História Da Música Européia

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Livro completo sobre a história da música Européia.

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    Jacques Stehman

    Histria da Msica Europia

    das origens aos nossos dias

    DIFUSO EUROPIA DO LIVRO, LDA. RUA BENTO DE FREITAS, 362-6."SO PAULO

    Nascido em Bruxelas em 1912, Jacques Stehman fez os seus estudos de msica no Conservatrio Real desta cidade. De 1933 a 1939 integra-se num grupo de jazz, participa nas atividades de um cenculo literrio, publica duas revistas musicais, organiza recitais de piano. Terminada a guerra, retoma a atividade, distribuindo-se pela crtica e pela composio. Algumas das suas obras mais conhecidas: Sinfonia de Algibeira, Concerto de Piano, Suite para Cordas, msica de bailado (O Baile dos Embaixadores) e de cena (Cristvo Colombo, de Ch. Bertin). Em 1953 distinguido com o Prmio Itlia. Atualmente professor de Harmonia Prtica no Conservatrio Real de Bruxelas e de Histria da Msica na Escola Superior de Artes Decorativas e no Instituto dos Jornalistas da Blgica, Jacques Stehman exerce tambm os cargos de vice-presidente da Juventude Musical Belga e da Sociedade Belga de Musicologia

    NA CAPA: A Tocadora de Alade-(Sculo XVI, coleo particular) -

    Matre ds Demi-Figures. Mais detalhes sobre a figura: http://eunjangdo.net/g_gallery/16/jf.htm A obra original foi Publicada em francs com o ttuloHistorie de la

    Musique europenne pelas ditions Gerard & C.ie.", Verviers Blgica Maquetas dos extratextos de Yvan Rolen * Traduo de Mana Teresa Athayde * Reviso tcnica de Fernando Cabral

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    1964 by ditions Grard ir C", Verviers (Blgica). Todos os direitos reservados para a publicao desta obra em Portugus

    (Portugal e Brasil) pela Livraria Bertrand, S. A. R. L., Lisboa. Numerosas histrias da arte apresentam uma lacuna: a de ignorar a

    msica. Por outro lado, existe outra lacuna correspondente em algumas histrias da msica, que isolam o fenmeno musical de um mundo onde, contudo, ele sempre permaneceu, por assim dizer, incrustado. Pois uma obra de arte no se deve apenas ao impulso do seu autor: este obedece, consciente ou inconscientemente, a uma ordem social ou moral, religiosa ou esttica, a determinado estado das idias que o rodeiam e que moldam a alma e a fisionomia de uma poca, de que ele ser simultaneamente testemunha e intrprete. Msicas primitivas ou eruditas, religiosas ou profanas, antigas ou modernas, todas obedecem a estas leis.

    Um dos mais eminentes musiclogos franceses, Jules Combarieu (1859-1915), pde escrever em 1913: Porque ser que em Frana, ainda hoje e em vinte obras assinadas por nomes ilustres, a rubrica "histria da arte" apenas significa histria das artes do desenho? A que lugar inferior ou estranho, a que ordem de estudos abandonam eles a msica, esses que, aps haver adaptado tal atitude, julgam poder ignorar os msicos?

    Verificar-se- que meio sculo no introduziu qualquer alterao nesta situao e que as histrias da arte permanecem divididas em compartimentos. Foi por isso que nos pareceu til, dentro dos limites desta pequena obra, recordar os laos que, em cada poca, unem a msica s outras artes e vida do seu tempo.

    J. S.

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    I DEFINIES O destino europeu da msica

    A histria que vamos aqui evocar a da msica europia. Devemos

    considerar haver nisto qualquer injustia? No, no h; a msica existe em todos os pases no europeus, desde a Antigidade, segundo duas tendncias freqentemente paralelas: ou evoluciona, torna-se erudita, inspirando-se finalmente na tcnica ocidental, ou, fiel s suas tradies religiosas e populares, permanece ritual e primitiva. Um povo no poderia renunciar a esta msica tradicional sem perder a sua alma: a fonte da sua civilizao prpria. Nota-se em muitos pases uma sobrevivncia permanente da msica tradicional (msica folclrica, que os especialistas chamam tnica), enquanto outra msica de inspirao europia liga esses mesmos pases s grandes correntes artsticas que percorrem o mundo. O perigo reside no fato de que essa msica possa tornar-se puramente acadmica e impessoal, limitando-se a decalcar os processos dos grandes compositores ocidentais. Mas o interesse mais evidente que esses compositores tm a possibilidade de criar uma msica erudita, impregnada de elementos tradicionais (ritmos e melodias), onde podem exprimir o autntico caracter do seu pas, numa linguagem universalmente compreendida e ao nvel das maiores obras de arte.

