Publicaçoes Desertos Verdes

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O conflito ambiental no entorno da Aracruz Celulose S/A - Espírito Santo Colaboradoes Arlete Schubert Fábio Villas Daniela Meirelles Marcelo Calazans ::: 2006 ::: Manuel Bandeira Dorival Caymmi Vou vendo o que o rio faz Quando o rio não faz nada Vejo os rastros que ele traz Numa seqüência arrastada Do que ficou para trás Vou vendo e vou meditando

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  • H2O para CeluloseX

    guapara todas as lnguas

    O conflito ambiental no entorno daAracruz Celulose S/A - Esprito Santo

    Daniela MeirellesMarcelo Calazans

    ColaboradoesArlete Schubert

    Fbio Villas

    ::: 2006 :::

  • gua de fonte... gua de oceano... gua de pranto...gua de rio...

    gua de chuva, gua cantante das lavadas...Tm para mim, todas, consolos de acalanto,

    A que sorrio...

    Manuel Bandeira

    Vou vendo o que o rio fazQuando o rio no faz nadaVejo os rastros que ele trazNuma seqncia arrastada

    Do que ficou para trsVou vendo e vou meditando

    Dorival Caymmi

  • SUMRIO

    APRESENTAO ........................................................................... 9

    INTRODUO............................................................................. 11

    DESERTO VERDETecno-natura, rvore mquina, floresta industrial. ................. 15

    1. GUA, SILNCIO DA ARACRUZ CELULOSE .............................. 17

    2. PAPEL PARA O NORTE, HIPER-CONSUMO DE GUA NO SULUma hidro-genealogia das fbricas da Aracruz Celulose. ....... 24

    2.1. Uma histria da primeira fbrica no Esprito Santo 1978. ............................................................................ 26

    2.2. A problemtica ambiental da segunda fbrica 1991. 30

    2.3. Mais gua para a terceira fbrica 2003. ................... 39

    3. GUA E MONOCULTURA DO EUCALIPTO ............................... 44

    3.1. Publicidade e Discurso Cientfico. A pesquisa da verdadeadequada ao interesse da Aracruz Celulose S/A. .......... 44

    3.2. Outras cincias, verdades, interesses. Casos na frica doSul, na ndia, Chile, Tailndia e Brasil. ........................... 49

    3.3.A problemtica da monocultura da Aracruz Celulose S/A.A crise hdrica no Norte do Estado do Esprito Santo. .. 51

  • 4. A GOTA DGUAConflitos e Resistncia na sociedade civil. .............................. 58

    4.1. Quilombolas do Sap do Norte - gua mngua ......... 58

    4.2. Esgoto de Aracruz para os rios Guaxindiba e Sahy Aldeias tipinikins. ......................................................... 66

    4.3. Esgoto do bairro Coqueiral para aldeia guarani doPiraqua. .................................................................. 72

    4.4. Canal Caboclo Bernardo: uma clara ilegalidade. .......... 76

    4.5. Aldeia Tupinikim de Comboios, afundando com o canal ...................................................................................... 79

    4.6. Barra do Riacho um mar de problemas trazido pelaAracruz ......................................................................... 81

    4.7. Vila do Riacho cheia de privaes ............................. 82

    5. CONCLUSO E RECOMENDAES. ........................................ 87

  • H2O para a Celulose X gua para todas as lnguas 9

    Segn Eduardo Galeano Las guerras del agua ya estnocurriendo. Son guerras de conquista, pero los invasores no echanbombas ni desembarcan tropas. Viajan vestidos de civil estostecncratas internacionales que someten a los pases pobres aestado de sitio y exigen privatizacin o muerte. Sus armas, mort-feros instrumentos de extorsin y de castigo, no hacen bulto nimeten ruido.

    En muchos lugares donde se han instalado grandesmonocultivos de rboles y gigantescas fbricas de celulosa comoes el caso de Aracruz Celulose en Espirito Santo- la conquista y laprivatizacin del agua ya es un hecho. Ahora es privativa de lasgrandes multinacionales y se le ha quitado a la gente. Existen muchostestimonios donde la gente habla de las pocas que tenan agua yque esa agua desapareci despus de que llegaron los grandesmonocultivos de rboles. Otros tantos cuentan cmo las grandesfbricas de celulosa se apropiaron de los cursos de agua de quedisponan las comunidades y de como los contaminaron.

    Sin embargo, los forestales y sus seguidores siguen afirman-do que esto no sucede. En un informe de certificacin nos sorprendiencontrar la siguiente afirmacin: Es sabido que el principal efectoambiental del eucalipto es su fuerte uso del agua del suelo. Quizsno nos sorprendi tanto encontrar esta otra afirmacin en el mismoinforme: an no se ha hecho ningn trabajo sobre el impacto delas operaciones forestales sobre el ciclo hidrolgico en su conjun-to. Es quizs la frase que ms hemos escuchado de parte de lostcnicos relacionados con empresas forestales en estos ltimosaos: no hay evidencia cientfica de que las plantaciones impactansobre el agua. Frente a eso, la gente afectada muestra indignada

    APRESENTAO

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    sus pozos y cursos de agua secos como prueba de que no solo laevidencia existe sino que sobra.

