No ritmo do Vagalume: culturas negras, associativismo ...· No ritmo do Vagalume: culturas negras

download No ritmo do Vagalume: culturas negras, associativismo ...· No ritmo do Vagalume: culturas negras

of 21

  • date post

    14-Nov-2018
  • Category

    Documents

  • view

    218
  • download

    0

Embed Size (px)

Transcript of No ritmo do Vagalume: culturas negras, associativismo ...· No ritmo do Vagalume: culturas negras

  • ResumoFrancisco Guimares, o Vagalume, foi um dos mais populares cronistas e dra-maturgos no Rio de Janeiro da Primeira Repblica. Reconhecido pela posterida-de pela publicao do livro Na roda do samba, de 1933, nasceu na segunda me-tade da dcada de 1870 em uma famlia de trabalhadores negros. Foi por isso um dos muitos afrodescendentes que, no ps-abolio, tiveram de buscar no-vos caminhos de sobrevivncia e afir-mao profissional. Vagalume o fez atravs de uma produo explicitamen-te vinculada aos interesses e lingua-gem dos trabalhadores negros e mesti-os da cidade, cujas prticas danantes e carnavalescas sempre buscou registrar. Com base em sua trajetria, o artigo se prope investigar como Vagalume aju-dou a definir novas bases para a cultura carioca e brasileira ao longo da Primeira Repblica em processo que teve na afirmao do samba como ritmo nacio-nal seu resultado mais visvel.Palavras-chave: Francisco Guimares; culturas negras; identidade nacional.

    AbstractFrancisco Guimares, known as Vagal-ume, was one of the most popular jour-nalists and playwrights in Rio de Janeiro during the First Republic. Recognized by posterity following the publication of the book Na roda do samba in 1933, he was born in the second half of the 1870s in a family of black workers. Therefore, he was one of the many Brazilians of Af-rican descent who in the post-abolition period had to seek new ways of survival and professional affirmation. He did this through a journalistic career explic-itly linked to the interests and language of Rio de Janeiros black working class, whose dances and carnival practices he always tried to register. Looking at his trajectory, this article seek to investigate how Vagalume helped to define a new foundation for Brazilian culture during the First Republic a process in which the affirmation of samba as the national rhythm was the most important result.Keywords: Francisco Guimares; black cultures; national identity.

    * Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Rio de Janeiro, RJ, Brasil. leonardo@puc-rio.br

    Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 35, n 69, p.13-33, 2015

    http://dx.doi.org/10.1590/1806-93472015v35n69002

    No ritmo do Vagalume: culturas negras, associativismo danante e nacionalidade na

    produo de Francisco Guimares (1904-1933)In the rhythm of Vagalume: black cultures, dance associations,

    and nationality in the writing of Francisco Guimares (1904-1933)

    Leonardo Affonso de Miranda Pereira*

  • Leonardo Affonso de Miranda Pereira

    14 Revista Brasileira de Histria, vol. 35, no 69 p.13-33

    O ano de 1933 marcou, para a cultura brasileira, um momento singular. Sob o ttulo Na Roda do Samba, Francisco Guimares, que se apresentava como Vagalume, publicou naquele ano seus apontamentos sobre esse ritmo que j assumira a predileo dos sales e rodas musicais cariocas (Vagalume, 1933). Ainda que viesse se afirmando nas rodas musicais cariocas desde os primeiros anos do sculo XX, foi somente a partir do fim da dcada de 1920 que aquela musicalidade sincopada passou a ter seu valor reconhecido e sau-dado por boa parte do mundo letrado. Nesse sentido, a obra de Vagalume representava um marco dessa valorizao ainda recente, capaz de ajudar a consolidar seu perfil em meio ao seu rpido processo de difuso.

    Representando, segundo o prprio autor, um sonho tornado realidade graas ajuda de um amigo, o livro era o fruto da familiaridade de Vagalume com musicalidade de base africana na cidade e seus principais sujeitos. Sintomaticamente, ele se abria com homenagens pstumas a alguns dos mais destacados nomes da produo cultural negra do Rio de Janeiro: o cantor Eduardo das Neves, palhao e compositor que se tornou um dos mais famosos autores de modinhas e lundus da cidade (Abreu, 2010); o compositor Sinh, cujas msicas faziam grande sucesso nos sales e nos carnavais das dcadas de 1910 e 1920 (Cunha, 2005); o carnavalesco Hilrio Jovino, tido como criador dos ranchos cariocas (Cunha, 2001); e Henrique Assumano Mina do Brasil, um importante aluf da comunidade negra carioca (Lopes, 2004). Em um mo-mento no qual ele mesmo reconhecia que o samba estaria sendo adotado na roda chic, sendo batido nas vitrolas e tocado nos programas de rdio, tratava de refletir sobre o seu perfil com base em sua associao direta com o universo cultural dos indivduos que pretendia homenagear com a obra que publicava. Negro como eles, com os quais convivia em sales, terreiros ou botequins, Vagalume dava assim forma a um livro que tinha o declarado in-tuito de reivindicar os direitos do samba e prestar uma respeitosa homenagem aos seus criadores, queles que tudo fizeram pela sua propagao (Vagalume, 1933, p.22).

