Liberta-me (02) - Tahereh Mafi

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  • 2

    Liberta-me o segundo livro da trilogia de

    Tahereh Mafi. Se no primeiro, Estilhaa-me,

    importava garantir a sobrevivncia e fugir das

    atrocidades do Restabelecimento, em Liberta-me

    possvel sentir toda a sensibilidade e tristeza que

    emanam do corao da herona, Juliette.

    Abandonada prpria sorte, impossibilitada de

    tocar qualquer ser humano, Juliette vai procurar

    entender os movimentos de seu corao, a maneira

    como seus sentimentos se confundem e at onde ela

    pode realmente ir para ter o controle de sua prpria

    vida. Uma metfora para a vida de jovens de todas

    as idades que tambm enfrentam uma espcie de

    distopia moderna, em que dvidas e medos

    caminham lado a lado com a esperana, o desejo e o

    amor. A bela escrita de Tahereh Mafi est de

    volta ainda mais vigorosa e extasiante.

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    1 O mundo pode estar ensolarado hoje.

    A grande bola amarela pode estar derramando-se nas nuvens, fluida e

    borrada, parecendo gema de ovo no cu mais azul, brilhante de esperanas frias e

    promessas falsas sobre lembranas doces, famlias de verdade, cafs da manh de

    rei, pilhas de panquecas banhadas em xarope de bordo sobre um prato em um

    mundo que no existe mais.

    Ou talvez no.

    Talvez o dia esteja escuro e mido, soprando um vento to cortante que fere

    a pele dos ns dos dedos de homens adultos. Talvez esteja nevando, talvez esteja

    chovendo, no sei, talvez esteja gelado, tenha granizo, seja um furaco

    escorregando para um tornado e a Terra esteja tremendo e se abrindo para liberar

    espao para os nossos erros.

    No tenho a menor ideia.

    No tenho mais janela. No tenho uma vista. Faz um milho de graus abaixo

    de zero em meu sangue e estou enterrada 15 metros abaixo da terra em uma sala

    de treinamento que virou meu segundo lar nos ltimos tempos. Todos os dias,

    encaro essas quatro paredes e lembro a mim mesma que no sou prisioneira, no

    sou prisioneira, no sou prisioneira, mas, s vezes, os antigos medos percorrem

    minha pele e pareo no conseguir me libertar da claustrofobia que aperta minha

    garganta.

    Fiz tantas promessas quando cheguei aqui.

    Agora, no tenho tanta certeza. Agora, estou preocupada. Agora, minha

    mente uma traidora porque meus pensamentos arrastam-se para fora da cama

    toda manh com olhos agitados e mos suadas e risos nervosos que se acomodam

    em meu peito, crescem em meu peito, ameaam explodir meu peito, e a presso me

    aperta e me aperta e me aperta.

    A vida por aqui no o que eu esperava que fosse.

    Meu novo mundo est gravado em bronze de canho, selado com prata,

    afogado nos cheiros de pedra e ao. O ar gelado, os tapetes so laranja; as luzes e

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    os interruptores apitam e tremulam, eletrnicos e eltricos, brilhantes em neon.

    Est cheio aqui, cheio de corpos, cheio de salas lotadas de sussurros e gritos, ps

    batendo no cho e passos cuidadosos. Se eu prestar bastante ateno, posso ouvir

    os sons de crebros trabalhando e testas sendo beliscadas e dedos tamborilando

    em queixos e lbios e sobrancelhas franzidas. As ideias so carregadas nos bolsos,

    os pensamentos esto apoiados na ponta de todas as lnguas; olhos se comprimem

    com a concentrao, com o planejamento cuidadoso a respeito do qual eu devia

    querer saber.

    Mas nada est funcionando e todos os meus pedaos esto quebrados.

    Devo controlar minha Energia, disse Castle. Nossos dons so formas

    diferentes de Energia. A matria nunca criada ou destruda, ele me contou, e,

    como nosso mundo mudou, a Energia contida nele mudou tambm. Nossas

    habilidades so tiradas do universo, de outras matrias, de outras Energias. No

    somos aberraes. Somos inevitabilidades das perversas manipulaes de nossa

    Terra. Nossa Energia veio de algum lugar, ele disse. E algum lugar no meio do caos

    ao nosso redor.

    Faz sentido. Lembro-me de como o mundo estava quando eu o deixei.

    Lembro-me dos cus irritados e da sequncia de pores do sol

    desmoronando sob a Lua. Lembro-me da terra rachada e dos arbustos speros e do

    que costumava-ser-verde e est agora muito perto do marrom. Penso na gua que

    no podemos beber e nos pssaros que no voam e em como a civilizao foi

    reduzida a nada alm de uma srie de aglomerados espalhados pelo que sobrou de

    nossa terra devastada.

    Este planeta como um osso quebrado que no voltou ao lugar certo, cem

    pedaos de cristal colados. Fomos estilhaados e reconstrudos, disseram-nos para

    nos esforarmos todo dia e fingirmos que ainda funcionamos da maneira como

    deveramos. Mas mentira, tudo mentira; cada pessoa lugar coisa e ideia uma

    mentira.

