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  • C O O P E R A O

    [ C O O P E R AT I O N ]

    R E A L I Z A O [ S P O N S O R E D B Y ]

    P R O D U O [ P R O D U C T I O N ]

  • !

  • Neste momento estou profundamente ligada a

    uma paleta de azuis profundos, azuis violetados,

    cinzas azulados e oceanicamente esverdeados.

    Minha relao com as cores agora s passa pelo

    que cu, densidade atmosfrica, ar, nuvem e

    tambm mar, oceano e profundidade.

    Suzana Queiroga

    (Suzana Queiroga em entrevista com Paulo Aureliano da Mata.

    Performatus. Ano 1, n. 6. Set. 2013.)

  • 3

    Introduo

    A instalao Olhos dgua, de Suzana Queiroga, inaugura no MAC de Niteri uma virada tanto para a trajetria da artista quanto para o museu. Primeiramente, trata-se de um con-junto de obras que resgata difceis memrias da artista, pela perda do pai em um acidente de avio na Baa de Guanabara, ressigni/cando dores de uma tragdia que marca seu nascimento. tambm uma homenagem sua me que estava grvida da artista e representa o cuidado com a vida. Suzana realiza esta instalao j reconhecendo a geogra/a e a arquitetura deste lugar. A escolha do MAC se d em princpio pelo seu posicionamento exatamente em frente ao aeroporto que seria o destino de um pouso que no aconteceu. Porm, a potncia do fenmeno artstico instaurado no MAC transborda e decola do oceano marcado de memrias passadas, para gerar um territrio de ecloso potica.

    Esta abordagem da instalao Olhos dgua reconhece primeiramente a difcil constelao bio-gr/ca da artista entre nascimento-tragdia, mas tambm, da, indissocivel de seu valor e virtude tica, como acontecimento plasmtico e plstico de ressonncias in/nitas. Suzana encarna, nesta exposio, uma complexa viso tica de Nietzsche da conjugao existencial e espiritual na ressig-ni/cao do esquecimento-memria pela potncia ativa da fora plstica. O amor fati ou presente total, como virtude do sim vida. Dor e ar, voo-deriva e arte, mar e ilha, vento e alma, eu-balo, balo-mundo, so alguns dos elementos simblicos, metafricos e /los/cos que se reinventam pela esttica lrica desta odissia dos Olhos dgua.

    Nesta odissia de Suzana, sua passagem pelos in0veis at os voos de balo remete curiosa palavra alem Fernweh, que signi/ca o oposto da saudade de casa, ou um apego nmade condio de viajante, o amor pelo in/nito e por mundos distantes. A falta do pai, o acidente do avio na sua memria uterina-aqutica so parte desse desejar deriva, navegar, caminhar ou voar, que funda-menta um abrigo, a verdadeira casa, na distncia suspensa dos 0uxos e movimentos da vida. Somos provocados a viajar tambm pelos transbordamentos entre as vrias camadas da vida da artista e sua obra em processo. Como separ-los? Por qu? Revisitamos por vrias vezes esta pergunta: onde comea o horizonte ampliado do oceano desta exposio? Mais ainda, quando comea essa virada conceitual, potica e existencial que revela, simultaneamente, enigmas biogr/cos da vida da artista e da esfera da ecloso para sua fora plstica no mundo contemporneo? No estariam essas foras plsticas e existenciais apontando tambm para novos horizontes provveis da arte contempornea?

    olhos dgua: suzana queiroga

    Luiz Guilherme VergaraCurador Diretor

    Museu de Arte Contempornea de Niteri

  • 4

    Fenomenologia do redondo1

    A forma circular do MAC, com a varanda totalmente vazada para a paisagem, acolheu o in/nito oceano desta exposio. Ao apagar das luzes do salo principal, foi suspenso no corao do museu um grande in0vel azul, alimentado por um potente ventilador que ancora mecanicamente a est-tica sublime e lrica desta grande escultura multissensorial.

    Para voar preciso pensar redondo para pensar redondo preciso viver esfrico, o in/nito em todas as direes. Assim, Suzana traz para o MAC no apenas uma exposio de pinturas ou esculturas, mas cadernos de viagem, dirios de voos, expondo o oceano da existncia, suspenso como dissolues reversveis entre opostos mar-cu.

    Nos livros do AR, do MAR e da DOR, Suzana inaugura uma escrita encarnada nas superfcies dos papis, tambm soprada como vento sobre a pele porosa dos jogos plasmticos entre memria e esquecimento. Cada poesia deixa pistas e devaneios inscritos ou camu0ados nos desenhos feitos por uma mo certeira, conduzida pelo pensar redondo de um Eu-Balo-mundo.

    me apequeno voome separo vento (Livro do AR)

    Cada obra atravessada de 0uxos de incertezas universais, que subvertem as escalas micro

    e macro entre a srie de desenhos e o grande in0vel suspenso. Olhos dgua tem a potncia de encarnar afetos para os sentidos, transbordando a redondeza do ser2 como uma lio de solido universal que subjaz prpria arquitetura do MAC na sua escala ocenica e celeste. O que se oferece como experincia da obra de arte: Com efeito, no se trata de contemplar, mas de viver o ser em sua imediatez.3

