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  • AMERINDIA n17, 1992

    Ordem de palavra : primeiros passos para uma relao entre som, forma e estrutura em tikuna

    Marlia FACO SOARES

    Setor de Lingstica - Museu Nacional / UFRJ

    1- Objetivos

    Trazemos, para o espao deste artigo, alguns aspectos sintticos da lngua tikuna1. O nosso principal propsito o de discutir a aparente flexibilidade da ordem de palavra e fornecer uma explicao para o surgimento de marcao de caso nessa lngua. Ao mesmo tempo, temos a inteno de mostrar que aspectos discursivos podem determinar a forma de construes gramaticais.

    Os aspectos sintticos a serem abordados aqui dizem respeito a restries existentes na localizao de sujeito e objeto nominais em posies ps-verbais, restries essas intrinsecamente ligadas a construes transitivas. A apresentao de tais aspectos se d no contexto de uma pesquisa voltada para a

    1 A lngua tikuna considerada lngua isolada, sem relao com qualquer famlia lingstica,

    segundo Rodrigues (1970 : 4034-4036). Falada por uma populao que vive em trs pases - Brasil, Peru e Colmbia -, a maior parte de seus falantes est localizada no Brasil, distribuda por 69 comunidades pertencentes a oito municpios do Estado do Amazonas (Tabatinga, Benjamin Constant, So Paulo de Olivena, Amatur, Santo Antnio do I, Tocantins, Juta e Beruri). Os Tikuna so o maior grupo indgena existente no Brasil (cerca de 20.000 indivduos).

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    relao entre nveis lingsticos e, em especial, para a verificao do grau de ajustamento/desajustamento entre estrutura sinttica e estrutura prosdica2. Nesse sentido, as concluses aqui apresentadas sobre ordem de palavra constituem passos iniciais e necessrios para uma articulao futura entre a fonologia, a morfologia e a sintaxe da lngua tikuna.

    2- ordem de palavra

    2.1- A ordem SOV

    Para falar de ordem de palavra sem nos referirmos de imediato a configuraes sintticas, vamos supor que uma orao pode ser vista como consistindo basicamente de um predicado e um nmero de argumentos nominais, mantendo cada um desses argumentos exatamente uma relao

    2 O trabalho de que resultou o presente artigo foi realizado no mbito de um estudo prosdico

    integrado. Tal estudo vem sendo entendido por ns como aquele que - ao levar em considerao os nveis da slaba, da palavra, da sentena e do discurso - permite o estabelecimento, em termos fonolgicos, de relaes entre os nveis suprassegmental e segmental. Alm disso, como nesse tipo de estudo no se perde a viso da lngua como um todo, seus resultados devem no s permitir uma integrao entre o fontico, o fonolgico e os demais nveis lingsticos, mas tambm dar lugar a uma reflexo sobre a prpria relao entre nveis lingsticos. No percurso em que se insere o presente artigo, os dados lingsticos conservam a informao fontica : caractersticas fonticas no-distintivas no so imediatamente descartadas como irrelevantes, porque, podendo estar funcionalmente ligadas a certos domnios, so fonte potencial para a explicao de fatos lingsticos. Nesse mesmo percurso estamos tambm prevendo a manuteno da informao sobre o produtor dos dados - o informante. Esse tipo de informao se justifica diante da importncia que possui, para um estudo prosdico integrado, a possibilidade permanente de uma alterao da relao entre elementos, no que diz respeito aos domnios aos quais esses elementos pertenam - uma alterao que no deve de imediato ser desvinculada de quem as produz. Neste artigo, porm, no lanaremos mo da informao sobre o informante : uma vez que falaremos aqui unicamente sobre ordem de palavra e sobre a falta de ajustamemto entre o nvel das relaes gramaticais e o nvel em que se constituem todos fonolgicos, sem entrarmos na questo de como atuam padres rtmicos na fala de diferentes informantes ou de um mesmo informante, no consideramos relevante exibir aqui informao sobre o falante nativo. Quanto ao sistema de notao empregado, estamos utilizando, para a parte segmental, o Alfabeto Fontico Internacional. Estamos ainda discriminando duraes silbicas - durao longa (-) e durao breve (no marcada). No registro da altura substitumos, por razes tipogrficas, a nossa notao habitual com nveis de altura relacionados a barras verticais por nmeros, sendo a seguinte a relao entre os nmeros empregados e os nveis de altura discriminados : 1 = alto ; 2 = meio-alto ; 3 = mdio ; 4 = meio-baixo ; 5 = baixo. A laringalizao marcada com um til subscrito ao segmento e a pausa, quando indicada, tem o seu registro feito com o sinal ^ ao nvel da linha. Por fim, os dados, que so fonticos, tm a sua constituio morfolgica revelada atravs de traos de unio. (Esses traos de unio substituem os colchetes horizontais que habitualmente empregamos em nossos trabalhos.)

