Pacientes

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Observações de um porteiro de pronto-socorro, que apesar dos problemas de um hospital, não perde o bom humor.

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Observações de um porteiro de pronto-socorro

JORGE DE PALMA

Americana, 2015

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Índice O autor......................................................3 Explicações........................................;;......4 Raciocínio rápido.......................................6 Amor impaciente.......................................8 Médicos milagreiros..................................9 Genaro e o Fusquinha..............................11 Nomes incomuns.....................................12 Márcio, o piadista....................................14 The flash..................................................15 Estragos do tempo...................................17 Uma estória antiga...................................19 O médico zombeteiro...............................22 O escolhido da Bárbara............................24 Ela só precisa de uma desculpa................26 Acompanhantes.......................................28 O paciente do quarto 21..........................32 O bicentenário do estetoscópio...............33

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O autor

Jorge de Palma é filho de Carmo de Palma e de Adelina Candian de Palma. Nasceu em Iracemápolis-SP, em 20 de dezembro de 1952. Tra-balhou muitos anos como jornalista, atuando nos jornais: “Diário de Limeira”, “Diário de Pernambuco”, “Diário de Americana”, “O Liberal” (Americana) e “Tododia” (Americana). Escreveu ainda como free lancer para “O Globo”, do Rio de Janeiro e para revistas do Recife-PE-Brasil. É autor de vários livros como "Dois olhos, duas vidas", "Guerra em Exu", "Escritos do Zé Pirata", "O homem que andava de costas", "Muito além do terror e da vingança", entre outros, publicados nos sites:

https://portugues.free-ebooks.net/search/jorge+de+palma

palmanaque.xpg.com.br

Reside em Americana-SP-Brasil. Contato pelo e-mail: [email protected]

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Explicações

Depois de ficar mais de quatro horas esperando por uma consulta,

deduzi porque as pessoas que procuram um médico são chamadas de "pacientes". Fui procurar no dicionário o significado de paciente e sou-be que vem de uma palavra latina, designando quem está sendo cui-dado por um médico. Meu amigo brincalhão disse que "paciente" vem de "paciência", ou seja, "a ciência de trabalhar com a pá".

Neste livro, trato de pacientes, mas de uma forma um tanto bem humorada, para quebrar o clima de baixo astral das salas de espera. Na verdade, durante meu trabalho em um hospital, tive oportunidade de presenciar muitas coisas tristes e doloridas, mas havia também aqueles momentos em que procurava desviar o pensamento, para ideias ale-gres e divertidas.

É por isso que mesmo preso a uma sala de espera, como ocorre com quem está ali como funcionário, ou aguardando uma consulta, o cérebro é livre e às vezes vai muito longe. Assim estes escritos acabam ficando mesclados de fatos reais e de lembranças, ou então de imagi-nação, já que muitas vezes pensava em descobrir o que aquelas pesso-as falavam tanto, para rir em um momento em que estavam com gripe,

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com dengue, com uma infecção urinária, com a coluna travada ou até com uma cólica renal. É preciso ser muito paciente e ter muito bom humor para rir numa situação dessas. Acho até que devo imprimir có-pia deste trabalho para deixar lá na sala, como se fosse um livro perdi-do ou esquecido.

Tinha um amigo, o poeta Antonio Zoppi, que dizia que o livro, por pior que seja, nunca deve ser jogado no lixo. "Quando a gente não gos-ta do livro, é só deixar esquecido no banco do vagão de trem. Assim ele vai longe e acaba caindo nas mãos de alguém". Ele falava isso no tem-po em que tinha trem de passageiros neste país... Agora a gente pode esquecer na sala de espera de um lugar qualquer. Ou publicar para download gratuito, na internet. Para finalizar, tenho ainda a dizer que me diverti muito escrevendo estes textos.

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Raciocínio rápido

O porteiro do Pronto Socorro olhava preocupado para o grande nú-

mero de pessoas acomodadas no salão de espera. Era momento de troca de turno dos médicos e, geralmente havia uma interrupção no atendimento. Como sempre fazia, ele ficava observando os pacientes. Notava quem havia chegado primeiro, quem estava com fisionomia de mais sofrimento e até, se havia algum caso de antecipar o atendimen-to, como por exemplo uma pessoa desmaiando. Tinha autorização por escrito para priorizar algum caso se julgasse necessário.

Naquele dia, porém, tudo parecia normal, quando sua atenção foi voltada para um senhor de idade avançada que estava acompanhado de familiares. Ele tinha dificuldade para se sentar, mas quando o fazia, ficava inquieto. Olhava de um lado para outro e, repentinamente se

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levantava e tentava ir para algum lugar. Mas o filho, atento, segurava em seu braço e com a outra mão batia no banco e dizia:

-Senta aqui, pai. O idoso voltava a se sentar com dificuldade. Ficava quieto por

poucos segundos, mas então se movimentava de novo e quando me-nos se esperava, estava em pé tentando ir sabe-se lá para onde.

Vendo a situação, o porteiro se dirigiu ao consultório da dra Adria-na, que estava de plantão naquele dia e ainda nem tinha começado o expediente e disse:

-Doutora, me desculpe adiantá-la, mas tem um paciente, um se-nhor de idade, dando muito trabalho para a família. Ele não para quie-to, parece criança e estou vendo a hora em que vai fugir. Posso pedir para a família trazê-lo para a consulta?

