Introdu§£o €s Ferramentas Perdidas Da Educa§£o

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Sobre o Trivium.

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Introduo s Ferramentas Perdidas da Educao

Gabriele Greggersen

Quando o mundo ocidental ainda chorava o saldo de destruio e de mortos deixados pela Segunda Guerra Mundial, e passava por uma profunda crise intelectual, emocional e religiosa, surgia The Lost Tools of Learning. Foi em 1947, em meio uma sociedade espiritualmente angustiada e devastada, que Dorothy Sayers proferia essa que se tornaria sua nica palestra sobre educao.Sayers nasceu em Oxford, em 1893, como filha de um bispo anglicano, que tambm era diretor da escola pertencente igreja. Na Inglaterra, que segue basicamente a mesma estrutura e funcionamento da educao americana (ou vice-versa), todas as escolas so pblicas e gratuitas, financiadas por uma taxa cobrada de todos os cidados pelo governo, exceto as especiais e confessionais, que tambm no recebem verbas pblicas. Aprendeu latim e francs, especializando-se em lnguas modernas no Somerville College, onde foi condecorada como primeira da classe.Em seguida, tornou-se uma das primeiras mulheres a ingressar na Universidade de Oxford, uma das mais antigas da histria (Sc. XII), onde acabou se tornando autoridade em estudos medievais. Sua obra acadmica mais comemorada foi a traduo da Divina Comdia de Dante do latim para o ingls[1], mas tambm se popularizou como escritora de contos de detetive, particularmente, as do seu personagem principal, o detetive nas horas vagas, Lord Peter Wimsey. Era, alm disso, poetisa e escritora de peas teatrais, que se popularizaram bastante nos pases de lngua inglesa.Ela fazia parte do mesmo clube da consagrada escritora de contos de detetive, Agatha Christie, que chegou a presidir e tambm integrava outro grupo, os Inklings, em especial de C.S. Lewis, Charles Williams e T.S. Eliot, sendo desse ltimo praticamente a nica mulher. Ela tambm mantinha uma amizade pessoal e projetos em comum com os integrantes dos mesmos.Como se pode ver no incio da adaptao de O Leo, a Feiticeira e o Guarda-Roupas aos cinemas, a primeira da mundialmente famosa srie de Crnicas de Nrnia de C.S. Lewis, a preocupao com as marcas deixadas pela guerra e suas destroos espirituais espalhados por toda Europa e Estados Unidos (sem falar do Japo e outros pases envolvidos direta ou indiretamente) um dos temas de debate comum a esses grupos. Eles atribuam literatura, particularmente literatura imaginativa, de mistrio, ou romntica dos mitos, contos de fada, e quem sabe nossos contos de cordel -, um grande potencial de cura de traumas e feridas, fsicas, psicolgicas e espirituais, deixadas pela histria, tanto na vida pessoal, quanto em toda a coletividade. Outra bandeira desse rol, alm da paixo pela literatura, era o combate idia amplamente disseminada naquele perodo e que marca a posmodernidade at os dias de hoje de que tudo o que diga respeito ao passado seja necessariamente superado e associado ao embotamento, ao tdio e ingenuidade. Usavam tambm de sua fora argumentativa para defender as bases de sua f crist, principalmente no que diz respeito tica, na qual, afinal de contas, todas as sociedades ocidentais, autodenominadas crists se encontram fundamentadas.Entre os anos de 1924-25, Sayers trocou cartas com um ex-namorado. Uma de suas crticas mais fortes ao moralismo de uma sociedade que perdeu de vista a f e tica crists foi The Devil is an English Gentleman (O Diabo um Gentleman Ingls).Em 1926, ela decidiu casar-se com um jornalista de nome Captain Oswald Atherton Mac Fleming, mais conhecido por Atherton Fleming. que era divorciado e tinha dois filhos. Eles permaneceram casados at a morte repentina de Sayers, de ataque cardaco, quando estava finalizando a sua traduo de Dante. Ambos eram escritores. Entretanto, devido a ferimentos na I Grande Guerra, Fleming adoeceu a ponto de no poder mais escrever, de modo que passou a ser sustentado por Sayers, cujo sucesso estava tomando propores mirabolantes, ofuscando grande parte do seu trabalho.Entre as obras mais conhecidas de Sayers encontram-se Veneno Forte (Strong Poison) e Noite Assombrosa (Gaudy Night), um livro de suspense que retrata muito bem a sua prpria histria no mundo acadmico. O ttulo retirado de uma das Obras de Shakespeare.A histria tem por personagem central uma acadmica, Hariet Vane, que era novelista. Como Sayers, ela teve que lutar contra o preconceito forjado em cartas annimas e pichaes nos muros da escola. Ela mesma solicitada a, juntamente com o Lorde Peter Wimsey, que acaba sempre solucionando o crime, nesse caso, de chantagem.Muitos consideram essa obra, o primeiro conto de detetive feminista da histria. Trata-se de uma narrativa marcada no apenas pelo mistrio, mas tambm pela filosofia e luta pelos direitos da mulher, sem falar da pitada adicional do romance, ambientado na Inglaterra dos anos 1930.A histria foi adaptada para a televiso e transformada em uma srie em 1987 e em 2005 foi adaptado para o rdio BBC. Em 2006 foi transformada