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Discute multilinguismo no Brasil

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    Revista do Programa de Ps-Graduao em Letras da Universidade de Passo Fundo - v. 4 - n. 1 - 102-115 - jan./jun. 2008

    Resumo

    Ensino e pesquisa na rede de ensino:

    para uma poltica de vnculos de

    conhecimentos

    Rosngela M orello*

    A pesquisa na escola popularizou-se nas duas ltimas dcadas no Bra-sil, evidenciando questes sobre as articulaes entre escola e sociedade, ensino e pesquisa, sobre as metodo-logias de ensino, o papel do aluno e professor e sobre a relao destes com o conhecimento a ser ensinado e aprendido. Considerando que o cerne desta perspectiva de pesquisa est na construo de uma posio investiga-tiva para alunos e professores e que esta posio est tradicionalmente ancorada na pesquisa como prtica distinta do ensino, indagamos sobre o estatuto do conhecimento que mobili-za. Motivada pelos desafios que per-correm a implementao de propostas em tal perspectiva, propomos discutir este estatuto como parte de uma po-ltica para a formulao do conheci-mento. Para tanto, acreditamos ser necessrio assumir uma tica investi-gativa na relao com o ensino.

    Palavras-chave: Ensino-via-pesquisa. Escola. Produo de conhecimento. Cincia. Cultura cientfica.

    Introduo: nsino-

    asiupseq/pesquisa-onisn

    forte na histria da educao no Brasil a tradio de se desvincularem ensino e pesquisa. Quase sempre en-tendida como instncia legitimada da produo de conhecimento,1 a pesquisa aparece circunscrita a nveis institucio-nais de estudos aprofundados. Nesta tradio, a ideia de que a pesquisa exige um domnio do pensamento e de tcnicas especfico liga-se ideia de ensino na escola, principalmente nos nveis fundamental e mdio, como es-pao de transmisso de conhecimento no produo ou formulao , am-bas ancorando uma definio prvia do papel imaginrio do aluno e professor nessa relao.

    * Docente na Universidade do Sul de Santa Catarina e pesquisadora do CNPq processo 484080/2007-5.

    Data de submisso: agosto de 2008. Data de aceite: novembro de 2008.

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    Revista do Programa de Ps-Graduao em Letras da Universidade de Passo Fundo - v. 4 - n. 1 - 102-115 - jan./jun. 2008

    De um lado, concebe-se que o aluno

    (criana ou adolescente) precisa de

    capacidades de raciocnio especficas

    para o exerccio da pesquisa e de suas

    formas de linguagem, o que justifica

    tanto a seriao e a organizao por

    disciplinas dos conhecimentos quan-

    to os ajustes do tipo de contedo a

    ser destinado a cada srie. De outro,

    generaliza-se um imaginrio de pro-

    fessor transmissor de conhecimentos

    os contedos , no investigador ou

    pensador.

    Quanto mais aprofundadas as

    pesquisas e mais bsicos (ou iniciais)

    os nveis de ensino institucionaliza-

    dos nas redes, mais largo e profundo

    o fosso que os separa. O estatuto do

    conhecimento, j disciplinarizado,

    divide-se entre estas instncias: numa,

    aquele a ser transmitido, reproduzi-

    do, porque formulado alhures; noutra,

    aquele que descoberto, inventado,

    formulado. Essas distines, embora

    dominantes na cultura escolar, tm re-

    cebido crticas profundas, que mostram

    especialmente seus efeitos restritivos

    na compreenso da natureza histrico-

    social do conhecimento.

    Ao final do sculo XIX, John Dewey,

    por exemplo, j anunciava a necessida-

    de de se assumir uma perspectva de

    vinculao dos conhecimentos produ-

    zidos na escola. Em nossos dias, esta

    perspectiva se fortalece em propostas

    pedaggicas que defendem uma inter-

    locuo investigativa de alcance social

    nas relaes de ensino-aprendizagem,

    em todos os nveis, atravs do ensino

    via pesquisa, ou por projetos.2 Essas

    propostas, de modo geral, questionam

    as tradicionais formas disciplinares e

    seriadas de organizao de contedos

    nos sistemas de ensino, promovendo

    uma reorganizao da relao ensino-

    aprendizagem. Ao mesmo tempo,

    pressupem revolues mais sutis no

    campo da formulao do conhecimen-

    to, uma vez que deixam a descoberto

    o estatuto do prprio conhecimento

    produzido, sua legitimidade social e

    institucional.

    Derivam da crticas abstrao do

    metaconhecimento que predomina nas

    relaes de ensino nas escolas. E, num

    quadro mais amplo, perguntar-se-

    sobre a funo social dos conhecimen-

    tos em face dos mercados cientficos

    derivados da institucionalizao das

    pesquisas e do que Santos (1985),

    numa crtica racionalidade cient-

    fica, denomina industrializao da

    cincia.

