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  • Afro-sia

    ISSN: 0002-0591

    revista.afroasia@gmail.com

    Universidade Federal da Bahia

    Brasil

    Serra, Ordep

    Monumentos negros: uma experincia

    Afro-sia, nm. 33, 2005, pp. 169-205

    Universidade Federal da Bahia

    Baha, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=77003306

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  • MONUMENTOS NEGROS:UMA EXPERINCIA

    Ordep Serra*

    Na rica bibliografia dos cultos afro-brasileiros avultam os ttulos sobreo candombl baiano. Mas pouca (ou nenhuma) ateno se d proble-mtica das condies de vida do povo-de-santo, em particular ao modocomo as comunidades que assim se identificam manejam o espao deseus santurios; poucas vezes so considerados seus esforos no sentidode gerir, manter e preservar seus territrios.1 So tambm mal estudadasas polticas pblicas de que tm sido alvo os grupos de culto e os templosda religio dos orixs. Apenas em um ponto cabe ressalva, a saber, noque toca abordagem do longo perodo em que, para o Estado brasileiro,o candombl era essencialmente caso de polcia: j no faltam estudos

    * Professor do Departamento de Antropologia, Universidade Federal da Bahia.1 Apenas recentemente se passou a falar de terreiros de candombl desta forma, isto , categorizando-

    os como territrios. Foi pioneira uma iniciativa do Projeto Egb (desenvolvido pela ONGKoinonia, Presena Ecumnica e Servios, sob a coordenao do antroplogo Rafael Soares deOliveira), que, em agosto do ano de 2000, promoveu, em Salvador, um Seminrio com o ttulode O Conceito de Territrios Negros (Ver Seminrios: 1 Seminrio do Projeto Egb no site doObservatrio Quilombola (http:www.koinonia.org.br/oq/impres_plantares.htm). Mesmo hoje,contam-se ainda muito poucos estudos sobre a espacialidade e o manejo dos terreiros, sua distri-buio no complexo urbano, sua relao com a evoluo urbana de Salvador, suas caractersti-cas enquanto territrios, no sentido sociolgico do termo. Ver a respeito Jussara Cristina Vascon-celos Rego Dias, Territrios do candombl (Dissertao de Mestrado, Instituto de Geocincias,Universidade Federal da Bahia, 2003). Para quem se interessa pelo assunto, outra fonte til deinformao vm a ser as inditas exposies de motivos que fundamentaram o tombamento dealguns terreiros de Salvador, instruindo os respectivos processos, disponveis nos arquivos doInstituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional.

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  • sobre a histria da represso a este culto.2 Menos estudado permanece oprocesso de mudana para um outro quadro, delineado no termo dasgrandes campanhas punitivas, quando cessaram as investidas policiaiscontra os templos afro-brasileiros, e ocorreu uma tentativa de modificaro tratamento dado a esses ritos pelo Estado, abrandando o modelo re-pressivo com um controle de outro tipo. De acordo com Gilberto Freyre,foi em Pernambuco que vingou plenamente (embora depois da morte doseu primeiro propugnador) a proposta de Nina Rodrigues de umamedicalizao do assunto; mas isto tambm se teria verificado naBahia.3 J uma outra perspectiva se desenhou quando os poderes pbli-cos descobriram a possibilidade de um uso profcuo do candombl en-quanto atrativo folclrico, na onda de uma valorizao nacionalista deelementos de cultura popular, num contexto renovado pelas promessasde uma nascente indstria do turismo. O processo iniciou-se ainda nadcada de 1930, mas s na de 1950 iria consolidar-se. Foi ento que, emSalvador, rgos governamentais ligados administrao do campo tu-rstico (a exemplo do antigo Departamento de Folclore da SecretariaMunicipal de Cultura) passaram a ocupar-se dos terreiros; posterior-

    2 Ver, por exemplo, Beatriz Gis Dantas, De feiticeiros a comunistas: acusaes sobre o candom-bl, Ddalo, 23 (1992); Jlio Braga, Na gamela do feitio. Represso e resistncia nos can-dombls da Bahia, Salvador, EDUFBA, 1992; ngela Lhning, Acabe com este santo, Pedritovem a.... Mito e realidade da perseguio policial ao candombl baiano entre 1920 e 1942",Revista USP. Dossi Povo Negro 300 anos, 28 (1995-1996), pp. 194-220.