    Observemos a msica popular espanhola ou grega, a msica tradicional rabe, balinesa, ndia do Mxico, chinesa ou japonesa e veremos sempre o mesmo fenmeno: ou assimilou a tcnica e o esprito europeus e perdeu o seu caracter nacional, ou conservou os seus caracteres preservando-se da evoluo. apenas desde h cerca de cem anos, com o aparecimento das escolas nacionais que descobriram o folclore, que este aparece integrado na msica erudita. Mais prximo de ns, foi apenas desde h algumas dezenas de anos que compositores brasileiros, mexicanos, japoneses, negros americanos, etc., conseguiram misturar os mais puros elementos da sua msica com os elementos tcnicos e estticos da nossa cultura musical, criando assim obras interessantes e novas.

    evidente que a msica folclrica, elevando-se ao nvel de uma obra de arte, no pode substituir o elemento funcional que existe em toda a msica tradicional e que a sua sujeio celebrao de um rito. Para citar um

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    exemplo, as mais belas pginas de um Manuel de Falia so obras de arte impregnadas de um profundo caracter nacional, evocando com preciso o que a Espanha; mas em caso algum poderiam substituir o flamenco popular, que, pelo bater de palmas, o martelar de saltos, as melopias e os gritos, traduz, no estado puro, a necessidade, para bailarinos e para aqueles que os rodeiam, de ativamente exprimirem o seu ser profundo. Ainda outro exemplo: os Choros de um Villa-Lobos, no Brasil, ou a Sinfonia ndia de um Carlos Chavez, no Mxico, so estilizaes de concerto, tal como as obras de Bartok ou de outros; exprimem admirvelmente todos os caracteres genunos de uma msica tradicional, que, no entanto, continua a existir sob forma independente.

    O destino da msica, tal como o vamos encarar, , portanto, europeu, porque foi a Europa que produziu esta cultura musical universal e a ensinou ao mundo. Ela substituir, pouco a pouco, os mltiplos sistemas musicais em uso na Antigidade por um sistema codificado que se tornar numa linguagem, e cujas convenes sero admitidas. Uma infinidade de elementos rodeia esse facto e confirma a sua fora: a expanso da Igreja Crist e, consequentemente, do seu canto; o papel de algumas grandes abadias e de algumas grandes cidades, tal como Paris, desde a Idade Mdia, com a sua influncia que se estendeu a todo o Ocidente. A herana grega, e em seguida a romana, transmitiu-se modificada, mas foi ela que serviu de base Europa para explorar infatigvelmente o universo musical e estabelecer uma grande linguagem universal.

    A histria desta msica inseparvel da histria e das vicissitudes da Europa. primeiro religiosa, e separando-se depois, na Idade Mdia, em dois ramos bem distintos: a msica de Igreja e a do povo, segue a evoluo das idias e dos gostos, exprime o estado dos espritos em dado momento, responde s necessidades de uma sociedade (distraes, protocolo, etc), acusa as perturbaes das crises polticas ou morais.

    A partir de um vasto feixe de msicas procedentes da Antigidade Oriental, a Igreja Crist fixar a ateno dos seus fiis sobre uma msica cantada, simples, completamente destituda de sensualismo, e que paralelamente expresso progressiva dessa mesma Igreja vai por sua vez radiar, impregnar as almas, penetrar nos espritos, moldar a inspirao musical. O lento caminhar desta msica permanece ligado ao caminhar da civilizao ocidental. a partir da cantilena gregoriana que surgem as primeiras tentativas de polifonia; por

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    meio das missas e dos motetos que a linguagem musical se ornamenta e enriquece. A cincia musical evoluiu atravs da msica religiosa; e a msica religiosa transmitiu msica profana todo o seu saber.

    Do robusto tronco gregoriano, que foi o primeiro a crescer, brotaram mltiplos ramos, que em seguida se desenvolveram; toda a nossa msica provm desta origem e foi principalmente na Frana, na Itlia e na Alemanha que se operou essa evoluo.

    A essncia da msica

    A msica foi primeiro a linguagem mgica do homem primitivo, a sua

    invocao s divindades. Em seguida, foi cincia, como as matemticas e a astronomia. Durante longos sculos permaneceu orao.

    Finalmente, misturando-se com o mundo profano, tornou-se uma arte, um divertimento tambm, o que lhe trouxe considervel enriquecimento, por vezes puramente material (uma orquestra de sonoridades sumptuosas no ser necessariamente mais rica do que uma melodia isolada intensamente expressiva).

    Mas, a partir do momento em que a msica se torna arte, as leis da esttica vo condicionar a sua evoluo, enquanto anteriormente, desde a Antigidade at Idade Mdia, era apenas regida pelas leis da moral: com efeito, quer seja magia, quer orao, a msica ritual obedece a regras ticas precisas.

    Existem, portanto, duas grandes eras da msica, cada uma englobando uma evoluo de facetas mltiplas, no interior de um domnio bem definido: a era religiosa e a era esttica. A Idade Mdia forma praticamente a charneira entre estas duas fases. Desde as mais rudimentares ou recuadas civilizaes at Idade Mdia, o homem viveu a era religiosa da msica. Desde h oito sculos, vivemos a sua era esttica.

    Se a msica um ritual, a linguagem sagrada do homem mas livre de qualquer referncia realista, j que exprime o mundo do irracional mais direta-mente que a literatura ou a pintura , tambm um fenmeno cujos elementos devem ser conhecidos.

    De que feita a msica, como se manifesta o fenmeno sonoro altamente organizado da nossa civilizao e qual o seu significado? Parece oportuno, em meados do scu