Então a médica deu um sorriso brincalhão e respondeu, perguntan-do:

-Ele está virando criança?

-É isso mesmo, doutora - confirmou E ela completou com um sor-riso ainda mais zombeteiro:

-Então manda ele para a pediatria... É óbvio que, com todo esse bom humor, ela o atendeu.

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Amor impaciente

O que será que aqueles dois rapazes, sentados lá no último banco da sala de espera do Pronto Socorro, conversavam tanto? O porteiro nunca soube o completo teor da conversa, mas alguns detalhes, conta-dos através de outros pacientes, chegaram até ele.

Um dos rapazes estava admirado, com a beleza da moça, que um amigo, o Mário estava namorando."Ela é linda! É demais! Parece até uma modelo!"

-Como será que ele a conseguiu? Deve ter sido uma declaração de amor sensacional - perguntou comentando o outro.

-Foi o que eu perguntei e ele me contou: "Eu sabia que ela estava namorando o Ricardo e então cheguei pa-

ra ela e falei que se ela se cansasse dele, eu estaria na fila esperando uma oportunidade. Então ela respondeu que a fila tinha andado e eu já era o primeiro".

-Assim, na lata? - perguntei. "Foi assim mesmo, eu fiquei tão sem jeito que ainda comentei que

ela era muita areia para o meu caminhão, mas ela respondeu que eu

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poderia fazer várias viagens. É por isso que eu vou vê-la de manhã, de tarde e à noite",

Médicos milagreiros

Todos os dias, o movimento na sala de espera do pronto socorro é semelhante. Pela manhã, umas poucas pessoas que chegaram à noite ainda estão por ali, aguardando resultados de exames. Mas logo come-çam a chegar os pacientes do dia e há um momento em que a sala fica cheia. A espera pelas consultas fica mais longa, mas existe o sistema de classificação de risco, ou seja, classificar a prioridade no atendimento. As gestantes, quem tem mais idade, pressão muito alta ou muito baixa, febre alta, dores intensas, acabam "conseguindo" prioridade. Assim, quem chegou por último, se tiver a "sorte" de estar numa situação mais grave, acaba sendo atendido primeiro.

Nestas circunstâncias, é muito comum pessoas doentes chega-rem ao hospital, trazidas em veículos por parentes. Eles correm até a recepção e pedem uma cadeira de rodas. Muitas vezes o paciente está desfalecido e precisa ser carregado na cadeira. Isso tudo já faz com que

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o atendimento seja agilizado. Mas existe ainda a sala da classificação de risco onde é aferida a pressão arterial. a febre e sinais vitais. Desta forma sabe-se com certeza a situação do paciente.

Nos primeiros dias de trabalho, o porteiro se sentia abalado com a situação daquelas pessoas. Mas depois começou a perceber que alguns médicos, a exemplo de alguns religiosos, faziam milagres. Bastava o paciente ser levado até o consultório. Quando via o médico e alguém informava que a cadeira não passava pela porta, o paciente fazia um esforço, se levantava e sentava-se na cadeira do consultório. Depois da consulta, com a receita na mão ou o encaminhamento para ser medi-cado, acabava esquecendo-se da cadeira. Quando comentou isso com uma enfermeira, ela simplesmente deu uma piscada.

O porteiro soube então que havia de fato doentes em estado mais grave, mas alguns usam a cadeira de rodas como o famoso "jeitinho brasileiro", só para chegar mais rápido ao médico.

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Genaro e o Fusquinha

Genaro regressou do hospital, onde foi fazer uma consulta, guar-dou o carro na garagem ( um Fusquinha produzido há mais de 40 anos) e, depois, com passos lentos, de quem está com mais de 80 primave-ras, dirigiu-se pacientemente até a caixa do correio. Pela manhã, antes de sair, viu quando o carteiro passou pela rua e parou em frente a sua casa.

Dona Genoveva, que acompanhava sua chegada, viu quando ele apanhou uma carta e se encaminhou para o alpendre da casa, onde havia uma cadeira de balanço e, com toda a paciência do mundo abriu envelope e começou a ler a carta. Ela vira, de relance, que estava es-crito Departamento de Trânsito no envelope e por isso, perguntou apreensiva:

-Alguma notícia ruim, Genaro? E ele respondeu vagarosamente: -Não, é até motivo de orgulho. Meu Fusquinha e eu fomos multa-

dos por excesso de velocidade...

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Nomes incomuns

Não existem nomes estranhos, feios ou engraçados. Existem ape-nas nomes incomuns. Além disso, não é o nome que faz a pessoa e sim, o contrário. Pensou nisso o porteiro ao ler o nome daquele paci-ente: Dionata. Como não havia acento ele leu como estava escrito, dando ênfase em "na", julgando que se tratava de alguém do sexo fe-minino. Foi bobeira sua, porque deveria ter lido a indicação de sexo. Quem se levantou e se aproximou dele foi um rapaz de cerca de 20 anos.

