John Cage e a poética do silêncio - CORE · PDF file 2016-03-04 · 2...

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

    CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

    CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA

    TESE DE DOUTORADO / TEORIA LITERÁRIA

    ORIENTADOR: PROF. DR. MARCOS JOSÉ MÜLLER-GRANZOTTO

    John Cage e a poética do silêncio

    ALBERTO ANDRÉS HELLER

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    ALBERTO ANDRÉS HELLER

    JOHN CAGE E A POÉTICA DO SILÊNCIO

    Tese apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Literatura

    da Universidade Federal de Santa Catarina

    sob orientação do Professor Dr. Marcos José Müller-Granzotto

    para obtenção do título de Doutor em Teoria Literária.

    Florianópolis, 2008

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    ÍNDICE P.06 Resumo P.07 Agradecimentos P.10-159 Texto P.161 Bibliografia

    John Cage por Quino

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    RESUMO

    Esta tese se propõe a analisar o silêncio a partir da obra de John Cage (especialmente a literária e a musical). Esse silêncio, inicialmente compreendido por Cage como um empírico (a pausa em música), revela-se gradualmente um transcendente: não mais uma substância nem a simples ausência de som, mas um modo da ação (modo de silêncio), aparecendo como estilo, profundidade, aura, dimensão, verticalidade, densidade. Esse silêncio implica modos de percepção e temporalidade próprios, descritos aqui a partir das noções de Gelassenheit (Heidegger) e Awareness (Gestalt) e estabelecendo conexões com as noções de Invisível em Merleau-Ponty e de Nada no Zen-budismo. Palavras-chave: Cage, silêncio, transcendental, Gelassenheit, awareness, invisível, nada.

    RESUMEN Esta tesis se propone a analisar el silencio a partir de la obra de John Cage (especialmente de la literária y de la musical). Esse silencio, inicialmente compreendido por Cage como un empírico (la pausa en la musica), se muestra gradualmente un transcendental: no más una substancia ni la simples ausencia de sonido, pero un modo de acción (modo de silencio), apareciendo como estilo, profundidad, aura, dimensión, verticalidad, densidad. Esse silencio implica modos de percepción y temporalidad proprios, descritos aqui a partir de las nociones de Gelassenheit (Heidegger) y Awareness (Gestalt) y estableciendo relaciones con las nociones de Invisible en Merleau-Ponty y de Nada en el Zen-budismo. Palavras-llave: Cage, silencio, transcendental, Gelassenheit, awareness, invisible, nada.

    ZUSAMMENFASSUNG

    Die hiesige Dissertation analysiert die Stille nach dem Werk John Cages (insbesondere das literarische und das musikalische). Diese Stille, vom Cage anfänglich als empyrisch verstanden (die Pause in der Musik), ergibt sich allmählich als transcendent: weder Substanz noch fehlen vom Klang, sondern Weise der Action (Weise der Stille), und erscheinet als Still, Tiefe, Aura, Dimension, Verticalität (Senkrechtlichkeit), Densität (Dichte). Solche Stille impliziert ausgezeichnete modi der Perception und der Temporalität (Zeitlichkeit), hier beschreibt nach den Begriffen von Gelassenheit (Heidegger) und awareness (Gestalt), und mit Beziehungen zu den Begriffen Unsichtbar (Merleau-Ponty) und Nichts (Zen-Buddhism). Hauptworte: Cage, Stille, Transcendental, Gelassenheit, Awareness, Unsichtbar, Nichts.

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    AGRADECIMENTOS

    Aos meus pais, Armando e Haydée, que sempre me apoiaram e apóiam

    incondicionalmente; ao meu orientador, Marcos José Müller-Granzotto, que em suas

    aulas e orientações não faz história do pensamento: pensa e faz pensar – um exemplo a

    ser seguido; à coordenação da pós-graduação em Literatura da UFSC, que aceitou em

    seu programa, sem restrições, esta tese “interdisciplinar”; à CAPES, pela bolsa de

    estudos.

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    O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.

    Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas, p.371)

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    de repente ao longe o passo a voz nada então de repente algo

    algo então de repente nada de repente ao longe o silêncio

    Samuel Beckett (How it is, p.14)

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    I

    Sobre o que não se pode falar, é preciso calar1, diz-se; silêncio que, no entanto,

    clama novamente pela fala (ou, como diz Cage: “O que queremos é o silêncio; mas o

    que o silêncio quer é que eu continue falando”2). Mas ao continuar falando, para onde

    vai esse silêncio? Em que se transforma? Como se relaciona com a fala? Há algo como

    uma fala do silêncio, ou uma fala silenciosa? Ou serão ambos mutuamente excludentes?

