteno mais que de repente milhares de

    mulheresdestruram o silncio

    Naquele dianas terras da Aracruz

    as mulheres da Via Campesinaforam o nosso gestoforam a nossa fala.

    O Latifndio dos Eucaliptos

    Informaes bsicas sobre as monoculturas de rvores

    e as indstrias de papel

  • I - O Eucalipto

    O Eucalipto uma rvore originria de regies midas da Austrlia. Mas o ser humano, em sua necessidade de sobrevivncia e em sua curiosidade natural, levou plantas de umas regies para outras. O eucalipto tambm foi espalhado para todas as partes do planeta terra.

    Em seu habitat de origem existe gua em abundncia, por isto ele est bem adaptado naquele meio onde a natureza o gerou. por isto que sua natureza, sua estrutura gentica, de consumir muita gua durante seu crescimento.

    O eucalipto se criou e se desenvolveu ao longo de milhes de anos de adaptao numa regio quente e mida. Isto explica porque nas regies frias ou nas regies secas ele se desenvolve de maneira mais lenta, como no caso da Europa e dos Estados Unidos, que tem grande parte do ano com o clima muito frio.

    O Brasil uma nao de clima quente e tropical. O eucalipto se adaptou bem aqui e cresce rpido. Nestas regies, como esta rvore tem uma capacidade muito grande de fazer fotossntese, isto , retirar energia do sol e transformar em madeira (biomassa), ela tem um crescimento muito rpido. Em pouco tempo se transforma numa baita rvore. Outras rvores nativas, adaptadas ao meio ambiente, demoram o dobro do tempo para chegar ao mesmo tamanho.

    H uma diferena, porm. Para alcanar este crescimento rpido o eucalipto precisa de muita gua. Em mdia, ao longo de suas fases de crescimento, um p de eucalipto consome 30 litros de gua por dia. O Brasil, embora tenha muito rios e bastante gua, no tem vastas regies midas como tem no habitat natural do eucalipto. Portanto, no Brasil, plantar eucalipto em grande escala numa mesma regio, pode provocar grandes desequilbrios nas guas existentes nesta regio. Isto provoca o que os tcnicos chamam de dficit hdrico, isto , falta de gua. O eucalipto precisa de muita gua para crescer, tem

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    O Latifndio dos Eucaliptos

    Informaes bsicas sobre as monoculturas de rvores

    e as indstrias de papel

  • razes profundas e ele vai buscar esta gua onde ela est. Como conseqncia, vai faltar na regio para outras plantas, para consumo humano, para animais. Vo secar vrzeas, vertentes, poos artesianos, sangas. Vai tambm ressecar a terra de superfcie na regio toda e vai alterar o regime de chuvas. A falta de umidade torna mais difcil a entrada de frentes frias e acontecem mais estiagens nas regies onde se planta eucalipto demais.

    E tem ainda um agravante: uma vez formada uma monocultura de eucalipto, quando chove, a gua escorre e infiltra pouco. Por isto, alm de consumir muito gua, ele repe pouca. Isto, com o passar do tempo, reduz drasticamente a umidade em toda a regio onde so plantadas as grandes monoculturas de eucaliptos. Em perodos de estiagens isto se torna dramtico para o povo, pois falta gua para as casas (para o consumo das pessoas ) e para matar a sede dos animais.

    Outra conseqncia a perda de biodiversidade, a diminuio dos diversos seres vivos existentes na natureza da regio, tanto plantas como animais. Outras rvores e outras espcies vegetais no conseguem se criar junto com uma plantao de eucaliptos. Poucos tipos de passarinhos se criam em plantaes de eucaliptos. Um dos poucos que se criam so as caturritas, que acabam aumentando demais e prejudicando os pequenos agricultores quando elas devastam as lavouras de milho e girassol.

    Estes problemas acontecem pela falta de umidade, mas tambm porque o eucalipto uma planta extica, acostumada e adaptada a outro meio ambiente, onde h outro tipo de biodiversidade. Quase nada se cria onde foi plantada grande monocultura de eucalipto no Brasil, em nosso meio ambiente. A fibra do eucalipto considerada de grande valor para a indstria do papel, por isto ele muito plantado no mundo todo. Mas as multinacionais do papel preferem as regies onde o eucalipto cresa rpido, pois a conseguem obter lucro maior e mais rpido. Assim, o Brasil, por suas condies de clima e solo, entrou em cheio no mapa da produo de eucalipto em grande escala.

    Durante muitos anos o eucalipto no criou problemas para o meio ambiente no Brasil, pois os agricultores plantavam um aqui, outro acol, faziam pequenos capes para ter lenha com crescimento mais rpido ou at para ter madeira. Como eram plantadas em pequenas quantidades e bem distribudos num grande espao geogrfico, traziam o benefcio de produzir lenha boa em pouco tempo e quase nenhum problema para a me natureza, para o meio ambiente. E assim o eucalipto se espalhou por vrias regies do Brasil, ao longo de muitos anos sem criar problemas para ningum e at trazendo vrios benefcios. Algumas variedades de eucalipto so usados pelos camponeses como remd