Imagem, os meios t©cnicos e a representa§£o: algumas ... Composta a partir da...

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  • O presente artigo se estrutura nas seguintes partes: o primeiro subttulo,

    Das origens da ptica imagem fotogrfica, apresenta a trajetria dos meios tcnicos que culminam na concepo atual da fotografia. O segundo subttulo,

    Imagem, os meios tcnicos e a representao: algumas questes composto de um resgate histrico com as principais inter-relaes entre fotografia e

    pintura apresentando representantes marcantes e decisivos para as alteraes

    na visualidade da pintura da arte ocidental dos sculos XIX e XX. O terceiro

    subttulo, O olhar fotogrfico, traz as observaes e anlises realizadas a partir de trabalhos de artistas - com relevncia no contexto da arte atual - que

    apresentam caractersticas de congruncia com a fotografia e sua linguagem;

    as obras selecionadas foram analisadas a partir de um dos seguintes aspectos:

    1 - Imagem e tempo: Inconsciente ptico, 2 - Ponto de vista, 3 -

    Nitidez/indefinio: os efeitos pticos e 4 - Reproduo fotogrfica: o conceito

    de aura.

    Das origens da ptica imagem fotogrfica

    A investigao dos procedimentos tcnicos que culmina na fotogrfica

    pode ser dividida em dois aspectos fundamentais: o primeiro referente

    procedncia ptica, alude aos meios desenvolvidos pelos artistas como

    dispositivos de captao de imagens, cmera escura e cmara clara entre

    outros; o segundo essencialmente qumico abarca a descoberta de materiais

    fotossensveis capazes de fixar a imagem aps a exposio luz.

    A cmara escura um mecanismo ptico conhecido, e aplicado ao

    desenho, pelos artistas desde o Renascimento2 (1420-1530). Consistia de uma

    caixa com lentes capaz de produzir imagens no seu interior. Eram imagens de

    luz, projetadas atravs de um orifcio em uma superfcie plana. Portanto, no

    eram palpveis ou fixas. Sua imaterialidade exigia que o artista, com seu toque

    humano, imprimisse a imagem no suporte em que ela se encontrava. Como

    2 O Renascimento marca a arte italiana do incio do sculo XV, perodo emblemtico tambm

    para a arquitetura e a cincia, com intensas investigaes e florescimento intelectual, marcando o fim da Idade Mdia ou Idade das Trevas. Na arquitetura a soluo matemtica apresentada por Filippo Brunelleschi (1377-1446) para a representao do espao possibilita uma nova soluo para a produo pictrica dos artistas, a pintura adquire, atravs da perspectiva geomtrica, a tcnica necessria para a representao ilusria do espao no plano. (GOMBRICH, 1999).

    FOTOGRAFIA E PINTURA: ASPECTOS DA REPRESENTAO NA VISUALIDADE CONTEMPORNEA

    Ricardo de Pellegrin - PPGART/UFSM Paulo Csar Ribeiro Gomes - UFSM - UFRGS

  • observado por Hockney: a ptica no faz marcas - ela produz apenas uma

    imagem, uma aparncia, um meio de medida (2001, p.131).

    Durante muito tempo os mecanismos pticos serviram aos pintores

    como meio auxiliar na composio e desenho; segundo Hockney (2001), Jan

    Vermeer (1632-1675) - pintor do sculo XVII - fez uso deste meio no processo

    de suas pinturas. Esses mecanismos mediavam a viso do artista, fornecendo

    um quadro, um enquadramento com eixos e relaes de composio que no

    se encontram na arte produzida antes do uso destes recursos.

    A grande inovao que ocorre com o daguerretipo, e posteriormente

    com a fotografia, a possibilidade de fixar essas imagens diretamente em um

    suporte, atravs de um processo qumico e automtico, sem necessidade da

    interveno do artista. Pela primeira vez no processo de reproduo da

    imagem, a mo foi liberada das responsabilidades artsticas mais importantes,

    que agora cabiam unicamente ao olho (BENJAMIN, 1969, p.167).

    A oficializao foi decorrncia de vrias tentativas de Louis Jacques

    Mand Daguerre (1789-1851), das quais as ltimas foram engendradas pelo

    cientista Franois Arago. Consistia, esse processo, em placas de prata iodadas

    que aps a exposio na cmera escura e submetidas a um mtodo de

    revelao, tornavam-se imagens nicas. Guardadas como jias em estojos,

    estas placas necessitavam ser manipuladas para que sobre uma luz favorvel

    fosse observada a imagem fixada em tons de cinza.

    O processo estabelecido por Daguerre, e simultaneamente por Joseph

    Nicphore Nipce (1765-1833), produzia imagens com uma nitidez inslita, a

    preciso da fisionomia dos rostos gravados naquelas chapas causavam no

    pblico uma sensao de surpresa e espanto, os rostos representados

    pareciam que podiam olhar seus contempladores (DAUTHENDEY apud

    BENJAMIN, 1994, p.95).