-Me desculpe se pronunciei o nome errado - disse o porteiro. -Não tem importância, é esquisito mesmo - mas corrigiu dizendo

que era "Diônata". Foi quando o porteiro José entendeu que a intenção de quem escolheu o nome era alguma coisa parecida com "Jonatan".

José imaginou que sua sorte foi não ter chamado "Sra. Dionata". Na verdade não foi sorte e sim experiência. Lembrou-se que há algum tempo, um médico chamou "Dona Iris" e quem se aproximou foi um senhor. Depois houve o caso de um homem chamado "Celeste". "Nada de anormal - comentou um amigo - tem um político famoso que se chama Iris Rezende. Além disso, se tem o Vicente Celestino, porque não ter o Celeste?"

Por isso, José não chamava mais ninguém por "dona", "sr." ou "sra." antes de ver a pessoa. Simplesmente usava o nome, mas mesmo assim corria risco de pronunciar errado. Ou então via uma mulher, com nome de mulher, mas com cabelo curtíssimo, vestida como homem, calçando sapatão, abraçada a outra mulher e dizendo ser o acompanhante de sua esposa. Era mesmo para confundir sua cabeça muito tradicional.

Voltando aos nomes, o mais exótico que o porteiro viu no painel eletrônico de chamada, (na verdade um sobrenome), foi justamente o "Esótico".

Um dia surgiu o José Oliveira Vintecinco. E ele pegou a ficha 26.

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Outro dia apareceu "Sateles Sa Teles". O próprio paciente explicou que seu pai juntou os dois sobrenomes da família (Sa e Teles), para criar o seu nome muito original. Quando o porteiro comentou isso com um irmão, bem humorado, ele, o irmão, observou: "E você sabe que a família Sá é a mais rica do país?". José respondeu que não e o irmão continuou: "Basta observar: Bradesco SA, Itaú SA, Souza Cruz SA…"

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Márcio, o piadista

Logo que começou a trabalhar no hospital, o porteiro fez amizade com Marcio. Também era impossível não fazê-lo. Jovial e alegre, Mar-cio conversava com todos os colegas, sorria sempre e atendia pacien-temente a todos, Com o tempo o porteiro descobriu que eles tinham algo em comum. Ambos gostavam de uma boa piada, para quebrar a rigidez do trabalho sempre voltado para doentes. E foi assim, que um dia, sem mais, nem menos, Marcio lhe perguntou:

-Sabe a principal semelhança entre o hospital e um bar?

O porteiro respondeu que não sabia e Marcio lhe respondeu

-No hospital o homem toma soro de pinguinho em pinguinho, e, no bar não toma soro, mas vai de pinguinha em pinguinha...

No dia seguinte, o Marcio veio com essa: O médico ia assinar uma receita, mas quando a puxou o objeto de

trás da orelha, percebeu que na verdade era um termômetro retal. Ele balançou a cabeça e desabafou:

- Nossa! Algum bundão ficou com a minha caneta...

Na semana passada, a direção do hospital determinou que os con-

sultórios fossem restaurados. Assim o pintor João começou a trabalhar no consultório cinco. Foi aí que o Marcio chegou até ele e comentou:

-Do jeito que está indo, logo você vai estar pintando o sete.....

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The flash

Um médico do Pronto Socorro atendia a todos os pacientes na maior rapidez. O porteiro até gostava quando ele fazia plantão, porque "a fila andava". Não havia reclamações, não se acumulavam fichas de pacientes na caixinha e por isso o chamava de "The Flash". Mas o mé-dico, às vezes era exigente demais e chamava a atenção do porteiro quando pedia, pelo monitor, a entrada de um paciente e este não che-gava logo ao consultório.

-Quando eu chamo um paciente, o sr. fica atento e chama tam-bém. Se ele não aparecer, o sr. manda outro para o meu consultório.

O porteiro se ressentia da "puxada de orelha', que com o tempo se repetia pois nem todos os pacientes reagiam com rapidez à chamada. Alguns estavam lá nos bancos do fundo do salão. Uns, com febre e ou-tros problemas, n]ao ouviam direito e outros ainda, devido à idade, ou doenças caminhavam lentamente, Além disso, ele, o porteiro não esta-va ali para atender apenas àquele médico e sim a todos e tinha outras funções. como controlar o acesso das pessoas que passavam por aque-la porta. Por curiosidade e desabafo perguntou ao enfermeiro Marcio, que era antigo no trabalho:

-Por que o The Flash tem tanta pressa?

-E que, além do valor fixo por plantão, ele ganha também por con-sulta..

O porteiro até entendeu o ponto de vista do médico e a política do hospital de estimular o atendimento, mas comentou com o amigo que não era obrigado a dar atenção exclusiva àquele médico só para que ele ganhasse mais dinheiro. Então o Márcio observou:

-Este médico é igual aquele da piada. -Qual piada?

E o Marcio contou: "Um médico observou o exame do paciente e disse:

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— Sinto muito. O senhor só tem mais três meses de vida. — Não pode ser! É muito pouco tempo, eu nem vou conseguir pa-

gar a consulta. — Bem, nesse caso, eu lhe dou mais três meses".

