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PROJETO TEMTICO: MDIA, CAMPANHA ELEITORAL E

COMPORTAMENTO POLTICO EM SO PAULO

RELATRIO DO SUBPROJETO DA PUC-SP

TELEJORNALISMO E RADIOJORNALISMO NAS ELEIES DE

2000 E 2002

Coordenao: Prof Dr Vera Chaia

Equipe: Andra Reis, Carlos Alberto Furtado de Melo, Cludio Penteado, Eduardo

Viveiros, Fernanda Zacharewicz Frasseto, Joo Jos de Oliveira Negro, Julia

Nepomuceno Ribeiro. Helena Santeiro do Val, Marcelo Burgos, Marco Antonio

Carvalho Teixeira, Luisa Roxo, Paula Papis, Rafael de Paula Aguiar Arajo e

Rosemary Segurado.

SO PAULO, 2004

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A - Introduo

No podemos mais ignorar a importncia dos meios de comunicao na construo

de representaes sociais e de candidaturas nos diferentes processos eleitorais. Num

contexto de predominncia da televiso e dos telejornais como fonte principal de

informao da maioria dos eleitores que vem e no lem, pode-se perguntar qual a

importncia da mdia neste processo eleitoral?

A mdia altera o relacionamento humano, expressa o poder na nossa histria poltica

e deve ser analisada em todas as suas dimenses. O conhecimento na sociedade

contempornea tem por base a recepo das formas simblicas emitidas pela mdia, que

alm de exercer tal funo comunicativa, tambm interfere no relacionamento humano. Os

processos de transformao tecnolgica e comunicacional porque passa a nossa sociedade

permitem afirmar que novas formas de ao e de interao so criadas constantemente,

afetando inclusive a vida no espao pblico.

O significado das informaes geradas pela mdia deve ser avaliado num largo

espectro: se, por um lado, a presena intensa da mdia na vida das pessoas pode gerar um

acmulo de informaes que, positivamente, amplia as possibilidades simblicas dos

indivduos e provoca um distanciamento das suas circunstncias sociais para direcionar a

reflexo, por outro lado, pode trazer conseqncias negativas ao introduzir mensagens

ideolgicas. Portanto, nosso conhecimento da realidade construdo pelos meios de

comunicao que selecionam o que iremos ler, ver e ouvir.

Tais consideraes apontam para as alteraes ocorridas tambm na esfera poltica,

pois, com o desenvolvimento da mdia, o conhecimento sobre fatos e lideranas polticas

derivado quase que exclusivamente dos meios de comunicao. No caso especifico da

sociedade contempornea, a televiso ocupa a centralidade, significando dizer que possui

papel fundamental na construo de uma poltica de imagem, repercutindo em visibilidade

e poder.

O prprio conhecimento de lderes polticos e de suas polticas derivado quase que

exclusivamente de informaes transmitidas pelos meios de comunicao. Nesse sentido

essencial um estudo desses meios como construtores das formas simblicas que

influenciaro a nossa concepo da poltica e dos polticos.

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Como analisar a relao entre Processo Eleitoral, Representao Poltica e Mdia na

nossa sociedade?

As hipteses que orientam este trabalho so as seguintes:

1) A centralidade da mdia, a sua pretensa neutralidade e o anunciado

apartidarismo da mdia so fatores importantes para se compreender os

processos eleitorais nas democracias contemporneas;

2) A construo da agenda setting pela mdia uma referncia fundamental

para analisarmos os temas presentes em uma campanha eleitoral e esta

exerce um papel fundamental neste processo;

3) A anlise do enquadramento das matrias diferencia as coberturas

jornalsticas das diferentes emissoras no telejornalismo e no

radiojornalismo.

Com relao 1 hiptese terica, que norteia o projeto temtico como um todo,

partese do referencial desenvolvido por Bernard Manin (1995). Segundo o autor,

ocorreram mudanas desde as origens do governo representativo no final do sculo XVIII,

at o final do sculo XX no tocante s formas de representao e escolha dos governantes.

Na sua avaliao, a representao poltica est passando por uma crise nos pases

ocidentais: antes havia uma relao de confiana entre o eleitorado e os partidos polticos,

atualmente o eleitorado tende a votar de modo diferente de uma eleio para outra; antes a

maioria dos eleitores se identificava com um partido e se mantinha fiel a este, atualmente

pode-se constatar, atravs de pesquisas de opinio, que aumentou o nmero de eleitores no

identificados com partidos polticos; antes a diferena entre os partidos polticos parecia

reflexo das clivagens sociais, atualmente so os partidos que se impem sociedade de

clivagens; antes os partidos polticos apresentavam um programa poltico aos eleitores e se

comprometiam a cumpri-lo caso alcanassem o poder, atualmente a estratgia eleitoral dos

candidatos e dos partidos apresentar a construo de um programa poltico vago que

projeta a personalidade dos lderes.

