Habitat Natural Da Cattleya Mesquitae

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CATTLEYA MESQUITAE – HABITAT NATURAL O cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e o primeiro em diversidade do mundo, apesar disso está condenado, sobretudo pelo avanço desordenado da agricultura de exportação. No mundo globalizado cada vez mais se constata que a diferença entre os empreendedores de sucesso e os fracassados é extremamente simples: situa-se no campo da percepção; precisamos ser rápidos em perceber as mudanças e flexíveis ao empreendê-las, trocando o “fazejamento” pelo planejamento. FOTO Nº s 01, 02 e 04 – CATTLEYA MESQUITAE FONTE: VERA LÚCIA GUIMARÃES – PESQUISADORA “SOS ORQUIDEAS” Assistimos diuturnamente ecocídios nas mais diversas formas; essa prática invadiu nosso consciente coletivo e se sedimentou de tal forma que nos tornamos invisíveis diante da barbárie que o

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Orquídea nativa

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CATTLEYA MESQUITAE – HABITAT NATURAL

O cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul e o primeiro em diversidade do

mundo, apesar disso está condenado, sobretudo pelo avanço desordenado da agricultura de

exportação. No mundo globalizado cada vez mais se constata que a diferença entre os

empreendedores de sucesso e os fracassados é extremamente simples: situa-se no campo da

percepção; precisamos ser rápidos em perceber as mudanças e flexíveis ao empreendê-las, trocando

o “fazejamento” pelo planejamento.

FOTO Nºs 01, 02 e 04 – CATTLEYA MESQUITAE

FONTE: VERA LÚCIA GUIMARÃES – PESQUISADORA “SOS ORQUIDEAS”

Assistimos diuturnamente ecocídios nas mais diversas formas; essa prática invadiu nosso

consciente coletivo e se sedimentou de tal forma que nos tornamos invisíveis diante da barbárie que

o Homo sapiens está provocando ao meio ambiente. Ainda é possível transformar uma pequena flor

num espetáculo aos nossos olhos, é possível tratar feridas da alma com a orquideoterapia.

Estudos climáticos recentes indicam crescente aumento da temperatura global destacando

que o ano de 2005 foi o mais quente em todo o período que se processa a medição; existem fortes

indícios que as conseqüências do aumento da poluição, das queimadas e dos desmatamentos serão

extremamente danosas para todos os seres vivos incluindo o homem. A comunidade científica sabe

que as plantas funcionam como indicadores de qualidade de vida e é também sabedora que muitos

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processos fenológicos, como a queda de folhas e a floração, estão claramente associadas ao clima.

O clima predominante da região Sul mato-grossense é o tropical com temperatura média na

casa dos 24º, sendo que as máximas absolutas mensais não variam muito ao longo dos meses do

ano, podendo chegar a mais de 40ºC. nos dias mais quentes de verão e as mínimas absolutas

mensais variam bastante, atingindo valores em torno de oito a dez graus, nos meses de maio, junho

e julho, na cidade de Guiratinga-MT. Ao longo de dezoito anos de residência nessa região nunca

presenciei temperatura próxima ou abaixo de zero grau.

O que se constata é que apesar de aparentemente não estarmos sendo afetados pelo efeito

das mudanças climáticas, em conversas informais com orquidófilos da região foi constatado uma

certa estranheza com relação a antecipação da floração de diversas espécies nativas da família das

orquidáceas, em particular as cattleyas nos anos de 2006, 2007 e 2008.

O relevo da região varia de plano a suavemente ondulado, estendendo-se por imensos

planaltos ou chapadões e a ocorrência das Cattleyas Mesquitaes ocorre via de regras em altitudes

superiores a 600m acima do nível do mar.

A precipitação média mensal

apresenta uma grande

estacionalidade, concentrando-se nos

meses de primavera e verão (outubro

a março), que é a estação chuvosa.

Curtos períodos de seca, chamados de

veranicos, podem ocorrer em meio a

esta estação. No período de maio a

setembro os índices pluviométricos

mensais reduzem-se bastante,

podendo chegar a zero. Disto resulta

uma estação seca de 3 a 5 meses de

duração, ao final desse intenso

período de stress inicia-se o período

de floração da Cattleya Mesquitae

que se inicia no mês de setembro e se

estende até meados de novembro.