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Estragos do tempo

Naquela manhã, o porteiro olhava para os monitores, onde apare-ciam os nomes dos pacientes chamados para a sala de classificação de risco ou para os consultórios, quando algo lhe pareceu familiar. Olhou com mais atenção e as lembrança começaram a voltar em sua mente. Era um nome diferente. Na realidade ele só havia conhecido uma pes-soa chamada Teodolinda, uma antiga namorada. "Será que era ela?"

A mente do porteiro viajou. Ele se viu novamente com pouco mais de 20 anos, quando frequentava clubes de dança nos finais de semana. Se viu com aquela garota, com quem iniciou um romance, que depois acabou se desgastando com o tempo. O namoro não deu certo, mas ele nunca esqueceu aquele nome e aquela fisionomia. Era um loi-rinha de olhos verdes, muito bonita. Teria conquistado seu coração, se não fosse uma outra paixão da época.

Por isso, o porteiro tentou ligar o nome à pessoa. Esperou a paci-ente se levantar, quando levou um choque. Não era possível que a ga-rota tão bonita houvesse se transformado naquela mulher já um tanto idosa. Seria ela mesma? Haviam se passado mais de 40 anos e o portei-ro começou a raciocinar. "Só pode ser ela, tem até aquele jeitinho torto em um lado da boca, mas o seu rosto, com rugas, além da velhice natu-ral, tem algo preocupante. É como se ela tivesse alguma amargura, algum rancor. Como se a vida não lhe tivesse sorrido. "Será que ela se casou, será que tem filhos? O que será que transformou a Teodolinda em Teodofeia?", pensou com triste ironia.

Ainda naquela manhã, o porteiro viu sua ex-namorada, sair acom-panhada de um homem idoso. "Deve ser o marido dela", pensou. Mas também procurou ficar "invisível". Ele soubera quem era ela porque lera o nome e se lembrou da pessoa. Certamente ela não o teria reco-nhecido. Depois entrou em reflexão, sobre o estrago que o tempo faz para as pessoas. "Quando a gente vê os conhecidos constantemente, não percebe a diferença". Mas no seu trabalho teria que se acostumar

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a isso. A ex-namorada não seria o único caso. Vira inúmeras outras pessoas perdidas no tempo e que, repentinamente apareciam no hos-pital. "Todo mundo fica doente um dia", pensou. Há pouco tempo, revi-ra uma professora de seu tempo de escola. Ela estava com quase 90 anos. Entretanto, apesar das rugas, mantinha-se bonita, com aquela postura de uma grande dama. E mais do que isso, era a única pessoa que ele vira lendo um livro na sala de espera. "Hoje em dia, todo mun-do fica brincando com o celular", disse de si para si. Depois ainda res-mungou com amargura:

"Não gostei de ver a Teodolinda daquele jeito. Mas talvez ela ti-vesse sentido a mesma coisa se me reconhecesse e aí ficaríamos empa-tados".

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Uma estória antiga

Quando viu aquele paciente aguardando para ser atendido o por-teiro teve um sobressalto. "Tilão", foi o nome que veio em sua mente, "Mas não pode ser ele, está muito bem conservado apesar do tempo". E sua mente ficou povoada por uma série de fatos, que tomou conhe-cimento quando ainda era repórter de um pequeno jornal, na verdade um semanário de cidade do interior.

O porteiro se viu na redação do jornal, quando a professora lhe te-lefonou. Seu nome era Juliana e ele a conhecia porque, naquela época, ela trabalhava na divisão municipal de Educação e Cultura. Juliana ti-nha um pedido a lhe fazer, mas primeiro explicou a estória toda.

Contou que, recentemente fora vítima de ladrões. Alguém invadiu sua casa, enquanto ela estava trabalhando e levou pequenos objetos de valor, como jóias, relógios, gravador de som e outras coisas, inclusi-ve fotos. Ela ficou triste e chateada, mas no dia seguinte teve uma grande surpresa. Ouviu a campainha e ao atender a porta avistou dois garotos. Eles carregavam os objetos que haviam sido furtados em sua casa e explicaram:

-Fomos nós que entramos em sua casa e pegamos as coisas, mas agora viemos devolver.

A professora contou que, a princípio não acreditou no que ouvia, mas depois pediu uma explicação. Então os garotos contaram:

"Quando entramos aqui, a gente não sabia de quem era a casa, mas quando o Tilão soube o que fizemos, ele ficou muito bravo, dizen-do que a gente havia feito o roubo na casa de sua ex-professora e mandou a gente devolver tudo".

A professora explicou ao repórter, que o Tilão era um bom aluno, muito alto para sua idade, forte e esperto. Mas se envolvia com outros jovens ligados a drogas, pequenos furtos e chegou mesmo a liderar uma gang. Como era inteligente, nunca foi pego em flagrante.

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Portanto, o muito que podia acontecer era as pessoas falarem mal dele. Mas não havia provas e era menor de idade.

Juliana se contentou em receber os objetos de volta, agradeceu aos garotos e ainda os aconselhou a não seguirem pelo mau caminho. Mas dois dias depois, foi novamente surpreendida com o toque da campai-nha, na porta de sua casa.

Desta vez era o Tilão, que estava ali. Ele disse que precisava falar com ela e a professora o recebeu.