    3 Ver Gilberto Freyre, Nina Rodrigues recordado por um discpulo, in Edson Nery da Fonseca(org.), Bahia e baianos (Salvador, Fundao das Artes/Empresa Grfica da Bahia, 1990) pp.59-66. Cf. em especial este trecho p. 64: Como investigador cientfico de problemas de raa ecultura, em geral, e de crime, em particular, Nina deixou mais de um discpulo, hoje mestreacatado [...] Como pioneiro da antropologia aplicada que seu continuador mais emrito talvezseja Professor Ulysses Pernambucano, cuja obra de estudo e fiscalizao das chamadas religiesnegras em Pernambuco, realizada durante o governo do Sr. Carlos de Lima Cavalcanti e desfei-ta pelo governo atual do mesmo Estado [...] representa uma das intervenes mais felizes dacincia e da tcnica antropolgica, orientada por um psiquiatra social, na vida de uma comunida-de brasileira, para facilitar, por meio de possvel contemporizao, a soluo de um problemaque a violncia policial e o dio teolgico s fazem dificultar e retardar. Foi no que mais insistiuo sbio africanologista. Em que as religies africanas no constituem problema de polcia. Ops-se sempre interveno policial na soluo do problema to delicado e teria acompanhado comsimpatia a obra de fiscalizao branda por psiquiatras, em vez de proibio violenta, por delega-do e soldados de polcia, das seitas africanas, realizada em Pernambuco pelo Professor UlyssesPernambucano e na Bahia pelo Major Juracy Magalhes, com a colaborao de tcnicos igual-mente capazes. O livro citado rene textos de Gilberto Freyre sobre a Bahia e baianos ilustres.O texto Nina Rodrigues recordado por um discpulo foi primeiramente publicado como Prefcioao livro de Augusto Lins e Silva, Atualidade de Nina Rodrigues, Rio de Janeiro, Leitura, 1945.

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  • mente, esta poltica veio a ser implementada na capital baiana por em-presas estatais como a Empresa de Turismo de Salvador (EMTURSA),ligada Prefeitura Municipal do Salvador, e a Empresa de Turismo daBahia (BAHIATURSA), ligada ao Governo do Estado da Bahia.4

    Uma terceira etapa nas relaes entre terreiros e o Estado viria ainaugurar-se na dcada de 1980, quando se deu (em algumas instncias)o reconhecimento do significado histrico desses centros de culto en-quanto depositrios da memria de um importante segmento da popula-o brasileira, e se afirmou o valor do acervo de bens culturais nelesencerrados: notveis il ax5 tornaram-se, ento, objeto de iniciativas depreservao que passaram a contemplar o patrimnio formado por mo-numentos e smbolos do povo-de-santo.6 Disso tratarei aqui, examinan-do de um modo especfico a experincia pioneira relativa ao Terreiro daCasa Branca do Engenho Velho, o Il Ax Iy Nass Ok.

    Uma iniciativa marcante permite assinalar o incio dessa nova eta-pa: um convnio celebrado em 1981 entre a Fundao Nacional Pr-Memria (FNPM), a Prefeitura Municipal do Salvador e a FundaoCultural do Estado da Bahia viabilizou a execuo de um projeto condu-zido pelas trs instituies com o fim de identificar e mapear os princi-pais stios e monumentos religiosos negros da Bahia, ensaiando umapoltica de proteo desse acervo cultural.7 Segundo a perspectiva ado-tada no documento inicial do referido projeto, alm de representarem4 Ver a propsito Jefferson Affonso Bacelar, Etnicidade. Ser negro em Salvador, Salvador, Ianam,

    1989. Cf. tambm Ordep Serra, guas do Rei, Petrpolis, Vozes, 1995, pp. 186 e ss.5 Terreiro o nome que comumente se d a centros de culto do candombl, ou seja, da forma de

    culto afro-brasileiro predominante na Bahia, em especial na regio de Salvador e Recncavo(ainda que se encontre praticada em outras regies do Brasil). Il ax vem a ser uma expressoda lngua iorub (nag) que significa templo. Il orix significa santurio de orix, e tantopode ser usada para designar o mesmo que il ax, como para indicar os santurios individuaisde diferentes orixs num terreiro.

    6 Recuando bastante, pode relacionar-se a mudana acima referida com uma grande movimenta-o social deflagrada, basicamente, a partir da dcada de 1970, no seio de segmentos urbanos dapopulao brasileira, com alcance muito pronunciado no meio negro de Salvador. Essa movi-mentao foi bem assinalada e analisada por Michel Agier, que a relaciona com transformaesiniciadas bem antes. Segundo observou este antroplogo, o processo teve desdobramentosetnopolticos, envolvendo a production des identits; acarretou redefinies institucionais,reconfiguraes do panorama intelectual e a gerao de novos modelos de policy-making nocampo da cultura: Michel Agier, Etnopoltica. A dinmica do espao afro-baiano, Revista deEstudos Afro-Asiticos, 22 (1992).

    7 Era objetivo deste convnio a execuo do Projeto de Mapeamento de Stios e MonumentosReligiosos Negros da Bahia (MAMNBA), de que adiante se falar.

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  • centros religiosos, os terreiros vm a ser uma forma de assentamento depopulaes pobres, negras ou negro-mestias, tanto em Salvador comoem outras urbes brasileiras: assentamentos com um arranjo especfico,com um tipo de manejo caracterstico de seu espao, de seu entorno.Sublinhou-se no referido texto o imperativo de levar em consideraoesse tipo especial de assentamento no planejamento urbano da metrpolebaiana.8 Insistiu-se tambm na categorizao dos stios em apreo comobens d