Como que desafiando a sina de morte

quase certa, após cinco meses de seca

em que as plantas são praticamente obrigadas a fingirem de mortas, para suportarem o risco

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constante do fogo que se revela uma eterna ameaça, o cerrado explode em frutos e flores.

Iniciam-se os acasalamentos dos animais, o perfume adocicado dos frutos se misturam ao

perfume das flores, num verdadeiro convite a saborear o puçá, o cajuzinho do cerrado, a castanha

do baru, as gabirobas, o xixá, entre outros

FOTO Nº 03 – EXEMPLARES DE CATTLEYA MESQUITAE NO HABITAT NATURAL

FONTE: ARQUIVO PESSOAL

As gotículas de orvalho e a combinação climática realizam o milagre da manutenção e

multiplicação da vida silvestre, enchendo de poesia este que é um dos mais ricos ecossistemas do

planeta. Na região de Guiratinga, porção Sul do estado de Mato Grosso, essa planta raramente é

encontrada na forma epífita; é mais comum encontrá-la incrustada nas rochas (rupícula).

Quando a Mesquitae é encontrada em regiões bem sombreadas seu bulbos se desenvolvem

de forma mais acentuada, estão melhores hidratados e chegam a ter semelhança em proporção com

os da Cattleya Nobilior no tocante ao tamanho e forma dos bulbos, no entanto o mais comum é

encontrá-las fixadas nas rochas que podem ser do tipo bloco de arenitos siltiticos (popularmente

conhecidas na região como piçarra) ou em rochas de origem vulcânicas as famosas pedras de fogo

do interior paulista.

No Brasil existem registros da ocorrência dessa planta nos estado de Goiás (21 municípios)

e em MT (05) municípios, no exterior há registros de sua ocorrência na Bolívia ma região de

Encarnacion.

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Cada frente da planta produz em média duas flores que emergem do ápice dos

pseudobulbos entre as folhas como ocorrem na Cattleya Nobilior ou do rizoma como ocorre na

Cattleya Walkeriana. As flores possuem de 8 a dez centímetros e a coloração das mesmas sofre

variação intensa (alba, albescens, suave, pérola, semialba, amoena, caerulea, caerulense, lilás tipo,

rosada, rubra, concolor, lilacina e vinicolor).

Sou Sócio fundador de uma

instituição que durante seis anos

consecutivos a partir do ano 2000

produziu belas experiências na área

de orquidofilia, a ONG SOS

Orquídeas. Nesse período com a

ajuda de abnegados orquidófilos e

parcerias realizadas com instituições

privadas e órgãos governamentais

promovemos Exposições, Encontros

Regionais, Baile de Gala visando a

Eleição de Mis Orquídea, Jornadas

de Estudo, Pesquisas de Campo,

diversos Cursos, trouxemos

especialistas nas mais diversas áreas

da orquidofilia entre eles Os

Doutores Darli Machado e a Drª.

Lou Menezes, em uma das tantas

conversas que tivemos Drª Lou

Menezes demonstrava uma certa inquietação no tocante a Cattleya Mesquitae quanto a sua origem,

sobretudo porque na região de Piracanjuba (GO) as supostas matrizes estavam muito distantes uma

da outra e os agentes polinizadores não conseguiriam realizar o trabalho que possivelmente teria

gerado essa nova espécie.

“A Cattleya walkeriana var. princeps, que poderia ser uma das plantas envolvidas no híbrido, está a uma distância de 320 km, na cidade de Piracanjuba. A Cattleya nobilior também está a pelo menos 50 km de distância. Ela nunca está nos habitats misturada com a Cattleya walkeriana, que sempre é encontrada em pequena quantidade”.

Pois bem, em uma visita de campo em que estavam presentes aproximadamente seis

membros da SOS fizemos uma descoberta que se contituiu num verdadeiro achado. Numa região

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pouco visitada até então descobrimos a Cattleya Nobilior, a Cattleya Walkeriana e a Cattleya

Mesquitae no mesmo espaço físico.