Portanto, para Manin, a representao poltica e os partidos polticos estariam

passando por uma crise sem precedentes. Se nos sculos XVIII e comeo do XIX

predominava um Governo Representativo de tipo parlamentar, nos meados do sculo XIX e

XX havia uma Democracia de Partido, em que os partidos ganhavam destaque. Atualmente,

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parece predominar uma Democracia do Pblico, na qual os partidos polticos perdem sua

importncia, prevalecendo escolha dos candidatos por suas caractersticas pessoais, pois

cada vez mais os eleitores tendem a votar em uma pessoa, e no em um partido (MANIN,

1995, p. 25).

A Democracia do Pblico marcada pela presena da mdia, pela personalizao

poltica em detrimento dos partidos e dos programas polticos, pela presena de um

eleitorado sem vnculos partidrios e pela volatilidade do voto.

Portanto, o declnio dos partidos e dos programas partidrios transferiu a posio de

principal frum de debates do partido e do parlamento para os meios de comunicao e,

neste processo, os candidatos passaram a cortejar o eleitor diretamente por meio do rdio e

da televiso, dispensando a mediao da rede de militantes do partido e estabelecendo uma

nova relao entre polticos/eleitores por meio do uso intensivo de tcnicas de comunicao

que enfatizam a personalidade do candidato.

Tais procedimentos se tornaram possveis porque, na Democracia do Pblico, a

imprensa de opinio (vinculada aos partidos) cedeu lugar aos meios de comunicao

neutros em relao s agremiaes polticas: o resultado dessa neutralizao que as

pessoas passaram a receber, sem as clivagens partidrias, as mesmas informaes sobre um

dado assunto.

No contexto de uma sociedade crescentemente complexa e fragmentada, marcada

pelo declnio da poltica ideolgica, da identidade partidria e da imprensa de opinio, os

eleitores passaram a definir seu voto basicamente levando em conta as questes colocadas

em jogo em cada eleio especfica.

Diante desse quadro, o controle da agenda da mdia se transformou num aspecto

absolutamente crucial para os candidatos e os grupos de presso. A mdia, como foi

salientado, ganha espao tambm em face da crise dos partidos polticos se torna

substituta de algumas das funes tradicionais dos partidos polticos, tais como o

fornecimento de informaes opinio pblica, fiscalizao das aes governamentais e

patrocnio de candidaturas e de campanhas eleitorais.

Devemos tambm estar atentos de que no h unanimidade na Cincia Poltica a

respeito da hiptese de que o crescimento da importncia poltica da mdia se d em

detrimento dos partidos polticos. O prprio Bernard Manin refora a idia que sua anlise

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e a construo das trs formas de representao se baseiam em tipos ideais, podendo haver

uma coexistncia de formas de representao num mesmo contexto sociopoltico.

Nessa mesma direo de avaliao da crise da representao poltica se dirige a

reflexo de Alain Touraine (1995). No artigo intitulado Comunicacin poltica y crisis de

la representatividad, o autor afirma que los polticos se preocupan cada vez ms por su

imagen y por la comunicacin de sus mensajes, en al medida misma en que ya no se

definen como los representantes del pueblo, o de una parte de ste, o de un conjunto de

categoras sociales. Hay polticos que se dirigen, si no al conjunto de los electores, al menos

a una gran cantidad de grupos distintos, lo que le da al poltico mayor autonoma

(Touraine, 1995, p. 47).

Touraine alerta que no existe uma evoluo geral da representao para a

comunicao poltica e vice-versa. Pondera que uma tendncia que pode ser observada

nas democracias representativas e particularmente na Frana, que preservou por mais tempo

a questo ideolgica que diferenciava os partidos polticos.

O cientista poltico italiano, Giovani Sartori (1992), escreveu um trabalho

pessimista ao abordar a presena da televiso na vida poltica. Segundo o autor, a televiso

mudou o homem e a poltica, ou seja, estaria acontecendo uma transformao do homem-

leitor (era Gutemberg) para o homem que v (era McLuhan). Predominaria o poder da

imagem, desaparecendo a capacidade de abstrao do prprio homem, pois a imagem

inimiga da abstrao e explicar desenvolver um discurso abstrato, baseado em conceitos,

no em imagens. Sartori afirma que est ocorrendo uma Revoluo Antropogentica, o

homo sapiens est dando