    Tomando em conta esse quadro

    geral, e considerando procedentes as

    crticas e propostas em prol de um

    posicionamento investigativo dos

    sujeitos na rede de ensino, propomos

    problematizar justamente as condies

    para a formulao do conhecimento

    nos nveis mdios e fundamentais. Es-

    pecificamente, observando os desafios

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    Revista do Programa de Ps-Graduao em Letras da Universidade de Passo Fundo - v. 4 - n. 1 - 102-115 - jan./jun. 2008

    enfrentados em trabalhos com docen-

    tes e alunos visando a constituir uma

    posio investigativa para as relaes

    ensino-aprendizagem na escola,3 inda-

    gamos sobre o estatuto do conhecimen-

    to produzido e quais potencialidades

    se podem vislumbrar para fortalecer

    a perspectiva investigativa.

    O funcionamento dos imaginrios

    que antecipam os sentidos sobre o

    papel do professor e aluno, antes in-

    dicado, constitui, para ns, um impor-

    tante foco de anlise. Por meio desse

    funcionamento, podemos observar a

    configurao de uma certa posio para

    o sujeito (professor e aluno) se repre-

    sentar nos processos de formulao do

    conhecimento. Observar a configurao

    dessas posies de representao signi-

    fica tocar nas condies histricas de

    significao e funcionamento das pr-

    ticas de formulao de conhecimento,

    notadamente, nos modos pelos quais

    se estabiliza uma memria para essas

    prticas. Ser no confronto com as evi-

    dncias que garantem o funcionamento

    desta memria que se instalaro as

    possibilidades de novos sentidos para

    as prticas investigativas na rede.

    Neste texto, destacaremos alguns

    pontos que marcam esse confronto e

    que repercutem nas relaes de ensi-

    no-aprendizagem-pesquisa. As redes

    digitais de informao e comunicao

    constituem um desafio e uma possibi-

    lidade para o ensino e a pesquisa, am-

    pliando a problemtica da formulao

    do conhecimento, como deixaremos

    aqui indicado.

    Ao propor essa anlise, entramos

    tambm na rede de memria das pr-

    ticas sociais de formulao de conhe-

    cimentos. No poderamos, por isso,

    negar a espessura tcnica e adminis-

    trativa da institucionalizao da pes-

    quisa, como mostraremos brevemente

    a seguir; ainda menos poderamos

    cair na defesa de um voluntarismo

    pedaggico que colocaria os sentidos

    do trabalho na vontade de cada um,

    ou, ainda, que aceitaria um esponta-

    nesmo do trabalho investigativo que

    abandonaria o conhecimento cientfico

    institudo, por meio do qual se tm as

    definies a priori do objeto.4

    Ao contrrio, trata-se, em nossa

    perspectiva, de operar com e sobre

    as prticas sociais constitudas para

    compreender seus efeitos de sentido e,

    assim, vislumbrar frestas para novas

    articulaes dos conhecimentos com

    seus exteriores.5 Por tudo isso, inda-

    gar sobre o estatuto do conhecimento

    na rede de ensino nos nveis funda-

    mentais e mdios um desafio novo e

    atual. E inevitvel! Mas no de fcil

    abordagem!

    Sigamos com nosso recorte.

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    Revista do Programa de Ps-Graduao em Letras da Universidade de Passo Fundo - v. 4 - n. 1 - 102-115 - jan./jun. 2008

    A diviso social do trabalho

    intelectual: nveis e prticas

    de pensar

    A reflexo sobre o estatuto de conhe-cimento que circula na rede de ensino remete, inicialmente, e como dissemos, ao prprio fazer (das) cincias, mode-lado no Brasil pela tradio ocidental. Nos dias de hoje, e no que se refere especificamente problemtica em foco, pesquisar-ensinar algo que j tomamos como evidentemente dividido em grades e categorias que nomeiam e institucionalizam os saberes. Para retomar brevemente esse quadro, temos divises em reas (cincias da terra, exatas, humanas...), em cam-pos (tericos ou prticos, tecnolgicos, epistemolgicos, descritivos, etc.), em nveis, graus, sries (1, 2 ou 3...) e em disciplinas.

    Essas divises constituem o traba-lho intelectual, mobilizando procedi-mentos que caracterizam e qualificam cada uma delas em relao s outras. Por meio delas se constituem os senti-dos para o sujeito se dizer em sua es-pecialidade e construir sua trajetria. As especializaes, os nveis de estu-dos, os concursos, os acessos a cargos gestores, por exemplo, funcionam como alguns destes procedimentos. Forja-se, nesse percurso, todo o aparato tcnico, administrativo e poltico que funda

    o real da pesquisa e do sistema de ensino. um real que nos enreda, do qual no escapamos, porque lanamos mo dele para falar e dar sentido ao que fazemos.

    Queremos com isso dizer que, em certa medida, quando atingimos o nvel superior nos representamos prontos a explicitar, garantir ou mos-trar a necessidade de definir critrios de pesquisa, ou, ento, a propor novos, em nossa rea. Identificamo-nos com essa prtica sem estranhar o fato de que descrever e operacionalizar com os sentidos de cientificidade j um produto do discurso da cincia.6