em pea teatral que estreou no Teatro Lifeline Theatre em Chicago. O enredo tambm foi aproveitado pela srie americana Diagnosis Murder (Morte Diagnstica), que estreou em 2000.Gaudy Night foi pensado para ser a culminncia da saga de Wimsey, mas acabou gerando mais uma obra final. O fechamento com chave de ouro veio com a pea Busmans Honey Moon (A lua de Mel dos Busman, publ. 1937), a pedido de um amigo que ofereceu ajuda para sua adaptao ao teatro. O sucesso foi tanto, que redundou em um convite para Sayers se dedicar exclusivamente ao teatro, mas ela recusou. Mas a experincia a fascinou tanto que escreveu mais seis peas. A pea continua em cartaz como grande sucesso de bilheteria.Suas obras podem ser encontradas ao redor do mundo entre clssicos da literatura mundial, em que Sayers pode ser encontrada posta lada do lado com Alexandre Dumas, Charles Dickens, Jlio Verne, Jack London, e Mark Twain. A autora tambm mereceu destaque em outro campo dominado pelos homens at os dias de hoje, o da teologia, com obras importantes como The Mind of the Maker (A Mente do Criador) e The Man Born to be King (O Homem nascido para ser Rei).Antes de deixar o leitor deliciar-se com a leveza do estilo e as surpresas que a autora reserva mentalidade moderna, a cada pargrafo, nesse texto, nada convencional ou ortodoxo sobre educao, preciso contextualiz-lo.Sugerimos assim, deixar fluir a leitura, suspendendo as armas do esprito de suspeita, que ainda subsiste no pensamento psmoderno, permitindo que Sayers o transportasse para a terra encantada da educao medieval.Mais do que de um ensaio crtico, trata-se de um exerccio dos msculos de nossa razo, no divorciada, mas associada imaginao, esta ltima tantas vezes atrofiada pelo sedentarismo imaginativo e seu oposto, a overdose fantasiosa, com que somos diariamente bombardeados pela mdia. Deixemos, ento, a palavra autora e dediquemo-nos apreciao de suas palavras, que muito tm a dizer aos educadores de um pas em processo de extenso da escolaridade de 8 para 9 anos. As Ferramentas Perdidas da Educao[2]por Dorothy Sayers(trad. Gabriele Greggersen)Aceitar um convite para debater a educao, considerando minha curta experincia como professora, dispensa apologia. Mesmo porque esse um tipo de comportamento aplaudido na atual efervescncia de opinies. Religiosos ventilam suas opinies sobre a economia; bilogos, sobre a metafsica; qumicos inorgnicos, sobre teologia; indivduos irrelevantes so apontados para cargos de alto nvel tcnico; e homens embotados e simplrios publicam nos tablides que Epstein e Picasso simplesmente no entendiam nada de arte. At certo ponto, e desde que a crtica fosse feita com razovel modstia, coisas assim so at admirveis. A especializao excessiva nunca foi coisa boa. No caso da educao, o que no faltam so motivos para amadores se sentirem gabaritados para emitir suas opinies. Pois, ainda que nem todos aqui sejamos educadores profissionais, todos j fomos alunos[3] em algum momento da vida. E, mesmo se no tivermos aprendido nada e, quem sabe, especialmente, se nunca tivermos estudado de verdade[4] nossa capacidade de contribuio para essa discusso ser um valor potencial.Entretanto, bem pouco provvel que as reformas propostas aqui sejam, algum dia, levadas a srio. Ningum: nem os parentes; nem os professores de cursinhos vestibulares; nem as bancas de defesa; nem as bancadas de governo; nem os ministros da educao, lhes dariam um s minuto de ateno. Pois elas se resumem a isso: se quisermos formar uma sociedade de gente educada, preparada para preservar a sua liberdade intelectual em meio s presses da sociedade moderna, teremos que voltar a roda do tempo quatro ou cinco sculos atrs, at fins da Idade Mdia, no preciso ponto em que a educao comeou a perder de vista o seu verdadeiro objetivo.Antes de voc me dispensar carimbando-me com o bastante apropriado rtulo de: reacionria, romntica medieval, laudator temporis acti (saudosista), ou qualquer outro lugar-comum que lhe vier cabea peo-te o favor de ponderar uma ou duas questes bastante complexas que talvez ainda se encontrassem escondidas na face oculta das mentes de todos ns, que s emergem ocasionalmente causando-nos preocupao.Se refletirmos sobre a tenra idade em que os jovens comeavam a freqentar a escola nos tempos, vamos supor, da dinastia Tudor, depois da qual passavam a ser considerados prontos para assumir responsabilidade pela conduo de seu prprio nariz, como encarar a ampliao artificial da formao infantil e juvenil at os anos de maturidade fsica, to caracterstico dos dias de hoje? Postergar ao mximo a hora de assumir responsabilidades traz consigo uma srie infinita de transtornos psicolgicos que podem at ser interessantes para o psiquiatra, mas que so de bem pouca serventia, ao indivduo ou sociedade. O principal argumento que se usa em favor do adiamento da idade de despedida da escola e da prorrogao da idade escolar que hoje em dia haja muito mais para se estudar, do que na Idade Mdia. Isso em parte verdade, mas no inteiramente. O menino e a menina[5] de hoje, tm, sem dvida, mais assunto[6] pa