Tilão disse que estava enfrentando problemas com guardas munici-pais. "Não tenho nada contra a polícia, mas tem uns guardas botando muita banca. Eles acham que mandam em tudo e me perseguem quando me vêm e eu tenho que fugir".

Recentemente houvera um corre-corre na quermesse em uma praça da cidade. Durante a festa, guardas municipais viram Tilão, acompa-nhado de alguns garotos e tentaram se aproximar. Tilão, forte como um touro, investiu sobre eles, derrubou uns dois e conseguiu fugir...

"Agora eles estão chateados e estou preocupado que aprontem alguma coisa comigo. Disseram que logo vou fazer 18 anos e aí a coisa vai ser diferente"- completou Tilão.

Desta vez foi a professora que ficou preocupada e perguntou: -E como eu posso ajudar?

Então o jovem explicou que queria se entregar para a Polícia Civil, mas precisava de alguma garantia para na ser pego pelos guardas. Por isso, a professora procurou o jornal da cidade e contou todos os fatos. O repórter disse que se publicasse a versão do Tilão, os guardas não se atreveriam a fazer alguma coisa contra o jovem. Além disso estaria pre-sente no momento em que ele se entregasse.

E foi assim, que, na próxima edição saia a manchete: "Menor de-linquente vai se entregar". Contava todos os fatos, sem citar nome do menor e não dizia o dia em que isso ia ocorrer. No meio da semana, a professora ligou para o repórter e disse: "Vai ser hoje, às 16 horas".

Na hora marcada estavam todos na Delegacia e, como havia pro-metido, Tilão apareceu. Entrou e foi encaminhado aos policiais pela

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professora. Um escrivão se pron2tificou a registrar os fatos, com a ver-são de Tilão, para que a documentação fosse encaminhada ao Comis-sariado de Menores.

Mas as coisas em uma delegacia de polícia nem sempre são rápi-das. Há muita burocracia, muitas perguntas, muitas interrupções e Ti-lão começou a ficar incomodado. Não estava algemado porque não tinha sido preso em flagrante. Não se sabe se ele viu algum guarda, se suspeitou de alguma coisa, mas o fato é que em dado momento ele se levantou e disse: "Estou de saco cheio". Depois, saiu pela porta dos fundos e desapareceu. "Menor foge da Delegacia", foi a notícia. E nun-ca mais foi visto e nem se falou dele. Só agora, ele próprio, ou uma pessoa semelhante, faziam o antigo repórter relembrar tudo....

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O médico zombeteiro

Osmar é o nome dele. Quando o conheceu, o porteiro não fazia ideia de seu temperamento, de sua maneira de ser. Numa manhã, quando chegou ao trabalho, lá estava o médico no corredor, preparan-do-se para ir embora. Havia trabalhado a noite toda e agora aproveita-va os últimos momentos de seu turno para conversar com uns e ou-tros.

"Então eu disse para ela - falou o médico ao enfermeiro chefe - vai lá que tem sangue pra todo lado. O cara cortou a mão na serra e nós tivemos que costurar. Se você encontrar algum dedo caído no chão recolhe e trás para mim". O porteiro deduziu que ele estava se referin-do à faxineira, ou à funcionária da equipe de apoio, como se fala no hospital, e ficou pensando na reação da mulher.

Logo em seguida, o médico se voltou para ele, o porteiro, e disse: "Tem um cara ai com dor no saco, pode chamar que eu vou atendê-lo". Em seguida entrou na sua sala.

José ficou pensado em como chamaria o paciente. Não tinha seu nome, sua senha. Teria que ler o histórico de todas as fichas. Ficou imaginando a sua própria cara se fosse até a sala de espera e dissesse na frente de dez ou vinte pessoas, entre homens e mulheres:

"O paciente que está com dor no saco pode entrar!". Neste momen-to ouviu as risadinhas atrás de si e compreendeu como era o dr.Osmar.

Dias depois, o porteiro chegou ao trabalho e encontrou o médico. Para puxar assunto e ao mesmo tempo interessado em como seria o atendimento do dia, perguntou:

-Quem vai substituí-lo, é o dr. Ivan? -Não, o dr. Ivan viajou. -Viajou?

-Sim, ele foi para Cuba... -Cuba?

-Sim, você não sabia? Ele é desses médicos importados de lá...

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Mas desta vez o porteiro já estava vacinado e replicou: -Dr., foi o senhor que atendeu aquele paciente vítima da briga com

o eletricista?

E o médico embarcou na brincadeira: -Não, mas o que aconteceu?

-O eletricista pegou a chave de fenda e mandou ver na barriga dele. -Machucou muito?

-Sim, desparafusou o umbigo e caiu o saco....

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O escolhido da Bárbara

"A beleza está nos olhos de quem vê", diz o ditado. E como era o porteiro quem olhava para Bárbara, ela, na opinião dele, era a enfer-meira mais bonita do hospital. Além dos olhos verdes, cabelos ruivos pele macia e rosada, ela tinha uma alegria e simpatia contagiantes. Muito brincalhona, vivia sorrindo e dando atenção a todos. Até para o porteiro José, ela era muito atenciosa. Todos os dias o cumprimentava pela manhã com um largo sorriso. Se passassem alguns dias se se ver, ela lhe dava um abraço. E ele, lógico, ficava até emocionado.