    Distanciado da noo de fotografia como captao do instante, o

    daguerretipo necessitava de um tempo de exposio longo para fixar a

    imagem, por isso os fotgrafos deslocavam-se a lugares retirados para realizar

    os registros. Fotografadas em cemitrios ou cidades vazias, as imagens

  • ficavam livres dos vultos que poderiam surgir devido movimentao de

    pedestres ou veculos no decorrer da exposio da placa fotossensvel. Para

    realizar um retrato o modelo era disposto em meio a acessrios cenogrficos,

    como mesas, colunas ou pedestais que serviam de apoio durante o tempo de

    exposio. Tambm neste perodo foram utilizados mecanismos presos ao

    corpo para imobilizar o modelo durante a cesso fotogrfica. Fixados nos

    ombros e pescoo, estas estruturas ficavam disfaradas com as amplas vestes

    e contribuam para a sustentao do retratado.

    Estes retratos eram dotados de uma aparncia que no existe nas

    instantneas imagens contemporneas. Devido ao tempo que o retratado era

    obrigado a ficar posando diante da cmera a imagem resultante deste processo

    experimental uma sntese da expresso, conceito estabelecido por Orlik que

    aponta para uma presena persistente identificada nestes retratos. A

    expresso o resultado do acmulo de tempo que a imagem demora em ser

    capturada, gerando uma aparncia slida, sbria e eterna, como nos retratos

    bem desenhados ou pintados (ORLIK apud BENJAMIN, 1994, p.96).

    As caractersticas visuais que determinavam a produo dos fotgrafos

    do final do sculo XIX eram consequncia, em parte, da condio tcnica para

    a gravao das imagens disponvel naquela poca. Somente a partir da

    descoberta de materiais com melhor eficcia no processo de sensibilizao,

    que foi possvel avanar em direo imagem instantnea e ntida que

    atualmente comum a ns. Muitas maneiras de revelar a imagem em uma

    superfcie fotossensvel foram usadas pelos fotgrafos, mtodos que geravam

    matizes de cores e efeitos visuais no encontrados no daguerretipo. Mas o

    papel impregnado de sais de platina (JANSON, 2001, p.935) que foi

    especialmente usado pelos fotgrafos do sculo XIX.

    Como meio de expresso artstica a fotografia esteve, inicialmente,

    submetida imitao dos efeitos pictricos, movimento conhecido como

    pictorialista (1890-1914). A pintura e a fotografia neste perodo compartilham

    de vrias caractersticas. Em ambas, o espao constitudo pelo agrupamento

    dos corpos que se sobrepem (PEIXOTO, 1996, p.168). A fotomontagem de

    Oscar Rejlander (1818-1875), Os dois caminhos da vida (1857) (Figura 1) um exemplo da produo deste perodo.

  • Figura 1 - Os dois caminhos da vida, O. G. Rejlander, fotografia com chapa de albumina, 40 x 78.5 cm, 1857. Fonte: Peixoto, 1996.

    Composta a partir da combinao de trinta negativos impressos em uma

    mesma superfcie, a fotografia mostra um rapaz, representado em duas

    imagens, fazendo a escolha entre o caminho das virtudes ou o dos vcios. A

    composio clssica, renascentista, com um arco central e as personagens

    distribudas no espao organizado por planos, onde, at certo ponto, todas so

    representadas em sua melhor posio. O claro e escuro que cria o volume

    nos tecidos, e harmoniza a cena, tambm retoma a visualidade da gravura e

    pintura.

    Com o advento dos novos meios de produo de imagem digital, e

    mecanismos de edio, as alternativas para os artistas contemporneos

    alargaram-se, facilitando a produo de fotomontagens. Nesse sentido, a

    fotografia digital, seu tratamento eletrnico ou a simulao da fotografia por

    meio de recursos digitais so fenmenos contemporneos que apresentam

    uma nova possibilidade de criao de imagens para os artistas; alterando ou

    negando o modelo real, estas imagens pouco dizem de nossa realidade. Essa

    mudana no modo de produzir imagens altera a relao do espectador com a

    fotografia.

    Segundo Arlindo Machado a consequncia mais bvia e mais alardeada

    da hegemonia eletrnica a perda do valor da fotografia como documento,

    como evidncia, como atestado de uma pr-existncia da coisa fotografada, ou

    como rbitro da verdade (2006, p.437). Isso evidente se considerarmos que

    a imagem, atualmente, pode ser facilmente criada atravs dos meios

  • eletrnicos, sendo o produto final desta construo um recorte

    descontextualizado de toda a produo que uma fotografia exige.

    Na contemporaneidade as imagens fotogrficas so encaradas mais

    como o fruto de uma construo do que como cpia fiel da realidade. A

    liberdade potica que passou a explorar este meio possibilita que o padro

    natural seja alterado, reorganizado, surgindo cenas surreais, onricas, fictcias.

    Pintura, os meios tcnicos e a representao: algumas questes.

    A revoluo provocada pela fotografia nos meios visuais bidimensionais

    deu-se pela rapidez e fidelidade com que capturava o modelo, atingindo,

    diretamente, os pintores de ofcio que observaram sua antiga clientela seguir