A região possui uma mata frondosa com enormes árvores, no entanto é bem ventilada e

possui enormes blocos de rochas agrupadas sob a cobertura vegetal. Na forma rupícula encontramos

a Cattleya Mesquitae e na epífita encontramos a Cattleya Walkeriana e a Cattleya Nobilior. Convêm

destacar que foi encontrado uma orquidáceas da família das Cattleyas no mesmo ambiente das

demais que empiricamente parece ser derivada de um novo cruzamento natural, mas isso ainda

carece estudos e análises mais profundas, mas vale o registro da ocorrência dessas plantas num

mesmo habitat, espero com isso contribuir para futuras discussões acerca dessa espécie tão pouco

conhecida dos pesquisadores, a Cattleya Mesquitae.

FOTO Nº 05 – EXEMPLAR DE CATTLEYA NOBILIOR NO HABITAT NATURAL

FONTE: MARIA LUZIA A. DE SOUZA - UMA APAIXONADA PELA NATUREZA

A Mesquitae demonstra certa preferência por terrenos acidentados, em função dos

desmatamentos para formação de pastagens, teoricamente elas estariam protegidas uma vez que os

terrenos mais acidentados, sobretudo nas encostas das furnas, também são abrigos prediletos de

uma série de animais que compõe a fauna local, incluindo as onças (preta, parda suçuarana).

Em 2007 o biólogo Joaquim Vilela e a auto-didata Zelita Maria da Conceição, membros da

diretoria da SOS, realizaram uma nova visita exploratória na área em questão e após ouvirem um

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barulho estranho no meio da mata ficaram apavorados; era uma Onça parda que havia acabado de

apanhar uma presa que certamente faria parte de sua refeição matinal.

O Susto maior de nossa amiga não foi quando enxergou a onça, mas sim ao ver o

“orquidoido” partir numa desabalada carreira na direção da onça; por sorte a mesma não era um

exemplar adulto e após abandonar a presa, acabou fugindo.

Passado o susto o biólogo exclamou: Pensei que fosse um cachorro vinagre! Eles estão em

extinção, nós tínhamos que salvá-lo. Depois desse episódio nenhum dos membros da ‘SOS

Orquídeas” voltou até o presente momento ao local.

FOTO Nº 06 – EXEMPLAR DE CATTLEYA WALKERIANA NO HABITAT NATURAL

FONTE: ARQUIVO PESSOAL

Porém nem mesmo as onças têm conseguido assegurar a proteção dessa espécie, temos

informações de fontes seguras que pessoas inescrupulosas vêm se deslocando para a região e pagam

para a população local a quantia de dez reais por saco de orquídea para mais tarde comercializá-las

nos grandes centros do país e do exterior, felizmente um dos grandes compradores de plantas

nativas de nossa região faleceu no início do ano passado de forma acidental ao cair de uma moto;

apesar de trágico, o meio ambiente agradece, pois em uma região onde a falta de emprego é muito

alta as pessoas se prestam a coletar plantas e vender por um preço ínfimo por questões de

sobrevivência. Prefiro celebrar a vida, mas nesse caso especificamente as orquidáceas certamente

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agradeceram.

Se não bastassem as destruições ambientais provocadas pelo garimpo de diamantes ao

longo do século passado, as atividades agrícolas que despejam toneladas de agrotóxico com o

emprego de aviões, a pecuária que avança sucessivamente nas áreas que deveriam estar sendo

preservadas e o fogo no cerrado que é utilizado desde a preparação para limpeza das pastagens e

roças de subsistências, nossa flora se depara com o mais voraz de todos os predadores o “bicho

homem”, ele não tem escrúpulos, age impulsionado pela possibilidade do ganho aparentemente

fácil, sua consciência é facilmente manipulada pelo dinheiro e o ceticismo é seu fiel aliado.

Quem atirou fogo nas vestes dos buritis? Questiona Dan Alves, filho de um dos fundadores

da cidade. O som do vento se encarrega de propagar suas dúvidas...

“Amanhã quem sabe um tamanduá abraçando as flamas suicidará sobre o formigueiro

como um monge. O lobo guará olhando para uma lua de sangue, uivará sua dor.; a Suçuarana

acuada entre as zagaias flamejantes de uma coivara vulcânica, revelará a felina arte: Viver e morrer

tão de repente, como quem chega e parte..