    Ainda que no apresentasse ali propriamente uma histria do ritmo, li-mitando-se a elencar um apanhado de lembranas e casos ligados s prticas musicais negras no Rio de Janeiro, Francisco Guimares propunha nele uma reflexo sobre o processo de formao do samba enquanto ritmo. Tratava, para isso, de diferenci-lo da musicalidade propriamente africana do cateret, do batuque e do jongo. Somente depois de civilizado, diz ele, tal ritmo teria se afirmado como um elemento prprio da cultura brasileira, capaz de repre-sentar os diferentes segmentos da sociedade. Era assim a partir de um processo

  • No ritmo do Vagalume: culturas negras

    15Revista Brasileira de Histria, vol. 35, no 69 p.13-33

    de cruzamento, de mistura entre diferentes tradies, que Guimares caracte-rizava a formao de tal gnero musical.

    No foi pela obra de Vagalume, no entanto, que o ano de 1933 mereceu destaque no pensamento social brasileiro. Segundo a memria projetada por dcadas sobre a cultura nacional, naquele ano a reflexo sobre a nacionalidade seria revolucionada pelo jovem Gilberto Freyre, que publicava ento sua mais importante obra: o livro Casa-grande e senzala (Freyre, 2003). Em caminho diverso daquele tomado por muitos de seus antecessores, era a partir da mis-cigenao, entendida como caracterstica positiva da formao cultural brasi-leira, que Freyre se propunha a interpretar o pas em sua obra. Deixando de ser uma mcula da nao, a herana africana e portuguesa passava a ser vista por ele como motivo de orgulho, capaz de diferenciar o Brasil de outras naes tese recebida nos crculos letrados brasileiros com imediato entusiasmo, que marcou uma virada fundamental na reflexo sobre a identidade nacional. Como resultado, o movimento de construo daquilo que viria a se caracterizar como a cultura brasileira a partir da dcada de 1930 uma cultura mestia, com forte base nas heranas culturais dos africanos escravizados foi tomado, desde ento, como um processo de descoberta letrada. Por essa matriz de in-terpretao, intelectuais e literatos teriam forjado uma imagem forte e original da nao mediante a valorizao de elementos supostamente primitivos e ori-ginais de seu povo, em processo que teve no samba um de seus mais fortes produtos (Vianna, 1995; Garramuo, 2007).

    A publicao do livro de Vagalume naquele mesmo ano de 1933, cinco meses antes do aparecimento de Casa-grande e senzala, sugere, porm, outras possibilidades de compreenso desse fenmeno. Embora a tentativa de carac-terizar o samba como um ritmo mestio, formado no cruzamento entre dife-rentes tradies musicais, aproximasse primeira vista Francisco Guimares das perspectivas associadas a Gilberto Freyre, no era por meio da Histria, ou mesmo da descoberta de uma identidade nacional feita do exterior, que ele desenvolvia sua reflexo. Pelo contrrio, era como fruto direto de sua longa experincia no universo das prticas recreativas, associativas e religiosas dos trabalhadores negros do Rio de Janeiro, as quais acompanhara como cronista por dcadas, que estabelecia aquela proposta de interpretao do ritmo que j era, ento, pensado como um dos smbolos primeiros da nacionalidade. Se muitos estudos j trataram de demonstrar a relatividade da novidade repre-sentada pela obra de Freyre em 1933 (Abreu; Dantas, 2007; Lopes, 2009; Dantas, 2010; Pereira, 2010), acompanhar a trajetria e produo de Vagalume nas dcadas anteriores, de modo a compreender o universo de referncias a

  • Leonardo Affonso de Miranda Pereira

    16

    partir do qual deu forma sua obra, parece um bom meio de investigar com novas lentes o mesmo processo de modo a demonstrar o quanto a afirmao de uma imagem mestia para a cultura nacional ao longo da dcada de 1920, que teve no samba um de seus principais produtos, ligou-se tambm expe-rincia e agncia de sujeitos negros como Francisco Guimares.

    A inveno do Vagalume

    Essa uma histria que se inicia no dia 10 de maro de 1904, quando os leitores do jornal A Tribuna depararam, na terceira pgina da folha, com uma nova coluna intitulada Ecos Noturnos. Assinada por um certo Vagalume, a coluna estabelecia claro contraponto a outra srie do jornal: a Ecos, que ocupava o espao nobre da primeira pgina com comentrios sobre os grandes temas polticos do dia. O prprio ttulo da nova seo indicava, assim, sua diferena em relao a esses escritos: no lugar dos temas mais respeitveis tratados pela folha, como os debates parlamentares ou os atos da municipali-dade, era da noite carioca que se ocuparia o cronista do novo espao.

    Para alm do ttulo da coluna, o sentido dessa diferena comearia a se explicitar na crnica de abertura da srie, tradicionalmente utilizada pelos cronistas para apresentar seu programa (Chalhoub et al., 2005). Se no o faz de forma direta, Vagalume trataria de apresentar o perfil daqueles escritos j nas primeiras linhas de sua crnica de abertura, na qual reconhecia que a nova coluna era fruto direto de sua atuao nos meses anteriores no Jornal do Brasil, uma das mais populares folhas da capital federal (Silva, 1988). Tendo ingres-sado no jornal em 1898, o jovem Francisco Guimares acabou nele responsvel pelas suas sees menos prestigiadas, como a cobertura policial. Visto pel