    Eu no funciono do jeito certo.

    No sou nada alm da consequncia de uma catstrofe.

    Duas semanas desabaram na beira da estrada, abandonadas, j esquecidas.

    H duas semanas estou aqui e, em duas semanas, instalei-me em uma cama de

    cascas de ovo, imaginando quando alguma coisa vai quebrar, quando eu serei a

    primeira a quebr-la, imaginando quando tudo vai desmoronar. Com duas semanas,

    eu devia estar mais feliz, mais saudvel, dormindo melhor e mais tranquila neste

    espao seguro. Em vez disse, fico preocupada com o que vai acontecer quando se eu

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    no conseguir acertar, se eu no descobrir como treinar da forma certa, se eu

    machucar algum de propsito por acidente.

    Estamos nos preparando para uma guerra sangrenta.

    Por isso estou treinando. Todos ns estamos tentando nos preparar para

    derrotar Warner e seus homens. Para ganhar uma batalha por vez. Para mostrar

    aos cidados de nosso mundo que ainda h esperana, que eles no precisam

    concordar com as exigncias do Restabelecimento e virar escravos de um regime

    que no quer nada alm de explor-los para ter poder. E eu concordei em lutar. Em

    ser uma guerreira. Em usar meus poderes em contradio com meu bom senso.

    Porm, a ideia de encostar a mo em algum traz um mundo de lembranas,

    sentimentos, um arrepio de poder que experimento somente quando entro em

    contato com uma pele no imune minha. Um arrepio de invencibilidade; um tipo

    atormentado de euforia; uma onda de intensidade que enche cada poro de meu

    corpo. No sei o que isso far comigo. No sei se posso confiar em mim mesma para

    ter prazer com a dor de outra pessoa.

    Tudo que sei que as ltimas palavras de Warner esto presas em meu

    peito e no consigo tossir e expelir o frio e a verdade que ferem o fundo de minha

    garganta.

    Adam no faz ideia de que Warner pode tocar em mim.

    Ningum sabe.

    Warner devia estar morto. Warner devia estar morto porque eu devia ter

    atirado nele, mas ningum supunha que eu precisaria saber disparar uma arma e,

    agora, acho que ele veio me procurar.

    Ele veio para lutar.

    Por mim.

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    2 Uma batida rpida e a porta aberta de repente.

    Ah, senhora Ferrars. No sei o que espera conseguir sentada no canto.

    O sorriso fcil de Castle entra danando na sala antes dele.

    Eu tomo um pequeno flego e tento olhar para Castle, mas no consigo. Em

    vez disso, sussurro uma desculpa e ouo o tom arrependido que minhas palavras

    ganham nessa grande sala. Sinto meus dedos trmulos apertarem-se contra as

    esteiras espessas e acolchoadas espalhadas pelo cho e penso que no conquistei

    nada desde que cheguei aqui. humilhante, muito humilhante decepcionar uma das

    nicas pessoas que j foi gentil comigo.

    Castle fica parado bem em frente a mim, espera at eu finalmente levantar o

    olhar.

    No precisa se desculpar ele diz.

    Seus olhos penetrantes e castanho-claros e seu sorriso amigvel fazem com

    que seja fcil esquecer que ele o lder do Ponto mega. O lder de todo esse

    movimento clandestino dedicado a lutar contra o Restabelecimento. A voz dele

    muito suave, muito gentil e isso quase pior. s vezes, queria que ele simplesmente

    gritasse comigo.

    Porm ele continua , precisa aprender a controlar sua energia,

    senhora Ferrars.

    Uma pausa.

    Um passo.

    As mos dele repousam sobre a pilha de tijolos que eu devia ter destrudo.

    Ele finge no reparar nos contornos vermelhos ao redor dos meus olhos nem nos

    canos de metal que atirei pela sala. O olhar dele evita com cuidado as manchas de

    sangue nas tbuas de madeira colocadas de lado; seus questionamentos no me

    perguntam por que meus punhos esto cerrados e nem se eu me machuquei de

    novo. Ele levanta a cabea na minha direo, mas est olhando para um ponto logo

    atrs de mim, e sua voz delicada quando fala.

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    Sei que difcil para voc ele afirma. Mas a senhora tem que

    aprender. Precisa aprender. Sua vida depende disso.

    Engulo em seco com tanta fora que ouo o eco do gole no abismo entre ns

    dois. Fao que sim com a cabea, encosto-me na parede, dou boas-vindas ao frio e

    dor do tijolo enterrado em minha espinha. Puxo os joelhos para perto de meu peito

    e sinto os ps pressionados contra as esteiras protetoras que cobrem o cho. Estou

    to perto de chorar que tenho medo de acabar gritando.

    Eu apenas no sei digo, por fim. No sei nada disso. No sei nem

    mesmo o que eu deveria estar fazendo.

    Olho para o teto e pisco pisco pisco. Meus olhos parecem brilhantes, midos.

    No sei como fazer as coisas acontecerem.

    Ento, precisa pensar Castle diz, sem se deixar deter.

    Ele pega um cano de metal descartado. Pesa-o n