Praticando uma geografia errante, o homem transformou o cerrado num imenso holocausto

de suas flores e seus frutos: a cagaita, o murici, o assa-peixe e o alecrim, mas os céus rejeitaram

essa oferta de Caim, e a Terra pariu seu renovo de novo... Brotos arrancados a fórceps de seu útero”

insistem em dizer SIM enquanto o Homo Sapiens teimosamente diz NÃO ao equilíbrio planetário.

Na era digital as informações circulam numa velocidade nunca dantes navegada, a aldeia

global tornou possível a troca de conhecimentos em tempo real, diante dessas transformações urge

pensarmos globalmente, mas agir localmente, produzindo ou mantendo espaços e informações de

biomas onde homens plantas e animais consigam conviver respeitando suas diferenças, pois sem

sonhos a vida não tem brilho, sem metas a vida não tem alicerces, sem prioridades os sonhos não se

tornam reais.

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OUTRAS IMAGENS:

CATTLEYA NOBILIOR

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CATTLEYA NOBILIOR

FONTE: ARQUIVOS DO PRÓPRIO AUTOR

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CATTLEYA WALKERIANA

FONTE: ARQUIVOS DO PRÓPRIO AUTOR

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Notas:

1. Estamos no final do mês de Maio e tanto as Cattleyas Walkerianas como as Nobiliors

estão floridas ou florindo;

2. A quantidade de Cattleya Walkeriana que é encontrada no município e região é

infinitamente inferior a quantidade de Cattleyas Mesquitaes e de Cattleyas Nobiliors.

3. A Cattleya Walkeriana pode ser encontrada nos Campos Serrados ou nas Matas de

Galerias, (pequenos arbustos a árvores com mais de trinta metros de altura),

geralmente com alttitudes que oscilam entre 600 e 800 metros de altitude.

4. Entre as Cattleyas a Nobilior incluindo a variedade Amalie, são as predominantes no

município e na região Sul do Estado de Mato Grosso.

5. No tocante a possibilidade de ter ocorrido cruzamento natural entre a Cattleya

Nobiliior e a Cattleya Mesquitae não está descartada, pois ambas estão floridas no

mesmo ambiente proporcionando a possibilidade dos agentes polinizadores realizarem

o trabalho necessário a fecundação.

6. As imagens nº 01,02 e 04 foram gentilmente cedidas pela orquidófila Vera Lucia

Guimarães, membro da “SOS ORQUÍDEAS”

7. A imagem Nº 05 foi gentilmente cedida pela amiga Maria Luzia A. de Souza – Uma amante

da natureza.

João Antonio Pereira

Especialista em Produção e Organização do Espaço Geográfico Mato-grossense 

Orquidólogo-Sócio Fundador da SOS Orquídeas-Sociedade Guiratinguense de

Orquidofilia Foi Membro da Diretoria da CAOB e Consultor Técnico Milita na área desde

1991 Possui diversos artigos publicados em revistas do gênero.

Links das imagens:

Mesquitae no Habitat Natural Sem FlorIMhttp://img39.imageshack.us/my.php?image=mesquitaenohabitatnatur.jpg

Cattleya Mesquitae Imhttp://img39.imageshack.us/my.php?image=cattleyamesquitaevera2.jpg

IMhttp://img39.imageshack.us/my.php?image=mesquitaevera.jpg

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Mesquitae Botão abrindoIMhttp://img39.imageshack.us/my.php?image=cattleyamesquitaevera3g.jpg

Nobilior no Habitat http://img40.imageshack.us/my.php?image=cattleyanobiliorhabitat.jpg

Walkeriana no CampoIMhttp://img291.imageshack.us/my.php?image=walkerianacampo.jpg

Nobilior Outras Imagens

Nobilior no Orquidário em CasaIMhttp://img291.imageshack.us/my.php?image=nobiliorcsa.jpg

IMhttp://img291.imageshack.us/my.php?image=orqgem16.jpg

Walkerianas

Walkeriana na mata Mão Preta

IMhttp://img291.imageshack.us/my.php?image=walkeriana21.jpg

Walkeriana nas Arvores de Grande Porte

IMhttp://img291.imageshack.us/my.php?image=walkikinaarvore.jpg