Um dia, Bárbara chegou até ele e disse que precisava de sua ajuda. Ele imaginou que seria para retirar algum acompanhante incômodo, do PS, mas não era isso e logo ela explicou:

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-Preciso de uma pessoa, para usar como "cobaia" para experiência em uma máquina do setor de radiografia e tomografia. Na verdade é só para regular os movimentos da máquina.

E porteiro, sem saber como dizer não, se prontificou a ir e saiu acompanhando a enfermeira até a sala onde estavam os equipamen-tos. Lá chegando, ela falou:

-Agora o senhor se deita aqui, de ladinho e com a barriga deste la-do.

Na cabeça do porteiro só se passava uma coisa. "Por que será que ela me escolheu?", se perguntava. Mas estava orgulhoso em pode aju-dar Bárbara e achava mesmo que ela poderia sentir alguma coisa por ele. No meio de tantos funcionários, por que ela o teria escolhido?

A enfermeira se dirigiu até outra sala ao lado, separada por um vi-dro transparente e conversou com o técnico. Depois voltou, encostou as alças do equipamento na barriga do porteiro e deu sinal para o téc-nico que ligou o aparelho. A alça se movimentou e foi se ajustando à sua barriga. A operação se repetiu de outro lado. O técnico deu então um sinal e Bárbara falou:

-Prontinho, o senhor foi um excelente manequim para a nossa máquina. Além disso já pode ter certeza de que não tem pedra nos rins.

O porteiro estava todo vaidoso com tanta atenção, quando Bárba-ra explicou:

-Para fazer o teste a gente precisava de uma mulher grávida, com uma barriga bem saliente, mas como não tinha nenhuma no momento, eu escolhi o senhor por causa dessa "barriguinha de cerveja".....

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Ela só precisa de uma desculpa

O clima no interior do pronto-socorro, naquela manhã era de tris-teza. Nas primeiras horas da madrugada, morrera um jovem de 22 anos, que fora trazido por uma ambulância de resgate do Corpo de Bombeiros.

Segundo comentavam os enfermeiros entre si e também o portei-ro da noite, embora com fratura exposta em um dos membros, mais precisamente em uma perna, o rapaz chegou consciente e contou que pilotava uma moto, quando foi "fechado" por um carro e bateu contra o muro de uma construção.

O paciente foi socorrido, imobilizado e o médico de plantão cuida-va de sua perna, quando ele começou a passar mal. Foi levado então para a sala de radiografia e tomografia e, posteriormente para o centro cirúrgico. Estava com hemorragia interna no peito e os médicos tenta-ram uma intervenção cirúrgica. Mas foi inútil. Ele morreu antes que a hemorragia pudesse ser estancada. "A pancada contra o muro, havia

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arrebentado ele por dentro", segundo linguagem popular do porteiro da noite.

Alguém chegou a comentar que se a intervenção cirúrgica tivesse sido antes o rapaz poderia ser salvo. E o porteiro repetiu isso para Sale-te, uma das enfermeiras veteranas no hospital. Mas ela comentou que nem sempre, por mais que queira, o médico pode salvar uma vida.

-Há algum tempo - ela contou - uma rapaz chegou aqui no hospital com um ferimento na cabeça. Ele estava andando, conversando nor-malmente, mas tinha um pano na cabeça, para estancar o sangue. Con-tou que estava andando em uma rua do centro, quando bateu com a cabeça em um toldo, desses que servem para proteger a porta do es-tabelecimento da chuva ou do sol".

Ainda, segundo a enfermeira, o rapaz tinha um corte, logo acima do olho, mas do lado direito da cabeça. Sob a orientação do médico de plantão, os enfermeiros fizeram os procedimentos necessário para es-tancar a hemorragia e chegaram da dar alguns pontos para a sutura do ferimento. Logo depois, entretanto, o rapaz começou a passar mal e foi levado para a sala de tomografia. Lá mesmo teve convulsões e antes que os exames estivessem prontos, ele morreu.

Salete disse que não houve descuido ou ineficiência médica. "Acompanhei tudo e simplesmente não deu tempo. Ele morreu por uma simples batida na armação de ferro do toldo, enquanto caminhava pela calçada".

Por fim ela ainda comentou: "O médico que estava socorrendo a ví-tima, disse que a pancada no toldo era só uma desculpa que a morte queria para levar o rapaz"

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Acompanhantes

Em sua experiência de alguns anos, como porteiro, José chegou à conclusão de que os acompanhantes dão mais trabalho do que os pa-cientes. Na maioria dos casos, os pacientes gemem, choram de dor, mas não ficam irritando ninguém. Já os acompanhantes, sofrem pelos seus amigos ou parentes e "botam a boca no mundo". Querem aten-dimento rápido, emergencial, passar na frente dos outros, furando a fila, tudo porque "é para a minha mãe que tem 70 anos". Eles têm ra-zão, mas muitas vezes a mãe, com a experiência dos anos, aguarda pacientemente. E o porteiro se pergunta: "Será a mãe, ou o filho que tem pressa para se desincumbir dessa missão?"