    Um balo a caminho do Oriente

    Suzana voa com o pensar redondo. Surgem da vises do ponto arquimediano que Hannah Arendt elabora a partir do desejo arquimediano de um ponto fora da Terra a partir do qual o homem pudesse analisar o mundo.4 Em um dos pequenos desenhos do Livro do AR, Suzana se coloca no meio do n grdio do smbolo do In/nito no centro que une dois crculos do nmero 8 ou tambm de uma ampulheta. Da altura telescpica do balo a artista se v ou projeta para si um pequeno corpo 0utuante, como passageira do tempo in0vel e 0uido, parte de um (in)dirigvel 0utuante entre mundos cercada pelo in/nito, presente no in/nito. E inscreve ali seu pensamen-to em forma potica:

    voo como quem morresomedissolve (Livro do AR)

  • 5

    Este um dos desenhos mais simblicos, que sintetiza as indagaes universais e existenciais da instalao Olhos dgua. Segue-se a este uma srie de imagens sublimes, minsculas, que 0utuam sobre papis iluminados de diferentes tons de azuis, especialmente transformados em pele e mapa do mundo, como pginas impressas do AR, MAR e DOR da artista. Na ateno minuciosa a cada um desses desenhos, observam-se estruturas de expresso e poticas orientais que nos transportam para um universo transtemporal micro-macro, de uma tatuagem sobre a pele, ou paisagem area, do corpo do mundo. O balo parece estar a caminho do Oriente, absorvendo ou reencarnando intuitivamente as manifestaes de uma esttica lrica chinesa, integrando suas trs perfeies da unidade da arte pintura, poesia e caligra/a.5 So voos em forma de poemas visuais do grande e mnimo balo mundo suspenso sobre o destino do universo em desenhos 0utuantes no oceano de cada folha.

    ignorar os signi!cados desse vento abuso dalma (Livro do AR)

    Suzana domina, em seus guaches, a escala csmica sobre a miniatura do papel, como um artista lrico chins, budista ou taosta do sculo XIII. O que j um jogo de virtude esttica at ento desconhecido dos seus trabalhos anteriores. Em cada pintura a imagem posicionada e dimen-sionada sobre o papel sempre ao centro, deixando respirar o vazio e o vento at as bordas, como poemas visuais chineses que velam a potncia do invisvel e do silncio, como jogos metafricos de dissoluo de dicotomias entre cu e terra; ar e mar; vida e morte. Os desenhos se tornam cali-gra/as e os versos se tornam imagens desenhadas.

    tica do amor fati Presente total

    vida, eu passo (Livro da DOR)

    Nesta mostra circular, Suzana se inaugura e se reinventa de diversas maneiras. Se, por um lado, somos remetidos perda incurvel pela melancolia do Fado de sua herana Portuguesa, por outro, justamente pelo conatus, que Espinosa apresenta, em sua tica, como vontade, apetite ou desejo, que exerce este esforo de renovar e inaugurar sua existncia,6 compartilhamos a odisseia e fora plstica da vida de Suzana, que surpreende a todos ao se colocar camu0ada, menina, dentro de cada imagem, como personagem desta virada ao amor fati Sim vida de Nietzsche.7 Da dor e da falta do pai, Suzana, tanto pelo in0vel como pelas suas pinturas, traz o ar e o mar como 0uxos de vontade de futuro. da que encarna o verbo e a tica do presente total, sob sua atualizao en-quanto dom de doar virtudes, do que Nietzsche, em Zaratustra, enuncia como ddiva de retornar riquezas para a vida8. Ao mesmo tempo, descobre o que Bachelard expressa na fenomenologia da imaginao potica, (o que) permite-nos explorar o ser do homem como o ser de uma superfcie, da superfcie que separa a regio do mesmo e a regio do outro.9

    quantas asas, essa dorrota s cegas (Livro da DOR)

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    Museu balo do tempo poticas in!veis do realLaboratrios da transparncia

    Ao entrar na exposio, o visitante tomado pela experincia multissensorial de diferentes enunciaes simultneas que fazem de cada um passageiro desta deriva e museu-balo, partes de um nico corpo redondo 0utuante, de mltiplas vozes. A trajetria de Suzana para o in0vel realiza um paralelo, para a pintura, com a grande aventura da modernidade, cruzando a virada do construtivismo para a desmaterializao do objeto artstico, experincia suprasensorial da realidade ambiental. As re0exes da artista sobre estes saltos para o espao real j consti-tuem um sistema de foras plsticas do devir, que podemos chamar de laboratrio existencial da transparncia. Estas esculturas orgnicas de separao de iguais de ar com ar vida com vida j ativam re0exivamente a modelagem dos horizontes experimentais da artista. A artis-ta j ento toma conscincia do acontecer solidrio dentro de um ambiente bolha cromtico. O futuro est entreaberto com a experincia do presente, como um anseio de vrias geraes modernistas; ali, Suzana realiza tambm o futuro do sculo XX: a perspectiva de uma esttica existencial ou arte total (como projeto inacabado de Mondrian, Malevitch, El Lissitzky, Oiticica, Lygia Clark e Pape, entre outros), de imerso do espectador-participante como organismo sujeito ativo e estruturante da experincia (in)divisvel entre pintura-escultura e mundo.

    Ao