Hegel e Haiti - Susan Buck-Morss

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    1.

    No sculo xviii, a escravido havia se tornado a metfora fundamental da filosofia poltica ocidental, conotando tudo o que havia de mau nas relaes de poder.1 A liberdade, sua anttese conceitual, era considerada pelos pensadores iluministas o valor poltico supremo e universal. Mas essa metfora poltica comeou a deitar razes justamente no momento em que a prtica econmica da escravido a sistemtica e altamente sofisticada escravizao capitalista de no europeus como mo de obra nas colnias se expandia quantitativamente e se intensificava qualitativamente, ao ponto de, em meados do sculo xviii, ter chegado a sustentar o sistema econmico do Ocidente como um todo, facilitando, paradoxalmente, a expanso global dos prprios ideais do Iluminismo que to frontalmente a contradiziam.

    HEGEL E HAITI*

    Susan Buck-Morsstraduo de Sebastio Nascimento

    RESUMO

    O paradoxo entre o discurso da liberdade e a prtica da escra

    vido marcou a ascenso de uma srie de naes ocidentais no interior da nascente economia global moderna. O artigo

    explora o uso da metfora da escravido no iluminismo filosfico europeu, e sugere que a dialtica do senhor e do

    escravo hegeliana tem razes mais na histria contempornea particularmente, nas notcias que chegavam Europa

    da Revoluo Haitiana de 1791 do que na tradio herdada pelo filsofo alemo.

    PALAVRAS-CHAVE: Iluminismo; Dialtica do senhor e do escravo; Hegel;

    Revoluo Haitiana.

    ABSTRACT

    The paradox between the discourse of freedom and the prac

    tice of slavery marked the ascendancy of a succession of Western nations within the Early Modern global economy. The

    article considers the use of slavery as a metaphor by 17th and 18th Century philosophers, and suggests that that Hegels

    dialectic of master and slave has its roots not only on the philosophical tradition, but in contemporary events such as

    the 1791 Haitian Revolution.

    KEYWORDS: Enlightenment; Dialectic of master and slave; Hegel; Haitian

    Revolution.

    [*] Publicado originalmente em Critical Inquiry, vol. 26, n 4, 2000, pp. 82165. Republicado em BuckMorss, Susan. Hegel, Haiti and universal history. University of Pittsburg Press, 2009. Devido quantidade, as notas e referncias esto excepcionalmente dispostas ao final do artigo.

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    Essa discrepncia gritante entre pensamento e prtica marcou o perodo de transformao do capitalismo global de sua forma mercantil para sua modalidade protoindustrial. Seria de se esperar que nenhum pensador racional e esclarecido deixaria de percebla. Contudo, no era esse o caso.

    A explorao de milhes de trabalhadores escravos coloniais era aceita com naturalidade pelos prprios pensadores que proclamavam a liberdade como o estado natural do homem e seu direito inalienvel. Mesmo numa poca em que proclamaes tericas de liberdade se convertiam em ao revolucionria na esfera poltica, era possvel manter nas sombras a economia colonial escravista que funcionava nos bastidores.

    Se esse paradoxo no parecia incomodar a conscincia lgica dos contemporneos, talvez seja mais surpreendente que alguns autores, ainda hoje, se disponham a construir histrias do Ocidente na forma de narrativas coerentes do avano da liberdade humana. As razes no so necessariamente intencionais. Quando histrias nacionais so concebidas como autnomas ou quando aspectos distintos da histria so tratados por disciplinas isoladas, as evidncias contrrias so marginalizadas e consideradas irrelevantes. Quanto maior a especializao do conhecimento, quanto mais avanado o nvel de pesquisa, quanto mais antiga e respeitvel a tradio intelectual, tanto mais fcil se torna ignorar os fatos desviantes. Vale lembrar que a especializao e o isolamento representam um risco tambm para as novas disciplinas, tais como os estudos afroamericanos ou os estudos diaspricos, que foram criadas precisamente para remediar essa situao. Fronteiras disciplinares fazem com que as evidncias contrrias virem problema dos outros. Afinal de contas, um especialista no pode ser especialista em tudo. razovel. Mas argumentos assim so uma forma de evitar a verdade incmoda segundo a qual se certas constelaes de fatos forem capazes de penetrar fundo o bastante na conscincia intelectual, ameaaro no apenas as narrativas venerveis, mas tambm as disciplinas acadmicas entrincheiradas que as (re)produzem. Por exemplo, no h lugar na universidade em que a constelao de pesquisa especfica Hegel e Haiti pudesse encontrar abrigo. Este o tema que me interessa aqui, mas seguirei um caminho tortuoso para chegar at ele. Peo que me desculpem, mas esse aparente desvio o prprio argumento.

    2.