    Ainda não sabendo se há ou não fala silenciosa, talvez o mais acertado seja

    começar não pelo silêncio da fala, mas pela fala sobre o silêncio. Ou sobre os silêncios.

    Sim, porque há vários: há o silêncio da falta e da completude, da presença e da ausência,

    do vazio e do pleno, do não querer falar e do não poder falar, do bloqueio e do indizível,

    da mudez e da surdez, do calar (tacerere / Schweigen) e da quietude (silere / Stille) –

    enfim, infinitos silêncios que se cruzam e se entrecruzam.

    John Cage (1912-1992) se deparou, ao longo de sua vida, com essas várias

    possibilidades e mutações do silêncio, dedicando-lhe grande parte de sua obra (musical,

    literária, teatral e plástica). Mais que um tema entre outros, o silêncio se transformou na

    noção central de seu pensamento artístico e teórico, de onde nos permitimos falar, em

    relação à sua obra, numa poética3 do silêncio.

    II

    John Cage e a poética do silêncio. Tese.

    Quatro palavras principais: Cage, poética, silêncio, tese (mesmo não fazendo

    parte do título, o formato ‘tese’ não pode ser ignorado: ele impõe certos limites e

    expectativas, leis e nomes; uma presença nada silenciosa que sugere verdades, bem

    como a possibilidade de demonstração de tais verdades). De um lado do título temos

    ‘John Cage’; do outro, ‘a poética do silêncio’ - ambos unidos-separados pela partícula

    ‘e’. Numa outra construção, o título poderia ter sido ‘A poética do silêncio em John

    Cage’, ou ‘Silêncio: a poética de John Cage’, onde ficaria clara e delineada a primazia

    1 Frase final do Tractatus logico-philosophicus de Wittgenstein. 2 CAGE: Lecture on nothing (1959). In Silence, p.109. 3 Em relação à noção de poética em Cage, ver LVI a LVIII.

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    da perspectiva cageana do silêncio. O fato de eu ter optado por ‘John Cage e a poética

    do silêncio’ não foi gratuito: mais que pensar o silêncio em ou para John Cage, quero

    pensar o silêncio a partir de John Cage (e a partir do próprio silêncio).

    Irei expor três diferentes compreensões do silêncio em Cage; as primeiras duas

    são claras e declaradas em seus textos, a terceira já não tanto, sendo talvez mesmo

    discutível – e é onde venho colocar minha tese. Até que ponto essa “terceira

    compreensão” pertence a Cage, até que ponto sou eu quem a imputa a ele? Não sei.

    Acredito (e trarei numerosos exemplos e citações de Cage para tentar provar isso) que

    Cage chega, sim, a essa terceira compreensão; mas não o declara de forma tão

    contundente quanto as primeiras duas. De qualquer forma, se através do estudo de sua

    obra pude chegar a essa compreensão, foi porque, intencionalmente ou não, seu

    pensamento a possibilitou, e porque a própria possibilidade desse silêncio estava, desde

    o início, dada.

    III

    Poucos artistas demonstraram tanto interesse e profundidade em relação ao tema

    do silêncio quanto Cage. Principalmente no sentido de mostrar que o silêncio não se

    reduz ao campo do fenômeno acústico-sonoro (do contrário, esta tese estaria melhor

    situada nas áreas de música ou física) -; “o silêncio não é acústico”, diz Cage, “é uma

    mudança da mente, uma reviravolta. Devotei minha música a isso”4.

    Uma vez que o silêncio não se reduz à questão acústico-musical e que Cage se

    utiliza de recursos, técnicas e concepções similares na música, na literatura e na pintura

    (assim como em eventos envolvendo dança, teatro e performance), podemos (devemos)

    observar sua obras como campos em contínua transgressão e interpenetração, nos quais

    constatamos, apesar das especificidades, coerência e unidade na maneira como Cage

    explora o(s) silêncio(s). Podemos obervar uma das manifestações desse silêncio, por

    exemplo, nas colunas verticais dos mesósticos, sua forma poética preferida:

    4 Ibidem, p.164.

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    what a Joy to hAve theM on thE Same stage same time

    even though the subJect

    Of the plaY is the Curtain that sEparates them!5

    Obviamente, as palavras dessa coluna vertical são impossíveis de se ouvir numa

    leitura em voz alta das linhas ho