Outro dia, o porteiro estava em seu posto, na porta do pronto-socorro, quando uma senhora de meia idade, se encostou na parede, ao lado dele, dando a impressão que ia cair e reclamou que estava pas-sando mal. O porteiro chamou imediatamente uma enfermeira, da sala de classficação de risco e a mulher foi atendida na frente dos outros. O porteiro se sentiu satisfeito e com a consciência tranquila.

Dois dias depois, o fato se repetiu, com a mesma paciente. O por-teiro achou que "se ela estava doente e não se curou, poderia estar passando mal novamente" e agiu para que ela fosse socorrida de ime-diato. Mas coçou a cabeça.

Na terceira vez, que a mesma mulher chegou toda cambaleante até ele, o porteiro se perguntou: "Como ela consegue vir até o hospital e passa mal justo quando chega perto de mim? Será que eu tenho algo contagiante?"

No hospital, há uma regra pela qual, no pronto-socorro, só pode haver acompanhante para menores, idosos e gestantes. Naquela tarde, a mulher chegou-se a porteiro e suplicou:

-O meu filhinho entrou para consulta e até agora não saiu. Deve es-tar tomando soro, posso ficar com ele?"

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-Depende, senhora, que idade tem o seu filhinho?

-43 anos... Mãe é mãe! Foi por isso que quando o médico perguntou se tinha

fichas na caixinha, o Márcio respondeu: -É a mãe!

-Como você diz isso para o médico - replicou a colega de trabalho. E ele respondeu: É que nem mãe, só tem uma... Aparecem também no hospital, pacientes que perdem a paciência.

Um deles, sofreu uma fratura no ombro e teve o braço engessado. No dia seguinte voltou ao hospital, pois estava com muita dor no membro quebrado. Não podia movimentar o braço, mudar de posição e já tinha tomado analgésico sem resultado. Só restava aguardar o atendimento do ortopedista, para retirar o gesso, corrigir o estava errado e engessar de novo. Mas o ortopedista não tinha chegado. Aquele homem foi aguentando, aguentando, reclamando, mas uma hora não resistiu. Co-meçou a soltar inúmeros palavrões e a dar murros na parede com a única mão que tinha mobilidade. Foi uma tremenda reação, que deu resultados. Enfermeiros correram até ele e acabaram encontrando a solução necessária para acalmá-lo.

Outro paciente surpreendeu o porteiro por seu comportamento. Não dizia uma palavra, mas enquanto esperava sua vez de ser atendi-do, colocava as duas mãos sobre o balcão e dobrava o corpo. Depois, passava a mão sobre o peito, como se estivesse fazendo massagem. Andava de um lado para outro, respirava fundo e depois massageava novamente o peito. Em seguida repetia tudo. Mas sempre sem dizer nada.

O porteiro achou que ele estava muito mal, imaginando que podia ter um infarto e chamou a atenção da enfermeira, que nada via, por-que estava no interior da sala de atendimento. Ela chamou o paciente para aferir sua pressão arterial, fez logo a classificação de risco, preen-chendo a sua ficha, que, depois seria encaminhada ao médico. A ficha

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foi colocada na caixinha, para ser entregue ao paciente quando ele fosse chamado para a consulta.

O porteiro leu então o que estava escrito na ficha. "Conta que fez uso de cocaína ontem à noite; que hoje pela manhã ingeriu bebida alcoólica e que agora seu coração está a mil".

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O paciente do quarto 21

Paulo Sérgio, 18 anos, chegou desfalecido no hospital. Não tinha fe-rimentos graves, mas apresentava marcas circulares, avermelhadas de queimadura leve ou de alguma alergia nos pulsos e na testa. Era como se tivesse sido amarrado a uma cadeira ou se tivesse sido imobilizado pelos braços e cabeça, com algum instrumento. Em uma noite de ob-servação e tratamento no Pronto Socorro, ele se recuperou, mas não lembrava exatamente de tudo o que tinha acontecido. Dizia apenas que atravessava um terreno baldio, quando viu luzes intensas. Tudo o mais eram vultos que se moviam à sua volta e que o dominaram até foi encontrado por amigos, no mesmo local. O estranho é que ele ficou desaparecido por três dias.

O porteiro ouviu comentários sobre o caso, mas ficou sabendo de todos os detalhes quando o fato vazou para a imprensa. Um repórter local conseguiu uma entrevista com Paulo Sérgio e tirou dele até mais do que o rapaz sabia. Depois aproveitou que ele tinha o mesmo nome de um cantor consagrado na época e estampou a manchete: “Paulo Sérgio diz que foi raptado por um disco voador”.

O repórter entrevistou também um médico do hospital sobre as marcas no corpo da vítima. Na verdade o médico apenas disse que não tinha certeza do que teria provocado as manchas, o que foi utilizado

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apenas para aumentar as dúvidas e o suspense sobre o ocorrido, com o uso de palavras como “abdução” e outras muito conhecidas dos ufólo-gos.