    O paradoxo entre o discurso da liberdade e a prtica da escravido marcou a ascenso de uma srie de naes ocidentais no interior da nascente economia global moderna. Os holandeses so o primeiro exemplo que deve ser considerado. Sua era de ouro, de meados do

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    sculo xvi a meados do sculo xvii, foi possibilitada pelo controle que exerciam sobre o trfico mercantil global, incluindo, como um componente fundamental, o comrcio de escravos. Mas se conferirmos o trabalho do mais formidvel entre seus historiadores modernos, Simon Schama, cuja descrio densa da Era de Ouro da cultura holandesa se tornou um modelo no campo da histria cultural desde sua publicao em 1987, haver uma surpresa nossa espera. impressionante que os temas da escravido, do trafico de escravos e da mo de obra escrava jamais sejam discutidos na obra de Schama, The embarrassment of riches [O desconforto da riqueza], um relato de mais de seiscentas pginas sobre como a nova repblica holandesa, ao desenvolver sua prpria cultura nacional, aprendeu a ser ao mesmo tempo rica e benigna2. Seria difcil depreender dali que a hegemonia holandesa no trfico de escravos (substituindo Espanha e Portugal no papel de potncia escravista)3 contribuiu substancialmente para a imensa sobrecarga de riqueza que ele descreve como algo que se tornou social e moralmente problemtico ao longo do sculo da centralidade holandesa para o comrcio mundial4. Ainda assim, Schama descreve exaustivamente o fato de que a metfora da escravido, adaptada ao contexto moderno a partir da narrativa do Antigo Testamento sobre a fuga dos israelitas do Egito, havia sido crucial para a autocompreenso holandesa ao longo de sua luta pela independncia (15701609) contra a tirania espanhola que os escravizava e portanto para a autocompreenso das origens da moderna nao holandesa5. Schama claramente reconhece a contradio mais evidente: o fato de que poca os holandeses discriminavam os judeus6. Ele dedica um captulo inteiro discusso da estigmatizao e da perseguio de uma longa lista de forasteiros que, em funo da obsesso psicolgica holandesa pela purificao, precisavam ser removidos, como se fossem uma mcula, do corpo social: homossexuais, judeus, ciganos, ociosos, andarilhos, prostitutas mas no diz nada, porm, a respeito dos escravos africanos nesse contexto7.

    Schama mostrase francamente farto das histrias econmicas marxistas que tratam os holandeses apenas como uma potncia capitalista mercantil8. Prefere dedicar seu projeto reconstruo da causalidade cultural. Examina como as inquietaes da afluncia, decorrentes da abundncia de bens, despertaram no holands moderno o temor de um tipo diferente de escravido, a escravizao ao luxo que ameaava o livre arbtrio, o medo de que a avareza do consumo pudesse converter almas livres em vis escravos9. Schama apresenta a famlia como o fulcro do carter nacional holands, e no o comrcio mundial, permitindo que seus leitores adentrem a vida privada, domstica, vislumbrem casas e lares, mesas fartas e afetos ntimos, na poca em que ser holands era ser local, paroquial, tradicional e costumeiro10.

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    Estaramos quase dispostos a perdolo, no fosse pelo fato de que os escravos tampouco eram estranhos ao ambiente domstico holands. Seria o silncio de Schama um eco do silncio de suas fontes? Eu no saberia dizer11. Mas a cultura visual holandesa oferece evidncias claras de uma realidade distinta. Uma pintura de Franz Hals, de 1648, retrata exatamente no centro da tela a figura de um jovem negro, provavelmente um escravo, como parte da vida domstica, visvel no seio de uma abastada e afetuosa famlia holandesa em meio a uma paisagem holandesa local, paroquial (Figura 1). No livro de Schama, ricamente ilustrado, essa pintura de Hals no aparece (apesar de que outra pintura de Hals, representando marido e esposa holandeses sozinhos em meio a uma paisagem, ter sido includa). Tampouco h quaisquer outras imagens de negros12. Obviamente, em vista da ausncia de escravos no relato escrito de Schama, eles pareceriam deslocados se aparecessem nas ilustraes. A consequncia desse tipo de trabalho acadmico uma cegueira parcial em meio a oceanos de perspiccia, e isso tpico da literatura acadmica ocidental, como veremos.

    3.

    A partir de 1651, a GrBretanha passou a desafiar os holandeses numa srie de guerras navais que resultaram no domnio britnico no apenas da Europa, mas de toda a economia global, incluindo o trfico de escravos13. Naquele momento, a revoluo cromwelliana contra a monarquia absoluta e o privilgio feudal seguiram o precedente holands, fazendo uso metafrico da histria dos israelitas do Antigo Testamento sendo libertos da escravido. Mas no campo da teoria poltica estava em curso o abandono das escrituras antigas. A figura central nesse caso Thomas Hobbes. Apesar de Leviat (1651) ser um hbrido de imaginao moderna