  • FACO SOARES M. : Ordem de palavra ... em tikuna 91

    gramatical com um verbo. Se a relao gramatical mantida no ela prpria decorrente de uma dada configurao sinttica, e sim proposta como um primitivo no-analisvel, possvel considerar sujeito e objeto como constituindo relaes gramaticais primitivas3. Tomando, ento, inicialmente os termos sujeito e objeto como primitivos, diremos que a maior parte das oraes transitivas em tikuna so construdas com o sujeito precedendo o objeto, estando o verbo em posio final. Dessa ordem so exemplos

    (l) marYa r" rYza-si i-dXXA$ Maria z Elisa-piolho ela-catar 'Maria catou piolho da Elisa'

    (2) frYza r" lPiza-mD 6-dza?O Elisa z Luiza-mo ela-lavar 'Elisa est lavando a mo de Luiza'

    (3) marYa r" pAkara i-?U Maria z cesta ela-fazer 'Maria fez cesta'

    (4) marYa pAkara i-U ga? Yn Maria cesta ela-fazer x ontem 'Maria fez cesta ontem'

    (5) hXXTjnXA$d$ XAjr$ ni-mQ Reinaldo cachorro 3p-matar 'Reinaldo matou o cachorro'

    (6) hXXTjnXA$d$ r" XAjr$ ni-mQ? Reinaldo z cachorro 3p-matar 'Reinaldo matou o cachorro'

    (7a) grAsila nA-tsir$ i-dzXA$ Gracila 3p-roupa ela-pegar 'Gracila pegou a roupa'

    3 Essa suposio cumpre apenas um objetivo operacional, que o de nos aproximarmos da

    ordem de palavra sem recorrer, desde o incio, a configuraes sintticas. Desse modo, no representa essa mesma suposio uma manifestao de filiao terica a postulados da Gramtica Relacional, tal como eles foram colocados, h tempos, por Postal e Perlmutter (1974) e Johnson (1974).

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    (7b) grAsila nA-tsir$-7 i-dzXA$ Gracila 3p-roupa-dativo ela-pegar 'Gracila pegou a roupa'

    (8a) grAsila XAjr$ i-dzXA$ Gracila cachorro ela-pegar 'Gracila pegou o cachorro'

    (8b) grAsila XAjr$-7 i-dzXA$ Gracila cachorro-dativo ela-pegar 'Gracila pegou o cachorro'

    Na ordem focalizada nota-se que o que poderamos considerar como sujeito aparece, muitas vezes, seguido da partcula referida como 'z', como se v nos exemplos (l), (2), (3) e (6). Essa partcula aparece tambm, facultativamente, em oraes intransitivas, como se v em

    (9) lHdXa$qa r" ?6-uO Lindalva z ela-chegar 'Lindalva chegou'

    (10) lHdXa$qa 6-uO Lindalva ela-chegar 'Lindalva chegou'

    Essa mesma partcula, nas oraes transitivas, pode no aparecer depois do sujeito, como acontece em (4), (5), (7) e (8), tudo indicando que ela no identificadora de um sujeito. Ns a consideramos como marca de tpico e vamos voltar a ela mais tarde (ver 2.4).

    Note-se tambm que, na ordem focalizada, em que sujeito e objeto esto antes do verbo, ambos no recebem necessariamente uma marca morfolgica : como mostra o exemplo (5), a ordem pode bastar para a identificao de sujeito e objeto. A possibilidade da marcao de caso surge aqui a partir do momento em que est na posio de objeto um argumento paciente que possui o trao [+ animado], como comprovam os pares de exemplos em (8) e a agramaticalidade de (7b) em face da gramaticalidade de (8b). A marcao de caso no objeto, que aqui surge por razes semnticas, exemplificada atravs do uso de um morfema a que estamos nos referindo como 'dativo'. Encontrado em seqncias espontaneamente obtidas como

  • FACO SOARES M. : Ordem de palavra ... em tikuna 93

    (11) tsZ-?7 kP-r" bPratsa lp- dativo 2p-possessivo bolacha '[d] para mim a tua bolacha'

    o morfema 'dativo' pode surgir por razes outras que no aquelas ligadas identificao de um argumento dativo codificado como objeto indireto. Quando essas razes se apresentam, tal como acontece em (8b), o morfema 'dativo' no altera a condio dos verbos cujo objeto ele marca: esses verbos continuam sendo transitivos, e o objeto que recebe a marca de 'dativo' ainda um objeto direto.

    Com relao concordncia verbal, tem-se que, na ordem SOV, o verbo s exibe concordncia com o sujeito, conforme revelam, por exemplo, (5) e (8a)4.

    Por fim, vale dizer ainda que gramatical a presena de objeto indireto em posio pr-verbal5:

    4 A concordncia com o sujeito marcada no verbo atravs dos seguintes prefixos (fazemos

    abstrao da informao relativa altura e durao) : tsa-, tsi- '1a pessoa singular' ku-, ki- '2a pessoa singular' na-, ni- '3a pessoa' ta-, ti- '3a pessoa ntima' i-, idza- '3a pessoa feminina' ta-, ti- '1a pessoa do plural' pe-, pi- '2a pessoa do plural' No verbo tambm h lugar para um morfema que, mais frente, identificaremos como relacionado expresso da noo 'objeto' interna ao verbo. Manifestado pelas seqncias na e dza, esse morfema no se confunde com marcas ligadas terceira pessoa, uma vez que fatos de distribuio permitem separar as marcas de pessoa do referido morfema.

    e alguns desses fatos so : Exemplos d 3p-beber ni-dzU?" 3p-danar ni-A?"

    idza-dzU?" ela-danar idza-A?" ela-beber tsa-dza-mQ 'eu matei' lp-objeto internk$-dza-mQ 'voc matou'