    Es que tanto las fbricas de celulosa como las plantacionesde eucalipto que las abastecen son voraces consumidoras de agua.Por ejemplo, la fbrica de celulosa de la empresa finlandesa Botniaque se pretende instalar en Uruguay, usar todos los das 86 millonesde litros de agua. Esto equivale a 4.300 camiones cisterna de 20.000litros cada uno. Necesitar adems, unas 140.000 hectreas deeucalipto. Cada eucalipto consume en promedio 30 litros de aguapor da y cada hectrea tiene 1.100 rboles. Es decir, que esasplantaciones consumen diariamente la gigantesca cifra de 4.620millones de litros, que equivale a una fila de camiones cisterna de20.000 litros que empieza en Montevideo y termina en Rio de Ja-neiro. Todos los das!

    Por eso consideramos que este gran esfuerzo realizado porlos compaeros de FASE es un gran aporte para todos quienes que-remos y necesitamos limitar la expansin de los monocultivosforestales y la instalacin de fbricas de celulosa y para quienesnecesitan evidencias de la forma en que empresas como Aracruz seestn apropiando silenciosa y gratuitamente de un recurso tanvital para la gente como lo es el agua.

    Ana Filippini

    Movimiento Mundial por los Bosques Tropicales(WRM)

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    INTRODUO

    Realizado pela equipe da FASE no Esprito Santo, com o apoioda Ajuda da Igreja Norueguesa (NCA Nordic Church Aid), estepequeno estudo rene contribuies de diferentes pessoas, enti-dades e redes da sociedade brasileira, sendo fruto de um trabalhoem parceria atravs da Rede Deserto Verde, da Rede de JustiaAmbiental, da Fundao Osvaldo Cruz (FIOCRUZ) e do Projeto deDireitos Econmicos, Sociais e Culturais, da FASE Nacional.

    Seu objetivo identificar e analisar, (sem nenhuma pretensodisciplinar), algumas entre as principais disputas por gua, envol-vendo a sociedade civil, habitante do entorno do complexo agro-industrial da Aracruz Celulose, no Esprito Santo, Brasil. Trabalhacom casos concretos de conflitos, ora associados ao altssimo con-sumo nas fbricas de celulose, ora relacionados monocultura emlarga escala do eucalipto de rpido crescimento. A idia aqui aprofundar a compreenso da gnese, do modo de ser e naturezaprpria desses conflitos, atravs principalmente da escuta diretados atores sociais envolvidos, da anlise das estratgias e perspec-tivas em confronto e da pesquisa de textos e documentos: da mdia,da empresa, do Estado, dos movimentos sociais.

    Um segundo objetivo, em sentido mais amplo que o anterior,se lana na tentativa de um exerccio poltico, em busca de outroscaminhos para as relaes entre as sociedades do Norte e do Sul doplaneta. E, neste aspecto, a anlise do complexo da Aracruz Celulo-se exemplar. Transpe grandes distncias histricas e geogrfi-cas, e perpassa enormes diferenas econmicas, sociais e ambientais.De fato, os investimentos da Aracruz Celulose no Brasil conectamnegcios, cidados e cidades como Oslo, Helsink, So Mateus eAracruz, em uma mesma dinmica temporal e espacial.

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    Mesma, porm injusta, visto que, do Norte parte a tecnologia,o maquinrio e o crdito para exportao, e nele ficam os melhoresempregos, o maior valor agregado, o menor risco ambiental. Tam-bm para o Norte se destina 98% da produo da empresa, paraabastecer a demanda crescente por lenos de papel, absorventes epapis sanitrios. J do Sul, parte a celulose, um semi-elaborado eficam, tal como no Esprito Santo, os plantios industriais deeucalipto, alguns raros e precrios empregos, poucos tributos eainda dezenas de conflitos ambientais.

    Nesta perspectiva, o problema da gua no entorno da AracruzCelulose no Esprito Santo, deixa de ser apenas de responsabilida-de de ndios, quilombolas, campesinos e trabalhadores rurais semterra. Deve tambm interpelar os dirigentes e burocratas dos r-gos dos Estados, os consultores e quadros das empresas, os tcni-cos dos bancos e agncias de crdito de exportao dos pases doNorte. Afinal, no ocupam os centros decisrios, tcnicos, polticosou financeiros do Fundo do Petrleo noruegus, da Jaakko PoyryConsulting, da Kvaerner, da Metso, ABB, Andritz-Ahlstrom, VoithPaper, Siemens, Partek, Proctor and Gamble, Kimberly-Clark, NordikInvest Bank, European Invest Bank? Stora Enso? Participam com aAracruz Celulose S/A de uma mesma orquestrao de interesses einvestimentos e comrcio internacional.

    Neste mesmo sentido, um terceiro objetivo, mais pragmti-co, se estabelece como diretriz desse pequeno estudo, uma vezque se empenha em reunir elementos e informaes necessriaspara sustentar uma campanha junto s sociedades do Norte, suasigrejas, escolas, ongs, conselhos e demais instituies, de formaque possam pressionar seus Estados, seus Bancos, empresas e agn-cias de exportao, para que revejam mais detidamente os impac-tos sociais e ambientais de seus investimentos no Complexo daAracruz Celulose no Brasil.

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    Finalmente, com este trabalho, esperamos contribuir com aslutas locais que se travam no Esprito Santo, lutas dos povos ind-genas guaranis e tupinikins, das comunidades rurais afro-descen-dentes,