Até ler a reportagem, o porteiro não sabia quem era o paciente do quatro 21. Mas depois, viu a foto do entrevistado e reconheceu o rapaz morador no seu bairro. Além disso, a reportagem repercutiu de tal forma, que chegou ao hospital o representante de um canal de televi-são da Capital. Ele queria saber se o paciente do quarto 21 concordaria em participar de um programa televisivo. Paulo Sérgio estava ficando famoso!

O porteiro não ficou muito impressionado com tudo isso, porque sabia que o rapaz já havia desaparecido de casa outras vezes. Não se entendia bem com a mãe e de vez em quando dava um “tempo” fora de casa...

O rapaz recebeu alta e o porteiro não o viu mais. Depois de alguns dias, encontrou-se com ele no seu bairro e perguntou se ele tinha ido para a TV e como estava a história toda.

-Acabou tudo em nada – disse o rapaz – porque a minha mão me pegou de jeito de meu deu um monte de chineladas nas costas de na bunda.

Depois levantou a camisa e mostrou o corpo. O porteiro viu então “inexplicáveis” manchas vermelhas nas costas do rapaz, que nunca mais quis saber de abduções.

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O bicentenário do estetoscópio

Segundo deduziu o porteiro, estetoscópio, é aquele instrumento que médicos e enfermeiros penduram no pescoço, principalmente para mostrar que são médicos e enfermeiros. Alguns andam para lá e para cá levando o instrumento como se fosse um troféu e não o tiram nem para almoçar no refeitório do hospital. Pode ser esquecimento e afinal de contas, quem é o porteiro para julgar?

Dia desses, José perguntou para uma jovem enfermeira se ela sabia quem era o inventor daquele instrumento tão útil. Não foi para testar a sabedoria da jovem, mas sim porque ele, o porteiro não sabia nada sobre o assunto. Para sua alegria ela disse que foi o médico francês René Laennec.

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René Laennec.

Com este ponto de partida, o porteiro foi pesquisar e verificou que no ano que vem (2016), o estetoscópio vai completar 200 anos de uma existência que só fez o bem para a humanidade. A única vez que José viu o estetoscópio utilizado de forma indevida, foi no cinema, onde ladrões de banco o utilizam para escutar o barulho no interior de um cofre que está sendo arrombado.

Com o nome derivado do grego (stéthos - peito e skopé - exame) ele não foi feito para ouvir os cliques no interior de um cofre. Laennec o desenvolveu em 1816, quando trabalhava no Hospital Neker, em Paris, para amplificar sons corporais como os dos coração e pulmões. Em seu livro De l'Auscultation Médiate, logo no prefácio, ele explica:

"Em 1816, eu fui consultado por uma jovem mulher com sintomas de uma doença cardíaca, e nesse caso a percussão, bem como a aplica-ção da mão, eram de pouca serventia, em virtude do grande grau de adiposidade da paciente. O outro método chamado escuta direta era inadmissível, tendo em vista a idade e o sexo dela. De repente, me

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lembrei de um simples e bem conhecido fato em acústica, a grande nitidez com que se ouve o arranhar de um pino em uma extremidade de uma peça de madeira ao aplicar o nosso ouvido no outro lado. En-tão, eu não só solicitei um laminado de papel em uma espécie de cilin-dro, como também apliquei o final do mesmo na região do coração e a outra extremidade no meu ouvido, e fiquei surpreso e satisfeito ao descobrir que eu podia, assim, perceber a ação do coração de uma maneira muito mais clara e distinta do que se eu alguma vez tivesse sido capaz de fazer isso pela aplicação imediata do meu ouvido."

Laennec ainda explica que a origem desta ideia ocorreu quando viu algumas crianças brincando perto do Louvre ouvindo as extremidades de uma longa peça de madeira que transmitiu os sons do pino arra-nhado. Com aquilo na cabeça, ele enrolou um pedaço de papel, amar-rando-o com uma corda, e ouviu os seus corações enfermos com ela. O médico também era carpinteiro e assim construiu uma peça de 25 cm por 2,5 cm de cilindro oco de madeira que ele também usava para ouvir os sons do peito dos pacientes. Ele depois modificou este cilindro em duas partes. Ele destacou os vários sons que ouviu e, em seguida, correlacionava com os dados anatômicos em suas autópsias. Em feve-reiro de 1818, ele apresentou suas descobertas em uma palestra na Academie de Medecin, depois publicando suas descobertas em 1819.

Antes de Laennec divulgar sua invenção, era costume os médicos

ouvirem o coração colocando o ouvido no peito dos pacientes. Com o

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estetoscópio, o médico francês evitava o constrangimento de colocar o ouvido no seio de uma mulher. Além disso, o instrumento era mais eficaz no caso de pessoas obesas.

Depois de ler sobre tudo isso, o porteiro passou a ter mais interes-se pelo instrumento que os médicos e enfermeiros carregavam no pes-coço e utilizavam para escutar os sons internos dos pacientes, ou como diz o nome, "olhar dentro do peito".

No livro que escreveu sobre todas as suas descobertas a respeito do corpo humano, o médico afirmou ainda: ""Eu sei que arrisquei a minha vida, mas o livro que estou publicando será, espero, o suficiente para ser mais útil do que a vida de um homem." E foi um grande avan-ço para a medicina e para todos que precisam de médicos, enfermeiros e hospitais.

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